Khabib x Ferguson: a luta mais amaldiçoada da história do MMA

Renato Rebelo
Renato Rebelo

         
    

| Dana White garante que Khabib e Ferguson vão lutar em abril: 'Vai acontecer, não importa como' |

Não sou exatamente o cara mais devoto ou supersticioso do mundo. O misticismo ou até a posição de planetas e astros não costumam pautar o meu dia a dia.

Mas, admito que, se algum evento esportivo indica que há um grande planejamento central orquestrado por forças superiores, esse evento é Khabib Nurmagomedov x Tony Ferguson.

Antes, não custa explicar por que esses dois juntos, dentro do octógono, dão luz a um acontecimento histórico, único no MMA.

Sei que é subjetivo e há margem para debate, mas creio que estamos falando sobre os dois melhores pesos-leves de todos os tempos.

Historicamente, o domínio dessa faixa de peso demandou esforço hercúleo e, ainda assim, os reinados foram curtos. Frankie Edgar, Ben Henderson e BJ Penn, os campeões mais longevos, defenderam seus cinturões apenas três vezes cada. 

Khabib e Ferguson durante coletiva pré UFC 249
Khabib e Ferguson durante coletiva pré UFC 249 Chris Unger/Zuffa LLC

Nenhuma outra categoria tem tantos contratados e o número alto de concorrentes, consequentemente, torna o processo insalubre.  

Analisemos o caso de Rafael dos Anjos. Ele, indiscutivelmente, está no top 5 histórico da divisão. Dos Anjos tomou o cinturão de Anthony Pettis, que venceu Ben Henderson, que havia domado Frankie Edgar que, por sua vez, matou o rei Baby Jay.

Rafael atropelou os melhores da sua geração: Nate Diaz, Pettis, Donald Cerrone (duas vezes) e o próprio Bendo.

Quando subiu para a categoria até 77kg, não fez feio e, mesmo em desvantagem física, chegou a disputar o cinturão interino com Colby Covington.

Ainda assim, o niteroiense foi presa fácil, tanto para Khabib, quanto para Ferguson.

O russo, campeão, invicto em 28 lutas, claro, teve o braço erguido em todas as 12 aparições que fez no UFC.


         
    

| Ferguson faz treino 'maluco' em preparação para luta contra Khabib pelo UFC |

Já o americano, ex-campeão interino (perdeu o posto por lesão, não no octógono) vem das mesmas 12 vitórias seguidas e não sabe o que é perder há quase 7 anos.  

E mais: testemunhar dois foras de série nos seus auges é evento raro, raríssimo.

Por exemplo, o auge de Anderson Silva, maior peso-médio do MMA, foi dos 29 aos 34 anos. Sim, podemos dizer que já o vimos contra o atual campeão, Israel Adesanya, mas, na ocasião, o brasileiro já vestia 43 anos de idade. Seus reflexos, timing, velocidade, explosão, potência, etc, não eram mais os mesmos no UFC 234.

Há, também, pouca discussão sobre Muhammad Ali ter sido o maior peso-pesado da história do boxe e, ainda assim, é inesquecível a surra aplicada por Larry Holmes quando a lenda, que já não flutuava como borboleta e nem picava como abelha, estava prestes a completar 39 anos.

Timing é tudo nos impiedosos esportes de combate. Dana White, presidente do UFC, costuma dizer que esse é um “jogo para jovens”.

Acontece que, no caso de Khabib x Ferguson, temos um rapaz de 31 contra outro de 36, que não demonstra o mínimo sinal de desacelaração. Pelo contrário, a cada rodada, o “Bicho Papão” surge ainda mais assustador 



Agora, caso Ferguson se torne o primeiro a solucionar esse quebra-cabeça, por quê não festejá-lo como o maior?

O problema é que, com quatro cancelamentos - e correndo sério risco de um quinto -, o destino parece não ser fã desse encontro. Segue o fio: 

1ª Tentativa: 11 de dezembro de 2015, TUF 22 Finale

Durante os treinos, Khabib fraturou as costelas e cancelou a sua participação faltando pouco mais de um mês para a luta. Ele, que já vinha lidando com uma série de lesões complicadas, chegou a falar em abandonar o esporte. O brasileiro Edson Barboza, sexto do ranking na época, o substituiu e acabou finalizado por Ferguson no segundo round.

2ª Tentativa: 16 de abril de 2016, UFC on FOX 19

Pela primeira vez em sua passagem pelo UFC, Tony Ferguson não apareceu para trabalhar na data estipulada por contrato. E o negócio, pelo visto, foi sério. Diagnosticado com infecção respiratória, “El Cucuy” precisou drenar fluidos e sangue dos pulmões. O estreante Darrell Horcher, 13-1 no MMA, foi o único que topou encarar o russo faltando dias para o evento e, como era de se supor, acabou nocauteado.  


         
    

| Dana White explica por que é tão importante para ele manter o UFC ativo |

3ª Tentativa: 4 de março de 2017, UFC 209

Cerca de 48 horas antes do evento, Khabib passou mal durante o corte de peso, foi encaminhado para o hospital local e, lá, a equipe médica interrompeu o processo e não o liberou para lutar. Esse episódio ficou conhecido como “Tiramisu Gate”, uma vez que, em vídeo promocional produzido pelo UFC, Khabib falava sobre a sobremesa. Lando Vannata, outro estreante, aceitou a missão e, por muito pouco, não chocou o mundo. Ferguson levou dois knockdowns no primeiro round, mas se recuperou e finalizou no segundo.

4ª Tentativa: 7 de abril de 2018, UFC 223

Dessa vez, ficamos pelo caminho a oito dias do show - quando Ferguson, que costuma usar óculos escuros em ambientes fechados, tropeçou num cabo de câmera de televisão dentro dos estúdios da Fox, nos Estados Unidos, caiu e rompeu um ligamento do joelho esquerdo. Max Holloway, campeão até 66kg na época, aceitou o chamado, mas também falhou no corte de peso e foi impedido de prosseguir pelos médicos. Por fim, Khabib disputou o cinturão dos leves contra o americano Al Iaquinta e venceu por decisão unânime.

5ª Tentativa: 18 de abril de 2020, UFC 249

Com 100 mil pessoas infectadas pelo Coronavírus nas últimas 24 horas, a Organização Mundial da Saúde atesta que a pandemia ainda acelera e é bem provável que, perto da data inicialmente estipulada para o UFC 249, estejamos no pico da crise. Já é seguro dizer que a cidade de Nova York, com mais de 20 mil casos, não receberá o evento.

Ainda assim, Dana White vasculha o mundo atrás uma arena que possa abrigar a luta - mesmo com os portões fechados. Rússia e Emirados Árabes Unidos, países pouco contaminados, surgem como candidatos, mas, mesmo sem a presença dos fãs, é importante notar que um card dessa magnitude demanda o esforço de centenas de trabalhadores em diferentes nações.

Na Tailândia, por exemplo, um evento de muay thai foi responsável pela produção de 72 dos cerca de 300 casos daquele país.

Ferguson antes de luta no UFC 238
Ferguson antes de luta no UFC 238 Jeff Bottari/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Get

No olho do furacão, é bem possível - diria, até, provável - que autoridades simplesmente não queiram assumir esses riscos e a própria empresa, por mais cuidado que tome, decida que o preço a pagar por um dos seus na UTI é alto demais.

Pra completar, o jornal inglês Daily Express noticiou que a NASA monitora asteroide com 4 quilômetros de comprimento que se aproxima perigosamente da Terra. Tudo indica que o objeto vai passar “raspando”, mas, caso nos alcance, o impacto seria em abril e teria potencial para destruir toda a vida no planeta.

Pro mais supersticioso, outro sinal de que o universo conspira contra Khabib x Ferguson. Pelo sim, pelo não, me limito apenas a concluir que não há outro casamento mais praguejado do que esse na história do MMA.

Khabib durante luta com Dustin Poirier
Khabib durante luta com Dustin Poirier Jeff Bottari/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Get

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Jon Jones: o fim do reinado se avizinha

Renato Rebelo
Renato Rebelo

| Títulos, doping e prisão: a carreira de Jon Jones, campeão do UFC |

Jonathan Dwight Jones é tão talentoso e fisicamente prendado que, mesmo não sendo o maior rato de academia do mundo, com apenas 32 anos, já é considerado o maior lutador da história do MMA por, pelo menos, 7 entre 10 fãs. 

Considere, também, que a “folha corrida” do campeão meio-pesado do UFC por pouco não supera o Velho Testamento em número de caracteres. 

Na lista de “pecados”, até semana passada, você encontrava: racha em estacionamento de prostíbulo sem licença de motorista, assédio sexual, dois casos de doping, multa por uso de cocaína e dois acidentes de trânsito graves (no primeiro, alcoolizado, derrubou um poste, no outro, desrespeitou sinal vermelho, atingiu uma grávida e fugiu sem prestar socorro). 

E nem multas pesadas, a perda de Nike e Gatorade como patrocinadores, cinturão confiscado, pena de 18 meses em liberdade condicional, trabalho comunitário mandatório e o ataque de milhares de seguidores nas redes sociais levaram à luz esse infrator serial.  

Na última quinta-feira, como sabemos, aconteceu de novo. “Bones” adicionou outra “direção sob influência” e o “uso negligente de arma de fogo” à longa e triste lista. 

A foto de Jon Jones preso mais uma vez
A foto de Jon Jones preso mais uma vez []

No passado, se a aptidão e o vigor da juventude seguravam a bronca e driblavam ressacas e noites mal dormidas, agora, perto de completar a idade de Cristo, podemos dizer que o rei está, finalmente, nu. 

Thiago Marreta e Dominick Reyes mostraram, nas duas últimas rodadas, que os bárbaros estão nos portões e que o reinado de Jones pode terminar a qualquer momento. 

O brasileiro foi o primeiro a vencê-lo oficialmente - na opinião de um dos três jurados -, enquanto o americano, pelo menos na minha contagem, fez mais ao longo de cinco rounds e merecia ter o braço erguido. 

Se por um lado jovens famintos e motivados representam risco enorme para um cara com quilometragem alta - que há uma década encontra os melhores do mundo em lutas de até cinco rounds -, por outro, sua influência comercial vai diminuindo. 

É praticamente uma tempestade perfeita contra o atual número um. 

| Brett Okamoto:  UFC não vai tirar título de Jones, mas ele é reincidente para a Justiça |

A frase “não existe (Muhammad) Ali sem (Joe) Frazier”, muito popular no boxe, passa o conceito de que todo grande campeão precisa de uma rivalidade visceral, daquele adversário que tira o seu melhor. 

E sem o agora peso-pesado Daniel Cormier, que pendura as luvas depois da trilogia com Stipe Miocic, e o já aposentado Alexander Gustafsson, Jones não gera grandes números “sozinho”. 

Anthony Smith, Marreta, Reyes e Jan Blachowicz ainda não têm grife nos Estados Unidos e o desinteresse flagrante do campeão por eles também não contribui para a criação de novas narrativas. 

Postura que, ainda por cima, deixa transparecer acomodação, desmotivação.   

O baixo rendimento pode ainda representar o fim da parceria incondicional, daquela vista grossa que o UFC faz apenas para as mazelas de um líder de vendas ou do seu lutador número um peso-por-peso. 

É óbvio que, depois de tanto investimento, Dana White não está prestes a entregar Jon Jones de bandeja para o Bellator, mas a musculatura promocional da empresa pode facilmente encontrar um substituto.

Alguém que seja eficiente, carismático, mais jovem e sem problemas com a justiça. Os nomes de Israel Adesanya e Khabib Nurmagomedov logo vem à mente. 

De todo modo, é bem verdade que, no passado, problemas extracampo não afetaram o campeão - até por que a frieza dentro do octógono pode combinar com a falta de empatia fora dele. 

Mas insisto: Jones claramente não está mais no auge. Nem físico, nem técnico. Não há progressão em seu jogo há anos.  

Suspeito, portanto, que a conta por tantos excessos vai chegar mais cedo do que tarde…   

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Entendendo o sucesso de Gilbert Durinho, agora top 6 do UFC

Renato Rebelo
Renato Rebelo

Dana White cancela os próximos três eventos do UFC e explica os motivos |

Desde que entendeu que renderia mais estando mais próximo do seu peso natural e deu fim a corte de peso brutal, Gilbert Burns, o “Durinho”, conquistou os três melhores resultados da sua carreira como lutador de MMA.

Isso porque, num período de apenas sete meses, o campeão mundial de jiu-jítsu na faixa-preta tirou a invencibilidade do russo Alexey Kunchenko, dominou o talentoso islandês Gunnar Nelson e, por último, derrubou Demian Maia, ex-desafiante número um dessa mesma categoria, a até 77kg do UFC.

Maia, vale notar, só havia sido nocauteado uma vez em mais de 18 anos no esporte. Foi em 2009, pelo já aposentado Nate Marquardt. Isso significa que Kamaru Usman, atual campeão dos meio-médios, e Tyron Woodley, o ex, não obtiveram o mesmo sucesso contra o grappler brasileiro.

O resultado deixou Durinho na cara do gol, na sexta posição no ranking. Agora, com mais uma vitória - dependendo de contra quem seja, obviamente -, ele pode até ser escalado para disputar o tão sonhado cinturão mundial.

Inclusive, o fominha, que lutou seis vezes nos últimos dois anos, tentou assegurar a oportunidade mais cedo do que tarde.

Isso porque autoridades locais, tentando conter o avanço do letal Coronavírus, embarreiraram o UFC Londres, até então marcado para 21 de março.>

Dana White, presidente da empresa, ainda tentou trazer o evento para os Estados Unidos, mas o inglês Leon Edwards, adversário de Tyron Woodley na luta principal, não pôde vir junto - uma vez que os voos entre Reino Unido e América estavam suspensos.

Durinho, Rafael dos Anjos e o americano Colby Covington levantaram a mão e pediram a bola, mas a prudência prevaleceu em tempos de crise e os três próximos cards do Ultimate foram adiados.

| Dana White explica por que é tão importante para ele manter o UFC ativo |

De todo modo, estar sempre alerta, treinado e próximo ao peso de competição são exatamente as marcas registradas do cara que, no últimos anos, converteu dedicação e repetição em oportunidades e evolução.

Já em casa, na Flórida, Estados Unidos, Durinho bateu um papo comigo na tarde dessa quarta-feita (18) e detalhou o seu modus operandi e o que vê chegando em sua direção para o futuro próximo. Veja:

O UFC gostou da ideia de você substituir o Leon Edwards? Você disse que o Woodley rejeitou o seu nome, ele diz que aceitou… Como funcionou essa negociação de última hora?

Gilbert Durinho: Ele (Woodley) primeiro negou, sim. Disse que queria alguém com mais nome. Eu vinha de um camp (completo). Lutei, não me machuquei e estava preparado. Ele teve opções de caras sem camp, como o Rafael dos Anjos e o Colby Covington. O Covington, na real, nem poderia lutar porque está com a mão machucada. Ele optou pelo Rafael e depois pelo Colby. Mais pro final, ele decidiu aceitar, mas foi na hora em que o presidente (Donald) Trump fez o pronunciamento pedindo para não ter eventos e aglomerações com mais de 10 pessoas. Foi depois que o UFC cancelou tudo que ele disse que aceitaria a luta (comigo). Estava uma guerra ali no começo e ele não queria aceitar a luta comigo, não.

Pós-UFC Brasília, você desafiou o Covington, que tem um longo histórico de rixas com brasileiros. Ele é o número 2 do ranking e uma vitória sobre ele te levaria ao cinturão. Agora, como os eventos foram desfeitos, ele e Woodley, que são desafetos confessos, têm interesse mútuo por uma luta. Caso o UFC apresente, como alternativa, os nomes de Michael Chiesa, Stephen Thompson e Leon Edwards, como você analisaria o cenário? Seu amigo de infância Rafael dos Anjos estaria fora da equação, certo?

Eu acho que é isso que vai acontecer. O Kamaru (Usman) vai lutar contra o (Jorge) Masvidal e acho que vão botar o Colby (Covington) contra o (Tyron) Woodley. Daí, sobra o Leon Edwards, mas não sei se o Stephen Thompson vai querer entrar na jogada e pegar o Edwards. Só sobraria o (Michael) Chiesa, né? É lógico que eu queria logo o Covington ou o Woodley, mas acho que o Thompson, o Edwards e o Chiesa são as opções mais reais. Com o Rafael eu não luto.

[]

O campeão da categoria, Kamaru Usman, é seu companheiro de equipe. Gera algum clima de apreensão na academia agora que você está mais perto do cinturão ou isso não existe? Caso você conquiste o title shot, como essa situação seria gerida?

Pelo contrário. Não rola isso, não. O Kamaru me ajudou nessa luta. Eu o ajudei bastante também na luta dele contra o Demian, na luta dele contra o Colby. Ele fez o meu corner quando lutei com o (Michel) Trator. Quando chegar esse momento aí, a gente pode até conversar, ver o que vai rolar, mas, enquanto não chega, a gente treina junto. Se ele precisar de ajuda para treinar para a luta do Masvidal, vou estar lá para ajudar ele. Caso eu lute com o Colby ou com o Woodley, vou pedir a ajuda dele. Enquanto a gente não luta, não rola nada, não. Depois, se a hora chegar, não sei como vai ficar. Vai ficar meio esquisito.

[]

Quais são os benefícios de treinar com o melhor do mundo na sua categoria? É bom no sentido que você sabe em primeira mão o nível de excelência necessário pra chegar no topo ou é ruim porque você também sabe que a encrenca é grande?

Eu acho bom. Eu tenho o melhor cara para me testar ali. Uma coisa que me deixou super confiante foi que o Demian disse que o Kamaru tinha uma mão bem dura, que aquilo incomodou ele. Lembrei ‘putz, ele não gosta da mão dura’. E eu sei que a minha mão é dura. Foi algo que me ajudou ali. E não é só o Kamaru, não. Tem vários caras duríssimos na academia dessa categoria. Tem o Robbie Lawler, o Vicente Luque, tem uma galera sinistra do Bellator. Meu irmão, tem um exército até 77kg na academia e consigo me testar com todo mundo. Eu estou no nível da galera.

Falando em Usman e Covington, o que o nigeriano comentou sobre o rival? É baseado nesse feedback que você decidiu desafiá-lo ou mais por comentários do tipo “Brasil é uma lixeira” e “brasileiros são animais imundos”?

As duas coisas. O Kamaru falou que ele é um cara duro, mas não é forte e não pega duro. Que é um cara chato, que vem pra cima, todo errado, tem um volume forte, mas que não te machuca. E teve também o que ele ficou falando da galera do Brasil. Tive que engolir a seco porque estava lutando de (peso) leve na época. Agora, estou na posição de falar alguma coisa.

Ouvi dizer que você lutou com 85kg em Brasília. Alguma parte de você se arrepende de não ter migrado antes para a categoria até 77kg? Ou os anos de sofrimento para bater 70kg ensinaram boas lições?

Eu fico meio dividido. Me arrependo de não ter ido antes, sim, mas, ao mesmo tempo, aprendi lições valiosas nesse corte de peso. Fiquei com uma dureza mental muito forte ali. Nunca desistia, sempre batia o peso. Era uma guerra mental e eu entrava nela forte. Cumpri tudo isso. Tomei várias decisões erradas em lutas, também, por acreditar que tinha pujança física muito mais forte. Tipo ‘estou muito forte, dá pra fazer qualquer coisa nessa luta’. E às vezes tomei decisões erradas, como na luta contra o Dan Hooker. Na categoria até 77kg, luto com 85kg, seco, forte e fico mais ligado na inteligência de luta, não só na pujança física. Isso é uma grande coisa que aprendi.

[]

O quão importante para a sua evolução foi adotar essa estratégia de estar sempre perto do peso, treinado e pronto para aproveitar as oportunidades que aparecem? O lutador que tira um mês de férias após as lutas e só treina em camps de três meses é uma espécie em extinção?

Pra mim é muito importante estar preparado. Na verdade, eu sempre treinei pra caramba. Sempre fui um dos que mais treinou na academia. Só que tinha o lance da dieta, então, ficava dois ou três meses na dieta só para bater o peso. Depois da luta com o Dan Hooker, decidi fazer mais jiu-jítsu, voltar para as competições, estar sempre fazendo superlutas. Pra você ter noção, no ano passado, fiz três lutas no UFC e nove lutas de grappling. Vários fins de semana lutando, fora os corners que fiz. Vicente (Luque) lutou quatro vezes, fiz os quatro corners. Fiz o corner da Vivi Araújo, do Chas Skelly. Foi um ano de muito trabalho. Nessas nove lutas de grappling, eu já estava me preparando para o Demian e não sabia. Agora, sem o corte de peso doido, meu corpo não faz mais aquele efeito sanfona. Hoje, no máximo, eu chego a 88kg. Só tenho uma semana de descanso depois da luta, ponto. Quando volto a treinar, meu peso já diminui, fico ali com uns 85kg. Agora é muito fácil bater o peso. Só com a dieta regrada eu fico com 82, 80kg. Acabo cortando bem pouquinho. Desidrato muito menos do que antes e fico mais saudável. O trabalho é o ano inteiro, não tem essa.

Como funciona na sua cabeça aquela velha indecisão entre focar 100% no seu ponto forte, como o Khabib ou o próprio Demian, e entrar pra tentar botar qualquer um pra baixo ou investir tempo na trocação e no wrestling, correndo risco de perder o ajuste do jiu-jítsu?

Meu objetivo hoje é manter o jiu-jítsu afiado. É estar competindo, por isso estou fazendo essas competições e acho que vou continuar fazendo. Hoje em dia consegui aprender a dividir um pouquinho o foco. A fazer um trabalho de base. Como você falou, uma galera tira um mês de férias depois da luta. Eu não tiro. Eu tiro uma semaninha e na semana que vem vou fazer muita base. Muito jiu-jítsu, muito wrestling, muito boxe, muito kickboxing. Não faço muito treino de MMA. Faço só as artes marciais separadas. É isso que venho fazendo e vem funcionado muito. É muita escolinha, muito ABC. Exemplo: quando vou fazer boxe, faço muita esquiva, muita movimentação de pé, coisa que no camp não dá pra fazer. Repito muitos golpes isolados, depois repito muita combinação. É como se eu estivesse começando a treinar. No kickboxing, a mesma coisa. No jiu-jítsu, também. Faço muita posição, muito específico para, quando entrar no camp, já ter uma evolução técnica.

[]

Treinar com wrestlers do nível do Michael Chandler e do próprio Usman influenciam nessa decisão?

Você falou dois, que são caras com quem treino muito. Mas tem mais caras ainda, que pra mim são até melhores que esses dois. Tem o Logan Storley (meio-médio invicto do Bellator), que é uma máquina. Ele me ajudou muito nessa luta contra o Demian. Em vários momentos achei o Demian com o tempo bom na queda, mas não tinha a força e nem o peso dos caras. Quando ele pulou nas minhas costas, não achei o Demian tão pesado, como o Logan estava é nos treinos. Eles vêm me ajudando muito, venho melhorando muito o wrestling com eles. É uma coisa que quero melhorar muito e venho botando muito tempo nisso. Vou conseguir mostrar ainda.

O que um cara ansioso e competitivo como você pretende fazer durante esse período de distância social?

Graças a Deus, abri uma academia aqui na garagem. Graças a Deus. Foi a melhor coisa que fiz. Tenho saco de pancada, tenho tatame. Essa semana, estou de folga, mas semana que vem, volto a treinar. Se a academia (Hard Knocks 365) ficar fechada, vou estar treinando em casa e vou me manter pronto ali, vou correr, vou andar de bike, vou nadar. Não posso ficar de bobeira, não.

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Coronavírus no MMA: Bellator cancelado, UFC sem torcida e futuro em xeque

Renato Rebelo
Renato Rebelo

Saudações, fãs de esportes. Pra quem não me conhece, uma breve apresentação. 

Me chamo Renato Rebelo, sou jornalista, tenho 32 anos e cubro lutas desde os 19, quando, na Gracie Magazine, como estagiário, comecei a minha caminhada.  De lá pra cá, passei pelo Grupo Globo e fundei o Sexto Round que, por anos, foi o maior site independente sobre MMA do Brasil! 

A demanda acabou me levando para o Youtube e o sucesso desses vídeos me trouxeram à ESPN Brasil.  Em 2020, comentarei os principais eventos do Bellator, além de abastecer esse blog.

Pena que o cancelamento do Bellator 241, o primeiro evento como contratado da casa, já me rende fama de pé frio. O drama é o seguinte: 

Imagine a frustração de um atleta que superou meses e meses de dieta restrita, uma semana de desidratação e, na hora H, não pôde trabalhar. 

Essa é exatamente a situação de todos os escalados para o Bellator 241, evento marcado para essa sexta-feira (13), mas acabou adiado por conta do pandêmico Coronavírus. 

O presidente Scott Coker já garantiu a compensação dos lutadores pelo esforço, mas ainda não deu mais detalhes sobre novas datas e locais. 

Abaixo, faço uma breve consideração sobre a crise global que, naturalmente, também vai machucando os eventos de MMA.

Sejam muito bem-vindos a esse novo espaço, que será regido por fundamentos e tratará o MMA com muito pragmatismo e pouco viés.

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