O não esclarecimento dos registros violentos no Allianz Parque até agora e as urgências do novo tempo

Bibiana Bolson

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O tempo tem mostrado que avanços acontecem. Nas mais variadas esferas, avançamos como civilização. É processo natural e parte do que definimos por evolução. Porém, ele, senhor da razão, tem também mostrado retrocessos. Retornos a pensamentos e condutas que já não deveriam mais ter espaço em nossa sociedade, mas que, infelizmente, são realidades. 

Nesse sentido, crescem as manifestações de ódio e de ideologias que nada tem a ver com a Era da liberdade do pensamento e do ser. E este é, para mim, um terreno perigoso. Quando nos apoiamos no desejo de ter a ordem restabelecida por meio da repressão, quando temos escancarados os pedidos do retorno dos tempos de chumbo e da censura, quando vemos o preconceito racial, quando acompanhamos o gênero ser elemento determinante em atitudes, excludente e desigual, decretamos nossa falência como sociedade. 

Por isso, o conhecimento é a melhor das armas. Precisamos conhecer, saber, entender, estudar; nos aprimorarmos para termos a capacidade de entendimento de que, se os tempos mudaram, os discursos devem acompanhar esse mesmo tempo. Não cabem preconceitos nas palavras. A disseminação do ódio tem que ser contida. As manifestações de violência punidas. Precisamos refletir sobre nossas ações, dizeres e mesmo posicionamentos. TODOS NÓS. Homens e mulheres. 

Nas últimas semanas, vivemos um turbilhão de emoções com o manifesto de jornalistas esportivas #DeixaElaTrabalhar. Fizemos do movimento que é de todas nós braços para quem precisava de um abraço, pernas para quem se sentia paralisada, voz para quem tinha que ser ouvida. Nessa linda sororidade, movimentamos a imprensa nacional e internacional, fizemos muito e pouco ao mesmo tempo, diante de tantas necessidades que nós mulheres temos.

No domingo passado, durante a final do Campeonato Paulista no Allianz Parque, registramos e divulgamos essas imagens, mas dessa vez, as centenas de mensagens compartilhadas nas redes sociais ainda não foram suficientes para que tivéssemos uma ação imediata ou uma resposta até o momento. Além do vídeo, outros acontecimentos de violência contra jornalistas foram registrados dentro do estádio (inclusive contra homens). Situações que não podem acontecer e que não devem ser consideradas normais para o ambiente esportivo (nem para local algum). 


Assim, independentemente de outros fatores, merecem atenção e são sim urgentes, na minha opinião. Por exemplo:  recentemente, em situações semelhantes, os clubes gaúchos Internacional e São José agiram de forma ágil e eficiente para a identificação de torcedores. Em São Paulo, o Corinthians planeja mudar o posicionamento dos jornalistas na saída de campo para evitar que fiquem expostos a situações ofensivas e violentas com torcedores. 

Nessa semana, o Palmeiras teve uma postura incansável no que diz respeito às questões de arbitragem. Importante, afinal, o que acontece nos gramados deve ser debatido e mesmo questionado. O esporte permite questionamentos, a Justiça é, também, o recurso a ser utilizado quando alguém se sente desfavorecido/prejudicado. E nessa linha, é também justo que queixas sejam ouvidas. O campo é urgente. Só que a arquibancada, a zona mista, a tribuna de imprensa, a área para jornalistas também são urgentes. Tudo que cerca o ambiente esportivo é prioridade. 

Estamos em um momento em que as manifestações surgem de demandas sociais, de necessidades que não são individuais, mas coletivas. Clubes não são rivais na luta pela igualdade, não são vilões, nem clubes, nem seus torcedores. Pelo contrário, devem ser aliados numa luta que representa a pluralidade. Esses torcedores são indivíduos, com seus rostos e atos agressivos expostos. Eles precisam ser identificados e punidos. 

É trabalho coletivo. O estádio é responsabilidade de todos, mas principalmente daqueles que ali atuam. 

O #DeixaElaTrabalhar é como um lembrete diário: os tempos mudaram, façamos alguma coisa! Repensemos! Vamos agir! 

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O depois do #DeixaElaTrabalhar: a opinião de Bibiana Bolson sobre os rumos do manifesto

Bibiana Bolson

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Não é novidade o assédio, o machismo, o sexismo dentro das redações, no estádio, no treino, no ambiente esportivo em geral, na sociedade. Porém, é sim inédito um movimento de união dessa grandeza no jornalismo esportivo brasileiro. Somos muitas vozes,  atuando em diversas empresas, diariamente, desconstruindo a ideia de que existe um lugar ou uma função para as mulheres. Vozes potentes que fazem barulho, vozes que precisavam muito gritar! 

O #DeixaElaTrabalhar surgiu como a resposta a dois casos recentes de machismo/assédio (acontecimentos com as repórteres Bruna Dealtry, do Esporte Interativo, e Renata de Medeiros, da Rádio Gaúcha), mas nasceu, também, num contexto de urgência. É urgente que tenhamos movimentos legítimos em defesa das causas das mulheres! 

Sem partido político, sem patrocínio de empresa alguma, sem interesses que não sejam exclusivamente os de termos um ambiente sadio, de igualdade e de respeito. Somos, em nossas múltiplas  trajetórias profissionais, mulheres com experiências diversas, mas com histórias semelhantes, só que de roupagens diferentes. 

A jornalista que foi assediada pelo chefe. A repórter que foi preterida na pauta por ser mulher. A que foi descartada de situações profissionais por ter tido filho. A que não pôde crescer por méritos baseados apenas no trabalho e não nos padrões de beleza. A produtora que foi demitida depois de não aguentar as ofensas morais dos colegas. A editora que foi desacreditada por contar o que aconteceu no estádio. A que recebe ofensas nas redes sociais. Cantadas no WhatsApp. A que já foi cuspida. Agredida. Ameaçada de estupro. A apresentadora que precisava usar roupas mais justas para chamar atenção dos telespectadores. A jornalista que tem que, diariamente, provar conhecimento, mostrar que se preparou, que estuda, que sabe. Somos todas essas mulheres. A repórter que convive com piadinhas. No singular e no plural dos relatos, somos todas essas mulheres. Nas peculiaridades de cada caso, de cada vivência, e somos muitas. 


Uma das participantes do manifesto, Paula Ab, já passou pelas principais redações do Brasil (em todas sofreu algum tipo de assédio ou machismo), destacou sobre a sororidade do #DeixaElaTrabalhar. “A gente já tentou outras vezes, mas sempre sem muita força, abafado de alguma forma. Me comovo e nunca vi nada parecido. Um grupo de 10 pessoas, que virou 50, 100 e agora milhares. É um trabalho de formiguinha, sabemos disso, mas é uma sensação diferente, de companheirismo, de união”. 

Além disso, a jornalista pontuou algo muito importante e que compartilho do mesmo pensamento: “Por que a gente tem que carregar esse peso dessas situações todas sozinhas? A gente tem que dividir isso com quem causou. Sei que não vai mudar o pensamento de muitos, mas vai, ao menos, chamar a atenção, provocar a reflexão, está mexendo com eles também. Por isso, não é mais um movimento”. 

A jornalista Taynah Espinoza, também participante do #DeixaElatrabalhar, reforça a mesma ideia. “Acho que esse é um manifesto diferente porque conseguimos juntar meninas de diferentes emissoras e posições, mas todas com um mesmo propósito. A gente precisava fazer barulho, precisava chamar atenção para algo que acontece quase que diariamente em estádios, redações e na rua”.

Segundo a jornalista Mariana Fontes, a reflexão é ponto chave nessa repercussão. “A gente precisa lembrar que o cara que assedia no estádio, que tenta um beijo, que ofende, que é machista, ele está igualmente representado em todas as redações. É o que faz comentário desrespeitoso, ofensivo, engraçadinho. É fácil compartilhar um lindo vídeo, mas e a reflexão?! Não adianta fingir que esse vídeo não está falando para ‘você’. Está, sim, falando com ‘você’ e de ‘você’. Temos que refletir, também, sobre as representatividades das atuais lideranças dentro de uma redação. Qual a chefia/mulher que vai te ouvir e entender o novo momento da sua vida, por exemplo, quando você for mãe? Esses temas precisam ser pensados. As decisões e as condutas que representam a sociedade.”

De fato, com o #DeixaElaTrabalha, chamamos a atenção dos principais meios de comunicação do Brasil. Não passamos despercebidas nas redes sociais, onde, desde domingo, alcançamos um número incrível de compartilhamento e de mensagens. Milhões delas de internautas “desconhecidos” e de figuras públicas muito relevantes. Mobilizamos os clubes brasileiros. Paramos o Maracanã com a exibição do nosso vídeo de mais de dois minutos de manifesto. Despertamos o interesse de renomados jornais internacionais, portais esportivos e canais de televisão. Recebemos o apoio de colegas, jornalistas da Argentina, da Itália, da Colômbia, da Espanha, da França..

É um momento único, que nos fortalece e nos estimula a fazer dessa campanha um projeto de continuidade. De ações, de debates e de efetividade. Torço para que não tenhamos feito história apenas pelas nossas vozes, rostos, palavras expostas pelo mundo inteiro com uma forte mensagem. Espero que tenhamos despertado um novo momento e que consigamos resultados merecidos e necessários daqui para a frente. 

É chegada a hora de reflexão para aqueles que são protagonistas nos casos de machismo, de assédio, nas condutas preconceituosas e sexistas, mas que seja também o momento de responsabilização desses e daqueles que, de alguma forma, se escondem em cargos, em funções, em relações de comando. Que o ineditismo dessa ação no jornalismo esportivo se estenda para outros segmentos da sociedade, sirva de incentivo para outras mulheres falarem sobre suas lutas. 

#DeixaElaTrabalhar


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#AçãoQueTransforma: Rafaela Silva vai palestrar na conferência de Harvard e MIT

Bibiana Bolson

Rafaela Silva conquistou ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro
Rafaela Silva conquistou ouro nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro Getty

Há um mês, a menina que remou contra a maré das desigualdades desse País para se tornar uma campeã olímpica expôs nas redes sociais o racismo institucional que acabara de sofrer. A judoca Rafaela Silva compartilhou na Internet a péssima experiência vivida ao ser abordada por policiais militares enquanto retornava para casa em um táxi; a atleta teve que descer do carro em que estava, na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro, e explicar quem era e o que fazia para policiais que estavam armados e em tom de desconfiança. 

"A gente no Rio de Janeiro tem que passar essa vergonha. Preto não pode andar de táxi, porque deve estar assaltando ou roubando?”, desabafou com os seguidores. Com a repercussão do acontecimento, a Polícia Militar, em nota, disse que as declarações da judoca eram injustas e não ajudavam o trabalho de combate à criminalidade. Ora, como se o preconceito e o abuso combatessem alguma coisa! Como se uma ação constrangedora fosse compatível com o lugar que sonhamos em viver, em que o ir e vir não sejam mediados pela intimidação seletiva ou não!

Rafaela não sabia, nós não sabíamos, que algumas semanas depois dessa abordagem abusiva - que parece ser só mais uma corriqueira no Brasil, um crime contra uma mulher negra que lutava, justamente, para denunciar diversos tipos de abusos envolvendo a ação de policiais militares -, colocaria o País nas manchetes dos principais jornais internacionais - alguns citando a vereadora Marielle Franco como um símbolo global. Os dois acontecimentos, separados por poucos dias e pelas manchas de sangue da perda de duas vidas (a de Marielle e do motorista, Anderson Gomes, também assassinado), colocam frente à frente realidades, coincidências, repetições e questionamentos.

Rafaela, uma das atletas que mais admiro da nova geração de esportistas brasileiros, assim como Marielle, cresceu na periferia. Foi criada na Cidade de Deus, uma das mais violentas favelas do Rio de Janeiro, contou com o apoio do projeto social Reação para que pelo esporte mudasse sua realidade, fosse convertida da pedra rara em estado bruto ao diamante precioso lapidado pelo judô. Diamante valioso não apenas pelas grandes conquistas, como ter sido a primeira e única judoca brasileira campeã mundial e ouro olímpico, mas por ter virado um exemplo, uma história de incentivo, de luta e orgulho, um ser humano melhor.

A abordagem a Rafaela Silva não foi o primeiro momento em que a judoca sentiu que sua cor foi fator determinante para a situação de se sentir em estado de vulnerabilidade. Rafa, nessa noite de fevereiro, se juntou aos outros negros que permanecem também vulneráveis a abordagens discriminatórias da polícia, relembrou o sabor amargo que o racismo tem e que ninguém gosta de sentir. Relembrou aquele gosto que já sentiu muitas vezes e que, num dos acontecimentos mais marcantes, quase a fez desistir do esporte em 2012 depois de ser chamada de macaca em dezenas de mensagens recebidas quando perdeu no tatame dos Jogos Olímpicos de Londres. Foi preciso um intenso trabalho psicológico para recuperar a confiança da jovem, para combater as memórias negativas que relacionavam a derrota ao preconceito, para acreditar que poderia ser uma medalhista olímpica. 

No ano em que Rafaela Silva ganhava o primeiro ouro do Brasil na Olimpíada do Rio, servindo como exceção na história de muitos que a cercam, os dados do Mapa da Violência de 2016 mostravam que o número de negros assassinados no Brasil  tinha crescido 18% em 10 anos, enquanto, no mesmo período, o índice entre pessoas não negras caiu 12%. 

Ainda conforme essa pesquisa, a taxa de homicídios por 100.000 habitantes de negros é quase três vezes maior que a de brancos. No Rio de Janeiro, cidade onde a judoca cresceu, um jovem negro tem quatro vezes mais chances de ser assassinado pela polícia do que um jovem branco. É horrível e assustador. Realidade e repetição que fizeram de Marielle, infelizmente, parte dessas estatísticas.

No próximo mês, Rafaela Silva será uma das palestrantes de um evento das tradicionais universidades Havard e MIT, a Brazil Conference at Harvard & MIT (Massachusetts Institute of Technology), organizado anualmente pela comunidade brasileira de estudantes de Boston, nos Estados Unidos, que, desde 2015, reúne lideranças brasileiras para debates. Neste 2018, o tema central será "Ação que Transforma". A proposta é debater iniciativas que estejam acontecendo para ajudar na mudança do País. Além da judoca, outros representantes do esporte brasileiro estão confirmados no seminário, como o velejador Lars Grael e o nadador Clodoaldo Silva.

É uma tema emblemático para um país que tanto carece de mudanças. As trajetórias de Rafaela, de Lars, de Clodoaldo, ou de qualquer outro esportista se conectam com as nossas necessidades diárias de encararmos os pequenos e os grandes desafios, de superarmos. Rafaela, por exemplo, venceu as estatísticas, a violência, a pobreza, o preconceito como negra. Rafaela VENCE - no tempo presente -. A atleta mostra possibilidades para jovens negros da favela ou brancos da zona sul do Rio de Janeiro. Aponta possibilidades para todos nós! 

Ao ser abordada por policiais militares, poderia não ter tido a mesma "sorte" que teve, poderia ter o trágico fim de Marielle. Em Havard e no Mit, duas referências de educação, vai poder compartilhar um pouco das angústias de ser brasileira, os questionamentos, as incertezas sobre como alterar esse cenário brutal. Vai poder dividir um pouco de esperança pela sua linda história, a que muitas vezes nos falta. Que atitudes temos que tomar? Que ações podemos desenvolver? Quais vozes ativas temos que ter? Afinal, que ação que transforma? Já ouvi que eu, branca, loira, de origem de classe média, com acesso a educação, não poderia falar sobre uma "luta que não é minha". 

É um equívoco, é uma luta de todos nós!

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'Mimimi' é acreditar que está tudo bem: sobre a repórter gaúcha agredida no Grenal e o porquê de não desistir do feminismo

Bibiana Bolson

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Venho de uma família em que a presença feminina sempre foi muito forte: mulheres que se tornaram referências em suas profissões e dentro de casa, não que os homens da nossa família também não tiveram/tenham suas significativas contribuições, mas a força feminina é mesmo dominante em nosso lar. Sou filha de uma mãe que engravidou aos 18 anos, antes de casar, ainda como estudante de Direito. Uma mãe que nem mesmo com uma gravidez que não estava nos planos abriu mão dos estudos. Tenho lembranças vivas de uma mulher que se desdobrava entre aulas, trabalhos e os filhos - dois anos depois de mim, veio meu irmão e 23 depois, o mais novo da casa.

Lembro dessa figura muito determinada que colaborou com a minha formação, com as minhas ideias sobre o mundo e as minhas expectativas. Essa mesma mãe que sempre insistiu: "busque o seu espaço como mulher!". Tenho muita sorte de ter tão perto um exemplo desses. Sei, também, que a nossa história faz parte de uma minoria. Lamento que muitas mães jovens desistam pelo caminho.

Quando pisei pela primeira vez em um campo de futebol como repórter esportiva, pensei no meu pai, pela paixão que me foi transmitida desde muito cedo pelo esporte; mas pensei, principalmente, na minha mãe e no espaço que eu estava conquistando como mulher. Foi muito natural que, com o passar do tempo, alcançando as metas profissionais e ganhando uma maior visibilidade que a profissão proporciona, eu fosse, também, entendendo esse meu papel, essa função de repórter mulher. 

Há algumas semanas, alguém disse que eu era a repórter feminista, a chata que só falava desse assunto, que virava manchete a cada ataque na Internet ou na rua (como foi na Eurocopa em 2016 e em alguns estádios do Brasil). Fiquei chateada num primeiro momento. Ninguém gosta de ser considerada "chata", mas é verdade, também, que existe uma distorção do sentido aplicado ao feminismo, como se ser feminista fosse algo ruim ou pedante. É reflexo dessa era de polarização do mundo, em que se perderam os reais sentidos dos termos.

Renata de Medeiros, repórter da Rádio Gaúcha, é outra “chata”, outra repórter do 'mimimi', mais uma feminista querendo destaque, certo?! Percebam, aqui, minha ironia: ela foi chamada de puta e agredida nesse final de semana, enquanto cobria o clássico Grenal. Ofensa e agressão gratuitas que, felizmente, foram registradas por um colega para que não passassem impunes (as imagens seguem repercutindo nas redes sociais). Posteriormente, o torcedor foi encaminhado para o Juizado Especial Criminal, retirado do estádio. A jornalista registrou queixa pelo crime, e o Sport Clube Internacional divulgou uma nota de repúdio ao fato; fez o alerta, também, ao pedir que outras vítimas sempre denunciem fatos assim. 

É por esse e outros acontecimentos que eu tenho certeza de que EU QUERO SER A REPÓRTER FEMINISTA, SIM! Quero ser a repórter feminista, porque nós precisamos. Quero, porque não estou sozinha, temos, além da Renata, as repórteres Gabriela Moreira, a Lívia Laranjeira, a Ana Thaís Matos, a Mayra Siqueira e outras várias que estão por aí, fazendo um trabalho sensacional, tentando a igualdade, refletindo sobre o nosso papel. Citei essas porque são as que sempre são agredidas/lembradas pelos "valentões dos teclados", as que já foram mencionadas em comentários que me envolviam também. Nós precisamos ser incansáveis! 

A partir do momento em que você ganha "repercussão" pelas suas ideias e pelas causas que você defende, muitos passam a chamar você de referência. Essa palavra é um peso e tanto! Eu vejo assim: não é sobre a ideia de ser exemplar, de ser infalível e de estar sempre certa nos conteúdos expostos em nossa profissão. Também erramos; mas é sobre ser um exemplo positivo de que muito carecemos. Um incentivo, um estímulo, uma mensagem de que é possível, de que é viável que outras possam percorrer caminhos similares aos nossos. 

Engraçado que, mesmo quando você é lembrada como aquela mulher que está trabalhando no esporte, mesmo quando você é citada por uma nova geração de jornalistas que está chegando, mesmo assim, os testes continuam. Somos testadas todos os dias e, às vezes, nós mesmas nos testamos, confesso. Não é novidade por aqui admitir que há dias em que a vontade é desistir de falar tanto sobre o assunto, de se expor, de “brigar”. 

Os números dimensionam a responsabilidade de insistirmos na temática: a violência contra a mulher, seja ela qual for, segue muito presente. A cada onze minutos, uma mulher é estuprada no Brasil.  40% das mulheres acima de 16 anos já sofreram algum tipo de assédio. Mulheres são assediadas/ofendidas na rua, em ambiente profissional, nas redes sociais, por onde passam. Vou, então, ficar preocupada em ser chamada de feminista? Incomodada por falarem por aí que tudo é 'mimimi'? Não, não vou. 

Além disso, a desigualdade de gênero é real. Somos parte dessa sociedade que ainda está em transição sobre as mulheres terem e gozarem dos mesmos direitos dos homens nos mais variados exemplos. Sobre recebermos as mesmas oportunidades. No esporte, você sabia que só foi em 2012, em Londres, que tivemos a participação de mulheres em todas as modalidades olímpicas? Foram necessárias mais de três décadas de Jogos Olímpicos para que as mulheres pudessem finalmente participar oficialmente da competição (em 1936) e só então na 30ª edição conseguimos preencher as vagas em todas as disputas. 

Eu tinha sete anos quando Sandra Pires e Jacqueline Silva foram as primeiras mulheres a conquistar uma medalha de ouro para o Brasil no maior evento esportivo do mundo. Nossa, que dia! Eu era novinha, mas como essas coisas marcam... eu lembro da comemoração da minha mãe na sala! A dupla dourada fez história em Atlanta-1996 e serviu como um referencial para meus próximos anos. Eu cheguei a sonhar com uma Olimpíada nas inúmeras modalidades que pratiquei. 

Maurren Maggi, campeã mundial no salto em distância em Pequim-2008
Maurren Maggi, campeã mundial no salto em distância em Pequim-2008 Getty

Em Pequim-2008,  a judoca Ketleyn Quadros (bronze) e Mauren Maggi, campeã olímpica do Brasil no salto em distância, entraram para a história ao conquistarem as primeiras medalhas individuais do país em Olimpíada. Quantas edições, quanto tempo esperando por isso! Aconteceu e servem de exemplo até hoje para aquelas que se imaginam no pódio. 

Antecedendo as medalhas em si, as participações marcantes também devem ser lembradas. Sou fascinada pela história da Maria Lenk na natação. Antes da oficialização das atletas mulheres nos Jogos, em 1932, ela nadou a Olimpíada com apenas 17 anos. Vibro com a trajetória da Maria Esther Bueno no tênis, incluída no Hall da Fama internacional da modalidade em 1978, a primeira e única brasileira a receber essa honraria.

Admiro a coragem da carioca Aída dos Santos como a primeira mulher brasileira a disputar uma final olímpica, em Tóquio-1964, sendo ela a única mulher da delegação do Brasil na ocasião. Algumas das muitas lindas histórias vividas por esportistas brasileiras num passado não muito distante, quantas outras estão por vir?

Acredito que a construção desse tempo sem diferenciação de gênero passa também pelos rótulos que colocamos nas pessoas e pelos que são colocados em nós mesmos. Você não precisa ser ativista para ser feminista; feminismo não é a dominação das mulheres sobre os homens ou o ódio, feminismo é a ideia de buscar a liberdade e a igualdade, é um ideal legítimo e mais do que necessário. Se, pra isso, preciso ser a "chata", que assim seja. Meu “mimimi” não vai ter fim. Nem o meu, nem o nosso.

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'Jamais seremos um pedaço de carne': a opinião de Bibiana Bolson sobre a polêmica das musas de Goiás e Vila Nova

Bibiana Bolson
Karol Barbosa, do Goiás, foi constrangida em programa de televisão
Karol Barbosa, do Goiás, foi constrangida em programa de televisão Reprodução/TV Goiânia
Era um tempo completamente diferente. Enquanto eles se rendiam ao esporte de origem bretã que chegava em continente americano para reforçar a masculinidade, intensificar o “instinto selvagem” com a competição e o contato físico e se tornar, ao longo dos anos, parte da nossa identidade cultural nacional, elas, sem poder de escolha, acompanhavam de longe. E era exatamente assim: eles e elas. 

A atividade física para elas jamais poderia envolver uma possibilidade de se ferirem. Até era recomendada a prática de exercícios, mas como uma proposta muito clara: preparar para a maternidade. Quando elas (nós mulheres) puderam participar de forma mais “direta” do esporte sensação no Brasil, foi da tribuna, em vestidos e chapéus elegantes, que faziam papel de donzelas ao aplaudirem seus heróis em campo. Até que, novamente, saíram desse ambiente do futebol, esvaziaram as cadeiras dos elegantes clubes. A ascensão do negro e daqueles provenientes de classes mais baixas incomodava a sociedade. Não era mais lugar para mulher! 

LUGAR PARA MULHER, está aí uma frase capaz de tirar meu sono, de estragar meu dia e de me arrancar lágrimas. Sinto dizer que esse não é um “privilégio” meu como mulher, nem da jornalista esportiva que, nos últimos anos, fez questão de expor as situações lamentáveis que já passou ou uma exclusividade da mulher independente deste século XXI que rema contra a maré para acreditar na equiparação salarial, na conquista de espaço e igualdade de sermos, fazermos e estarmos onde e como quisermos.

Todas somos impactadas pela expressão “lugar de mulher” e o que ela carrega. Mas a gente persiste. A gente enfrenta. A gente supera. Até nos sentirmos humilhadas, ridicularizadas em rede nacional com perguntas de conotação sexual, com “piadas” de péssimo gosto e expostas a um retorno de um domínio masculino, a um exagerado senso de orgulho da virilidade, do menosprezar a presença feminina no esporte. Sim, expostas ao machismo e ao preconceito, que dessa vez não passaram impunes. 

Na última quarta-feira, Karol Barbosa, torcedora do Goiás, participou do programa Os Donos da Bola, da TV Goiânia - afiliada da TV Bandeirantes, e foi constrangida com perguntas inesperadas de duplo sentido e conotação erótica, como “se o seu nutricionista mandar você chupar uma laranja porque faz muito bem para a saúde, você chuparia um saco por dia?” e "para uma musa não sofrer dores localizadas, é importante o médico colocar compressa?". 

Revoltado, o clube se manifestou e a TV Goiânia tomou a decisão de tirar o programa do ar.

O fato da semana - destaque negativo num espaço que deveria contar histórias exemplares e inspiradoras - uniu os times rivais Goiás e Vila Nova (a torcedora Karol Rodrigues também havia passado pela mesma situação). Mexeu também com a sociedade, com pessoas que, assim como eu, ficam perplexas com acontecimentos desse tipo. Repudiar é preciso! O resultado foi um pedido de desculpas e um programa que saiu do ar por tempo indeterminado no estado goiano. 

 Ingrid Oliveira, do salto ornamental, durante os Jogos Olímpicos do Rio-2016
Ingrid Oliveira, do salto ornamental, durante os Jogos Olímpicos do Rio-2016 []

Aliás, a nossa reflexão também não deve ter tempo para ser feita. Não apenas  pela situação de repúdio a esse conteúdo recente exibido na televisão, que, claramente, vinculou a ideia de que essas mulheres representantes dos clubes na função de musas deveriam ser tratadas como um “pedaço de carne” (me perdoem pela expressão), mas o nosso refletir deve incluir ainda a espetaculização do corpo e da própria presença feminina no esporte feita pela imprensa. 

Quantas vezes não vemos imagens, textos, manchetes que se referem às esportivas também com cunho sexual? “As mais belas”, “as musas”, “o corpo escultural”, “fulana arranca suspiros de biquíni”, “a beleza da filha do treinador”, “confira as torcedoras mais lindas”, entre outros.

Essa super exposição na mídia e a conotação sexual ao exaltar os predicados físicos incomodam as atletas. Lembro, aqui, de uma conversa que tive com a ginasta Jade Barbosa da ginástica, triste com fotos recentes publicadas; das entrevistas que já li sobre o tema com outras esportistas que também se incomodavam pela invasão de privacidade em uma simples ida a praia em momento de lazer; das fotos durante a competição enfatizando o corpo. 

Me recordo, ainda, do caso que aconteceu em 2015, quando a atleta do salto ornamental Ingrid Oliveira desabafou sobre os comentários e mensagens que recebeu depois de postar uma foto em que usava um maiô. Ingrid chegou a receber proposta para que fizesse parte do catálogo de uma agência de garotas de programa. “Gente, eu trabalho de maiô, não sou uma garota de programa só porque eu treino de maiô. É o meu trabalho. O povo não consegue diferenciar, isso chateia”, disse a brasileira na época.

Não estou dizendo que não devemos mais ter musas de clubes, ensaios sensuais dessas representantes e que não possamos admirar a beleza e a forma física de atletas ou de torcedoras na arquibancada, mas que sim, que façamos reflexões sobre esses conteúdos, sobre a super exposição, sobre a invasão da privacidade, sobre o limite da exploração da imagem e que, principalmente, se respeite quem estiver em foco. 

Afinal, a mulher pode ser linda, super atraente, mostrar o corpo, usar o traje que quiser, praticar o esporte que gostar, frequentar o estádio sem que seja (de novo, me desculpem) tratada como um belo pedaço de carne. 


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O que você diria para o 'você' da infância e o 'você' do futuro?

Bibiana Bolson

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Talvez por ter essa arrebatadora paixão pela comunicação (e uma insistente mania de questionar os porquês no mundo), desde muito cedo, diante das mais variadas situações, me pergunto como o futuro vai contar as histórias do agora, do hoje. Faço isso com tudo: olho para as construções das casas, para os arranha-céus, novos monumentos e me questiono como as gerações desse próximo tempo que agora é ainda distante vão avaliar nossa arquitetura? O que será que vão dizer sobre a nossa música? Sobre os nossos livros escritos? Sobre as celebridades produzidas? Sobre a arte? Sobre o esporte? Sobre os atletas e suas conquistas? 

Vivemos esse período maluco de bombardeio de informações, de verdades e de mentiras, de opiniões, de atitudes extremas e dos lamentáveis discursos odiosos em redes sociais. As coisas acontecem em ritmo tão frenético que parece que todas as questões têm suas respostas alteradas centenas de vezes antes mesmo de termos chegado a esse "novo tempo". Vocês entendem o que eu estou falando?! É que todos os conceitos mudam muito rápido. O certo e o errado. O que pode e o não pode. A inclusão e a exclusão. O que é político e o que não é.

Na visão de quem pesquisa para entender os efeitos desse "momento" que temos vivido nas últimas décadas, potencializado pelas evoluções tecnológicas, estamos na pós-modernidade da civilização, tempo esse que se sustenta no que é descartável, no local e no aqui-agora; no prazer, no faça você mesmo e, principalmente, no imediatismo. Tudo deve mudar, e o mais rápido possível! Podemos chamá-lo também de tempo hipermoderno, expressão usada pelo escritor francês Gilles Lipovetsky, ao observar, por exemplo, nossos hábitos de consumo.

Nesse turbilhão, nos vemos engolidos pelo tempo: já conquistei tudo que eu queria? E aquela viagem? E aquele emprego? E aquele casamento? E aquele corpo perfeito? Acontece comigo sempre. Então, eu paro o relógio e tento fazer um exercício simples, que brinca com o passado e o futuro.  É uma atividade para nos questionarmos sobre o que diríamos para nós mesmos daqui cinco, 10, 20 ou 30 anos. Ou se pudéssemos promover um encontro com o nosso passado, como trataríamos as nossas angústias? O que falaríamos sobre os nossos medos e os desafios que já foram superados? 

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Em todos os campos da vida, independentemente da classe social, da posição que você ocupa ou de onde quer chegar, todos já sentimos medo, arrependimento e todos já nos questionamos diversas vezes "como vai ser?". É um exercício interessante, tente!

Nessa linha, desde 2014, a plataforma digital The Players' Tribune tem publicado cartas de atletas profissionais, histórias em primeira pessoa sobre as vivências fantásticas desses esportistas. Relatos sobre como venceram seus medos, como cresceram, como conquistaram, conselhos dados da "realidade" para a "expectativa". 

Desses conteúdos, a linda e sincera carta da brasileira Marta, cinco vezes eleita a melhor jogadora do mundo, inspirou a jovem Ariana, a menina que se você não conhece, deveria conhecer: fenômeno nas redes sociais com vídeos de futebol super bacanas, habilidosa com a bola e que sonha em correr pelos gramados do mundo como jogadora profissional. São as palavras de uma criança para a mulher de 30 anos que Ariana quer se tornar: 

"A Ariana de 30 anos,

Pode ter certeza de que há muitas meninas te acompanhando no Youtube e tentando aprender seus dribles. Minha única dúvida, na verdade, é se ainda existe o Youtube. Mas se hoje, ainda criança, já tem meninas me seguindo e tentando fazer o que faço em campo, imagina como elas olham para você, agora, com 30 anos e no auge. Pode ficar feliz, Ariana, porque você me ensinou a esquecer os preconceitos, a olhar apenas para o desenvolvimento dos meus treinos. Você ensinou uma legião de pessoas a tapar os ouvidos contra o ódio da sociedade, tendo sua linda história como exemplo para um monte de gente."

No exercício de voltar ao passado, a Marta de 31 anos escreve para a Marta, menina de 14:

"Você mostra para eles: você é uma garota, e você pode jogar futebol. (...) Mas os comentários, os julgamentos, as piadas – tudo aquilo não vai parar. Mesmo quando você estiver no time local da cidade. Você sabe que isso não é o bastante para fazer a mudança. Aqueles momentos – enquanto os garotos estão num vestiário e você está sozinha, num banheiro pequeno logo ao lado, tentando colocar sua camisa de futebol tamanho grande e calções de menino que vão para baixo dos seus joelhos – são solitários. Então, lembre-se de quão sozinha você se sente agora e ouça quando eu te digo o seguinte: no mundo inteiro, existem meninas que se sentem do mesmo jeito. Meninas que recebem olhares, meninas que são questionadas sobre estar ali, meninas que são expulsas de campeonatos e que recebem apelidos nada elogiosos."

As cartas escritas por Ariana e Marta nos mostram duas histórias que se encontram num mesmo ideal: o de que meninas PODEM ser o que elas escolherem para suas vidas. Falam de preconceito e sobre como vencer esse "monstro". Nesse exercício sobre o que esperamos para o futuro e o que pensamos do passado, nos sentimos mais fortes. A Marta inspira a Ariana (e outras milhares de meninas) e a Ariana pensa em inspirar as gerações que estão por vir. 

Fico muito impactada com as palavras dessa menina, porque, claro, tem um pai e uma mãe dando todo o apoio, acompanhando a rotina da filha que mora e treina numa escolinha nos Estados Unidos, mas ela tem apenas oito anos, tem convicção, tem vontade, e já sabe sobre os olhares e palavras que vão a acompanhar no trajeto; já entende a dificuldade que é para uma mulher prosperar num esporte tão dominado por homens. Na mesma intensidade, mostra o lado animador do "eu acredito que eu posso" e serve como exemplo sobre o que esperamos para o futuro do esporte e de como queremos formar nossas próximas gerações.

Em tempos tão acelerados, com suas delícias e agruras, estimular o potencial crítico na fase inicial, na infância, na escola, faz com que formemos futuros adultos com poder de opinar, de escolher e de lutar pelos seus ideais. É como um sopro de esperança: o de um legado. Aqui em Nova Iorque, na onda de discussão sobre os direitos das mulheres e de todos os movimentos que têm aparecido - e que torço para que não sejam uma onda passageira - o estado inseriu na agenda anual um projeto voltado para o GIRL POWER, o conceito globalmente conhecido como empoderamento das mulheres. 

No calendário de programações, a ideia é que, na escola, as meninas tenham lições de como reconhecer a diferença entre uma relação saudável e o abuso; que elas recebam informações para que sejam capazes de identificar e evitar casos de assédio sexual. Fazem parte do "pacote"  investimentos em qualificação dos professores para tratarem as temáticas de abuso, preparo de educadores para que deem estímulo e apoio para que essas meninas possam seguir profissões variadas; um processo de transformação de crianças em líderes. Além disso, proporcionar produtos de higiene feminina de forma gratuita dos seis aos 12 anos. Serão seis milhões de dólares investidos em pesquisas, seis milhões investidos no futuro.

Dito tudo isso, que tal você tirar um tempinho, parar o seu relógio e fazer o exercício de quem você será no futuro e que caminho já percorreu até aqui? Qual é o mundo que você vive e qual o que você quer deixar para os seus filhos? 

Aproveite!

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O que você diria para o 'você' da infância e o 'você' do futuro?

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Vozes do abuso sexual: os dias que o esporte não pode esquecer

Bibiana Bolson

Simone Biles, campeã olímpica no Rio-2016 e uma das vítimas
Simone Biles, campeã olímpica no Rio-2016 e uma das vítimas Getty

Não foi em uma competição, não teve quebra de recorde ou algum feito esportivo histórico realizado por um atleta extraordinário, mas teve tanta força, coragem e bravura que os dias que se sucedem na corte do estado de Michigan nos Estados Unidos são para que o esporte jamais os esqueça.

Se dizem que o choro é para aliviar o que sufoca a alma, é exatamente assim que tem sido cada relato de mulheres/meninas vítimas de Larry Nassar, ex-médico da seleção de ginástica artística dos EUA. Em meio às lágrimas pelas dolorosas lembranças, diante do seu maior pesadelo, dezenas delas estão depondo no julgamento pelos abusos sexuais que sofreram. Ele, já condenado a 60 anos de prisão por pornografia infantil em outro caso (milhares de imagens foram encontradas com o norte-americano), agora pode ter uma complementação da pena nesse novo julgamento, e, como declarou a própria juíza do tribunal, Rosemarie Aquilina, “passar o resto da vida na prisão”. 

Juntou-se ainda a essa luta por justiça e reparação, no início da semana, a menina que encantou o planeta nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro-2016, a medalhista Simone Biles, outra vítima a quebrar o silêncio e relatar os horrores vividos. Biles usou as redes sociais para compartilhar seu sofrimento. 

No dia seguinte, quando teve início o julgamento, os relatos expostos na corte foram tão repugnantes e tão agressivos que é inconcebível pensar que tudo pode ter acontecido diante dos “olhos” da Federação de Ginástica dos Estados Unidos, da Universidade de Michigan e do próprio COI (Comitê Olímpico Internacional). Como tudo isso aconteceu? É a insistente pergunta a ser feita. As três entidades, por meio de seus representantes, saíram em suas defesas e em apoio as vítimas, mas ainda terão que explicar muitos pontos, entre eles a acusação de compra do silêncio da medalhista olímpica McKayla Maroney por parte da Federação, num acordo de mais de um milhão de dólares.

McKayla Maroney, prata em Londres-2012
McKayla Maroney, prata em Londres-2012 THOMAS COEX/AFP/Getty Images

Esse assunto, manchete nos principais jornais dos Estados Unidos, ganha espaço também na mídia internacional, e nos faz refletir sobre quantas outras vítimas foram/são abusadas por “monstros” e nunca denunciaram os abusos sofridos. Medo, vergonha, trauma, confusão emocional, pressão, falta de apoio... são tantas as razões. Não apenas na ginástica, mas em outras modalidades ou fora do esporte, em todas as situações em que meninas e meninos ficam expostos/sujeitos a abusos. É triste e é muito sério!

O abuso sexual, como sabemos, é um problema global, não limitado por classe social, sexo, raça ou cultura. No Brasil, conforme o Ministério da Saúde, é considerado o segundo crime mais denunciado na faixa de 0-9 anos, a mesma das vítimas quando começaram os crimes de Nassar. Além dos abusos cometidos por pessoas próximas, que convivem em determinados momentos com as crianças, dados do País mostram que os pais são 23% dos abusadores, além de 34% serem os padrastos das vítimas. É a violência diária, dentro de casa, o local em que acontecem 80% dos casos.

Dói, traumatiza vítimas, machuca nossa alma, nos envergonha, nos faz questionar que seres humanos são esses e há muito ainda o que se discutir e evoluir na temática. No campo judicial, o avanço mais recente (em 2012) foi a sanção da lei que diz que o tempo de prescrição do crime de abuso sexual conta a partir dos 18 anos da vítima. Ela também determina que os crimes como estupro terão um prazo de até 20 anos a partir da maioridade para que se denuncie o agressor. A lei recebeu o nome da nadadora Joanna Maranhão, vítima de abuso de um treinador quando criança. 

Nas últimas décadas, a criação de varas especializadas em infância e juventude também colaboraram, mas ainda existem deficiências no atendimento especializado às vítimas, na tramitação do processo e no próprio julgamento, uma parte do emaranhado que é o sistema da Justiça brasileira com seus casos sem solução e de impunidade. Só que apesar de todo esse cenário, o primeiro passo, o da denúncia, necessita ser dado.

“Agora, você deve ter entendido que meninas não permanecem ‘pequenas’ para sempre, elas crescem e se transformam em mulheres fortes para destruir o seu mundo”. Essas palavras de uma das vítimas de Nassar servem como recado para o mundo: de que a fragilidade de uma garota (ou garoto) pode e deve ser convertida na bravura de quem sobrevive a um abuso. Encarando o fantasma que a assombrou por doloridos anos, Kyle Stephens divide diante dos presentes, da mídia e de centenas de milhares de pessoas que assistiram às suas declarações na Internet e na TV, aquilo que não deve ser silenciado. Que o esporte também não esqueça! 

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De Cristiane às ginastas dos EUA: na retrospectiva das mulheres no esporte, a palavra-chave é 'coragem'

Bibiana Bolson

Cristiane, durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro
Cristiane, durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro Getty

UFA!  Chegamos aos últimos dias desse intenso 2017. E enquanto vamos nos aproximando de um novo ano, iniciamos os planos, traçamos nossas metas e fazemos as nossas reflexões. Gosto da definição de Ano Novo dada no texto creditado a Carlos Drummond de Andrade, em que ele fala que “os doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. 

Então, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra adiante vai ser diferente”. É uma boa maneira de dizer: avante! Na retrospectiva das mulheres no esporte, a melhor palavra que encontrei para definir esses doze meses foi CORAGEM. 

Coragem da tenista que finalmente realizou o sonho de ser mãe, a super atleta, que iniciou o ano numa performance incrível no Australian Open, alcançando o título de número 23 em Grand Slam. Mal sabíamos que Serena Williams fez o que fez grávida de oito semanas! E a norte-americana retorna às quadras neste sábado, num torneio de exibição que até pouco tempo era disputado apenas por homens. Como sempre, ela, rainha! 

Começou em Hollywood, passou pela política e chegou ao esporte a forte corrente mundial que tem denunciado os abusos de monstros que cruzaram os caminhos de vítimas de assédio sexual. O “#MeToo” ('eu também', em inglês) deu força e voz às denúncias nas redes sociais para que as histórias fossem levadas a sério. Dor de muitas e dor dourada, como a das ginastas e estrelas norte-americanas que contaram sobre o ex-médico da seleção de ginástica dos EUA, Larry Nassar. Viva as corajosas McKayla Maroney, Aly Raisman, Gabby Douglas e tantas outras.

Serena Williams foi campeã do Australian Open em janeiro
Serena Williams foi campeã do Australian Open em janeiro PAUL CROCK/AFP/Getty Images

Coragem, aliás, não tem faltado a Pamela Chen, juíza responsável pelo maior caso de corrupção da história do futebol. Num ambiente fortemente dominado por homens, tem sido papel de uma mulher conduzir o julgamento de cartolas relacionados à Fifa e envolvidos num esquema milionário. 

Chen, a primeira lésbica de origem asiática a ocupar a função na Justiça federal dos Estados Unidos, é filha de imigrantes chineses, foi nomeada por Barack Obama e tem demonstrado ao longo do extenso julgamento na corte do Brooklyn ser muito competente e rígida. É ela quem vai definir a pena para José Maria Marin, ex presidente da CBF, acusado de receber propina.

Coragem para recomeços também marcou 2017. A russa Maria Sharapova retornou às quadras depois de cumprir suspensão por doping. Para quem achava que era a hora de a tenista sair do circuito, ela se esforçou por uma nova oportunidade, apesar das críticas e do ano difícil que teve.

O futebol feminino foi super destaque em números neste 2017. Recordes de audiência em África, Europa, Ásia... momento único! Mas foi o que aconteceu fora das quatro linhas que chamou mais atenção. 

Em setembro, nos emocionamos com a Cristiane, ao anunciar sua aposentadoria da seleção brasileira. A jogadora manifestou também sua insatisfação com a demissão de Emily Lima, primeira mulher a comandar o time no Brasil. Nasceu um manifesto, veio a tentativa de uma comissão especial na CBF e os percalços de sempre dessa luta que segue.  Não desistam meninas! 

Aly Raisman conquistou um ouro e duas pratas nos Jogos do Rio
Aly Raisman conquistou um ouro e duas pratas nos Jogos do Rio Getty

Na Argentina, as corajosas jogadoras do país se posicionaram sobre as condições de trabalho e os 150 pesos recebidos, cerca de R$27,00 por um dia de treino. Servir a seleção é, no caso das mulheres, ter que conciliar a rotina com outro emprego. 

Mundialmente, declarações e debate similares foram os passos dados em 2017 para uma jornada importante e contínua. Que a coragem de vocês siga expondo as federações que não apoiam as mulheres; que o diálogo seja aberto, franco, direto, nessa batalha, que como frisou Cristiane, pode não mudar a vida agora, mas mudará no futuro. 

Teve mais coragem! Anna Muzychuk, a bicampeã mundial de xadrez que se recusou a disputar o mundial na Arábia Saudita por não querer ser tratada como “objeto”, nem ter que vestir a abaya, a túnica tradicional que as sauditas são obrigadas a usar quando se apresentam em público. Com a desistência, a croata perdeu dois títulos mundiais conquistados anteriormente e chance de embolsar um prêmio de R$ 6 milhões. 

Que em 2018 continuemos com a nossa mesma coragem. Que se multipliquem as nossas conquistas, as nossas superações, os nossos exemplos! Um novo ano se aproxima, cheio de páginas em branco...vamos colorir?!

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Quando a maior disputa não é o set da partida: a vitória da jogadora transsexual Thiffany de Abreu

Bibiana Bolson

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Thiffany Pereira de Abreu nunca nasceu Rodrigo. Ao contrário do que constava na certidão de nascimento e na antiga carteira de identidade, verdade é que Rodrigo Pereira de Abreu já nasceu Thiffany. E por isso mesmo, desde muito cedo, ela sentiu o gosto amargo do preconceito. De família pobre do interior de Goiás, encontrou no vôlei uma possibilidade de realizar sonhos: o primeiro, ser profissional e estar em quadra, o segundo, que seria consequência, juntar dinheiro para se transformar naquilo que sempre foi, mulher.

Ainda como Rodrigo, chegou a atuar na liga profissional e quando conseguiu a quantia necessária para trocar de sexo, cerca de R$ 30 mil, teve que abandonar o vôlei em 2012. Pensava que uma transsexual não teria espaço na elite da liga feminina. Felizmente, estava errada, e o desfecho foi diferente. Um roteiro importante estava a espera de Thiffany.

Depois de passar em testes físicos que comprovaram que o nível de testosterona, o hormônio masculino presente no corpo, estava abaixo dos 10 nanogramas (ng), considerada a concentração média entre as mulheres, teve o aval da Federação Internacional de Vôlei para atuar em ligas femininas no início de 2017. Defendendo o Golem Palmi, na segunda divisão italiana, voltou para as quadras e então decidiu que era hora de retornar ao Brasil para aprimorar a parte física e, quem sabe, realizar outro sonho: atuar no país natal. Passou a treinar no interior de São Paulo até que recebesse a grande notícia: a confirmação de que poderia disputar a Superliga de Vôlei no Brasil.

Thiffany tornou-se a primeira transsexual a disputar a competição e a primeira palavra que vem a cabeça é SENSACIONAL. Quando leio “a primeira”, meu peito se enche de alegria, porque sabemos que isso representa um rompimento, uma conquista, significa a possibilidade de que ela possa ser “a primeira de muitas”, uma medida inclusiva e inédita na modalidade. Quando soube da notícia, passei a acompanhar os comentários nas redes sociais e, infelizmente, como esperado, vi muitos criticando, entre eles o da ex-jogadora de vôlei Ana Paula publicado no Twitter: “Não é preconceito, é fisiologia”, justificou. Será mesmo?!

Apesar de discordar da opinião da Ana Paula, decidi pesquisar um pouco mais sobre o tema. Queria saber quais foram os primeiros movimentos que aconteceram nesse sentido no esporte e como as pessoas reagiram a eles. Encontrei a notícia que nos Estados Unidos, depois de três anos de batalha, uma transsexual também recebeu a permissão para atuar no esporte neste ano. E tal qual aconteceu no Brasil nessa última semana, muitos torceram o nariz para a decisão. O argumento é sempre o mesmo: “é injusto com as adversárias, ela tem vantagens físicas em comparação a mulheres”. 

A comunidade científica também fica dividida sobre o tema. Apenas com a supressão hormonal, a “vantagem” é reduzida? Por outro lado, há pesquisas que mostram que a medida pode, inclusive, prejudicar o atleta. Joanna Harper, médica no Providence Portland Medical Center, em Oregon, que aconselhou o COI sobre suas últimas políticas de transgêneros, publicou um estudo em 2015 em que descobriu que a terapia hormonal fez com que os corredores de estradas biologicamente do sexo masculino ficassem bem mais lentos que as próprias mulheres. 

O estudo apontou que uma competidora trans ficou 12% mais lenta, executando apenas um ano de supressão de testosterona, por exemplo. Além disso, Harper estudou sete outros corredores de distância entre homens e mulheres que tiveram a mesma experiência. Enquanto esses atletas conseguiram manter a altura e a massa óssea no início de suas transições de supressão hormonal, todos os sete perderam massa muscular e, eventualmente, apresentaram níveis mais baixos de testosterona do que mulheres biológicas. 

Nos Estados Unidos, país em que na minha opinião as questões de gênero são tratadas com muito cuidado e recebem mais atenção do que no Brasil,  a ativista de direitos humanos e diretora do maior grupo que advoga em prol das causas LGBT, Ashland Johnson, disse em entrevista que é necessário que haja estudos a longo prazo sobre os atletas trans realizados durante a carreira no esporte. Johnson frisa que os níveis de testosterona não garantem resultados; existem muitas outras variáveis em torno de atletas trans que também precisam ser estudadas, como genética, idade e etnia.

A questão passou a ser avaliada pelo Comitê Olímpico Internacional em 2003, entendendo que o esporte, assim como a sociedade, precisava reconhecer o direito de igualdade para atuação de atletas trans, mas que seria necessário passarem por uma terapia de reposição hormonal por pelo menos dois anos antes da competição. Constavam também os requisitos de cirurgia de reconstrução genital e os documentos legais. 

No ano anterior aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, o COI mudou esses requisitos na tentativa de tornar a competição mais inclusiva, determinando que as mulheres trans não representam uma vantagem injusta no esporte, desde que os níveis de testosterona sejam compatíveis, e excluiu o processo cirúrgico, entendendo que não tinha nenhum impacto sobre o desempenho de um atleta. 

Não há dados específicos sobre o número total de atletas trans que estão competindo em nível de elite, mas alguns casos de atuação de transgêneros já aconteceram em competições internacionais.  Em 2016, o americano Chris Mosier tornou-se o primeiro homem trans a competir no mundial da modalidade duatlo. No mesmo ano, duas mulheres trans se qualificaram para competir na Olimpíada do Rio representando a Grã-Bretanha, mas acabaram não vindo ao Brasil, porque temiam ser "expostas e ridiculizadas". 

E apesar dos questionamentos sobre como, de fato, o status biológico pode interferir no esporte e da necessidade de estudos mais profundos que consigam dar uma dimensão maior dos próprios efeitos da supressão hormonal, é esse medo do ridículo e da exposição que não pode der vivenciado por atletas trans (ou por qualquer transsexual)! Acredito que a compreensão e aceitação de que Thiffany nunca nasceu Rodrigo é muito mais importante do que o argumento de “injusto”, de “vantagem”...  

Proponho o caminho contrário: não seria, então, elemento de “vantagem” para aqueles que nasceram e cresceram sem se sentir estranhos dentro do próprio corpo? Qual a vantagem emocional daqueles que nunca sofreram com o preconceito? Daqueles que não receberam olhares na rua, na escola, na vida? O exercício de tentar se imaginar na pele do outro é sempre válido. O esporte tem que ser justo, mas tem também que ser inclusivo. Solo, chão, base, para aquilo que queremos para a sociedade atual e futuras gerações: igualdade! 

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Entre plies e batalhas: a história da primeira brasileira negra do Dance Theatre of Harlem

Bibiana Bolson

Brasileira Ingrid Silva é estrela do balé em Nova Iorque
Brasileira Ingrid Silva é estrela do balé em Nova Iorque Divulgação

Seja pelo sorriso largo presente em cada frase ou pelos movimentos delicados que fazem parecer fácil "flutuar" no balé, apenas observar Ingrid Silva já seria apaixonante. Ouvi-lá é uma verdadeira aula de motivação. Ao cruzar as fronteiras de um Brasil imenso, onde a desigualdade é gritante e a pobreza está tão presente e insiste em impedir que muitos tenham acesso aos direitos básicos de todo cidadão, Ingrid tornou-se uma vencedora nos Estados Unidos.

Aliás, como sabemos, são milhares os brasileiros que chegam à terra do Tio Sam à procura de recomeços. Imigrantes que estudam, trabalham e movimentam a economia do País nos mais variados setores, dando um duro danado para ajudar familiares que seguem no Brasil ou que vivem por perto. Com seus quase 10 milhões de habitantes, Nova Iorque é casa do mundo, uma capital universal, cantinho também da Ingrid.

Em meio a tanta gente, fui apresentada à história dessa jovem de 28 anos, que assim como os compatriotas, também chegou aos EUA em busca de chances que talvez não tivesse em solo brasileiro. Mas esse enredo vai além disso... É a história exemplar de uma bailarina que veio de um país que não tem tradição na dança clássica e em que se pode contar nos dedos quais foram os principais nomes que se destacaram no balé. 

E ao romper a primeira barreira de persistir naquilo que é para poucos, Ingrid virou a primeira bailarina negra do Brasil a chegar no "Dance Theatre of Harlem", importante companhia de dança de Nova Iorque conhecida pela diversidade cultural e racial de seu elenco. 

Tudo começou em meados de 1997. Quando ainda era moradora de Benfica, subúrbio do Rio de Janeiro, aos oito anos, Ingrid ingressou nas aulas de balé.

"Um vizinho nosso disse que na Vila Olímpica da Mangueira iria abrir uma aula de balé. Eu era tão novinha que não tinha muita noção sobre o que estava fazendo. Foi com 12 anos que passei a respirar balé, treinar muito. A conversa com a minha professora da época, Edy Diegues, mudou minha vida e o que eu queria para ela". 

Ela nasceu em Benfica, subúrbio do RJ; aos oito anos, entrou para o balé
Ela nasceu em Benfica, subúrbio do RJ; aos oito anos, entrou para o balé Divulgação

Quando a rotina de treinos ficou mais intensa no Brasil, a mãe de Ingrid teve que parar de trabalhar. As bolsas de estudo em companhias de dança ajudavam no sustento da casa (ela recebeu bolsas para a Escola Estadual de Dança Maria Olenewa e o Centro de Movimento Deborah Colker). Enquanto a maioria se divertia na rua, Ingrid ensaiava duro, viajava por todo o País dançando, até que uma grande chance bateu à sua porta, aos 18 anos.

"Quando surgiu a oportunidade de vir para os Estados Unidos, pensei muito no que minha mãe sempre me dizia: 'filha, eu te crio para o mundo!', mas claro que foi um baque grande essa mudança por não falar inglês. Nem sei como consegui chegar em casa no meu primeiro dia em Nova Iorque. Um anjo da guarda me explicou como pegar o metrô, como me mover por aqui. Eu não era a menina que tinha dinheiro suficiente para um táxi do aeroporto, que passaria pela Times Square para admirar as luzes a noite... era a menina que precisava economizar para comer com um sentimento de medo pelo desconhecido, um começo de uma luta."    



Ao chegar no Dance Theater of Harlem, a sensação de que até hoje se lembra com detalhes...

"A primeira coisa que pensei foi U-A-U, que lugar maravilhoso! E que mensagem linda eu ter chegado até aqui....uma companhia reconhecida, que hoje é super diversa e tem dois brasileiros. Essa diversidade foi muito importante e me fortaleceu!"

Ingrid tem se dedicado a projetos que vão além da dança. Nos quase dez anos morando nos Estados Unidos, participou de turnês mundiais, foi fotografada por nomes conhecidos, integrou campanhas de marcas globais e tem visto em sua própria trajetória no balé uma oportunidade de desenvolver ações que estimulem a autoestima das mulheres e a valorização da dança, como declara orgulhosa.

" A Ingrid, hoje, é uma ativista, feminista... ainda penso muito no quanto eu queria ver o Brasil oportunizando outras meninas a seguirem um caminho parecido com o que percorri. Não conheço nenhuma bailarina brasileira negra em companhias nacionais. A gente teve que sair do Brasil para correr atrás desse sonhos. Falta oportunidades, falta pessoas que criem coragem de seguir até o final por diversos motivos... ou a família não apoia ou, às vezes, não tem dinheiro, não tem condições, e isso é muito complicado, e mesmo as que têm, não acreditam nesse sonho que sim, se realiza. Acho que tudo que passei pode ser usado para mudar a vida de muita gente, inclusive a minha." 

É nesse momento que a expressão tranquila de Ingrid ganha um ar preocupado. É que o assunto incomoda a bailarina, incomoda quem é apaixonado por arte e vê a desvalorização dela no Brasil. "Faltam projetos que valorizem a dança. O Dançando para não Dançar, projeto que fiz parte,  foi criado há mais de vinte anos e mesmo assim, hoje passa por dificuldades sem patrocínios. Fico pensando para onde essas crianças vão? A escola oferece a educação, mas falta arte no Brasil, falta ajudar a tirar muita gente da rua."

Quando a sorte sorriu para Ingrid, ela agradeceu com trabalho. Conforme os sonhos foram sendo realizados ao longo de quase uma década fora, a figura importante e grande incentivadora de Ingrid ainda não pôde ver a filha se apresentar no exterior. Com olhos marejados, de quem sabe das batalhas diárias que enfrenta e como supera a imensa saudade de casa, Ingrid me conta que quer muito trazer a mãe para acompanhar um de seus espetáculos. 

"Isso é algo que quero muito. A presença dela aqui. Minha mãe é a responsável por tudo o que construí, dá muita saudades, mas muitas coisas me conectam ao Brasil ainda. Por exemplo, a novela! Eu sou louca por novela brasileira... ah, tem comida também.... a gente faz feijoada para os amigos quando dá."

A jovem de 28 anos é a primeira brasileira negra do Dance Theatre of Harlem
A jovem de 28 anos é a primeira brasileira negra do Dance Theatre of Harlem Divulgação

A menina de Benfica conta, também, como se sente honrada de servir de inspiração para outras mulheres.    

"Recebo muitas mensagens nas redes sociais, falando do meu cabelo, da minha pele, da inspiração para outras mulheres negras. Recentemente, soube que as crianças nas escolas no Brasil estavam fazendo trabalhos sobre mim (no mês da consciência negra no Brasil). Eu nunca imaginei na vida ser pauta de ninguém. Quando eu estudava, não tinha ninguém como exemplo e hoje me tornei um desses exemplos."    

Não é para menos... o ano de 2017 teve outro marco significativo para Ingrid: ela foi capa da Pointe Magazine, uma das revistas de balé mais famosas dos Estados Unidos. "Estampar uma capa tem todo o glamour de ser clicada, de tirar fotos lindas,  mas a mensagem que mais gosto é a de ser a primeira negra brasileira na capa da revista. Isso foi muito revolucionário. Acho que é muito importante porque demorou tanto tempo, tantos anos para que isso acontecesse". 

Com o mesmo sorriso que me recebeu ao abrir a porta, Ingrid agradece a oportunidade de falar com o blog, entre uma lambida e outra da cachorrinha de estimação, Frida, inquieta enquanto a "mãe" está concentrada em nossa conversa. Ingrid lembra-se do vídeo do qual participou recentemente no núcleo do espnW Latino e que compartilho aqui com vocês:

Bravo, Ingrid! 

De Benfica para um mundo sem fronteiras! 

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O apoio incondicional de um pai e o recorde de audiência na televisão espanhola com o futebol feminino

Bibiana Bolson

A brasileira Andress Alves defende as cores do Barcelona
A brasileira Andress Alves defende as cores do Barcelona Getty

Meus pais sempre foram fundamentais para todas as decisões que tomei. Das escolhas profissionais aos passos mais ousados na vida adulta, eles sempre souberam dizer "não" quando necessário e incentivar com o "vai em frente, filha!"

 No esporte, o incentivo de um familiar pode mudar toda a trajetória de um atleta. Ou ainda de um tutor, um mestre, alguém que sirva de base, que seja uma espécie de conselheiro e eterno incentivador.  

Nadal tem, em seu tio, treinador, parceiro, o cara que o lapidou. Gabriel Medina tem o padrasto, responsável pelas primeiras ondas, Charles fez do brasileiro o primeiro campeão mundial do país! Colocou o Brasil na elite do surfe. Rafaela Silva, apoiada por Geraldo Bernardes, experiente Sensei, foi campeã mundial e conquistou o primeiro ouro brasileiro do judô feminino em uma Olimpíada (e foi em casa). 

André Agassi, um dos caras que muito admiro no tênis, contou em sua biografia sobre o amor e ódio pelo esporte, aliás, uma das mais sinceras biografias que eu já li. Agassi relata a relação com o pai , que praticamente o forçou a percorrer o caminho do tênis profissional. Enfim, citando apenas alguns, afinal, a lista de "influenciadores" é grande.

Andressa Alves, titular da seleção brasileira e da equipe feminina do Barcelona, é um desses exemplos de alguém que  pôde contar com o pai, seu João Batista. É uma dessas histórias que rompem as barreiras do preconceito de pensar que apenas meninos podem jogar futebol, é a história de uma meia-atacante que teve, na família, o incentivo que necessitou ao longo dos anos para seguir em frente. 

E nesse último domingo, diante de milhares de telespectadores, a brasileira agradeceu todo o esforço de Batista. Andressa fez o único gol da equipe catalã no clássico contra o Atlético de Madrid. Na comemoração, a jogadora correu em direção à câmera para dedicar o feito ao pai, que completou 53 anos no mesmo dia.

Seu João foi quem acompanhou a atleta no primeiro teste no Juventus-SP, foi ele, também, que chegou a perder uma semana de trabalho até que a filha aprendesse a andar de metrô, um "professor" persistente que ajudou a filha a crescer no esporte, mesmo ciente das dificuldades passadas pelas mulheres no futebol e do preconceito que sofrem ao escolher essa profissão.

"Ele é o cara! Meu pai sempre trabalhou arduamente para não faltar nada para a gente dentro de casa. Mesmo assim, sempre arrumava um jeito de acompanhar os meus treinos e jogos. Foi ele quem me incentivou desde o início e me apoiou na escolha de batalhar para ser uma jogadora profissional. Fiquei feliz em dobro por ter marcado esse gol no maior confronto do campeonato e poder fazer uma homenagem para ele, que merece muito. Dediquei para meu pai não só pelo aniversário, mas sim pela pessoa que foi e ainda é para mim. Se estou aqui hoje, é porque ele esteve ao meu lado desde o início. Creio que isso resume um pouco a minha grande admiração pelo meu pai”, disse emocionada a jogadora.

Dedicatória mais do que especial num jogo que representou um grande momento: a partida foi recorde de audiência na televisão espanhola. O empate pelo placar de 1x1 no clássico entre Barcelona e Atlético de Madrid pela Liga Iberdrola - o Campeonato Espanhol Feminino - registrou os melhores números na história da competição até então, com 247 mil pessoas assistindo à disputa - a melhor marca alcançada era de 146 mil telespectadores, na temporada passada.

"O clássico Barça x Atlético vem sendo um espetáculo do futebol feminino e tem recebido uma divulgação cada vez mais bacana por parte da organizadora da liga. Fiquei extremamente feliz quando soube que o jogo bateu o novo recorde de audiência em uma partida de futebol feminino espanhol. É gratificante ver que as pessoas estão cada vez mais interessadas em nos ver jogando! Isso nos dá um entusiasmo cada vez maior, e torço muito para que essa evolução que tenho visto aqui na Espanha aconteça também no Brasil”, ressaltou a brasileira. 

Andressa já marcou 12 gols na temporada, é considerada uma das jogadoras mais importantes do Barcelona e é um orgulho não apenas para o seu João, mas para todos nós! Que outras conquistas venham para ela e para o futebol feminino!

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O apoio incondicional de um pai e o recorde de audiência na televisão espanhola com o futebol feminino

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Sobreviventes dos atentados da Maratona de Boston concedem a primeira bolsa de estudos para a BCS

Bibiana Bolson

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Nessa semana, estive pela primeira vez em Boston, nos Estados Unidos, e fiquei encantada com a cidade, um lugar charmoso, que apesar do tamanho, preserva um pouco do ritmo "slowdown", o tempo passa devagar nas ruas cobertas pelas folhas do finalzinho do outono.

Com inúmeros pontos turísticos para visitar e atrativos, Boston faz parte de um capítulo importante da história dos Estados Unidos, a cidade foi palco da Revolta do Chá, quando um grupo de colonos britânicos disfarçados de índios entrou num barco da Companhia das Índias e atirou a carga, sacos de chá, para o mar. Eles protestavam contra uma lei do Parlamento em Londres que subia o imposto sobre o chá, por considerarem que só os seus representantes podiam aprová-la. 

O episódio emblemático abriu o caminho à revolução americana. Dois anos depois, no mesmo local, começaria a guerra pela independência. Boston é também a rota de universitários, faz fronteira com Cambridge, onde estão  renomados MIT e Harvard.  

Durante os dias em que estive na cidade, entre idas ao Quincy Market, mercado gastronômico, belos parques e bares com jazz e muito blues, uma manchete do jornal local (eu adoro ler jornais das cidades que visito) chamou a minha atenção: falava sobre uma bolsa concedida para estudar no Boston College.

Bem, essa poderia ser uma história qualquer, alguém que recebe uma bolsa como recompensa pelo esforço nos estudos, mas essa notícia tinha um lindo roteiro envolvido...era sobre como transformar um ferida aberta há 4 anos em recomeços.

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Em 2013, Boston foi cenário de  filme de terror da vida real, dois atentados durante a conhecida Maratona que acontece no lugar deixaram três mortos e mais de 200 feridos com a explosão de duas bombas. A maioria das vítimas daquele triste capítulo teve sequelas no corpo, com amputações de membros, mas também marcas psicológicas. Sabemos, é algo muito traumático estar diante de cenas tão terríveis, a morte, o choro, o desespero, as perdas...uma dor difícil de superar.

Depois da tragédia, a cidade se mobilizou de diversas maneiras, alguns fundos foram criados para arrecadar quantias em dinheiro que pudessem ajudar as vítimas dos atentados, por exemplo, entre essas mobilizações, a educação, símbolo de Boston e arredores, representou a possibilidade de oferecer bolsas em memória àqueles que partiram ou que, felizmente, sobreviveram. 

Em homenagem a um companheiro de classe, Patrick Downes e a esposa Jessica Kensky, a turma de 2005 do BC arrecadou cerca de 250 mil dólares para uma bolsa de estudo que desse preferência para um estudante com necessidade financeira comprovada e uma deficiência física; para um aluno que tenha qualidades como compaixão e que preste serviço à comunidade; ou um estudante que tenha superado uma adversidade. 

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Patrick Downes e Jessica Kensky, os dois sobreviventes, tem dado um bravo exemplo de recomeço. E, agora, anos depois do atentado, premiam um outro tipo de sobrevivente: eles escolheram Jack Manning para receber a "Boston College Scholarship Strong" pela perseverança diante das adversidades. Manning, há dez anos, perdeu a perna por conta de um câncer, desde então se tornou voluntário para apoiar e orientar jovens pacientes em situações similares. 

A tragédia que transformou a vida do casal fez com que eles passassem também a se envolver diretamente com outras histórias de pessoas que passaram por traumas. Eles tem usado a influência e a experiência na causa para buscar melhores condições para amputados que precisam de suporte. 

Impressionante como histórias se cruzam e como temos diante de nossos olhos diariamente exemplos de superação. Patrick, Jessica e Jack são inspiradores. Ah, os três ainda praticam esportes e isso é mágico!

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Sobreviventes dos atentados da Maratona de Boston concedem a primeira bolsa de estudos para a BCS

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Guerrilla Girls: um encontro entre arte e futebol

Bibiana Bolson

Mulheres precisam estar nuas para aparecerem no MASP?
Mulheres precisam estar nuas para aparecerem no MASP? Divulgação

É das paredes do MASP (Museu de Arte de São Paulo) que vem minha inspiração para a coluna de hoje. Muitas vezes, as coisas precisam estar ali, estampadas, para que a gente reflita sobre assuntos que, na verdade, sempre estiveram diante de nossos olhos e não víamos com a devida atenção. Falo da inspiradora exposição "Guerrilla Girls: Gráfica 1985-2017", a linda mostra que é guiada por duas letras: F, maiúsculo, de FEMINISMO, e o M, também gigante, de MULHER. 


Contextualizando:

O Guerrilla Girls, movimento coletivo criado em Nova York em 1985, influencia a arte com mensagens consistentes há bastante tempo, com atitude heterodoxa, bem humorada e visual chocante. O grupo, composto por artistas mulheres, usa números/manchetes/fatos para expor sexismo, racismo e corrupção no mundo da arte, na política e na cultura pop. É sobre aquilo que está nas entrelinhas, no subtexto, sobre o que se faz vista grossa, o injusto, conforme declarou em entrevista pra o Estado de São Paulo a guerrilheira que se apresenta como Käthe Kollwitz. 

No passeio cultural no Masp, os mais de 100 cartazes produzidos ao longo de três décadas expressam com esse humor "ácido" e com estatísticas a arrasadora realidade do preconceito às mulheres. E, se falamos de um real preconceito em várias esferas, é claro que arte também é atingida em cheio ao quantificamos as oportunidades que artistas femininas tiveram de expor sua arte nos maiores e mais renomados museus do mundo. 


E de como o corpo, a nudez feminina, se faz presente com intensidade nesses casos. Para se ter uma ideia, eis o contraste entre o pequeno número de artistas mulheres comparado ao grande número de nus femininos da coleção em exibição no Metropolitan Museum de Nova York (5% e 85% em 1989, e 4% e 76% em 2012) e no próprio MASP (6% e 60% em 2017).

 ****Destaco que, no Brasil, tivemos grandes expoentes femininos da arte: um privilégio de quem é berço das modernistas Tarsila do Amaral e Anita Malfatti e de outras que vieram depois como Lygia Clark, Lygia Pape e Mira Schendel, talvez mais desconhecidas para o grande público.

Essa exposição aparece em minha vida numa semana em que a força das mulheres se fez também presente numa reunião da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), uma oportunidade única de se discutir o futebol feminino e de se exigir melhores condições para a modalidade com a criação de um comitê para o desenvolvimento do esporte, baseado numa cartilha inicial muito bem elaborada.

Andressa, Cristiane e Marta na seleção
Andressa, Cristiane e Marta na seleção Getty

Estamos falando de inclusão, de oportunidade, de igualdade, de melhores condições, de transparência, de espaço, de investimento, de organização, de crescimento, falamos de tanta coisa, mas principalmente de MULHERES com "M" maiúsculo (e de Feminismo também). Penso que se essas guerreiras que hoje comandam esse movimento histórico que foi bater à porta da CBF fossem expor nas paredes do MASP ou de qualquer outro museu, suas lutas, seriam elas um pouco de "Guerrilla Girls do esporte".  

Há uma riqueza cultural tão grande em nossa história brasileira relacionando a identidade do nosso povo a esse esporte que move multidões... Somos abastecidos com informações sobre a bola desde os nossos primeiros "suspiros" no mundo. Futebol é tão parte de todos nós, gostando ou não da modalidade, que nada mais justo que tratemos o futebol feminino da mesma maneira que tratamos o masculino. 

Óbvio que mudanças levam tempo, mas verdade é que essas alterações precisam ser comandadas por pessoas qualificadas, que entendam do que falam para que possam também se fazerem compreendidas, cobrar por medidas e conseguir resultados esperados. Quem mais pode fazer isso senão aquelas que VIVEM intensamente o futebol feminino?!

Vale o sacrifício dessas atletas que preferem se aposentar da seleção brasileira a estarem em condições precárias. Lembro, ainda, que vale muito o esforço de uma ex jogadora como a querida amiga Amanda Moura que deixou uma carreira nos Estados Unidos, se qualificou e retornou ao Brasil influenciada por um conceito norte-americano de gestão esportiva para usar de sua expertise para aplicar na educação, nos projetos pensados para o futebol feminino, na base, nas próximas gerações e nas que já estão por aí brilhando sem o mesmo brilho/oportunidades que homens têm. Uma mineira que tem o sonho de levar o Brasil ao patamar de referência. É preciso acreditar!

Neste momento, é exatamente para isso que estamos torcendo. Diante de nossos olhos, o pedido de "vamos tratar o futebol feminino com a atenção que ele merece, país do futebol!". Um salve às Cristianes, Julianas, Amandas, Formigas e outras tantas envolvidas nessa luta! 

Women power!

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Aposentada, Fofão estuda marketing, prepara autobiografia e revela vergonha pela Rio-2016

Bibiana Bolson

Fofão está estudando marketing e preparando sua autobiografia
Fofão está estudando marketing e preparando sua autobiografia Gazeta Press

Tenho que reconhecer que a minha paixão por esportes é fruto de todos os estímulos que recebi dos meus pais na infância. Lembro com saudades das manhãs em que, juntos, assistíamos à Fórmula 1, das tardes de futebol com meu pai e meu irmão mais novo, das idas ao estádio, da 'Olimpíada' que organizávamos no pátio da minha casa no interior do Rio Grande do Sul, de como Copa do Mundo e qualquer outra competição se tornavam um grande evento na família Bolson. 

 A escola também teve um papel fundamental, e foi a experiência como levantadora do time do colégio que me ensinou algumas das lições que até hoje carrego. Eu nunca fui boa jogadora, mas era bastante esforçada e sentia uma felicidade  gigantesca em estar uniformizada, treinando. 

Fazer parte do time do Rui Barbosa (escola em que estudei em Giruá) representava uma vitória: a da menina magrinha de pernas tortas que, por alguns minutos em quadra, se sentia muito forte. Era lição para a mesma menina que tinha que entender que o treinador precisa fazer escolhas e que nem sempre você estará entre elas. Portanto, aproveite quando chegar sua hora. Treine, erre e erga a cabeça! 

Minha mãe, apaixonada por vôlei, foi uma das minhas maiores incentivadoras na modalidade. Sabia que eu não era boa, que não teria uma carreira, mas me levou para treinos, tanto nas piscinas (nadei por anos), quanto nas quadras.

Essas lembranças de criança fizeram com que minha admiração por uma jogadora da seleção brasileira, em especial, atravessasse os anos. Em três décadas de esforço, de treinamento, de paciência, de recomeços e, claro, de conquistas, Fofão virou uma referência no esporte e é difícil não tê-la como um exemplo de mulher inspiradora.

Fofão esteve em cinco edições de Jogos Olímpicos, conquistou dois bronzes (1996 e 2000) e o ouro em Pequim-2008. Foi campeã mundial, eleita a melhor jogadora de inúmeras competições e recebeu, também, o título de melhor do mundo. Ah, está no Hall da Fama do Esporte (para poucos)!

 Tudo fruto de tolerância e persistência, como bem definiu Zé Roberto Guimarães, treinador tricampeão olímpico. Fofão soube assimilar o que aconteceu ao longo dos anos. Se não era extremamente talentosa, insistiu com inteligência porque sabia que com trabalho e tempo o sucesso chegaria, disse Zé.

Fofão foi campeã olímpica pela seleção brasileira, em Pequim-2008
Fofão foi campeã olímpica pela seleção brasileira, em Pequim-2008 Divulgação

É isso. Fofão representa mesmo, para o Brasil, um daqueles exemplos dos quais reclamamos no dia-a-dia que estamos carentes: as pessoas querem tudo com imediatismo, querem os resultados para agora e nem sempre se preparam para colher os frutos... 

 Tempo...Tempo, Senhor da Razão! Fui ver o tão esperado ouro do Brasil (em 1992, eu tinha apenas três anos) quando já estudava Jornalismo, em 2008, mas claro que a vibração foi gigante! E Fofão estava lá. Depois, como repórter, tive a oportunidade de conhecer a jogadora de pertinho e cobrir o jogo em que a história de três décadas passou como um filme pela cabeça da camisa 7. Foi a partida em que Fofão se despediu das quadras, no décimo título do Rio de Janeiro na Superliga, em 2015.

A mais vitoriosa jogadora de vôlei do Brasil, a mulher guerreira, disciplinada, campeã olímpica conversou comigo sobre sua carreira, sobre a Hélia Souza (seu nome), aposentadoria e outros assuntos.

espnW: Fofão, queria que você compartilhasse conosco como foram os primeiros dias depois que parou de jogar...
Fofão: Eu lembro que dormi dois dias seguidos, tava muito cansada. Foi muita energia no último jogo, uma carga emocional muito grande. Então, era um sono acumulado. Meu marido me perguntava se eu estava doente, triste, mas não era isso, eu só queria descansar. Depois é que começa a cair a ficha sobre o que você vai fazer, sobre ter que se habituar com o que vai viver. Eu me preparei para parar, mas não me preparei para o "o que vou fazer depois", sobre o que ia fazer logo em seguida. Tive dois meses para trabalhar isso em mim, começar a colocar em prática. Me chamaram para eventos, foi muita correria. Aí, depois, veio a vontade de voltar a estudar (está cursando Marketing), de fazer cursos para ocupar a cabeça. 

espnW: Qual a sua maior saudade?
Fofão: Tenho saudades do dia-a-dia... viver como uma ex-atleta é muito diferente. Enquanto jogadora, apesar da rotina de treinos, cada dia a gente vivia uma coisa diferente, e tem a convivência com outras jogadoras, aquela sensação de pressão frequente. É estranho não sentir mais a sensação do coração disparar, vou morrer e não vou mais ter essa adrenalina. Sinto muita falta daquela emoção do que é estar em uma quadra. 

Fofão: Você pode viver! Pode cuidar de você, de quem você ama.. O atleta sempre acha que não há vida depois da aposentadoria, mas há (risos). Você vai se redescobrindo, muda totalmente tudo, você tem que se cuidar mais, é uma mudança intensa. Mas é tão bom poder ter um domingo com a família, almoço tranquilo, são pequenas coisas que a gente curte muito e que são importantes. 

espnW: Fofão, resiliência, persistência, determinação, são palavras que combinam muito com você e sua história. Você se enxerga assim?   
Fofão: Acho que sempre fui muito marcada por isso. As pessoas que acompanharam a minha história sabem... eu acho que a minha carreira foi feita disso, é muito difícil esperar a sua vez, se preparando, sendo reserva, acreditando que a hora vai chegar. Vivi várias situações que as pessoas não teriam tanta paciência. Tudo foi aprendizado. Se passei por isso, foi pra me fortalecer. Há uma razão de ter encarado essas dificuldades e os apertos.

espnW: Tem algum arrependimento?
Fofão: Não tenho arrependimento. Tudo aconteceu da maneira que tinha que ser, minha vida foi escrita de uma maneira muito perfeita, porque eu nem imaginava que pudesse chegar aonde cheguei. Foi o sofrimento de lesões, de ser reserva, de ficar longe da família. Isso faz parte de um processo que temos que viver para chegar a algum lugar. Quem quer chegar, tem que sofrer para chegar, se fortalece mais.

espnW: Recentemente, a prisão de Nuzman (ex-presidente do COB) expôs ainda mais uma realidade que todos lamentamos: a corrupção na escolha do Rio de Janeiro como sede olímpica, o tráfico de influência, o legado olímpico marcado pelas obras superfaturadas e, hoje, abandonadas... Como você se sente diante disso tudo?
Fofão: Para nós que somos atletas é muito triste. A gente imagina a corrupção na política, mas nunca imagina que dentro do esporte vai ter essa situação. Quando atinge direto o esporte, é chocante. O atleta é muito guerreiro, vai para competições com esforços próprios, sem patrocínio, muitas vezes com dinheiro do próprio bolso, luta para sobreviver dentro do esporte... e aí, você vê dirigentes que deveriam estar pensando naqueles que entregam tudo em campo, em quadra, nas mais variadas modalidades, mas que estão enriquecendo e nos envergonhando.

Fofão se despediu das quadras em 2015, em jogo da Superliga pelo Rio de Janeiro
Fofão se despediu das quadras em 2015, em jogo da Superliga pelo Rio de Janeiro Gazeta Press

espnW: O Nuzman é uma decepção para você?
Fofão: Com certeza. Conheci ele muito nova, vi o quanto ele fez pelo esporte, mas agora está pagando pelo que fez (Nuzman está preso, suspeito de negociar a compra de votos para a eleição do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016). O esporte brasileiro é maior do que isso, não merece ficar manchado pelo que aconteceu!

espnW: Curiosamente, ele, certa vez, disse em entrevista que faltava ambição aos atletas brasileiros, que se contentavam com pouco.  Criticou o lado psicológico dos esportistas do Brasil. Hoje, a ambição pelo poder e pelo dinheiro colocou Nuzman atrás das grades. Como é saber disso, Fofão?
Fofão: É claro que um atleta não entra para perder ou para fazer feio numa competição, mas a gente não sabe em que condições esses atletas conseguiram chegar aonde chegaram. Como já disse, muitos chegam para competir sem ajuda, sem patrocinadores, não é fácil ser atleta no Brasil. É um orgulho, uma vitória, apenas o fato de ser atleta por aqui.

espnW: Qual o sentimento sobre o Rio-2016?
Fofão: Eu falava, antes da Olimpíada, que não gostaria de ter essa no Brasil. Sabia como era viver uma Olimpíada, tinha participado de cinco. Sabia como exige do país em termos de investimento. Mas quando o Brasil foi aprovado, aceitei. Acontece que foi bem pior do que eu imaginava. A Olimpíada no Brasil não deixou legado, não teve nada de positivo. A expectativa era que, de alguma forma, fosse implantado algo bom para o esporte, que o esporte crescesse, recebesse a atenção que merece para a atual e as próximas gerações, mas vimos o contrário... instalações abandonadas, Parque Olímpico nas condições que sabemos, uma vergonha para todos!

Fofão está no Hall da Fama, ao lado de Bebeto e Renan Dal Zotto
Fofão está no Hall da Fama, ao lado de Bebeto e Renan Dal Zotto Divulgação/CBV

espnW: Quais são seus planos daqui para frente, Fofão?
Fofão: Segue bem corrido. Tenho os projetos de escolinha de vôlei. A gente sai do vôlei, mas está sempre envolvida. Acabo viajando bastante. Por conta das minhas vivências, tenho oportunidade de levar coisas positivas para as pessoas. Estou trabalhando na minha autobiografia. Vou lançar meu livro no ano que vem e um documentário também. São inúmeros projetos. Tomara que eu consiga realizar todos.

espnW: Como você vê seu papel como mulher na sociedade?
Fofão: Eu acho que a minha história tem varias coisas representativas para a mulher, vários tipos de luta. Muitos conhecem minha história desde o início, outros conhecem mais no finalzinho. Sei o quanto as pessoas respeitam tudo o que eu fiz no vôlei. Vejo isso como uma responsabilidade muito grande. Sinto que as pessoas olham para mim como uma inspiração. É uma coisa positiva, as pessoas querem se inspirar em mim. Eu vim de uma família humilde, sou negra, mulher, mas nada disso me impediu de chegar aonde cheguei! Falo sempre que você pode vencer independentemente da sua condição social. Persista naquilo que você acredita! 

Antes de encerrar a entrevista, conto para a Fofão sobre os meus tempos de "péssima" jogadora e de como já vibrei com as conquistas dela em quadra com a seleção. Falo, então, que ela tem também uma outra grande fã, dona Simone, minha mãe. Fofão, se despede educadíssima, alto astral, mandando um beijo para ela. Que mulher é a Hélia Souza!

 

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Glúten free, a 'dieta mágica' de Djokovic, Venus Williams e Cristiano Ronaldo

Bibiana Bolson

Venus Williams é adepta da dieta sem glúten
Venus Williams é adepta da dieta sem glúten Getty

Quase onze horas da noite, penso comigo mesma: "nossa, como eu preciso desesperadamente de um hambúrguer. Um pedaço de pizza. Um bolo de sobremesa também, por favor! Os três, vai, terminei um dia exaustivo de cobertura do Brasileirão, comer é celebrar! (assim funciona meu cérebro, muitas vezes)".

Florianópolis, Santa Catarina. 08h05 da manhã. Entrevista marcada com um técnico, duas entradas ao vivo e um boletim. E eu, imóvel na cama do hotel, com muita dor e a sensação de que a minha cabeça pesava dez toneladas. Enjoo, dor, idas frequentes ao banheiro, já são seis meses sentindo esporadicamente esses sintomas. "Preciso ir ao médico", pensei.  Levantei da cama e achei que não conseguiria trabalhar.


Alguns dias depois, vários exames e o diagnóstico: "Bibiana, você tem doença celíaca". PAUSA. PAUSA DRAMÁTICA. Recomendações: "Você vai ter que viver com uma dieta rígida sem glúten, a proteína que se encontra em cereais como trigo e cevada". 

* O glúten, ao entrar em contato com o organismo do celíaco, desencadeia uma resposta imunológica no intestino delgado. Essa resposta produzirá, com o tempo, inflamação, causando danos ao intestino e dificultando a absorção de diversos nutrientes.

Primeiro pensamento foi "OK, vou emagrecer, quem precisa comer pão?!". Pois não é SÓ pão. São massas, condimentos, até no pobre ketchup, na coitada da salsicha, no sorvete, no pastel, no chocolate... afinal, quem inventou o glúten?! E por que justo agora essa doença?! Cerca de 40% da população possui o marcador de risco genético para desenvolvimento da doença celíaca, apenas 1% dessas pessoas desenvolve a doença. Bem-vindos ao clube, aquele um porcento!!!!

Tenho certeza de que muitos vão se identificar com essa situação. Aqueles que descobrem de forma tardia uma doença que impacta diretamente na rotina. Imagine, então, quando os sintomas fazem parte do dia-a-dia de um atleta?!

Antes de se tornar o número 1 do mundo do tênis, posto que ocupou por diversas temporadas, o sérvio Novak Djokovic era um celíaco que ainda não havia descoberto a doença. Um episódio marcante nas quartas-de-final do Australian Open-2010 mudou radicalmente a vida de Djoko. Ele dominava a partida contra Tsonga, mas teve que sair às pressas para os vestiários. Com uma crise de vômito intensa, esgotado, retornou à quadra, mas foi derrotado. Uma derrota apenas no jogo, porque um novo capítulo (e muito vitorioso) estava reservado para o atleta. 

Novak Djokovic tem a doença celíaca
Novak Djokovic tem a doença celíaca EFE/EPA/CAROLINE BLUMBERG

Depois que Djoko foi diagnosticado com a doença e iniciou uma nova dieta, o rendimento do tenista passou por uma melhora incrível. As mudanças começaram pelo corpo: perdeu peso, mas com uma absorção adequada de nutrientes, o esforço na quadra também passou a ser diferente; menos fadiga, maior velocidade, potência nos golpes. Cinco sets não eram mais uma eternidade. No ano seguinte, o sérvio somava 10 títulos. Em 2012, levantou seis troféus. Nos anos seguintes, foram mais sete títulos por temporada, com direito há mais de 140 semanas no topo. 

Sinto que talvez a doença celíaca exerça um impacto ainda maior nas mulheres. O inchaço do corpo provocado pelo desconforto abdominal, a sensação de mal estar frequente e as irregularidades menstruais mexem muito com a gente. Há de se dizer, também - e aí falo compartilhando minha impressão -, que em períodos de T.P.M não se pode consumir aquele bolo maravilhoso, aquele pão francês ou chocolate (queridas, sim, a maioria possui glúten). Torna tudo mais difícil. 


Do universo feminino, muitas celebridades já falaram publicamente sobre a doença, mas destaco outro caso importante no esporte, uma ex-maratonista olímpica: Amy Begley.  A hoje treinadora descobriu a doença em meio a um ciclo olímpico, enquanto se preparava para a Olimpíada de Pequim-2008, com dores de estômago, gases, inchaço e dores quando corria. 

Os médicos, de início, acharam que era intolerância a lactose (um sintoma que acaba sendo complementar). Sem saber ao certo o que tinha, Amy não podia comer durante umas seis horas antes de correr. Surgiram outros problemas: hipotireoidismo, anemia, desidratação, fraturas.... não podia correr por mais do que 30 minutos sem ter que parar para ir ao banheiro.

Com a adoção da dieta sem glúten, após o diagnóstico, o inchaço e a dor desaparecem em três semanas, os níveis de ferro também começaram a melhorar. Pequim foi um grande desafio! Amy contatou os responsáveis pela alimentação na Vila Olímpica, levou comida pronta sem glúten, ligava para os chefs do acampamento americano cerca de uma hora antes de comer. Uma super estrutura foi montada para que não ocorresse contaminação cruzada dos alimentos (é, amigos, a vida de celíacos não é fácil!).

Venus Williams é outra atleta adepta do glúten free. Na verdade, não por doença celíaca, mas por ter a síndrome de Sjögren’s. Por conta da doença, até Serena Williams, enquanto dividia a casa com a irmã, passou por uma dieta rigorosa. Não queria que Venus sentisse vontade de comer o que não podia. O glúten fez parte dos itens excluídos, porque existem alguns estudos que mostram que a retirada da proteína derivada de cerais pode ser eficaz também no tratamento de doenças auto-imunes. O glúten causa uma espécie de inflamação. 

Ex-maratonista olímpica Amy Begley descobriu a doença em 2008
Ex-maratonista olímpica Amy Begley descobriu a doença em 2008 Getty

Há muitos atletas que também seguem a dieta sem glúten por acreditarem nos benefícios de não consumir a proteína. Com recomendação de especialistas, alguns esportistas têm adotado um cardápio livre de glúten.  Circulam notícias que contam que o genial craque do Real Madrid, Cristiano Ronaldo, virou adepto do glúten free para prolongar a carreira. Ainda neste ano, noticiou-se que o craque peruano,  Paolo Guerrero, centroavante do Flamengo, também estaria seguindo a mesma linha. Bom para eles! 

Não sou médica, nem nutricionista, mas como jornalista e celíaca (recém descoberta), tenho procurado me informar sobre o assunto. Leio constantemente artigos e possibilidades de tratamentos. Senti na pele a dificuldade de diagnosticar a doença e acho que quanto mais falarmos, mais vamos estimular as pessoas a buscarem ajuda de especialistas, até que encontrem o diagnóstico correto. 

Durante muitos anos, os sintomas da intolerância ao glúten foram atrelados a outras doenças e problemas. A falta de precisão afetou a saúde de inúmeros celíacos. No supermercado, poucos produtos eram específicos para celíacos, afinal, mesmo aqueles que não podem consumir o glúten, às vezes, têm vontade de comer um pãozinho, né?! 

Hoje, há uma crescente indústria do segmento focada no bem estar, e celíacos são lembrados.  Me propus a falar do tema para que muitos celíacos não se sintam só, conforme a Acelbra (Associação dos Celíacos do Brasil), somos cerca de dois milhões no Brasil. Quanto mais expormos sobre o assunto, mais popular tornamos a nossa causa! 

Um até breve, desejo uma sexta-feira deliciosa a todos!

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