'Apanhou do namorado?' não devia ser uma pergunta normal

Mayara Munhos
Mayara Munhos
A taxa de feminicídio no Brasil é a quinta maior do mundo
A taxa de feminicídio no Brasil é a quinta maior do mundo Getty Images


Esses dias, fui dar uma palestra sobre "Mulheres no esporte" e fiquei pensando em coisas legais (e nem tão legais assim) que eu podia contar em relação ao jiu-jitsu. Fiquei até criando na minha mente algumas perguntas e como podia responde-las (sim, sou dessas). Cheguei a algo que me fez refletir um pouco e achei que daria um texto. 

Nós do jiu-jitsu aparecemos diariamente com roxos pelo corpo. Alguns visíveis, outros não. E quando são visíveis, as pessoas fazem algumas perguntas "normais". Mas há uma pergunta que é sempre a primeira e é feita com frequência, de forma natural, como se fosse algo recorrente - e talvez realmente seja, a gente só não sabe.

"Que roxo é esse? Apanhou do namorado?". Isso sempre me incomodou, mas nunca a ponto de parar para refletir no poder dessa frase. Parece que a coisa é tão normal, que é perguntada assim, como se, caso a resposta venha de forma positiva, e vida que segue. E se eu digo que "sim, apanhei"? Será mesmo que devia ser a primeira coisa a passar na cabeça das pessoas quando veem alguma mulher do jiu-jitsu com hematomas? 


Em números, a violência contra mulher é assustadora: em média, doze mulheres são assassinadas diariamente no Brasil. Significa que uma mulher é assassinada no nosso país a cada duas horas. Segundo o Ministério de Direitos Humanos (MDH), administrador da Central de Atendimento à Mulher em Situação de Violência, o Ligue 180, no primeiro semestre de 2018, foram registrados 72.839 denúncias de violência contra a mulher. Comparando com o número total de 2017 (156.839 denúncias), o governo destaca que houve aumento de denúncias em alguns casos, como homicídio e violência sexual. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil é o quinto país com maior taxa de feminicídio do mundo: são registrados oito casos por dia no país.

Segundo o MDH, foram registrados: 2.611 casos de homicídio, 102 de tráfico de pessoas, 3.381 de violência moral, 1.447 de violência patrimonial, 24.378 de violência psicológica, 2.611 de cárcere privado, 5.978 de violência sexual, 40 de violência obstétrica, 3 casos de assédio no esporte e 34 mil casos de violência física.


Ou seja, há um bom motivo que leve as pessoas a perguntar se os roxos pelo corpo de alguém que treine jiu-jitsu é por ter apanhado do namorado. Mas de fato, não devia ser algo normal. A Lei Maria da Penha foi criada há 12 anos e visa proteger a mulher de todo e qualquer tipo de violência. A criação da lei se deu após a cearense Maria da Penha Maia Fernandes ter sofrido agressões do ex-marido durante 23 anos e, após uma tentativa de assassinato, ter ficado paraplégica.

No caso de Maria da Penha, ela não tinha meios para protegê-la. Mas hoje nós temos. E quando mais for falado, mais mulheres serão encorajadas a falar. Muito se fala que a violência contra a mulher e o feminicídio cresceu de uns tempos pra cá. A verdade é que talvez ele não tenha crescido, só tenha ficado mais "normal" falar sobre isso, já que hoje temos uma lei que deve nos proteger e também, porque temos outras mulheres falando sobre o assunto.

A representatividade aqui é algo muito importante, porque a partir do momento em que você afirma ter sofrido violência, independente do caráter, você estará encorajando outras mulheres a falarem também. Claro que é algo difícil de ser dito, mexe com o psicológico, dá medo, preocupa... Mas deve ser falado.

"Apanhou do namorado" definitivamente não devia ser uma pergunta normal. Um roxo pelo corpo não devia remeter a violência física sofrida por um companheiro. E isso não é uma brincadeira.

Em caso de violência, não exite em denunciar. O número é 180. Você não está sozinha! 


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Mulheres que lutam na divisão máster compartilham experiências de lutar contra adultos por falta de categoria no jiu-jitsu

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Másters em ação!
Másters em ação! Lisa Albon

Em março desse ano, escrevi sobre o Pan-Americano de Jiu-Jitsu. Karen Peters e seu professor, Carlos Melo, criaram uma petição para que as divisões de máster feminino fossem iguais às do masculino, indo de 1 a 7. O abaixo-assinado tem dado certo, tendo em vista que competições seguintes começaram a incluir o “pós máster 1” feminino nas inscrições.  


Pensando nisso, conversei com algumas mulheres que vivem isso na pele para saber a experiência de ter que sair do conforto de sua categoria para lutarem em outras por falta de opção, ou até mesmo de oponentes. No grupo do Facebook de Karen, “BJJ Master Woman”, algumas me responderam.

Madelein Larson Wollnik, faixa azul de 46 anos da Suécia contou ter participado de cinco competições apenas na categoria adulto: “Eu nunca competi no máster porque não tem ninguém da minha idade”. Quase a mesma situação de Nikki May, faixa azul de 44 anos, que treina na Rivers BJJ do Kansas: “Não sei como é competir no máster porque não temos mulheres geralmente. Eu me inscrevo, mas nunca tiveram pessoas o suficiente”.

Samanta Fonseca, faixa azul, fundadora do BJJ Girls Mag e atleta da Brotherhood, está em seu primeiro ano de máster e nunca teve problemas de falta de luta. Para ela, a maior diferença entre as categorias é a força. Por outro lado, ela reconhece que em alguns campeonatos menores, as mulheres mais velhas têm outras prioridades: “Acho que em muitos torneios, tem aquelas mulheres que tem filhos, treinam duas, três vezes na semana, não tem tempo de fazer preparação física... Mas para os campeonatos maiores, percebi que elas são mais fortes, mas tem menos mobilidade. Lutar nos dois é difícil” – disse Samanta, que completou – “O que tem que saber é que no adulto talvez você se movimente mais e no máster, talvez faça mais força”.

Gwen Blanken é uma faixa branca da Stockholm BJJ Club Center da Suécia. Ela contou que compete tanto no máster como no adulto. “No adulto, por não ter escolha ou não ter mulheres o suficiente para o máster” – conta Gwen. Master 3, Blanken diz que sente muita dificuldade principalmente quando a diferença de idade entre ela e as adultas é muito grande: “Elas são muito rápidas, mais bem preparadas, flexíveis, mais fortes e muito mais agressivas” – disse, e completou dizendo também que se sente muito melhor lutando em sua divisão.

 Por falta de opção, Agnheszka Sy, faixa azul de 35 anos da Jungle BJJ (República Tcheca), competiu durante cinco anos como adulto e sempre teve que descer de categoria por conta de falta de oponentes. Nas últimas competições, ela lutou como máster 1, que é sua categoria, sempre indo nos torneios e lutando com e sem kimono. “Eu cheguei a lutar seis vezes em um campeonato” – disse Agnheszka. A opção de parar de lutar como adulto deu-se por perceber que não conseguia mais acompanhar o ritmo das oponentes: “A experiência me ajudava no início da luta, mas nos últimos dois minutos, parecia que eu não estava mais lá” – disse. Ela também contou que se sentiu muito derrotada pela idade e teve muita dificuldade em aceitar a mudança. “O período de recuperação depois dos 30 anos começou a ficar mais longo e isso não ajudava em nada meu humor. Não consegui mais treinar todos os dias. Lidei com isso fazendo algo que nunca pensei que precisaria: escolher com quem ia treinar” – desabafou a atleta. Hoje ela disse que apesar de ter demorado meses para aceitar tudo, ela se sente bem e treina menos focada em competir.

Atleta da Saber BJJ da Austrália, Libby Chick, faixa branca de 47 anos, conta que quando vai a competições locais, ela luta contra oponentes mais jovens que os próprios filhos. “Às vezes eu reluto para não participar de competições onde sei que vou ter 25 anos a mais que minhas adversárias” – disse Libby, que nunca competiu na categoria máster e confessa que é difícil pagar competições que exigem que ela se desloque muito de sua cidade natal. Mas o desejo de competir na divisão certa está dentro de si: “Seria incrível poder me testar contra mulheres mais próximas da minha idade”.

Dolonna Brush é faixa azul e máster 4. Aos 51 anos, ela treina na Gracie Humaita de Temecula, Califórnia. Ela começou a competir no ano passado, logo quando completou 50 anos e dos sete torneios em que participou, cinco ela competiu no máster 1. “Pela minha experiência, há uma enorme diferença em força e velocidade, e é por essa razão que os homens têm categorias separadas” – contou Brush. Ela destaca que faz isso por amor ao esporte e acredita que a competição é uma ótima forma de se testar e é isso o que a dá forças, interna e externamente, para continuar competindo, mas relembra: “Se minha filha competisse, estaríamos na mesma categoria”.

E apesar de tantas queixas, a faixa azul de 56 anos Ann Mullen, que treina na academia Yamasaki em Maryland, confessou sentir mais medo de pessoas grandes do que jovens por conta de seu peso e tamanho. Ela, que compete no adulto ou máster 1, destacou que as meninas a respeitam, não a tratando como uma “velha senhora” e contou que “eu não luto com e sem kimono no mesmo dia porque não me recupero tão rápido, e a diferença que mais noto é realmente em recuperação e força”. Por outro lado, ela destacou também que se sente mais experiente por ter competido a vida toda: “Em alguns casos, sinto que estou mais calma que minhas adversárias mais jovens”. Outro destaque de Mullen é que a forma que os mais velhos levam a competição é diferente, e ela completa: “Não me entendam mal; nós, másters, levamos a sério a competição, mas a perspectiva é diferente”.

Seja por falta de atletas ou por falta de subdivisão de categorias, o que mais importa é que muitas das mulheres continuam – literalmente – na luta e que a IBJJF viu que há sim como dividir melhor as categorias femininas, ainda que com menos mulheres, apenas para que elas possam competir pelo prazer de lutarem de igual para igual. E certamente, o trabalho de Karen tem sido um grande responsável pelas conquistas.

Termino o texto com essa imagem. Antes, entrávamos no site da IBJJF e víamos tabelas separadas para homens e mulheres. A dos homens, ia de fato até o máster 7. A das mulheres, até o máster 1. Hoje, a maioria dos campeonatos no site tem uma “tabela unificada”, exatamente como na foto, “Male and Female”. O jiu-jitsu é gigante. O jiu-jitsu é para todos!


No Campeonato Mundial sem kimono da IBJJF, as categorias para homens e mulheres estão iguais
No Campeonato Mundial sem kimono da IBJJF, as categorias para homens e mulheres estão iguais IBJJF


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Como Emilly transformou a Síndrome de Leigh da Naná em sorrisos no tatame

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Emilly e Naná treinam juntas todas as quartas-feiras
Emilly e Naná treinam juntas todas as quartas-feiras Arquivo Pessoal

Se tem algo que eu amo nessa vida é contar histórias. Então vamos do começo: a Emilly é uma faixa marrom da Alliance Mooca, aluna do professor Casquinha. A conheci porque com ela fiz minha primeira final de absoluto em meu primeiro campeonato de faixa roxa – foi minha luta mais dura daquele dia. Comecei a seguir a Emilly nas redes sociais e aí, sempre rolando os feeds, me chamou a atenção que ela publicava muitas fotos com uma pequena, a “Naná”. Sempre acompanhei as postagens e achei que aquele amor de irmã era muito bonito. Mas elas não são irmãs e eu fui atrás da Emilly para saber tudo!

A Natália é portadora de Síndrome de Leigh, uma síndrome que ataca o sistema nervoso central e mexe com a coordenação motora. Ela se manifesta sempre em crianças entre 3 meses e dois anos, mas pode raramente afetar adultos acima de 30 anos. Apesar de não ter cura, a síndrome pode ser controlada com fisioterapia e remédio.

Depois de um tempo sendo “seguidora da Emilly”, a vi levando a Naná para o jiu-jitsu. De repente, todas as quartas-feiras via as duas no tatame. A Emilly entra no tatame com ela para fazer um verdadeiro treino físico, já que ela a carrega o tempo todo, auxiliando-a em tudo na aula das crianças. Se precisa correr, Emilly corre com ela. Se precisa fazer flexão, Emilly faz com ela. Tudo elas fazem juntas e as crianças que treinam com elas se mostram sempre solícitas.

Digo que ela é minha prima, mas não temos sangue. Meus pais são muito amigos dos dela desde sempre, a conheço desde que me conheço por gente, fomos criadas praticamente juntas” – me contou Emilly, que também contou que Natália tem mais dois irmãos mais velhos, o Murilo e o Felipe. O Murilo tinha a mesma síndrome de Natália, mas em um estágio mais avançado e há algum tempo, depois de seguidas crises de pneumonia, ele veio a falecer.

“A Natália não tem um estágio tão avançado como tinha o Murilo. Ela não anda e nem come sozinha, mas a mente dela é totalmente normal, ela entende tudo o que acontece ao seu redor” – disse Emilly, que também me contou que as duas tem uma ligação muito forte e que nem consegue explicar como.

A chegada de Naná aos tatames foi totalmente por acaso. Emilly a perguntou se ela queria um kimono rosa, em dezembro do ano passado e ela respondeu que sim. Depois que ela comprou, sentiu que devia leva-la para a academia: “Conversei com o Casquinha, expliquei a situação e ele disse que eu podia levar. Ela se apaixonou no primeiro treino. O Casca deu a ela um kimono da Alliance e desde então, a levo todas as quartas-feiras no treino das crianças”.

Além do kimono rosa ter sido um motivo para Naná chegar aos tatames, Emilly também conta que queria que ela interagisse mais: “Chegou uma fase que ela não queria mais ir à escola e eu fui um tempo com ela. Mas ultimamente ela só queria ficar jogando no tablet, não tinha vontade de sair de casa. O jiu-jitsu ela ama, dá risada, interage, se envolve com as crianças e as crianças se envolvem com ela”.

Com 18 anos de convivência, as duas se entendem muito bem mesmo que Natália não fale: “Enxergo a Naná como uma pessoa normal, ela não é diferente. Nós conversamos sem ela falar. O Casca até pergunta – ‘como você entende o que ela fala?’ – e isso é muito da convivência”.

A maior vontade de Emilly é que o mundo todo conheça a Natália. Um tempo atrás, uma marca australiana a viu no Instagram e enviou para o Brasil uma rash guard: “Todo treino ela quer usar, é branca e rosa e ela amou. Quando isso aconteceu, pensei ‘caraca, tem alguém na Austrália que conhece a Natália por causa do jiu-jitsu’ e isso é muito louco” – disse Emilly.

Toda semana ela faz questão de publicar sobre os treinos nas redes sociais e certamente, é inspirador. É inspirador ver “Naná” no tatame, sempre sorrindo. Motivador ver a equipe recepcionando tão bem as duas. E muito motivador ver a força de vontade que Emilly mostra todas as quartas-feiras para tirar um sorriso do rosto dela. “A pessoa olha e se motiva, queria que todas as pessoas da terra a conhecessem e aos poucos isso está acontecendo” – finalizou a faixa marrom.

Tem coisa mais bonita neste mundo do que ver o quanto o esporte é capaz de transformar vidas?

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Aos patrocinadores: atletas são outdoors, mas também pagam boletos

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Patrocine um atleta!
Patrocine um atleta! Sinistro Photo Film/FPJJ


Já falei sobre patrocínio uma vez, mas decidi falar de novo porque é sempre válido. Tenho visto algumas marcas fazendo concursos em redes sociais para patrocinar atletas. E realmente entendo o quanto isso significa para quem compete. E quero deixar claro que esse texto não é uma apologia a deixar de aceitar ofertas de apoio ou patrocínio, mas sim, de se valorizar como atleta.

Geralmente, o que chamamos de “patrocínio” na verdade são “apoios”. A diferença é básica: você recebe dinheiro da marca? Se a resposta for não, é um apoio. Se sim, é um patrocínio. Ou seja, se uma marca decide te patrocinar e te dar uma grana por mês, ela está te patrocinando. Se ela te ajuda em troca de produtos, ela está te apoiando. Nenhum dos dois é ruim. Só é importante tudo ficar bem claro para que nem o atleta e nem a marca saiam prejudicados.

Algumas coisas precisam mudar para que os apoios continuem a existir e os patrocínios passem a aparecer cada vez mais, isso faz parte da profissionalização do jiu-jitsu. O primeiro passo pode ser dado por nós, atletas. Muitos querem estampar uma marca por acharem bonita, querem colocar patches em seus kimonos de uma marca que tem um desenho legal ou de alguma empresa bacana. Nada contra, é o seu direito. Mas por outro lado, é como fazer uma propaganda de graça e a empresa, tendo quem faça isso por ela sem que ela precise tirar dinheiro do bolso, não precisa então apoiar ninguém. Então é importante que os atletas parem de usar “peso no kimono” só por acharem bonitinho ou por se sentir com mais cara de competidor tendo várias coisas costuradas. Isso atrapalha e muito na hora de conseguir um patrocínio. E não tem problema se você não precisa de um, mas tem muita gente que depende disso para continuar competindo e fazendo seu trabalho.

Já em relação as marcas, elas precisam lembrar que os atletas têm contas a pagar. Em 2015, o faixa preta Thiago Gaia, da Barbosa Jiu-Jitsu, subiu no pódio após ser campeão do Brasileiro Sem Kimono da CBJJ com um papel escrito “#Fighters Don’t Eat Medals” (Lutadores Não Comem Medalhas). A hashtag viralizou e outros atletas ao redor do mundo decidiram compartilhar dela. O protesto foi inicialmente contra as Federações e Confederações de jiu-jitsu, que cobram valores absurdos de inscrição e raras as vezes, pagam as premiações em dinheiro. O atleta gasta com transporte, alimentação, hospedagem, inscrição e sai do ginásio com uma medalha – ou não. Mas a frase serve também para as marcas que pretendem patrocinar atletas.

É claro que no começo da carreira é sempre difícil. Um faixa branca raramente vai conseguir um patrocínio, bem como um faixa azul ou roxa. As coisas começam a acontecer na marrom e se desenvolvem na preta – desde que você dê visibilidade. Hoje em dia, a visibilidade não é apenas em pódio. Alguns atletas fazem papel de modelo para se esforçar e divulgar a marca, tirando fotos, se expondo e sendo influencers. Mas tudo isso é marketing e é aceitável. Hoje, temos uma variedade muito maior em relação a formas de divulgação, porém ainda nem tão bem trabalhadas. As redes sociais estão aí para provar isso: você patrocina um atleta, ele publica sobre sua marca semanalmente, fala bem dos seus produtos, agradece você imensamente, cria hashtags usando seu nome e pronto, por um custo muito baixo sua marca está circulando por aí.  E por isso, nem sempre estar no pódio é suficiente ou o único requisito para um atleta atrair um patrocinador.

Algo que percebo também é que as marcas que patrocinam os atletas vivem no mesmo meio e entendem o quanto cada atleta precisa ralar para bancar tudo. Ou seja, muitos atletas têm vontade de viver de jiu-jitsu, mas precisam ter um outro trabalho para conseguirem se desenvolver na vida fora dos tatames (e dentro também). Os atletas dependem de pagamentos como cada um – inclusive os donos das marcas – dependem do seu dinheiro na conta no final do mês.

É normal que você receba um apoio no início da carreira. Você ganha algumas roupas, kimonos, suplementos..., mas é imprescindível que isso não dure para sempre. Você precisa de uma ajuda para pagar seus campeonatos e pode começar dessa forma, de repente vai precisar de fato do dinheiro para pagar o seu aluguel, por exemplo. Se você quer dedicar sua vida 100% ao jiu-jitsu, você vai precisar de um patrocínio efetivo, porque é ele quem vai pagar seu salário. Você pode vencer um campeonato e de repente, ganhar algum dinheiro, já que hoje em dia temos campeonatos fora de federações que oferecem boas premiações, mas eles não acontecem todo final de semana e nem sempre são suficientes para nos sustentar o mês todo.

Onde quero chegar com tudo isso é que os atletas deveriam ser menos usados e mais valorizados. Diariamente, cada um se esforça como pode para chegar a algum lugar, para conseguir alguns seguidores nas redes sociais e “valorizar o passe”, para subir no pódio naquele campeonato importante para que olhem para ele. Mas não é justo prostituir os atletas por saberem o quanto eles precisam daquilo.

Muito se questiona sobre a profissionalização do jiu-jitsu, mas ela depende de cada um. Desde atletas a não aceitar qualquer coisa, até os patrocinadores não oferecerem “migalhas” em troca de um grande esforço pelo lado de quem está recebendo, porque acredite, qualquer apoio faz diferença, mas não é qualquer apoio que vai fazer nenhum atleta chegar longe.

O atleta cresce com a marca e a marca cresce com o atleta. O patrocínio/apoio deve ser uma via de mão dupla. Procurem atletas que te interessem, que combinem com o estilo da marca. Façam acordos formais através de contratos e valorizem. Divulgar marcas em redes sociais, outdoors, jornais ou seja lá qual meio de publicidade for, custa muito caro. O atleta, geralmente tem um custo bem abaixo do que os grandes veículos de comunicação. Então é importante não abaixar cada vez mais o seu valor, porque só assim ele vai conseguir chegar ainda mais longe e, claro, levar junto a sua marca.

Apoie um atleta :)

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O casamento que roubou a cena em Vegas: Sete títulos mundiais disseram 'sim'

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Faixas pretas, campeãs mundiais e 'got married'
Faixas pretas, campeãs mundiais e 'got married' Arquivo Pessoal

Nos últimos dias, Las Vegas foi tomada por jiu-jiteiros de todo mundo e as atenções estavam todas voltadas para lá. Estava rolando o Las Vegas Summer Open e, ao mesmo tempo, o Mundial de Masters, ambos da IBJJF  e as maiores lendas estavam por lá.

Vimos Claudia do Val levar seis ouros para casa, Mackenzie Dern ministrar seminário e claro, a grande cerimônia da IBJJF que deu anéis aos faixas pretas campeões dos absolutos desde 1996, quando foi a primeira edição. O absoluto feminino começou a acontecer em 2007 e algumas atletas estiveram presentes para receber seus anéis:   Michelle Nicolini (2007), Kyra Gracie (2008), Lana Stefanac (2009), Luana Alzugir (2010), Gabi Garcia (2011/2012) e Bia Mesquita (2013/2014).

Mas fora do ginásio, houve um casamento em Vegas e não foi no maior estilo 'Se Beber Não Case'. Uma igrejinha, amigos próximos, a família e duas campeãs mundiais unificaram seus títulos dizendo 'sim'. Luana Alzugir e Ana Carolina Vieira se casaram. Sim, sete títulos mundiais agora estão de papeis assinados e com anéis muito diferentes dos que a IBJJF presenteou os atletas.


Luana, da Alliance e atleta da velha guarda, aos 33 anos tem cinco títulos mundiais na faixa preta e a Baby, da GF Team com seus 24 anos e apenas dois na black belt, já tem em seu acervo dois títulos mundiais.

A Ana entrou na igreja de braços dados com mais uma porrada de títulos mundiais: seu irmão, Rodolfo Vieira, a conduziu até o altar. Aliás, nunca um casamento foi testemunhado por tantos títulos mundiais, como Hannette Staack, Nathiely de Jesus e Michelle Nicolini.

Casalzão!'
Casalzão!' Arquivo Pessoal

A Luana nesse ano participou do Mundial após dois anos sem lutar, ficou pela primeira vez fora de uma final, mas depois do campeonato, publicou em seu perfil do Instagram que: “Fim de mais um campeonato mundial e esse sem dúvida foi diferente de qualquer outro. Não apenas por ter sido a primeira vez que fiquei fora de uma final, mas principalmente por ter sido a primeira vez que não lutei por medalha e sim... por amor!”

E por falar em final e amor, eu claramente fiz a pergunta que todo mundo deve fazer a Baby:

- E aí se acontece de vocês se pegarem numa final de absoluto... qual vai ser?

'Cara, a gente sempre fala disso, rs' - me respondeu - 'Seria irado a gente chegar juntas numa final de absoluto'.

Talvez seria o absoluto que as faria lutar por medalha... e também por amor! 

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Faixa branca, por favor, nunca desista. Essa aqui é para você!

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Natalia Chiarotti, faixa branca da Atos/Ono e 3º lugar no ranking da CBJJ
Natalia Chiarotti, faixa branca da Atos/Ono e 3º lugar no ranking da CBJJ Focados no Tatame

Querido (a) faixa branca,

Começou a caminhada e ela vai ser longa. Comecemos assim para que já se prepare, mas a intenção não é te desencorajar, mas mostrar que você não estará permitido a desistir.

Primeiro quero deixar claro que o jiu-jitsu é um extremo e, quando você começa, ou você ama ou você odeia. Caso você odeie, pode parar por aqui. Mas caso você ame, sua vida já mudou completamente, mesmo que você ainda não saiba disso.

Pisar em um tatame vai muito além de tirar os calçados, fazer uma reverência e cumprimentar seus parceiros. Pisar num tatame vai mudar completamente a sua forma de pensar. Quando você pensar que não é capaz, vai perceber que já passou: você fez e nem percebeu.

Sei que começar não é fácil. Dói, e dói muito. Você vai se lesionar, talvez com frequência. A frequência pode diminuir, mas a dor é uma constante e não só a física.

A dor começa quando você tenta fazer alguma coisa e vê que está difícil demais. Você olha para o lado e vê os graduados realizando algo que você não está conseguindo de forma alguma. Parece muito difícil e a pessoa está lá, fazendo com a maior naturalidade. Quando depois de tantas mil repetições o seu movimento sai perfeito (ou nem tanto), você vai parar e pensar: “por que eu não consegui antes?”; mas isso não pode te fazer desistir. Já se dizia que ‘a prática leva a perfeição’, e se a pessoa do seu lado está conseguindo fazer, tenha certeza de que ela já passou pelo mesmo que você. Tenha em mente que ninguém chega a lugar nenhum sem ter passado pelo que você está passando hoje.

E sim, vai ter bullying. Vai ser normal te mandarem para o final da fila o tempo todo, te falar para pagar flexão por algum motivo... você vai sofrer para entender que precisa respeitar os mais graduados, que o faixa preta é autoridade máxima, que algumas coisas erradas são chamadas de ‘faixa branquice’... vão te zoar quando você chegar dizendo que sua mãe lavou a sua faixa e dar risada porque ela está amarrada muito para cima. Também faz parte do processo. E não é na maldade! Um dia você vai entender.

Os movimentos vão ser cada vez mais difíceis. O arm lock básico da guarda vai sair, mas nunca durante o rola. O cotovelo vai ficar para fora, o pé cruzado errado, o quadril vai ficar colado no chão. Você vai passar a guarda com o quadril na altura do teto e vai ficar sem entender porque te raspam com tanta facilidade. Ninguém nunca vai ficar estabilizado nos seus 100kg, porque você vai demorar para entender de onde vem toda pressão que fazem quando é contra você. Você vai cansar muito, porque enquanto as pessoas ficam fazendo giros e mais giros com você, você tenta se defender usando toda a força que acha que tem e então você vai terminar bufando, enquanto seu adversário estará em pé amarrando a faixa e já procurando o próximo.

Vai ser difícil entender porque o professor não te deixa descansar entre uma luta e outra, ou porque todo mundo fica te corrigindo o tempo todo sendo que parece que tudo está saindo tão perfeito ou que você esteja com a convicção de que está sabendo tudo.

Você vai sentir dor nas costas e decidir que terá que ficar uma semana ou mais fora da academia. Depois, vai sentir uma dor no joelho e já sentir que vai precisar operar. Mas é normal, todo mundo se lesiona o tempo todo e isso vai seguir até o fim da sua caminhada. Quando você estiver lá na frente, verá o quanto foi exagero ter ficado tanto tempo sem treinar por uma dorzinha ou outra e vai chegar ao extremo de ‘só tem tu vai tu mesmo’ – treinar com ou sem dor, com ou sem lesão, apenas treinar.

Você vai postar frases motivacionais nas suas redes sociais e quem está do outro lado, vai rir um pouco de você por achar que é too much para tão pouco tempo. Vai começar a dizer que o jiu-jitsu é sua vida, seu lifestyle. Vai tirar fotos de kimono dentro do quarto e dizer “#PartiuTreino”, comprar camisetas escrito "jiu-jitsu" só para sair na rua e mostrar que treina. Lá na frente você vai olhar e achar engraçado, mas expresse seus sentimentos, tá tudo bem!

Você vai para um campeonato, gravará suas lutas e vai sair sentindo que arrasou. Quando você chegar em casa, vai assistir perceber que não estava lutando como a Kyra Gracie que habita dentro de você. Vai dar um pouco de vergonha, mas é normal. Ganhando ou perdendo, você vai sempre aprender qualquer coisa – e isso significa que você nunca vai perder, mesmo que a mão levantada no final não seja a sua. Isso também é algo que vai entender com o tempo. Uma derrota nos faz refletir e enxergar coisas que nem esperamos. 

Você vai sair do treino frustrado porque foi finalizado vinte vezes. Vai ficar puto porque vai achar que as pessoas te deixam fazer as coisas. Isso vai passar.

Você vai errar o nome dos golpes e vão rir de você por conta disso. Quando sentir um pouco mais de confiança, se sentirá no direito de chamar alguém para rolar e vai tomar um pau – você vai sair triste, mas não desacredite. Você vai constantemente ver seus amigos graduados zoando os faixas pretas e vai achar que pode zoar também – mas ninguém será rotulado de folgado, só o faixa branca. Você vai passar horas assistindo vídeos de posição no YouTube e chegar na aula querendo mostrar para todo mundo o que aprendeu, até ver que jiu-jitsu online é algo bem difícil de reproduzir, ainda mais quando se está no começo. Vai querer fazer os golpes mais mirabolantes porque parecem fáceis, mas vão te fazer cair na real de que você ainda precisa se aperfeiçoar no básico antes de querer fazer o plástico, ainda que seja lindo.

Você vai amarrar seus dedos com esparadrapo porque vai achar que é bonito, sem nem entender a finalidade disso. Vai se achar o mais graduado do mundo quando não for mais o último da fila ou quando receber o seu primeiro grau. Você vai querer debater sobre as novidades do jiu-jitsu que para você são tão novas, mas já aconteceram a tempos e vão dizer que você é desatualizado.

Faixa branca, não desista. Estaremos sempre aqui para te ajudar. Saiba que sua perseverança nos inspira. Não é fácil começar algo novo, ouvir tantas coisas esquisitas, sentir-se excluído, tentar e achar que nunca consegue. Mas entenda: todo mundo já passou por isso.

A faixa branca nos ensina e nos ensina muito. Saiba também que, lá na frente, você vai parar de dar valor a algumas coisas que você dá sendo faixa branca, como os detalhes de um golpe perfeito. Os graduados costumam achar que já sabem tudo e esquecem de detalhes básicos que, muitas vezes, reaprendemos treinando com vocês.

Vocês são muito importantes para o nosso treino. Vocês fazem parte do crescimento do jiu-jitsu. Vocês nos impressionam quando botam a cara a bater e não desistem, nos orgulham quando conseguem fazer alguma coisa certa que a gente tanto bateu na tecla de que você estava fazendo errado. Você é responsável por algumas frustrações, porque muitas vezes, a gente desacredita que aquele golpe vindo de você vai entrar e somos surpreendidos quando precisamos dar os três tapinhas, porque não dá mais para dar mole para você.

Você vai ser graduado, aos poucos. Vai criar responsabilidade, ser cobrado. Um dia você vai alcançar seu professor e vai pensar que tudo passou rápido demais. As posições vão sair naturalmente, as coisas ficarão mais claras, os esparadrapos no dedo farão sentido. E aí, você vai olhar para trás e ver que estará desempenhando o papel que um dia desempenharam com você. Por isso, não se cobre tanto, tenha paciência e, mais uma vez, não desista. Ao longo caminho, você vai ter milhões motivos para querer desistir, a faixa branca é só o início.

A gente zoa, a gente brinca e a gente faz aquele bullying de sempre, mas é só para não perder o costume. Vocês nos inspiram!

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Faixa branca, por favor, nunca desista. Essa aqui é para você!

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Ronda Rousey: indiscutivelmente, ela mudou o cenário feminino de todas as artes marciais

Mayara Munhos
Mayara Munhos

Ontem, Rowdy fez história mais uma vez
Ontem, Rowdy fez história mais uma vez Getty Images

Não há como negar: Ronda Rousey mudou o cenário feminino das lutas. Não importa a modalidade, o fato é que Rowdy serve de exemplo mundial no esporte – seja ele feminino ou masculino. Mas creio eu que ela seja um dos, e se não for o maior exemplo de representatividade feminina nas artes marciais.

Se antes nós mulheres éramos representadas no octógono apenas como ring girls, vistas com 'pouco pano'... Se antes éramos vistas apenas em eventos amadores, ou então em pequenas academias espalhadas pelo mundo... Ronda veio em 2013 e mostrou que a força da mulher dentro de um ring, octógono, tatame ou seja lá onde for, é muito maior do que qualquer um esperava, inclusive o próprio presidente do UFC, Dana White.

Quem não se lembra no ano de 2011, um repórter perguntando a ele: "Quando veremos mulheres no UFC?". E sua resposta? "Never".

Mas ontem, o mesmo reconheceu em seu discurso o quanto foi equivocado naquela época. 

"Quando eu disse que mulheres nunca lutariam no UFC, eu nunca tinha imaginado Ronda Rousey" - ele disse. "Eu nunca tinha imaginado a mulher que mudaria tudo. Ela começou mudando minha cabeça e terminou mudando o mundo". 

Foi assim que Dana White introduziu Ronda e a chamou para receber então o primeiro troféu de Hall da Fama dado a uma mulher.

Ronda quebrou barreiras. Ronda mudou o conceito do que é ser uma mulher e estar num esporte majoritariamente masculino. Ronda foi um verdadeiro divisor de águas. Talvez ninguém imaginaria que a faixa preta de judô que morava em seu carro para economizar grana e conseguir levar sua vida de lutadora para frente, seria a primeira mulher a lutar um evento do UFC, ficaria três anos invicta e receberia um prêmio dessa dimensão.

E existe algo pouco falado, mas que merece nesse momento ser lembrado: a americana foi a primeira judoca a levar para o seu país uma medalha olímpica na modalidade, em 2008, onde ela ganhou um bronze.  

Eu acho um verdadeiro desrespeito quando Ronda é tratada como "ex-campeã peso galo do UFC", sendo que durante três anos o cinturão foi dela. Durante três anos ela entrou no octógono com um público imenso torcendo e esperando sua chave de braço matadora no primeiro round. Mas sua dinastia acabou, como acabou a de Belfort, por exemplo e como a de todos um dia acaba.

Hoje ela já não faz mais parte da divisão e decidiu seguir sua vida, da sua maneira, no WWE. Ela continua na atividade, mas como ela escolheu. Muitos a criticaram pela forma com que ela tratou suas duas últimas derrotas no UFC. Deve ser realmente difícil para alguém que foi dominante praticamente a vida toda, perder a invencibilidade. Mas faz parte. E cada um reage de uma forma. Seu legado está aí.

O que mais importa é que, em seu discurso ontem, durante a premiação, Rowdy mais uma vez arrasou e deixou o recado:

"Graças a vocês, eu sou a primeira mulher a estar aqui em cima recebendo esse incrível prêmio. Eu vou ser a primeira de muitas. Eu olho a minha volta e vejo que juntas construímos isso. Essa divisão, esse esporte, essa revolução... Juntas nós redefinimos o que significa ser forte, ser sexyNós mudamos o significado de 'lutar como uma garota'!

Ela não é ex-campeã. Ela foi e sempre será a grande campeã do UFC e não só pela suas lutas, mas por tudo o que ela representa.  E ela me representa. E ela com certeza representa muitas mulheres do mundo das artes marciais e serve de inspiração. Ela mostrou o que é ser um corpo e um rosto bonito, mas que não é por termos um corpo e um rosto bonito que somos apenas isso. Somos muito mais que isso. Somos corpos e rostos lindos e somos fortes. E nós lutamos exatamente como garotas!

Veja o discurso de Ronda aqui.

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Dominyka Obenelyte revela depressão e faz críticas à Federação e cenário atual do jiu-jitsu

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Dominyka no Mundial de 2016, onde foi campeã
Dominyka no Mundial de 2016, onde foi campeã IBJJF

Nessa semana, a atleta Dominyka Obelenyte, faixa preta e quatro vezes campeã mundial, publicou em seu Instagram um relato de que estava sofrendo de depressão e, mais que isso, ela confessou que não é recente. Muitas pessoas têm sentido falta da atleta e sua guarda praticamente intransponível em campeonatos. O último que ela participou foi no ano passado e ela veio a público falar sobre isso, com um relato emocionante e também motivador.

“Amigos, gostaria de tirar um momento para agradecer a todos vocês por me seguirem e me apoiarem nessa gigante jornada da vida. Eu sempre tive dificuldade com a forma como enxergo o jiu-jitsu, que algumas vezes pode ser meu maior inimigo e outras, meu maior alívio. Muitos de vocês não sabem disso, mas durante a maior parte da minha vida eu lutei contra a depressão, e quatro anos depois de começar o jiu-jitsu eu estava em um ponto crítico. Eu não queria nada com o esporte e estava pronta para desistir e nunca mais voltar. Fui encorajada por algumas pessoas (especialmente @jtorresbjj) que me fizeram continuar, e fui recompensada com uma estrada cheia de desafios: vitórias, derrotas, lesões, desilusões, motivação, perseverança e um verdadeiro senso de identidade. Minha maior alegria agora é compartilhar esta arte e estilo de vida com os outros na esperança de que eles tenham as mesmas experiências ou que elas sejam ainda maiores. A estrada tem sido difícil, algumas vezes eu fico irritada com a forma que o esporte tem se afastado da virtude do respeito em direção do exibicionismo e do drama, e algumas vezes eu fico frustrada com a rapidez que o corpo pode entrar em colapso devido ao estresse e excesso de trabalho. Tuudo isso dito, eu não trocaria este caminho por nenhuma outra coisa, e para qualquer um que se sentir desanimado com seu lugar neste pequeno reino, saiba que você não está sozinho e o que quer que se proponha a fazer, você vai conseguir, apenas dê seu tempo e se esforce”.

Com críticas a encenações no meio do jiu-jitsu, como trash talkings, Dominyka deixou de certa forma implícito que ela não desistiu. Com apenas 20 anos e em seu primeiro ano como faixa preta, ela já havia vencido peso (superpesado) e absoluto no Mundial da IBJFF de 2015, tornando-se assim uma das maiores referências no jiu-jitsu feminino. Além disso, ela se destacou no cenário feminino pelo seu projeto“Equal Pay For BJJ”, que exige premiações iguais a homens e mulheres.

Em entrevista ao Flograppling, a atleta afirmou que está trabalhando para voltar às competições e que se interessa em fazer isso no futuro, mas que por enquanto ela está desiludida com alguns grandes campeonatos e completou: “Você precisa pagar para se inscrever nesses campeonatos, ter mais de cinco lutas em um período de uma hora e inevitavelmente, será esquecida se você não chegar às finais ou não fizer nenhuma luta empolgante. É um sistema que só recompensa alguns e não dá nenhum tipo de pagamento além de patrocinadores e essas coisas”.

Além disso, ela completou na mesma entrevista que no nível que ela se encontra, nem sempre o esforço faz valer o resultado e que, para ela “vale muito mais colocar o mesmo esforço em super lutas. Eu sei que eu posso ao mesmo tempo deixar meu corpo descansar, continuar dando aulas e ganhar dinheiro fazendo o que amo”.

No ano passado, Dominyka mudou-se para o Team Mushin para treinar com Erik Owings, faixa preta de Renzo Gracie, em Mantahhan. Ela também teve que se afastar de campeonatos por conta de uma cirurgia no ombro. A lituana ocupa o 14º lugar no ranking da IBJJF.

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Após tratamento hormonal, atleta trans compete jiu-jitsu pela primeira vez na categoria masculina

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Pedro em ação no Campeonato Brasileiro
Pedro em ação no Campeonato Brasileiro Focados no Tatame/CBJJ

Copa do Mundo a parte: julho é o mês do Orgulho LGBT. No esporte, temos muitas controvérsias em relação ao alto rendimento versus LGBT. Muitas discussões, infelizmente, giram em torno de aparência física e preconceito. Mas outras tantas, partem para o lado hormonal e bate na tecla de injustiça. 

Falar sobre transgêneros no esporte é sempre uma grande polêmica, como foi o caso de Tiffany, mulher trans jogadora de vôlei que, quando passou a competir no feminino, gerou discussões por conta da desvantagem que outras mulheres podiam ter em relação a ela.

Mas seja lá o que for, algo muito importante a ser levado em consideração: o que mais importa é como a pessoa se sente e se identifica perante a ela e a sociedade. Entendo que seja muito difícil compreender algumas situações a quais não fazemos parte, como é para mim, uma mulher cis. Tenho opiniões, não tenho profundo conhecimento sobre o assunto e, de fato, não vivo isso. Por isso é muito importante conhecermos histórias e, antes de tomar algum partido, estudar muito sobre o assunto.

Para que fique bem claro: uma pessoa trans é alguém que não se identifica com o sexo que lhe foi atribuído no nascimento. É como nascer homem e, ainda que se tenha um pênis, sentir-se como mulher.

Mas vamos ao que interessa que é o Pedro Petry. Ele é faixa marrom de jiu-jitsu da equipe Checkmat. Pedro é um homem trans.

Ele começou a treinar jiu-jitsu com 11 anos, embora sua vontade fosse treinar muay thai. “Minha mãe achava muito violento e me colocou no jiu-jitsu porque não tinha socos e nem chutes” – lembra Pedro. Ele, que matava aula no colégio para treinar, acreditava que fazer alguma arte marcial o deixaria com ‘cara de luta’ e por isso gostava. Seis anos parado por ter bombado no colégio e ficado de castigo do jiu-jitsu, ele voltou mais tarde pela necessidade de praticar algum exercício físico contra a obesidade. 

Seu primeiro contato com competição foi por acaso e, sem pretensão alguma e ele ganhou peso e absoluto. E desde então, ele nunca mais parou.

No final de 2016, Pedro tomou a decisão de fazer tratamento hormonal. Ele sempre competiu na categoria feminina, mas nunca se identificou com o gênero. Perguntei a ele como se sentia durante a vida em relação a isso, e ele me contou.

‘Desde que me lembro, nunca me senti pertencer ao sexo feminino. Eu escondia roupas para a minha mãe não me vestir, sujava as minhas roupas de propósito para usar as dos meus primos. Com sete anos chamei minha mãe para conversar e disse que ela tinha me feito errado. Ela nem entendeu muito bem e disse que eu não precisava ser menino para brincar de bola, por exemplo. Nem passava pela cabeça dela uma parada dessas de tratamento hormonal e tal, nem eu sabia. ’ – Ele relembra, e também assume que descobriu muito tempo depois sobre existir um tratamento no país – ‘só fui descobrir em 2014 que existia um tratamento no Brasil e a primeira coisa que fiz foi contar para a minha namorada da época e também para a minha mãe’.

Pedro contou que o peso maior para ele era não saber qual seria a reação das pessoas à sua volta quando começasse o tratamento, principalmente pelo fato do jiu-jitsu ser um esporte muito machista. Ficou um tanto preocupado com a reação das pessoas que treinavam com ele, seus professores e acabou vivendo tudo isso sozinho.

Morando e treinando em Curitiba e decidido a contar às pessoas, ele já tinha o plano de abandonar o esporte e voltar para sua cidade, Maringá. Mas a reação das pessoas foi completamente diferente do que ele imaginou.

‘Tomei a decisão de voltar para a minha cidade, porque achei que não iam aceitar. Eu decidi pesar e fazer o tratamento porque primeiro eu precisava ter amor próprio e pensar na minha qualidade de vida, independente de qualquer coisa. Eu estava decidido que não devia ficar num ambiente que não me fosse positivo e nem me puxasse para trás. Bolei todo um plano de falar e vazar, só que quando eu falei, já tendo um emprego na minha cidade e a passagem comprada, todo mundo me apoiou muito e ficou feliz por mim'.

De fato ele se mudou, mas já está preparado para voltar a Curitiba.

Algo que achei muito nobre da parte de Pedro foi que ao optar pelo início do tratamento hormonal, ele parou de competir. Tendo em vista que o jiu-jitsu não tem nenhum tipo de teste de doping (salvo para os campeões mundiais nas faixas pretas), a decisão foi tomada apenas por ele e não por algum tipo de força maior. Ele conta o motivo: “Primeiro que não era justo nem com outros nem comigo mesmo. Inicialmente comigo mesmo. E por outro lado, ninguém queria saber se eu fazia algum tratamento ou não, minha aparência e postura masculina já era motivo de falarem algumas coisas e eu não achava justo”. 

Pedro competiu pela primeira vez um campeonato na categoria masculina no Brasileiro, ainda nesse ano. Ele conta que teve algumas dificuldades. Entre elas, ressalta que a categoria masculina tem muito mais lutas, já que a feminina sempre tem um número inferior de inscritos. Outra diferença grande não foi a força física, ao contrário do que estamos condicionados a pensar e sim, a estratégia de luta. E seu desafio maior foi perder peso.

“Eu precisava bater 64kg e estava com 72kg, era uma categoria totalmente nova. Esse foi meu primeiro desafio. O segundo foi o tempo de luta. Eu nunca tinha competido de faixa marrom e são oito minutos de luta. A categoria também foi um desafio” – disse Pedro.

Sua experiência no campeonato foi positiva: ele venceu sua primeira luta e, embora tenha ficado longe do pódio, sua conquista foi muito maior do que isso.


Ele também assumiu estar muito feliz por ter visto pessoas torcendo por ele. ‘Foi um sentimento novo. Ganhar uma luta pode não dizer nada, né, mas para mim valeu muito essa sensação de ganhar uma luta na categoria a qual eu realmente pertenço. Foi indescritível, nunca senti nada dessa forma’ – comemorou o atleta.

Ele conseguiu se mudar seu registro na federação depois de ter conseguido regularizar seus documentos nos órgãos públicos.  Aproveitando, Pedro elogiou muito a postura da federação. ‘Uma hora ou outra iam ter que mudar, né. Mas o pessoal da federação foi muito bacana, me ajudaram a agilizar as coisas e eu me senti acolhido, incluído. Não tentaram me excluir ou me deixar de lado’ – disse o faixa marrom.

Recebendo apoio de todos os lados, Pedro também contou que seu patrocinador facilitou muito para as coisas continuarem acontecendo. “Eu tinha patrocínio da Koral, meu contrato já tinha vencido e eles quiseram renovar. Durante a minha transição eu não conseguia pensar em tudo, era muita coisa e então eu nem falei nada de renovar, eles mesmos que falaram que tinham interesse e eu achei isso muito bom” – destacou.

A história do Pedro sempre me chamou atenção porque, embora ele seja uma pessoa reservada – tanto que durante a transição, me contou que ficou cerca de três meses afastado até que conseguisse mudar documentos, nomes nas redes sociais e etc – eu sempre o admirei pela sua coragem de assumir para o mundo como ele se sentia internamente dentro do esporte, em especial o jiu-jitsu, que infelizmente vemos casos recorrentes de machismo.

Que tudo isso sirva de inspiração a você que tem algum receio quanto ao seu gênero, a você que pensa em desistir e também, a comunidade do jiu-jitsu, porque Pedro é uma prova de que gênero, para os outros, é só um detalhe, mas para quem sente e vive isso, é primordial e ninguém tem o direito de tirar o direito de outra pessoa de ser feliz :)

Leia também: Atleta da Semana: Pedro Petry

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Líder do ranking mundial na faixa roxa e campeã do Grand Slam de jiu-jitsu: conheça Gabi Pessanha

Mayara Munhos
Mayara Munhos
C A M P E Ã!
C A M P E Ã! Jiu-Jitsu Magazine

História de campeonato mundial: meu maior amor!

Hoje vim falar sobre a Gabi Pessanha: ela tem 17 anos, acabou de completar um Grand Slam – foi campeã do Europeu, Pan Americano, Brasileiro e Mundial esse ano – e tudo isso em apenas seis meses como faixa roxa. O que mais ela faria nas competições nessa graduação? Foi aí que seus professores Márcio de Deus e Rogério Poggio, da Infight, decidiram graduá-la a faixa marrom logo após vencer peso e absoluto no Mundial da IBJJF, no último final de semana. Além de ser o seu primeiro ano como faixa roxa, também está sendo o primeiro na divisão adulto. 


Gabi Pessanha treina num projeto social da equipe Infight, localizada na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro.  Ela começou a treinar em 2011, sem muita vontade, ia todos os dias no projeto com um amigo para assistir os treinos, até que seu atual professor Márcio, a chamou para experimentar e ela decidiu tentar. Desde então, nunca parou.

Ela conta que nunca imaginou competir: “Comecei por diversão, estava na rua e não tinha nada para fazer, aí no lugar de ficar jogando bola ou brincando, encontrei um lugar para me divertir e com o tempo foi ficando mais sério”. Hoje, competindo fora do Brasil, ela também contou que achava que nunca conseguiria viajar porque achava muito caro: “eu via as pessoas viajando para os Estados Unidos e pensava ‘nossa, deve ser muito caro, uns cem mil reais’, até que um amigo foi para o mundial e disse que eu devia viajar. Perguntei para ele quanto ele tinha gastado e vi que com uns quatro mil reais eu conseguiria ir. Aí isso ficou na minha cabeça, toda hora pensava nisso e foi aí que comecei a me focar na competição”. 

Em novembro do ano passado, Gabi recebeu sua faixa roxa e, depois de uma impressionante sequência de vitórias na faixa azul, ainda na categoria juvenil, começou a competir em 2018 na adulto. Ela finalizou com estilo seu estrelato na graduação. Além do Grand Slam, ela terminou no primeiro lugar do ranking da IBJJF, com 1012.5 pontos; enquanto a segunda colocada vem com 491. Invicta!

 

Ranking mundial da faixa roxa
Ranking mundial da faixa roxa Reprodução/IBJJF

Perguntei a ela sobre sua preparação física e ela, com toda simplicidade, me respondeu: “Eu nunca fui de fazer a preparação física, não. Tipo assim, se eu estou sentindo a minha pegada fraca, eu vou e treino pegada. Se sinto que não estou flexível, chegou no treino mais cedo para alongar. Esse foi um jeito que adaptei para mim. Lá em casa subo desço escada várias vezes... A preparação para o jiu-jitsu é treinar bastante, quanto mais tu repete, passa a ser natural. É assim mesmo, a repetição leva a perfeição, melhor dizendo”.

E sobre o jiu-jitsu, ela conta que foi onde se encontrou e que é no tatame que esquece todos os problemas. Seu primeiro pensamento quando começou a competir, segundo ela, era que não queria ser apenas mais uma e por isso, se dedicou ao máximo.

“Sou doida por jiu-jitsu. Eu não queria ser apenas mais uma, eu não queria ser apenas mais uma menina de comunidade, apenas uma menina se inscrevendo nos campeonatos. Eu queria ser a melhor, mas para ser a melhor eu teria que fazer coisas que os melhores fazem. Tive abrir mão, me sacrificar para ser uma boa atleta. Porque sem isso eu seria apenas mais uma, eu estaria fazendo o que todos fazem. Eu gosto de pesquisar sobre jiu-jitsu 24 horas por dia, gosto de assistir vídeos... Eu sou doida, né, maluca (risos), não sei a palavra certa”.

Seu primeiro campeonato pela IBJJF na (até então) nova faixa e categoria, foi o Europeu, em janeiro. Lá, ela contou que estava com a cabeça muito boa: “Eu sabia que era uma nova experiência, eu lutaria com mulheres mais velhas, mais fortes e mais experientes que eu, talvez até com mães de família, com uma mente melhor. Mas eu estava tranquila” – e completou – “Sabia que tinha treinado bastante, a minha experiência na faixa azul ajudou, os erros e acertos me fizeram muito melhor. Estava me sentindo muito melhor como atleta e como pessoa”.

 

De lá para cá, sem perder nenhuma luta, ela confessa estar muito feliz e reconhece que abrir mão das coisas tem dado certo: “Eu sempre imaginava como seria ganhar. Mas quando acontece, é totalmente diferente”; e com isso, ela agradece seus parceiros: “Se não fossem meus companheiros de treino e professores, talvez não conseguiria. A galera sempre me dá uma palavra de incentivo e abre mão de ir embora do treino para fazerem drills comigo. Me sinto realizada, graças a Deus. Estou muito feliz, muito feliz mesmo”.

Com certeza seus companheiros têm muito a agradecer e a se orgulhar, já que sua torcida é alucinante. (Assistam ao vídeo, de verdade!)


Graduada a faixa marrom no pódio, depois de vencer o absoluto, ela e seus professores estão agora cuidando de sua documentação para poder competir na faixa marrom, já que o tempo mínimo entre a roxa e a marrom é de 1 ano e meio. A outra regra é ter 18 anos, que ela ainda completará esse ano.

Ao conquistar a faixa roxa, ela não pôde renovar sua filiação por conta da idade, que precisava ser 17 anos completos. “Agora precisamos enviar fotos e vídeos para a federação para ver se eles liberam” – completa Gabi, já ansiosa para competir pela nova graduação.

Gabi: campeã peso e absoluto no Mundial.
Gabi: campeã peso e absoluto no Mundial. IBJJF

Já sobre seus planos, ela conta que quer continuar treinando, claro e, por incrível que pareça, começar a treinar balé para melhorar sua flexibilidade no pé. “Estou pensando mesmo no balé, é sério. Dança, alongamento... Preciso ser mais flexível, já tinha pensado nisso antes e agora na faixa marrom é mais uma motivação, creio que vá me ajudar” – conta Gabi.

E embora as coisas tenham acontecido rápido de um ano para o outro, ela reconhece que está só começando e ainda tem muito a aprender. “Tenho muito a aprender, muita coisa para evoluir, muitas experiências boas ou ruins. Tem uma matéria minha que saiu no ano passado com mais uma galera, que falava que alguns continuam e outros ficam pela estrada, não me lembro ao certo, mas isso me motivou muito a continuar. Eu li e me deu um impacto. Tudo é uma motivação para você chegar a faixa preta”.

Portanto, guardem esse nome: Gabi Pessanha já tem dado o que falar. Ao que tudo indica, dará muito trabalho na faixa marrom e chegará mais do que preparada para a faixa preta.

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Mundial IBJJF 2018: analisando as faixas pretas, por categoria

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Nathiely foi campeã no ano passado e vem em categoria acima esse ano
Nathiely foi campeã no ano passado e vem em categoria acima esse ano IBJJF

Amanhã começa mais uma edição do Campeonato Mundial da IBJJF. A cada ano, vem aumentando o número de mulheres competidoras em todas as categorias. Mas sabemos que as faixas pretas são as mais esperadas. Elas entram em ação na Walter Pyramid, em Long Beach (Califórnia) no sábado e no domingo.

 Como sempre, seguimos na ansiedade pelo evento e pelas lutas, que promete reunir muitos talentos e surpreender. Bora correr categoria por categoria!

Galo

No peso galo, temos do mesmo lado da chave duas favoritas: Rikako Yuasa (Gracie Barra), atual campeã da categoria e que tem vencido o mundial desde 2015 e Thamires Aquino (GFTeam), terceira colocada da categoria de cima no ano passado. Thamires deve enfrentar a atleta da Gracie Barra Rayane Amanda (vice-campeã da categoria em 2017) para partir para Rikako.

Do outro lado, Serena Gabrielli (Flow),3ª colocada de 2017 aguarda a vencedora entre Outi Tammilehto (Brasa CTA e também 3ª colocada no ano passado) e Tassia Vanessa (Gracie Barra) para que as semis sejam decididas.

Pluma

Pluma vem forrada de meninas e é a categoria mais cheia de todas na faixa preta, num total de 14 competidoras.

Obviamente a final mais esperada será entre Talita Alencar (Alliance) e Gezary Matuda (American Top Team), assim como foi no ano passado. As duas parecem ter se estranhado algumas vezes em lutas de tirar o fôlego (delas e de quem está assistindo) e a vitória do ano passado foi de Talita. Elas também se encontraram no Pan de 2018, com vitória de Gezary.

Notícia boa: elas estão em lados opostos da chave e podem realmente se enfrentar. Notícia não tão boa: tem muita pedra nesse caminho e algumas serão: Vanessa English (Gracie Barra), a polonesa-australiana Livia Gluchowska (Absolute MMA) e a terceira colocada de 2017 Kristina Sofia (Brasa CTA), a atual campeã europeia Amanda Monteiro (GF Team) 

 

Gezary x Talita, 2017
Gezary x Talita, 2017 IBJJF

Pena

Com 12 competidoras, a peso pena está bem movimentada e promete confrontos muito emocionantes. De um lado, Jessica Cristina (Elite BJJ) e Anna Elizabeth (Brasa CTA) se enfrentam para decidir o futuro de Emilie Maxine (GB South Bay), a atual campeã da categoria. Embaixo, Heather Raftery (Atos) enfrenta Jaqueline de Moraes (Checkmat) para ver quem enfrentará em seguida a vice-campeã Ana Carolina Schmitt (Team Marcos Cunha). Lado forte, mas já viram o outro?

Temos a terceira colocada do ano passado Aaerae Alexander (Lloyd Irvin) enfrentando Nathalie Van Soares (CheckMat) para decidirem quem enfrentará Bianca Basílio (Almeida JJ – Atos). Lá embaixo, Tammi Mussumeci (Brasa CTA) enfrenta Kristin Mikkelson (Brazil 021) para decidir quem será a adversária de ninguém mais ninguém menos que Karen Antunes (Checkmat), que surpreendeu no Pan Americano desse ano após vencer da Bia Basílio, sem esquecer que ela havia acabado de voltar de uma pós gestação.

Ou seja, na minha opinião, nada pode ser surpreendente nessa chave, que promete fortes emoções.

 

Karen Antunes no Pan 2018
Karen Antunes no Pan 2018 IBJJF

Leve

Em lados diferentes da chave, temos Beatriz Mesquita (Gracie Humaita) e Luiza Monteiro (Atos), que já se enfrentaram no ano passado, com vitória de Luiza Monteiro, quando ainda era Brotherhood e se enfrentaram também nesse ano, na semifinal do absoluto do Pan Americano, onde a vitória foi novamente da Luiza. Sem dúvidas essa será a final mais esperada, porém praticamente impossível de escolher uma favorita.

Mas tem coisa para rolar antes da final. Na semi, Beatriz enfrenta a vencedora da luta entre Catherine Perret (Checkmat) e Laurah Elizabeth (GF Team), enquanto do outro, Luiza enfrenta a vencedora entre Jena Bishop (Gracie Humaita) e Charlotte Von Baumgarten (Alliance).

 

Luiza Montiero, campeã em 2017
Luiza Montiero, campeã em 2017 IBJJF

Médio

De um lado vem Erin Herle (Alliance) que luta seu primeiro mundial na faixa preta enfrentando Amanda Elouise (Marcio Cruz). Esse confronto decide quem pega Ana Carolina Vieira (GFTeam), a “Baby”, atual campeã da categoria e que vem forte demais. Embaixo, Samantha Cook (Checkmat), vice-campeã peso e absoluto do ano passado na faixa marrom, enfrenta Natasha Aileen (Fight Sports) para decidir a adversária de Sarah Johnel (Nova União).

Do outro lado, Jackeline Rodrigues (Alliance) enfrenta Caitlin Huggins (Brasa CTA) para decidir a adversária da Renata Marinho (Alliance) que também vem em seu primeiro mundial como faixa preta, trazendo o título de faixa marrom do ano passado. Embaixo temos a campeã mundial sem kimono e estreando pela nova equipe em mundiais, Raquel Canuto (Checkmat) e Lenna Dittrich (Fight Sports). Desse lado pode ser que Raquel e Renata se enfrentem mais uma vez e um confronto entre elas é sempre eletrizante.

 

Baby, campeã em 2017
Baby, campeã em 2017 IBJJF

Meio Pesado

Do lado esquerdo Monique Ricardo (Checkmat) enfrenta Sábatha Laís (Ryan Gracie). A vencedora do confronto deve estar pronta para enfrentar a estreante na faixa preta Alejandra Gonzalez (Carlson Gracie) ou então Monique Elias (Alliance) que nesse ano subiu de categoria, depois de ter voltado de uma cirurgia de quadril no ano passado e ficado em segundo lugar no médio.

Atual campeã da categoria de cima, Claudia Doval (De La Riva) vem de meio pesado nesse ano e está do outro lado da chave, que está absurdo, por sinal. Quem enfrenta ela será ou a pentacampeã mundial Luana Alzuguir (Alliance) que faz um tempo que não vemos em mundiais ou então, Andressa Cintra (Checkmat) que participa do seu primeiro mundial na faixa preta, carregando seu título de campeã da faixa marrom no peso e absoluto do ano passado.

Não tá fácil pra ninguém.

Pesado

De um lado temos Jéssica Flowers (Gracie Barra), que foi terceiro lugar no peso e absoluto no ano passado enfrentando Alison Victoria (Brazilian Top Team). A vencedora entre as duas, enfrenta a vencedora entre Nivia de Souza (Gracie Gym Texas) e Nathiely Karoline (Unity Jiu-Jitsu – mas que recentemente anunciou mudança para Soul Fighters de Dallas, Texas), que é novidade na categoria, já que vinha sempre de meio pesado, sendo inclusive a campeã da categoria em seu primeiro ano de faixa preta em 2017 e também em 2016, quando ainda era faixa marrom e levando também o título do Pan nessa categoria, esse ano.

Do outro lado, Maria Malyjasiak (Zenith) enfrenta a vice-campeã Pan Americana Yacinta Nguyen (Jiu-Jitsu For Life Team) para decidir a adversária da tri-campeã mundial Fernanda Mazzeli (Gracie Humaita). 

Super Pesado

Com a categoria mais cheia do que o habitual, é difícil imaginar outra atleta garantida na final que não seja Tayane Porfírio (Alliance) que está há um bom tempo sem perder. Ela fica à espera da vencedora entre Hillary Vanorum (Impact Jiu-Jitsu) e a vice-campeã do Pan (meio pesado), que foi uma pedra no caminho Tayane no Europeu e campeã Brasileira esse ano, Carina Santi (G13) para decidir uma das semifinais.

Do outro lado, semifinal direto: a batalha será entre a imparável Andresa Corrêa (Alliance), que esteve um pouco ausente das competições após a gravidez, mas que continua firme e forte no adulto com 38 anos e a Venla Orvokki (Hilti BJJ), que enfrentou Tayane no ano passado e sagrou-se vice-campeã no peso.

Tayane x Nathiely, 2017
Tayane x Nathiely, 2017 IBJJF

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Mundial IBJJF 2018: analisando as faixas pretas, por categoria

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Mackenzie Dern: as pessoas estão preocupadas com seu desempenho ou só querem saber do seu corpo?

Mayara Munhos
Mayara Munhos
Mackenzie Dern finalizou Amanda Cooper no mata leão
Mackenzie Dern finalizou Amanda Cooper no mata leão Getty

Ultimamente, parece que as pessoas decidiram cair em cima da Mackenzie Dern. Faixa preta de jiu-jitsu, multi campeã mundial e que hoje está focada no MMA, já tendo feito duas lutas pelo UFC, ela tem sido alvo de duras críticas por conta de sua “postura” e a última polêmica envolvendo a atleta, foi o fato de ela ter ficado pouco mais de 3kg acima para lutar nesse final de semana contra Amanda Cooper no UFC 224.

Mas a questão é: as pessoas estão preocupadas com seu peso, saúde e desempenho, ou só com seu corpo?

Dern, que sempre foi considerada musa nos tatames, mudou seu foco e parece que as pessoas não cansam de criticá-la.  O problema é que ela frequente festas? Que ela não esteja na melhor forma física dos últimos tempos? Que ela faça viagens frequentes sem necessariamente o intuito de lutar? Que ela poste fotos de biquíni? Mas quem é que tem a ver com isso? As pessoas se esquecem que por trás de uma atleta, existe um ser humano.

No último ADCC, em 2017, Mackenzie que até então era a atual campeã, foi derrotada por 4x2 por Elvira Karppinen, uma atleta que não era conhecida no meio do jiu-jitsu e, na época, faixa roxa. As pessoas se preocuparam muito mais em ressaltar a derrota de Mackenzie que era "um absurdo" e que ela estava "sem foco", do que procurar saber um pouco mais sobre os méritos de sua adversária que não era faixa preta de jiu-jitsu, mas na luta seguinte, quase finalizou a duríssima Bianca Basílio com uma chave de pé e ficou a um passo de partir para a final. Era só sua primeira aparição no evento, que é o maior evento de luta agarrada do mundo, não tendo o jiu-jitsu como foco principal.

Reiterando a questão: quantos atletas homens já estouraram o peso no UFC e a única coisa colocada em cheque foi a falta de profissionalismo?  

Em 2012, Anthony Johnson ficou quase 5kg acima do limite de peso na luta contra Belfort no UFC 142. Já John Lineker se mostrou profissional em exceder o peso, passando pelo mesmo problema cinco vezes. Depois de estourar o peso Mosca (até 56,7kg) pela quarta vez, o UFC o obrigou a subir para o peso Galo (até 61,2kg) para que continuasse no evento. Mesmo assim ele perdeu a luta para a balança contra John Dodson, num main event, estourando desta vez o limite da categoria de cima e mostrando que a dificuldade em bater o peso geralmente tem mais a ver com o processo de corte do que com os limites do corpo do atleta. Também UFC 183, o brasileiro Alex Cowboy ficou 2,5kg acima. No UFC 221, Yoel Romero não bateu o peso para sua luta que seria a principal contra Robert Whittaker e perdeu a chance de sair da arena com o cinturão. Isso sem contar Charles do Bronx, que em 2016 estourou pela quarta vez o peso em quase 4kg em luta contra Ricardo Lamas.

Na época, duras críticas em relação a profissionalismo, mas não se via nenhuma em relação ao corpo e nem piadas como a do nosso querido e já conhecido Colby Covington que fez o seguinte post no seu Instagram:


 

Mackenzie Dern errou ao exceder 3,2kg? Com certeza. Falta de respeito com adversária, falta de profissionalismo... tudo isso pode ser questionado e ela reconheceu em coletiva, dizendo que:

 “Posso falar aqui dez mil desculpas. Realmente acredito que o que aconteceu com o peso foi lá atrás, meses atrás, na minha última luta. Acho que realmente é dieta. Tenho que acertar a dieta. O fato de eu ter conseguido antes eu achei que sabia o que estava fazendo, muitas coisas vieram a acontecer, não é desculpa (...) eu fui indo, o UFC desde o dia que cheguei estava em cima de mim, querendo me ajudar, e eu dizia ‘eu vou conseguir, eu sofri da última vez, mas dessa vou conseguir’, e chegou sexta-feira 09h da manhã não estava saindo mais nada. Eu estava lá na sauna e não estava saindo mais água nenhuma. Eu estava suando, não estava conseguindo andar... e falaram que não dava para eu continuar. Graças a Deus a Amanda aceitou a luta. É uma coisa que eu tenho vergonha, lógico que não quero que aconteça isso de novo, mas é um erro. (...). Eu não faço uso de bomba, não fui pega no doping... tem disputa nos cinturões que são pegos nas drogas, cocaína, coisa assim e para mim é um erro. O UFC está investindo em mim e eu vou trabalhar com eles para isso nunca mais acontecer”.  

Mas uma coisa é criticarem o fato de ela ter excedido o peso e a outra, de julgarem sua forma física e colocarem outras coisas na roda, como o português ou o inglês dela, ou então títulos de matérias sensacionalistas dizendo que ela foi expulsa de sua antiga equipe de MMA, no Arizona, ou quererem julgar o seu foco sem entender, de fato, qual é seu foco.

Entrevistada pela equipe espnW há uns meses, Mackenzie assumiu não ter pretensão de ficar no MMA por muito tempo, mas é fato que ela vai honrar seu compromisso enquanto estiver ativa, tanto que nesse final de semana, lutou acima do peso, com 30% da sua bolsa destinada a sua adversária, mostrou que está muito bem na trocação, derrubou Cooper e ainda finalizou no mata leão.

Outro ponto importante a se lembrar é como perder peso pode ser difícil, perigoso e debilitar o atleta, que, ainda sendo com acompanhamento profissional, é completamente agressivo. Quem se lembra de Cris Cyborg, no UFC de Brasília, onde ela precisou perder 11kg em cinco dias para bater 63,5kg? Tudo foi exibido em um documentário chocante.



Mas de tudo isso, a mensagem que fica é: Mackenzie Dern não prometeu ser musa de ninguém. Portanto, independentemente de sua forma física que não agrada a todo mundo (e nem deve agradar ninguém que não seja ela mesma), nos octógonos e nos tatames, é indiscutível que ela nunca deixou a desejar.

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Faixa preta e campeã aos 67 anos: conheça Nair Mota que deu o que falar no Campeonato Brasileiro de Jiu-Jitsu

Mayara Munhos
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Sábado, 05 de maio de 2018. Sétimo dia de Campeonato Brasileiro. Meu professor me pediu para tirar uma foto de um atleta da nossa equipe no pódio e eu fui. Depois da foto, uma surpresa: vi duas mulheres faixa marrom no pódio aparentando ser um pouco mais velhas. Lembrei sobre a petição feita pela Karen Peters, que escrevi aqui durante o Panamericano desse ano. Minha primeira reação: tirar uma foto correndo, um pouco sem sucesso.

Essa foi uma das fotos sem sucesso que tentei tirar da Nair.
Essa foi uma das fotos sem sucesso que tentei tirar da Nair. Mayara Munhos

As duas desceram do pódio. Lá dentro, dois caras com uma camiseta da Gracie Barra vão a sua direção. Um desamarra sua faixa marrom enquanto o outro, pega uma faixa preta na mochila de alguém, vai até a campeã e amarra sua faixa preta na cintura. Ela estava sendo graduada a faixa preta depois de ser campeã brasileira.


Fui atrás para descobrir mais detalhes: ela era máster 7, categoria pesado. Quem estava lá na graduação era seu filho, que também tinha sido campeão brasileiro no mesmo dia. Não podia perder a oportunidade de falar dessa mulher de 67 anos, chamada Nair Mota de Oliveira, que treina na equipe Gracie Barra de Sergipe e cheguei a ela através de seu filho, Danilo Mota de Oliveira.

Tal mãe, tal filho
Tal mãe, tal filho Reprodução/Instagram

Danilo de cara me contou que a relação dele com a mãe sempre foi muito próxima, que ambos são formados em Educação Física e que no começo ela era meio contrária a ele treinar.

“Comecei o jiu-jitsu aos 11 anos. Minha mãe não gostava muito, achava violento. Mas acabou indo comigo depois” – contou o filho. E Nair confirmou: “No início eu queria que fizesse judô, não tinha conhecimento nenhum sobre jiu-jitsu e você sabe que antigamente ele era meio discriminado. Mas ele insistiu. Coloquei ele e acompanhei”.

Mais que acompanhar para assistir, Nair decidiu treinar também. “Eu queria saber como era, não sou aquela mãe pegajosa, mas sou vigilante. Acompanhando, o professor dele perguntou porquê eu não treinava e eu achei que não dava para mim. Depois comecei, vi que não era nada do que pensava e hoje estou treinando há 12 anos” – disse a mais nova faixa preta máster 7.

Atualmente, seus treinos se dividem entre jiu-jitsu, muay thai e pasmem: ela ainda corre 2km por dia. Mas afirmou que sua paixão mesmo é o jiu-jitsu.

O Campeonato Brasileiro foi o primeiro que Nair decidiu participar. “As pessoas diziam ‘você é louca?’; mas eu queria participar” – me conta dando muita risada por telefone, e ainda disse que entrou muito tranquila. “Para você ter uma ideia, eu entrei no tatame completamente calma, meu filho estava nervoso. Para mim era como se tivesse entrando numa academia. Acho que muito disso é porque o acompanho em todos os campeonatos. Somos muito unidos. Ele é o meu professor”.

Mas o sentimento de calmaria ao entrar no tatame foi completamente contrário quando viu que receberia sua faixa preta. “Essa foi surpresa. Eu fiquei nervosa quando amarraram a faixa, agora a responsabilidade é maior” – comentou Nair, que está muito decidida a participar de campeonatos daqui para frente, ainda que saiba da dificuldade de encontrar uma adversária em sua categoria.

“É muito difícil encontrar uma adversária, muito difícil” – ressaltou – “eu me inscrevi nessa categoria (pesado) porque não queria seguir uma dieta rígida demais. Antes eu estava uns 2kg abaixo, chegando em São Paulo eu estranhei a comida e bati 7kg a menos na pesagem, acabei emagrecendo, minha adversária era mais pesada que eu”.

O pódio de Nair
O pódio de Nair CBJJ

Ela contou ter treinado muito para o Brasileiro e por conta disso, entrou completamente tranquila. Mas algo muito mais importante do que ‘apenas’ treinar, ela levou para dentro do tatame sua experiência de vida. “Quando a gente chega nessa idade, já passamos por tantas coisas na vida que é muito difícil algo alterar nosso sistema nervoso. A gente já teve filho, já estudou, as emoções foram muitas. Não tinha motivos para ficar nervosa – fora a faixa, claro” – riu Nair, que eu me recusei de chamar de ‘senhora’.

Sobre a luta, sua adversária acabou sendo desclassificada e, segundo Nair, saiu um pouco triste, mas ela manteve sua pose e foi conversar com ela. “Quando acabou a luta, falei para ela ‘não pense que você é uma perdedora, não. Você é uma vencedora. Nós duas somos vencedoras’ e parece que ela se acalmou” – quer me fazer chorar, Dona Nair?

Durante a luta de Nair
Durante a luta de Nair Carolina Lopes/BJJ Girls Mag

Depois da graduação dela, muitas páginas compartilharam sua foto e ela não imaginava tamanha repercussão. Com isso, ela aproveitou para jogar uma questão: tem tantos homens mais velhos competindo e alcançando a faixa preta, e por que quando uma mulher alcança nessa idade parece algo muito fora do comum? E então, ela deixou um recado:

“Tomara que essa turma que está começando prossiga mesmo, para quando chegar nos campeonatos, ter gente de 70/80 anos competindo e não ter essa discriminação. Acho que futuramente a gente vai chegar no campeonato e vai ter um caminhão de mulheres. Estamos invadindo.”

Ela, que treina na GB com cerca de 15 mulheres, contou que sempre as puxa e que acredita que a mulher demora para começar, mas que quando faz, é bem feito. E também, disse sempre incentivar as meninas a nunca pararem: “eu sempre falo para elas: ‘minha gente, vamos treinar, não é o corpo que domina a mente, é a mente que domina o corpo’”.

E para finalizar, Nair fez uma declaração ao jiu-jitsu, onde conta que ele é seu maior remédio.

“Eu digo com sinceridade, o jiu-jitsu hoje em dia é meu remédio. Para o corpo, para a alma, para a mente, para tudo. Me desligo completamente quando estou treinando. Me sinto na idade das meninas que treinam comigo. Não me sinto mais velha”.

Qual sua desculpa hoje?

Que a história de Nair inspire a continuar, começar e a nunca parar. É minha contribuição para essa semana maravilhosa das mães. 

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Faixa preta e campeã aos 67 anos: conheça Nair Mota que deu o que falar no Campeonato Brasileiro de Jiu-Jitsu

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Projeto social de jiu-jitsu é destaque no Campeonato Brasileiro

Mayara Munhos
Equipe foi segunda colocada na categoria juvenil.
Equipe foi segunda colocada na categoria juvenil. Jiu-Jitsu in Frames

O Projeto Gaditas é um projeto social sem fins lucrativos liderado pelo faixa preta Eduardo Oliveira Rodrigues. A ideia é usar o jiu-jitsu como uma ferramenta para tirar as crianças das ruas e das drogas.

Muito além de ensinar jiu-jitsu, Eduardo leva crianças para sua própria casa e vive junto com elas, seus filhos biológicos e sua esposa. Hoje, o projeto atende cerca de cem crianças e entre elas, 16 moram com ele. O professor já tem a guarda de algumas delas e ainda luta para legalizar a guarda das outras.


No ano passado, as crianças embarcaram em 27 para São Paulo a fim de disputar o Campeonato Brasileiro. Nesse ano, o número praticamente dobrou: vieram em 40. No total, 44 Gaditas, contando com os que treinam aqui em São Paulo, competiram nesse final de semana. 

O projeto sobrevive 100% de doações e caso alguém tenha interesse em ajudar, pode entrar em contato direto no Instagram clicando aqui.

A Atos, equipe pela qual o Gaditas é filiado, terminou o campeonato na segunda colocação da categoria juvenil.

Veja todas as fotos no Instagram Jiu-Jitsu in Frames.

E alguns dos melhores momentos aqui:


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Guilherme Mendes e a Art Of Jiu-Jitsu - [EP2]

Mayara Munhos

Pronto, chega de espera!

Saiu, finalmente, o episódio dois (e último) do bate papo que tive com o Guilherme Mendes lá na AOJ.

Quem perdeu o primeiro, assiste aqui antes de ir para o próximo.

E para quem já assistiu, corre lá no Jiu-Jitsu in Frames para ver o segundo. Nele, falamos um pouco sobre o diferencial dos Mendes Bros.

Sem segredo, só trabalho duro!


Obrigada a todos e se inscrevam no canal, que logo tem mais vídeos chegando por aí!
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Guilherme Mendes e a Art Of Jiu-Jitsu - [EP2]

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O jiu-jitsu feminino existe fora de SP e RJ e se chama Joaquina Bonfim, 9ª no ranking da Confederação Brasileira

Mayara Munhos

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Há um tempo, recebi nas minhas redes sociais uma solicitação de mensagem exatamente assim: “Gostaria de fazer uma sugestão de pauta, pode ser? Você guarda e avalia se é possível escrever sobre o tema. (...) Trata-se de uma atleta nordestina que é contemporânea de várias gerações. Chamamos ela de 'Highlander'. Pode ser, talvez, uma das atletas mais longevas a atuar no circuito da faixa preta adulto. Trata-se da Joaquina Bonfim”.

Essa pessoa me deu a sugestão por alguns motivos. Dentre eles, o primeiro: Joaquina é nono lugar do ranking da Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ) entre as faixas pretas adulto, embora sua categoria real seja máster. 

E além disso, porque ele me levou a um texto ótimo de Joaquina no Linkedin que você pode ler aqui.

Antes de escrever, de fato, quero manifestar meu real interesse em falar sobre mulheres de outros estados. Temos tantas mulheres faixas pretas espalhadas por aí, umas que competem mais, outras menos, mas todas muito importantes para o cenário não só feminino, mas do jiu-jitsu como um todo. Não vamos esquecê-las. Às vezes pecamos (eu peco) e vejo que poderia (mos) fazer mais. Façamos mais! Os patrocinadores devem fazer mais, os atletas devem fazer mais e, também, a mídia deve fazer mais. Estou planejando citar novas histórias aqui nas próximas semanas. Podem me enviar sugestões que acharem importantes. Continuando...

Lá vou eu saber mais sobre a história de Joaquina e me deparo com muitas coisas, entre elas uma mulher incrível e batalhadora, que luta diariamente dentro e fora dos tatames para se manter no topo e se destacar. Joaquina é faixa preta e, atualmente, treina na Gracie Barra de Pernambuco

Ela treina há quinze anos e conheceu o jiu-jitsu por meio de uma amiga, mas contou que sua relação com o esporte vem de muito antes. “Vem desde a infância. Experimentei várias modalidades ao longo da vida. Da natação ao handebol. Do futebol ao voleibol. Mas nas lutas, realmente encontrei uma das minhas principais vocações.”

Brava, né? Me chamou para fazer um treino quando eu estiver em SP e estou preocupada
Brava, né? Me chamou para fazer um treino quando eu estiver em SP e estou preocupada Reprodução/Instagram

Joaquina é faixa preta há oito anos e compete desde a branca. Porém, contou, também, que lá onde mora, sempre enfrentou problemas desde a faixa azul pela falta de adversárias em sua categoria, o que fez com que ela se adaptasse em vez de desistir.

"Por me sentir capaz de enfrentar desafios e começar a me habituar com a adrenalina e o clima de competição, passei a buscar maneiras possíveis de participar de torneios e campeonatos fora da minha cidade natal, para testar minha própria aprendizagem. Já nessa época, comecei a ter problemas com a visibilidade da presença feminina no jiu-jitsu e, involuntariamente, percebi que incomodava muitos graduados. Lido com esse tipo de reação adversa há muitos anos". 

Ela diz que, conforme a faixa foi escurecendo, em vez de as pessoas a ajudarem, muitas foram se afastando, principalmente os homens. Ela diz que "muitos homens, apanham seus copinhos com água, suas mochilas e saem dos treinos com a expressão fechada em gesto de descontentamento quando, eventualmente, encaram uma posição mais forte com uma faixa preta competidora" - e completa - "Ou então, adotam um ímpeto 'kamikaze' quando precisam de uma autoafirmação e assumem o risco de machucar uma colega de treino e até de se machucar sem necessidade. Atualmente, ainda são esses os espinhos mais amenos do cotidiano."

Porém, sua maior dificuldade ao longo dos anos é ter que sair de sua cidade para enfrentar longas viagem, custo do próprio bolso e muito cansaço para poder competir. Muitas vezes, ela conseguia ajuda financeira e hospedagem com amigos, mas muitas outras, não.

Joaquina, além de tanta luta, ainda teve a humildade de destacar o quanto se inspirou em faixas pretas da velha guarda, tanto como nas que vieram surgindo quando ela já lutava e, mais ainda, nas da nova geração. Cita, também, que procura renovar seu jogo a cada dia, assistindo às lutas delas, para cada vez mais mostrar o que é que o Nordeste tem.

"Tenho imenso respeito por todas elas. Nelas me motivo, sempre buscando melhorar para poder representar a parcela feminina (e do bom Jiu-jitsu) de minha cidade, meu estado, minha região".

E é claro, ela contou que alguns amigos do jiu-jitsu a chamam de Highlander, como já citado no início da matéria, e que leva o elogio com uma grande satisfação. Além disso, manda a letra: "O Jiu-jitsu quer que a gente desista, em todos os sentidos. Aí está o cerne, a essência, o princípio da arte-suave. E o que é que a gente faz? Recomeça e recomeça, procurando evoluir sempre!"

Em relação a sua colocação no ranking da CBJJ, ela também comenta e destaca o quanto sente orgulho por ser uma atleta faixa preta pernambucana a ocupar o "G-10" e confesso que, no particular, ela me disse que pretende bagunçar muito na categoria adulto em 2018 (arretada demais).

"Ainda que eu também possa lutar na categoria Master, me sinto em plenas condições de seguir lutando na adulto por um bom período de tempo. Lutando na adulto, posso pleitear a bolsa atleta, concedida por lei estadual no meu estado, Pernambuco, mediante à devida qualificação. Direito do qual não abro mão. Visto que a bolsa atleta é um grande suporte à minha batalha, que é a de “Lutar para Lutar”, e seguir lutando". 

Seus objetivos dentro do jiu-jitsu são muitos, entre eles continuar competindo e incentivar cada vez mais a bota prática do esporte, elevando-o a outros patamares. Ela tem a ideia de que o amadorismo é completamente prejudicial e conta que, infelizmente, no Nordeste do Brasil, ainda vemos pessoas confundindo o esporte com briga de rua.

"Tenho muitos planos no Jiu-jitsu, para o Jiu-jitsu e a partir do Jiu-jitsu. Encaro como um desdobramento natural de minha trajetória poder lutar no Pan Americano e no Campeonato Mundial na Califórnia e também em edições futuras do ADCC, entre outros eventos de lutas casadas. A profissionalização do Jiu-jitsu é possível. E sei que posso e vou participar desse processo de mudança". 

E essa mulher arretada segue, também, tendo a intenção de levar o jiu-jitsu para níveis escolares e educacionais e, por conta disso, também concilia seus treinos diários com a sua graduação em Educação Física. Dentro de sua rotina, ainda cabe um treino de boxe e preparação física, mas como o dia só tem 24h, Joaquina vira e mexe precisa abrir mão de alguma atividade para conseguir cumprir seu calendário esportivo e também seu dia-a-dia. E tem mais: ela também treina MMA e falou um pouco sobre.

Joaquina contou que sempre gostou muito do MMA mas que, infelizmente, em seu estado, a vaidade e insegurança de muitas pessoas atrapalham que a modalidade seja expandida. Dias atrás, a atleta Gabi Garcia, que tem lutado no Rizin e enfrentado muitas polêmicas em relação a suas adversárias, citou, em uma entrevista, que aceitaria uma luta com Joaquina. Por vontade própria, nada programado e ela simplesmente citou. 

"Tenho lidado com a possibilidade de uma estreia no MMA há vários anos. Passei cinco anos competindo no boxe nacional em alto nível e há muito, iniciei minha experiência com MMA, conciliando a parte de boxe e a parte de chão. As especulações em relação a um luta com Gabi Garcia e outras peso-pesadas acompanham nossos passos há anos. Fico contente que haja essa menção recorrente. Tenho dito que a categoria existe. É fácil verificar. Hoje, há no mínimo dez atletas prontas para o confronto na categoria das pesadas. Resta aos organizadores, promotores, matchmakers se apresentarem de forma devida e formatarem uma proposta clara, objetiva, equilibrada, profissional, consistente, adulta."

Portanto, enquanto não houver nenhuma proposta decente no MMA, nada feito e seu planejamento no jiu-jitsu segue; e ainda que seja feito algum tipo de negociação, a atleta destaca: mesmo com uma estreia no MMA para 2018, minha maior contribuição, hoje, é com a consolidação de meus desafios no jiu-jitsu. Mesmo lutando MMA, seguirei expandindo a presença feminina (pernambucana e nordestina) no Jiu-jitsu. Assumi um notório protagonismo na modalidade e já tenho um lugar na história do Jiu-jitsu na região.

Um parêntese: é importante lembrar que Joaquina não tem um lugar na história só da região e sim, do Brasil e, quiçá, em nível mundial, porque quem pesquisar profundamente a história do jiu-jitsu, de fato, conhecerá a história de Joaquina em algum momento.

Algo muito importante que Joaquina citou em nosso bate papo foi a experiência que ela tem com o jiu-jitsu e como ela o observa hoje na sociedade e é algo que acho que vale a pena disponibilizar na íntegra, porque ela faz uma análise bastante esclarecedora em relação à diferença entre homens e mulheres no jiu-jitsu e a importância da representatividade no meio.

"Já vivenciei muitas situações no Jiu-jitsu. Conheço a experiência do Jiu-jitsu em comunidades com crianças carentes e jovens em conflito com a lei, já conduzi aulas em projetos sociais e conheço o Jiu-jitsu de zona sul, com o público universitário e com executivos, profissionais liberais. Independentemente das novas "roupagens" que se dê ao Jiu-jitsu, uma das minhas maiores missões nesse universo é ajudar a elevar o Jiu-jitsu a outros patamares, principalmente entre as mulheres. Observe que, atualmente, somos cerca de 163 mulheres faixas pretas no ranking da CBJJ/IBJJF em comparação aos mais de mil faixas pretas homens. Significa que, na hora da largada, na faixa branca, a proporção é de aproximadamente dez homens para uma mulher. A cada cinquenta homens que começam na faixa branca, cinco mulheres começam. Quantas mulheres chegam à faixa preta, em média, seis ou sete anos depois? Por isso, nosso trabalho é árduo. Chega mesmo a ser desigual. Portanto, quando nós aparecemos, não representamos apenas a bandeira A ou B. Representamos todas as mulheres que um dia já treinaram ou tiveram vontade de treinar Jiu-jitsu". 

Portanto, podemos dizer que Joaquina, além de grande guerreira, é uma pessoa íntegra, inteligente e, acima de tudo, absurdamente humilde. Com isso, ela deixa um recado para as mulheres do esporte, com uma pitada de crítica construtiva em relação à diferenciação entre jiu-jitsu masculino e feminino e lembrando o triste machismo que há no meio.

"Cultivem junto aos mais jovens, ensinem aos alunos e alunas iniciantes o bom hábito dos três tapinhas e a capacidade de agradecer aos colegas de treino (que se dispõem a abrir mão de seu tempo para treinar, muitas vezes enfrentando dupla ou tripla jornada de trabalho e estudos). Encarem o Jiu-jitsu como Jiu-jitsu. Não entrem na pilha mal descrita de que haja um Jiu-jitsu feminino. Para mim, é um equívoco taxar o jiu-jitsu como 'feminino' ou 'masculino'. Sei que se trata apenas de uma força de expressão. Mas essa divisão mais atrapalha que ajuda. Isso não quer dizer que não se organizem turmas para homens e turmas para mulheres (é sempre válido! Ajuda no processo de aprendizagem. Sou entusiasta de turmas exclusivas para mulheres. Potencializa muito o processo de desenvolvimento). Mas é fundamental que apontem sempre para a integração em turmas mistas (mulheres e homens). Posso dizer, contudo, que ainda na atualidade ocorre muito preconceito com aquelas mulheres que vão além da participação mediana nos tatames. Jiu-jitsu é Jiu-jitsu. A arte de ensinar "suavemente" o que pode ser brusco e muitas vezes tortuoso e traumático. Fazer Jiu-jitsu, treinar Jiu-jitsu, lutar Jiu-jitsu, viver Jiu-jitsu nunca foi algo fácil. Principalmente em estados historicamente machistas como o Nordeste do Brasil".

E tem recado para os homens também:

"Vale também um recado aos meninos para não ser injusta: garotos, aprendam que mulheres num tatame podem trazer a possibilidade de aprimorar com alguma técnica o que muitas vezes se aprende com força máxima e muita truculência".

Sinceramente, eu teria muitas coisas para falar, mas só tenho a agradecê-la por tudo o que fez e ainda faz pelo jiu-jitsu e, também, por tantas histórias contadas fora de um e-mail de entrevista. Poderia dizer muito mais coisas dessa arretadas, mas só tenho mesmo a agradecer.

Isso tudo de uma mulher que leva o esporte a sério e como estilo real de vida (ou raiz, como está na moda): JOAQUINA BONFIM.

Para conhecer mais sobre a atleta, visite seu site aqui e também seu Instagram.

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O jiu-jitsu feminino existe fora de SP e RJ e se chama Joaquina Bonfim, 9ª no ranking da Confederação Brasileira

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Guilherme Mendes e a Art Of Jiu-Jitsu

Mayara Munhos

Ah, a Art Of Jiu-Jitsu... Quem do meio do jiu-jitsu não conhece aquela academia linda, toda branca, organizada e liderada por dois faixas pretas absurdamente inteligentes? 

Localizada em Costa Mesa, Califórnia, a AOJ é liderada pelos irmãos Rafael e Guilherme Mendes, os Mendes Bros, que graças a uma grande oportunidade, deixaram Rio Claro, no interior de São Paulo, e foram construir sua vida lá fora.

O resultado tem sido incrível e, diariamente, podemos acompanhar nas mídias sociais um pouco do dia-a-dia da AOJ. Mas por que ela chama tanta atenção? Como eles constroem tantos campeões? Como eles foram campeões tantas vezes?

Fui até lá (que sonho! hahaha) e tive a oportunidade de bater um papo com o Guilherme, que me contou um pouquinho sobre essa transição; e eu dividi em duas partes.

A primeira você já pode assistir aqui (e reparar no meu nervosismo porque não sou de ferro), no meu canal:


Em breve, a parte dois!
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Guilherme Mendes e a Art Of Jiu-Jitsu

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Vamos falar sobre o feminino master no Panamericano da IBJJF?

Mayara Munhos

Pan Americano - Masters
Pan Americano - Masters Lisa Albon

No jiu-jitsu, temos uma grande subdivisão de categorias. Além das infantis e juvenis, temos adulto (dos 18-29 anos) e, depois dos trinta, pulamos para o master. O master é dividido de 1 a 7. De fato, comparando as categorias masculino e feminino, temos menos mulheres e, no master, não é diferente. Porém, não tínhamos antes no campeonato Panamericano da IBJJF (e nem Mundial), categorias femininas depois do master 1.

Panamericano 2017
Panamericano 2017 LISA ALBON

O master 1 vai até os 35 anos, mas tínhamos mulheres de idades mais avançadas e diferentes responsabilidades, sujeitando-se a abaixar a categoria só para poder lutar, o que era, de certa forma, injusto. Um exemplo disso é Karen Peters, faixa marrom da Gilroy Jiu-Jitsu de 54 anos.

Karen pratica jiu-jitsu há oito anos com o professor Carlos Melo e, após os dois observarem os problemas que mulheres "pós master 1" vinham enfrentando, decidiram criar uma petição chamada "2018 Pan Master 2-7" para apelar a IBJJF aumentar as divisões femininas. Karen e Carlos participaram de dois podcasts contando um pouco mais de onde surgiu a ideia de petição, você pode ouvi-los aqui e aqui.

Karen é a de kimono preto, à direita.
Karen é a de kimono preto, à direita. Arquivo pessoal


O resultado de todo o barulho foi incrível: entre as mulheres master de 2-7 tivemos 20 faixas brancas, 69 faixas azuis, 45 faixas roxas, 20 faixas marrons e seis faixas pretas, totalizando 160 mulheres no Pan Americano de 2018, disputado em Irvine, na Califórnia, nesse final de semanaAinda é um número muito baixo se comparando com os homens, mas estamos no caminho certo. 

Karen Peters competiu neste ano pela primeira vez no master 5 e acabou em terceiro lugar. A atleta acredita estar plantando algo que, além de servir para ela e suas companheiras no presente, será muito importante para quem chamamos, hoje, de nova geração do jiu-jitsu. Com certeza, esperamos não decepcionar lá na frente!

Aproveitando o contexto, nada mais justo do que divulgarmos o resultado dos absolutos dos masters de 2 - 5 (não houve absoluto nos masters 6 e 7). Para o resultado de todas as categorias, acesse o site da federação.

Master 2
Faixa azul:
1 - Ruth Shi-Lei Hwu - Buckhead Jiu-Jitsu (campeã também no peso leve)
2 - Shannon OGrady - Unified Jiu Jitsu 
3 - Colleen D Hennigan - Fenix BJJ Woburn
3 - Raquel Andrade - Brazilian Top Team

Faixa roxa:

1 - Abigail Kate Pacinelli - TAC Team BJJ (campeã também no peso leve)
2 - Patricia Archila - Bonsai JJ - USA (vice-campeã no peso médio)
3 - Miyo Strong - Unified Jiu Jitsu 
3 - Rebecca Pheasant-Reis - One Jiu-Jitsu USA

Faixa marrom:

1 - Jessie Chen - Ribeiro Jiu-Jitsu (campeã também no peso leve)
2 - Gabriela Dolores Muller - Alliance (campeã no peso médio)
3 - Gina Sanchez - Alliance (vice-campeã no peso médio)
3 - Marcia Cristina Carvalho - Gracie Barra (vice-campeã no peso leve)

Panamericano 2017
Panamericano 2017 Lisa Albon

Master 3

Faixa azul:

1 - Melissa Lozano - Ribeiro Jiu-Jitsu (campeã também no peso leve)
2 - Stacey Ann Councilman - Infinite Jiu Jitsu 
3 - Jessica Montgomery - Team Jucão (campeã no super pesado)
3 - Kris Manske - Baret Submissions (campeã no pesado)

Faixa roxa:
1 - Teneille Delima - Gracie Humaita (campeã também no peso médio)
2 - Sylvia Ahn - Pablo Silva BJJ - ZR Team (vice-campeã no peso pena)
3 - Glenda L Ramos-Rivera - Ribeiro Jiu-Jitsu 
3 - Molly Shawn O'Brien - Coalition 95

Faixa marrom:

1 - Brenda Marie Soto - Paragon BJJ Academy (vice-campeã no meio pesado)
2 - Sharicka Long-O'Neill - Ribeiro Jiu-Jitsu (campeã no peso leve)
3 - Marie A. Bober - Alliance (campeã no meio pesado)
3 - Quincy Torres - Coalition 95 (vice-campeã no peso pluma)

Pan Americano 2017
Pan Americano 2017 Lisa Albon

Master 4  

Faixa azul:

1 - Dympna Doherty - Peninsula BJJ (campeã no médio)
2 - Darla Sedlacek - Hurricane Jiu-Jitsu (campeã do leve)

Faixa roxa:

1 - Erica Kutnick - Kore BJJ & MMA (campeã no super pesado)
2 - Melissa Tanner - Presa Brazilian Jiu-Jitsu (campeã no peso leve)
3 - Amy Konopka - Ribeiro Jiu-Jitsu (campeã no peso pena)
3 - Jennifer Louise Hubener - Zenith BJJ (vice campeã no peso pena)

Faixa preta:
1 - Sonya M. B. Plavcan - Alliance (campeã no peso médio)
2 - Leah Rae Mancillas - BJJ Revolution Team (campeã no super pesado)
3 - Deanna Lynn Yohe - Gracie Barra 
3 - Kristin M. Sommer - Gracie Barra (campeã no peso pena)

Pódio do absoluto faixa preta - Master 4
Pódio do absoluto faixa preta - Master 4 Deanna Yohe | Facebook

Master 5

Faixa azul:

1 - Stephanie Copp Martinez - Gracie Humaita (campeã no pesado)
2 - Tammy Swetnam - Gracie Gym Texas (campeã no super pesado)
3 - Natalie Whitson - Gracie Humaita (vice-campeã no pesado)

Faixa roxa: 

1 - Anjani Siddhartha - Phenom Brazilian Jiu-Jitsu (campeã também no peso médio) 

Faixa marrom:

1 - Cynthia A Fink - Alliance (campeã no leve)
2 - Jeane Anne Saari-Ruiz - GF Team (vice-campeã no médio) 

3 - Karen Peters - Coalition 95 (a responsável pela petição e por fazer tudo isso acontecer, que também foi vice campeã no peso leve)

Esses foram os resultados. Ainda que não haja em todas as faixas e categorias muitas mulheres, é importante ressaltar que muitas delas, estavam lá pela primeira vez simplesmente pela oportunidade de poderem disputar com alguém de seu peso e idade. Outras ainda, estavam lá apenas para se divertir. O jiu-jitsu é para todos e é importante que todos, inclusive as federações, reconheçam este feito. Não é só sobre dinheiro, mas sobre estar em condições de fazer o que se ama e ter a certeza de que saíra de lá melhor do que voltou.

Todos os agradecimentos a IBJJF, Karen Peters e Carlos Melo e, também, a Lisa Albon, pela cortesia das fotos e por me apresentar esse grupo lindo de mulheres lutando, dentro e fora dos tatames. 

Parabéns a todas!

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Vamos falar sobre o feminino master no Panamericano da IBJJF?

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Faixa rosa? Conheça o programa Women Empowered, que ensina defesa pessoal para mulheres

Mayara Munhos

Pricila no dia em que recebeu sua faixa rosa
Pricila no dia em que recebeu sua faixa rosa Facebook

Sabemos que hoje em dia, principalmente por conta do assédio, é muito importante que todas as mulheres saibam se defender. Embora não seja 100% focado nisso, o jiu-jitsu ensina muitas técnicas de defesa pessoal diariamente, mas sabia que existe um programa desenvolvido pela Gracie Jiu-Jitsu Academy chamado Women Empowered (Mulheres Capacitadas) que prepara, justamente, a mulher para uma situação de perigo que pode ser presenciada no dia-a-dia? E mais: no final do curso, você é graduada à faixa rosa. É uma maneira simbólica de dizer que você está pronta.

Pensando nisso, conversei com Pricila Engelberg, faixa preta de jiu-jitsu desde 2015, e ela me contou como foi fazer parte do programa.

A Pricila treina na equipe Barbosa Jiu-Jitsu e deu início à prática do esporte porque sempre gostou de lutas, já se apaixonando pelo jiu na primeira aula. Ela já participou de diversos campeonatos e conta que seus títulos principais são bicampeã estadual, tricampeã paulista, bicampeã sul-americana e vice-campeã mundial.

Ela procurou o Women Empowered em 2015, depois de ter feito um seminário e achado muito interessante.

Técnicas de defesa pessoal por Pricila.
Técnicas de defesa pessoal por Pricila. Facebook

"Sempre gostei de treinar com amigos de outras equipes para ver como estava o meu jiu-jitsu. Como não podia mais competir devido a um problema sério na minha coluna, comecei a querer aprender mais técnicas e novas modalidades que poderiam aperfeiçoar mais o meu jiu-jitsu e foi quando encontrei os Gracie -  Women Empowered. Fui fazer um seminário com eles e achei bem interessante a modalidade e a forma que eles ensinam os seus alunos, sem rivalidades. Gostei, também, pois se trata de uma defesa pessoal que você não aprende no jiu jitsu. Além do mais, envolve o equilíbrio e o emocional de uma mulher quando é agredida sexualmente".

Em relação à graduação da tal "faixa rosa", Pricila explicou que o curso termina com uma avaliação para que a mulher conquiste a faixa e que o fato de ela praticar jiu-jitsu há dez anos facilitou muito e ela finalizou o curso antes do esperado, com uma nota de acertos de 98%. Ela conta que a avaliação é gravada e avaliada pelos Estados Unidos. "Essa avaliação foi feita no Brasil e gravada pela academia; porém, eles precisam enviar para a academia Gracie dos EUA, onde eles analisam se você está apta. Recebi um certificado Internacional da Gracie e a famosa faixa Rosa."

O curso mostra que podemos nos defender de maneira muito eficaz e isso, com certeza, muda muito na auto-confiança de uma mulher. Pensando nisso, Pricila conta que o curso mostrou muitas coisas boas a ela, entre elas ensinar mulheres a se defenderem e também mostrar o caminho do jiu-jitsu. 

"O curso me mostrou que, mesmo não podendo mais competir, eu poderia mostrar para as mulheres como se defender de um agressor sem entrar em pânico e também é uma grande porta de entrada para o jiu-jitsu".

Pricila ensinando técnicas de defesa pessoal num treino feminino ministrado em sua equipe.
Pricila ensinando técnicas de defesa pessoal num treino feminino ministrado em sua equipe. Facebook

Segundo Pricila e também o site do curso, para que a mulher se defenda de um estuprador com eficácia, ela precisa conhecer três fases de estratégia de seu atacante: identificação, que é quando o estuprador identifica que a vítima não está desconfiada e avança; a subjugação, momento em que o criminoso dominará a vítima com toda força possível; e, por último, o cansaço, em que o atacante crê que vai esgotar as energias da vítima enquanto ela se defende e é depois disso que ele, de fato, vai atacar e finalizar com a agressão sexual. O curso te ensina a ter cabeça para dominar todas essas fases e, então, se desvencilhar do agressor.

Já em relação à prática das artes marciais, a atleta conta que acha muito importante que uma mulher saiba hoje em dia se defender o mínimo.

"Acho que toda mulher não deveria abaixar a cabeça para nada na sua vida e saber se defender hoje em dia não é mais um consequência e sim um cotidiano. Infelizmente, o Brasil é um pais machista e preconceituoso e por mais que a mulheres tenham os seus 'Direitos Iguais', sabemos que no fundo mesmo, sofremos de diversas formas".

Então, fica a dica para a mulherada que gostaria de praticar alguma arte marcial e nem sabe como começar. O programa pode ser uma ótima porta de entrada.

Para conhecer melhor o programa, entre no site.
E para conhecer melhor a Priscila, é só clicar aqui, em seu Instagram.

Vamos todas à luta, diariamente, para cada vez mais mostrarmos o quanto somos fortes.

Oss!

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Entrevista: André Galvão e a Atos - Mundial, ADCC, time, rotina e planos

Mayara Munhos

E aí, galera!

Hoje é dia de vídeo lá no meu canal no YouTube.

Depois de trocar uma ideia com o Lucas e o Kaynan e com a 'chefa' Angélica Galvão, foi a vez de eu sentar e conversar com o big boss: André Galvão.

Conversamos um pouquinho sobre sua rotina no trabalho e com a família; o tão sonhado Mundial 2017; a luta do ADCC contra seu partner "Juninho" Calasans; como é estar por trás da Atos; e alguns  planos para o futuro. 

Depois de já faturar o Pan Kids, nesse final de semana, parece que 2018 promete muito para o atual time campeão mundial.

Assiste aí e se inscreve para ficar por dentro dos próximos vídeos! 

Oss.

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Entrevista: André Galvão e a Atos - Mundial, ADCC, time, rotina e planos

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O que podemos tirar de uma aula de jiu-jitsu para mulheres?

Mayara Munhos

Primeiro treino feminino aberto na Atos - Ono (São Caetano do Sul)
Primeiro treino feminino aberto na Atos - Ono (São Caetano do Sul) Arquivo Pessoal

Quando comecei no jiu-jitsu, nem imaginava a possibilidade de haver uma turma só de mulheres.

Quando voltei, vi que o número de mulheres havia crescido absurdamente.

Hoje, vejo que ter aula de jiu-jitsu voltada apenas para mulheres pode ser essencial para muitas delas e um grande benefício.

Já fiz um vídeo sobre as aulas da Sensei Monica Istamati - e aproveito para dizer que a turma está crescendo e que muitas das meninas que no vídeo eram faixas brancas, hoje já foram graduadas pela professora! E a cada dia, vemos mais a importância da inserção dos treinos femininos nas academias.

Tive a sorte/honra/felicidade de receber a oportunidade de puxar um treino feminino pela primeira vez e quero contar aqui como foi!

Em relação à experiência, foi incrível. Desde quando percebi que temos que lutar pelo crescimento do jiu-jitsu feminino, me senti (e me sinto) responsável por fazer minha parte nisso todos os dias. Ter um treino feminino comandado por mim se tornou um objetivo de vida. Eu não esperava que isso seria tão logo; achei que, talvez, aconteceria depois de um tempo de marrom ou quando chegasse à faixa preta. Mas ganhei a confiança de meus professores e eles me sugeriram fazermos um teste: "ei, vamos fazer um treino aberto? Se der certo, continuamos".

Quando estava chegando a hora e ninguém estava lá, já fiquei um pouco (mais) nervosa. Seria minha primeira aula e não teria nenhuma aluna. Resultado: onze meninas estavam láE o mais legal disso tudo era ver o misto de garotas: umas já treinavam, outras vieram de fora, outras ainda estavam voltando naquele dia para o jiu-jitsu e algumas outras estavam lá pela primeira vez. É uma honra poder colaborar para reinserir algumas garotas no meio, bem como inserir outras.

Há algumas coisas que eu queria ter dito a elas no final do treino e não rolou - eu esqueci - mas acho que vale falar aqui alguns motivos da importância do jiu-jitsu feminino.

1. Temos mais liberdade de expressão sem medo de não sermos entendidas
Não estou dizendo que podemos falar palavrões, coisas feias, sórdidas e obscuras das nossas vidas, mesmo porque essas coisas não são assuntos para um treino. Mas no sentido de ter liberdade de falar coisas como: "professora, estou com cólica" ou então "professora, não vou treinar hoje porque estou no primeiro dia do meu ciclo" ou então, ainda aquela coisinha básica "miga, dá uma olhadinha se minha calça sujou?". Não é que os professores não entendam necessariamente, porque às vezes entendem, sim. Mas muitas mulheres tem vergonha de falar esse tipo de coisa. E também não é lá muito confortável perguntar para um cara se nossa calça está suja de sangue, diga-se de passagem.

2. O jiu-jitsu feminino pode ser uma porta de entrada
Existem alguns motivos básicos que fazem as mulheres não pisarem num tatame pela primeira vez: vergonha, um companheiro ciumento (infelizmente muitos caras vetam suas namoradas/esposas de estarem no tatame porque acham que vai rolar um esfrega-esfrega desrespeitoso), por medo ou, simplesmente, por não se sentirem confortáveis em ser a minoria ali. O treino feminino integra e faz com que muitas meninas sintam-se mais a vontade e confiantes para iniciar o jiu-jitsu e, aos poucos, muitas se soltam e vão para o treino misto.

3. É técnica x técnica
Quando treinamos com homens, muitas vezes fica aquele arzinho de dúvida na cabeça de "nossa, será que eu iria melhor se ele não tivesse tanta força?". Então, é a hora em que podemos medir forças de igual para igual, já que mulheres tem suas forças equivalentes. É o momento de ver como é que sua técnica está e se os treinos mistos estão te fazendo mesmo evoluir. Em resumo: é hora de ver se aquilo que estamos aplicando nos caras, está realmente funcionando.

4. Rivalidade? Aqui não!
Infelizmente, há uma cultura que defende que mulheres devem ser rivais. Uma sempre precisa ser melhor, maior, mais forte... E no treino feminino, isso acaba. Talvez você até entre no tatame, achando que vai precisar ser melhor que todas. Mas um dia, você vai perceber que só precisará ser melhor que você mesma e que cada parceira de equipe é muito importante para sua evolução. É muito importante saber diferenciar a rivalidade da competitividade. Você deve, sim, ser competitiva. Mas é aquela coisa de "cinco minutos sem perder a amizade", sabe?

5. O estilo do rola muda
Muda porque o biotipo muda. Mulheres tendem a ser mais flexíveis do que homens, por exemplo. Sendo assim, na hora de rolar com outra mulher, sentimos grande diferença nisso. E tem outra coisa: na hora da competição, é mulher x mulher. Então, é ótimo treinarmos ajustes em outras mulheres também.

6. Treinar só com homens não necessariamente vai te fazer mais forte
Não estou dizendo que é ruim treinar com eles, muito pelo contrário! Treino todos os dias e gosto muito. Mas existe uma lenda que as pessoas te contam e, às vezes, você cai: "você só treina com homens, vai chegar no campeonato mais forte que as outras". Mentira! Todas as outras também treinam só com homens. Portanto, abra a cabeça e treine sim com mulheres sempre que possível. Treinar com homens ajuda muito mesmo, você realmente cria uma "casca", mas não podemos nos limitar a isso e precisamos, sim, abrir um espaço para treinar com outras mulheres (qualquer dúvida, volte para o item 3).

Portanto, treinar com mulheres pode ser uma ótima escolha e mais: isso não anula o fato de você participar dos treinos mistos. Que tal tentar colocar em prática também em sua academia um treino feminino como um 'extra treino' na semana? Ter uma academia cheia de mulheres é tão lindo, aproveitem essa porta de entrada!

Leia também: Treino misto x Treino feminino, por Carolina Lopes.

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