Entrevista do mês - Mano projeta Copa do Mundo, diz que "brasileiro nunca gostou de defender" e fala sobre críticas no Cruzeiro: "Acho que são justas, podemos mais"

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Mano Menezes espera recuperar a identidade do Cruzeiro
Mano Menezes espera recuperar a identidade do Cruzeiro Light Press/Cruzeiro


Mano Menezes gera muitas emoções no torcedor brasileiro. Carrega boas lembranças no Grêmio. Da volta à primeira divisão à semifinal de Libertadores. Já no Corinthians fez parte de toda uma estruturação de um DNA que rende frutos até hoje. Ganhou títulos, perdeu outros, saiu e voltou. Não se firmou na Seleção Brasileira. No Flamengo, saiu de maneira traumática...

Tem quem goste muito da sua figura como treinador. Por outro lado, muita gente o vê apenas como um bom e velho “retranqueiro”. Embates com a imprensa, respostas mais ríspidas e um jeito mais sisudo também criaram certa empatia por onde ele passou.

Mano Menezes de fato divide opiniões. Inclusive no seu atual clube.

Depois de visitar Dorival Júnior, ainda treinador do Santos em 2015, e Fábio Carille no Corinthians, antes do título Brasileiro de 2016, o DataESPN agora foi até Belo Horizonte para tentar dissecar o trabalho e as ideias de Mano Menezes em sua segunda passagem pelo Cruzeiro (primeira foi entre setembro e dezembro de 2015, antes de se aventurar no futebol chinês).

Dessa vez não tive a companhia de Paulo Calçade como em outras edições, mas o papo com o comandante cruzeirense rendeu quase uma hora na Toca da Raposa. Os assuntos foram do momento em que vive com o Cruzeiro, com muita cobrança e oscilação de desempenho, até expectativas para a Copa do Mundo de 2018.

Uma conversa só sobre futebol. Conceitos, ideias, sistemas, referências... Mano não se preservou em nenhuma resposta. Mais que isso: expos de forma bastante clara como pensa e vê futebol. Falou sobre sua visão do trabalho de Paulo Bento na própria Raposa, sobre seu planejamento para o time em três etapas e se posicionou pelas críticas que vem sofrendo por não praticar um futebol com mais posse.

Viu vídeos e análises do DataESPN, explicando momentos e ideias do seu atual Cruzeiro.

Não parou por aí. O treinador ainda firmou que o “brasileiro demorou para aprender defender”, se posicionou sobre o calendário brasileiro e falou sobre o que os treinadores mais jovens precisam para se firmar de vez no nosso mercado. Também analisou a qualidade do jogo no Brasil, jogadores que dão certo em um clube e em outro. Explicou de onde tirou seus conceitos de linha de 4, projetou Copa do Mundo, apesar de não concordar com tal “rixa”, viu como natural a resistência com novos termos e o estudo no futebol. Até sobre a imprensa, com quem já teve seus problemas, Mano Menezes se posicionou.

Veja na íntegra, nos três vídeos abaixo, a entrevista completa com o treinador:

CRUZEIRO, PROCESSO NO FUTEBOL, PAULO BENTO E ATACAR VS DEFENDER


CRÍTICAS POR NÃO ATACAR BEM NO CRUZEIRO, CALENDÁRIO, NOVOS TREINADORES E ATLETAS QUE NÃO DÃO CERTO


RESISTÊNCIA AO ESTUDO NO FUTEBOL, QUALIDADE DA IMPRENSA, CORINTHIANS, CARILLE E “O QUE É JOGAR BEM? ”

 

 

 

Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Os desafios de Eduardo Barroca para "alavancar" o Botafogo durante a pausa para a Copa América

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Eduardo Barroca tem trabalho pela frente e pode melhorar ainda mais o Botafogo
Eduardo Barroca tem trabalho pela frente e pode melhorar ainda mais o Botafogo Vitor Silva/Botafogo

Não há quem questione a campanha do Botafogo até agora no atual Campeonato Brasileiro. Independentemente da derrota para o Grêmio (0 a 1), dentro de casa, nesta quarta-feira, Eduardo Barroca deu novos ares ao alvinegro carioca não só em resultados, mas  elevando desempenho e criando, mesmo que longe de sua totalidade, uma identidade para a equipe que vivia tempos de muita incerteza. Do nada veio uma forma de jogar, uma ideia, um norte...

Com um trabalho que ainda sequer completou três meses, o jovem e promissor treinador tenta, a todo custo, jogar a partir do controle da posse. Pede para que a equipe circule a bola, sempre cobrando que os atletas busquem triangulações e o máximo de linhas de passe por todo campo. Neste sentido é perceptível que equipe demonstrou grandes avanços, com gols bem construídos e um aumento significativo na posse de bola. 

Mas ainda há muito a se desenvolver. 

E talvez a grande questão para o Botafogo atingir novos patamares competitivos envolve a chegada da equipe no terço ofensivo do campo. Com um time titular mais pesado do meio de campo para frente, principalmente pelas presenças de Cícero, João Paulo e Diego Souza, a equipe sofre um tanto nas transições ofensivas. Nem mesmo a velocidade de Erik e as boas conduções/infiltrações de Alex Santana garantem a verticalidade que o jogo pede em alguns momentos. No duelo contra o Tricolor isso ficou bastante evidente.

Por vezes o Botafogo conseguiu recuperar a bola em momentos de pressão mais baixa e com o bloco defensivo um pouco mais recolhido. Teve êxotp, num primeiro momento, nas tentativas de aceleração.  Mas faltou, além de peças de velocidade, uma chegada mais rápida de opções para quem conduzia a bola. Em um lance bem explorado com Alex Santana, ainda no primeiro tempo, essa tônica ficou bastante clara: time baixa a marcação e a bola é recuperada. O passe mais vertical entra perfeitamente, mas o meio-campista acaba precisando retardar a jogada, diminuir suas passada. Justamente para esperar companheiros chegarem na linha da bola. Um lance promissor, mas que não deu em nada.

A grande referência de  velocidade deste Botafogo é  Erik (que faz mais um excelente ano em General Severiano, aliás). Mas esse escape tende a ficar cada vez mais "cantado". Com os adversários tirando essa saída botafoguense, o time acaba necessitando de mais opções desse perfil - talvez esteja aí um dos grandes desafios para a janela de transferências que vai se abrir.  

Luiz Fernando, o outro ponta aberto do 4-3-3 de Barroca, apesar de não ser um jogador lento, tem mais características de meia. Até por isso, tende sempre a sair do lado para se associar por dentro, centralizando um pouco suas jogadas. Diego Souza, apesar de usar bem o corpo para reter a bola em alguns momentos, sofre também com a falta de apoios em saídas mais rápidas.  E, por mais que a proposta seja jogar com o controle da posse, o jogo vai pedir situações mais agudas. Isso é inevitável.

Outro ponto que também tem a ver com essa falta de velocidade e que o Botafogo pode evoluir é na passagem da transição para a fase ofensiva. 

É uma equipe que se propõem a ter controle da posse, mas que em vários momentos demora a "viajar com bola". Conceito muito usado no futebol espanhol, o tal viajar com a bola ou viajar juntos, nada mais é que o time conseguir sair de trás acompanhando a linha da bola. Progredir em campo com o bloco compacto, com jogadores próximos e em sincronia. 

Vale ressaltar que não se trata de um mecanismo tão simples assim. Até por isso, seria até leviano cobrar tal fluidez do Botafogo com tão pouco tempo de trabalho até aqui. Mas, de fato, é algo que claramente pode ser ajustado e ganhar evolução com base nos treinamentos. Principalmente por se tratar de um conceito muito explorado por equipes que buscam este tipo de modelo.

Sem a posse, principalmente no duelo contra o Grêmio, chamou muito a atenção à falta de pressão na bola em vários momentos. Tal deficiência fez com que os gaúchos tivessem controle da mesma por bons períodos, circulando e rodeando a área alvinegra. Dando até a impressão de que a estratégia para a partida podia ser de esperar um pouco mais o adversário, fugindo do que vem sendo tentado até aqui pelo treinador.

Obviamente que essa falta de agressividade sem a bola também pode ter muito a ver com o momento da temporada que vivemos. Por conta das longas maratonas de jogos em sequência, dá para se perceber uma queda de intensidade de várias equipes nesta reta final antes de Copa América. O jogo no Nilton Santos, aliás, teve de um caráter mais pausado.  Mesmo assim, talvez este tenha sido um dos grandes problemas para os cariocas não alcançarem um melhor resultado contra um Grêmio totalmente desfalcado.

Por fim, ainda em transição/fase defensiva, o Botafogo pode crescer no quesito compactação. Este aspecto, aliás, já foi pontuado pelo próprio treinador da equipe em entrevistas recentes e certamente será um ponto a ser trabalhado nesta pausa. Por vezes é possível ver um espaço considerável entre os setores, principalmente quando a primeira (Diego Souza) e a segunda linha (Erik, João Paulo, Alex Santana e Luiz Fernando) avançam um pouco mais no campo para tentar uma pressão mais alta. Com isso, os adversários tentam sempre buscar a bola exatamente nas costas dessa linha de quatro, deixando Cícero - o 1º volante à frente da linha defensiva  - em uma situação desconfortável. 

Vale ressaltar que esse tripé ainda tem João Paulo (também mais posicional e passador, porém menos agressivo) e Alex Santana. Ou seja, falta no setor, em alguns momentos, mais imposição e intensidade. Se levarmos em conta que a linha defensiva também não é das mais rápidas, chega até a ser um pouco arriscado mantê-la um pouco mais alta. Por isso a importância dessa agressividade no meio. Justamente para não deixar Carli & Cia. em situações de mano a mano em velocidade.

É muito importante ressaltar que o desafio assumido por Eduardo Barroca assumiu não era, não é e nem será fácil. Apesar de todas as dificuldades (elenco, problemas financeiros, de estrutura...), trata-se de um trabalho muito promissor e que entrega até mais do que se imaginava num primeiro momento. Mais que isso, é um jogo jogado com ideias. Traz consigo aspectos que acrescentam na diversidade de ideias que por vezes falta ao nosso futebol. Independente de gosto ou certo/errado, o comandante alvinegro tem um norte bem claro e que pode atingir maiores patamares.

E isso, de verdade, já é algo bem louvável. Certamente que Eduardo Barroca e sua comissão técnica já chegaram a estes diagnósticos e esperam ansiosamente por este período mais longo de treinamentos. Com tempo, trabalho e tranquilidade para introduzir ainda mais consistência ao seu modelo de jogo, tem tudo para fazer uma boa segunda parte de Campeonato Brasileiro. Afinal, treino é jogo e jogo é treino.

  


Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Pragmático ou controlador? Sob constante desconfiança, Portugal ergue mais uma taça europeia

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Fernando Santos, chegou a mais um título com Portugal
Fernando Santos, chegou a mais um título com Portugal Getty

"Ser pragmático é ser prático, é ter objetivos definidos, é fugir do improviso. O pragmático se baseia na lógica, no conceito de que as ideias e atos só são verdadeiros se servirem para a solução imediata de seus problemas". 

Eis uma das definições mais fáceis de serem compreendidas sobre um termo tão usado no futebol, principalmente aqui no Brasil para, normalmente, criticar a forma de jogar dessa ou daquela equipe. Quase sempre trata-se de uma expressão sempre usada de forma pejorativa, inclusive.

Dizer que Portugal, atual campeão da Eurocopa (de 2016), e agora vencedor da primeira Uefa Nations League, pratica um jogo um tanto pragmático não é errado. Talvez erramos apenas em ter essa palavra sempre com uma conotação negativa no esporte. A explicação acima, em alto e bom som, deixa claro que não se trata só de algo totalmente ruim como muitos de nós pensamos. 

É de fato uma discussão complexa. E que também não tira a legitimidade dos questionamentos do quão Fernando Santos e a atual geração portuguesa poderiam entregar mais em desempenho, principalmente quando tem consigo a posse da bola. Aliás, trata-se de uma discussão bem legítima. A inconstância e as vitórias no "susto", em vários momentos, devem ser postas à mesa também.

Por outro lado, não podemos simplesmente desvalorizar o que é feito até aqui. Principalmente sob a ótica do controle, algo muito nítido na final contra a boa e renovada Holanda de Ronald Koeman. Então, sim, Portugal é uma equipe pragmática. Mas, acima de tudo, foi totalmente controladora dentro do terreno de jogo durante a final - algo que faltou bastante contra a Suíça, por exemplo. Quando a solidez defensiva não foi tão evidente.

E foi com um bom punhado de cada um destes termos que Fernando Santos levou sua equipe a mais uma taça importante a nível europeu. Controle para, sem a bola na maior parte do tempo, neutralizar as investidas holandesas, e pragmatismo para ser letal e objetivo dentro do seu plano/modelo de jogo.

Vale ressaltar que, quando falamos em controle, não se trata apenas de ter ou não a bola. Dentro de uma leitura mais conceitual do jogo, ter o manejo de uma partida sob suas mãos não se limita apenas à posse. Vai muito além disso. E Portugal, acima de tudo, demonstrou uma capacidade brutal de gerenciar espaços em seu campo defensivo contra a Holanda. Na Nations, numa média geral, teve 46,8% de posse de bola.

Não é de hoje que os passos portugueses à feitos importantes são direcionados pela sua solidez defensiva. Independentemente do sistema utilizado - contra a Holanda, Santos iniciou com mudanças e apostando no 4-3-3 -, Portugal se sente totalmente confortável sem a bola. Direciona o jogo através de induções e sofre pouco. Trata-se de uma equipe extremamente madura sem a posse, com coberturas e zonas de campo bem definidas, com um nível de concentração altíssimo e com grande competência para defender sua área.

Existe sim, de certo modo, uma demonização do jogo mais defensivo. Um puro achismo de que não existe qualquer complexidade para se atingir tal patamar sem a bola. Criar e atacar, de fato, me parece mais intrigante, principalmente de necessidade de maior tempo de trabalho e entrosamento. Mas defender, criar mecanismos intransponíveis, também tem suas dificuldades.

Portugal pressiona o lado da bola: coberturas bem alinhadas e muita concentração impedem a Holanda de avançar
Portugal pressiona o lado da bola: coberturas bem alinhadas e muita concentração impedem a Holanda de avançar DataESPN

Na imagem acima vemos um bom exemplo disso. Toda uma compactação lateral bem sustentada. Posicionamento corporal impecável e coberturas todas encaixadas. É praticamente impossível progredir em campo diante de tamanha organização. Não resta nada além de circular a bola para trás, com apoios de maior segurança. Essa, inclusive, foi a tônica de grande parte do jogo: holandeses com posse lateral, circulando a bola em seu campo entre zagueiros e laterais.

Outro ponto bem positivo dos portugueses em fase defensiva é o entendimento apurado para subir ou baixar pressão. É uma equipe que, em grande parte do tempo, defende num bloco defensivo mais médio. Tenta subir pressão em alguns momentos, mas sem correr grandes riscos. Até por isso, não sobe muito sua linha defensiva nestes momentos. Prefere se descompactar por alguns momentos, mas mantém sua linha defensiva com menos campo à suas costas. Este, inclusive, é um dos pontos que mais mostram tal pragmatismo de Fernando Santos. Outros treinadores, adeptos dessa pressão mais alta, a fazem subindo todo bloco, tentando manter maior compactação, mas por outro lado, dando mais campo para o adversário atacar as costas dos zagueiros.

Sem dúvida alguma, um dos pontos altos desta seleção portuguesa é a organização de sua linha defensiva. Contra a Holanda, em grande parte do jogo, foi até bonito de ver tamanha sincronia de movimentos dos quatro defensores. Seja nas corridas para trás quando o adversário tinha a bola sem ninguém pressionar, nas subidas para encurtar o campo ou mesmo nas flutuações, fechando bem o lado do campo, enquanto os holandeses circulavam a posse em campo ofensivo. A ordem de manter a linha de 4 sempre sustentada é clara. E dá mais uma dose à rigidez que Fernando Santos busca nessa marcação por zona com poucas quebras e perseguições.

Toda essa precisão para controlar espaços defensivos levou os portugueses a números bastante relevantes duranta a disputa da Nations. E não é o número de quatro gols sofridos em seis jogos que chama a atenção. Vale a pena ressaltar um outro dado: Portugal permitiu apenas 15 arremates em sua meta durante toda a campanha. Uma média bastante baixa e que mostra como o bom Rui Patrício, mesmo tendo sido importante na campanha, foi pouco incomodado. 

Essa capacidade de defender sua área também foi bem explícita durante as transições defensivas. Nos poucos contra-ataques/ataques-rápidos que levou dos holandeses, teve muita competência para preencher o centro e colecionar rebatidas para longe de sua "baliza". A imagem abaixo mostra isso bem claramente. Perceba que, mesmo em recomposição e com um número relevante de adversários chegando na sua área, os lusitanos se preocupam prioritariamente em defender o centro da área, zona onde as chances de se levar um gol é muito maior.

Holanda escapa e pega Portugal desorganizado. Defensores fecham o centro da área
Holanda escapa e pega Portugal desorganizado. Defensores fecham o centro da área DataESPN

Vale ressaltar, em dimensões defensivas, o grande trabalho de Gonçalo Guedes na final. Autor do gol, o jovem ponteiro mostrou uma resistência física surreal. Além de ser um dos escapes nas saídas rápidas pós-recuperação da bola, baixou a marcação com muita agressividade, sendo muito exigido nas ações defensivas. Bernardo Silva, pelo lado direito, por exemplo, foi menos exigido e teve maior liberdade para se manter mais avançado no campo.

Mas a máquina de defender de Fernando Santos também precisa ter saídas quando tem a bola em seus pés. E é talvez neste sentido que o treinador mais sofra críticas - repito, bastante legítimas a meu ver. O pragmatismo português entra em cena a partir do momento em que a posse é retomada. Padrões bem claros, mas pouco repertório para um jogo extramente vertical, pautada em transições e ataques rápidos.

E essa verticalização do jogo tem muito a ver com as ações logo após a recuperação da bola. O padrão claro é de ganhar profundidade, avançar no campo, o mais rápido possível. Inclusive com uma ligação mais direta. Por isso é sempre importante ter jogadores atacando a linha defensiva adversária, principalmente com a mesma mais alta. Cristiano Ronaldo, o que não é novidade para ninguém, é um grande especialista nisso. A imagem abaixo ilustra bem essa situação.

Portugal recupera a posse e já ataca a linha defensiva da Holanda. CR7 recebe em profundidade
Portugal recupera a posse e já ataca a linha defensiva da Holanda. CR7 recebe em profundidade DataESPN

Longe de ser uma equipe com circulações de bola longas, Portugal tenta resolver tudo o mais rápido possível. Mesmo que isso lhe traga mais erros, mais passes arriscados, mais bolas nos espaços vazios... Independente de certo/errado ou bonito/feio, trata-se de uma escolha de Fernando Santos. A forma como o treinador entende ser mais fácil para atingir seus objetivos.

Contra a Holanda grande destaque individual também para Bernardo Silva. O meia-atacante do Manchester City foi crucial no volume ofensivo de sua equipe. Escalado a princípio como um ponta-direita, teve total liberdade para circular por todo campo e explorar, principalmente, as costas dos volantes holandeses. Ali, recebia a bola, já direcionava o domínio e acelerava tentando acionar as infiltrações de Guedes, Cristiano e Bruno Fernandes (este, aliás, trocando de posição com Bernardo em vários momentos, como vemos na imagem abaixo).

Portugal com a bola: Bernardo Silva vai para o centro, se projeta no espaço entrelinhas e Bruno Fernandes abre pela direita
Portugal com a bola: Bernardo Silva vai para o centro, se projeta no espaço entrelinhas e Bruno Fernandes abre pela direita DataESPN

Se olharmos com uma visão mais macro dos últimos anos de Portugal, essa falta de repertório com a bola virou problema em vários momentos. Talvez seja aí o passo tão esperado para a seleção de Fernando Santos. Contra o Irã, na última Copa do Mundo, isso foi bem nítido. Afinal, quando enfrenta equipes que claramente abdicam da posse, os lusitanos sentem do próprio veneno e não conseguem furar os bloqueios justamente por não ter um grande acervo de jogadas combinadas e circulações mais criativas.

Todas estas reflexões acima vão de encontro com a necessidade de rótulo que temos para quase tudo na vida. O futebol, definitivamente, não foge disso. Existem inúmeros maneiras de ganhar e perder, de jogar bem ou mal, de ser campeão ou último colocado... A questão é entender o quanto as suas chances aumentam ou diminuem após determinadas escolhas. O pragmatismo que sobra em alguns, falta a outros em alguns momentos. Dentro da dinâmica do futebol, se adaptar, entender o contexto atual, é imprescindível. 

Portugal tem seus méritos e problemas, como qualquer equipe de futebol, seja ela vitoriosa ou não. Cabe a nós enaltecer os aspectos positivos e problematizar os negativos. No fim das contas, as grandes equipes da história são, acima de tudo, equilibradas.

Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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O Flamengo da "meia estratégia" sucumbe mais uma vez. O da emoção pode trazer lições preciosas

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Rodrigo Caio festeja gol da virada no Maracanã
Rodrigo Caio festeja gol da virada no Maracanã gazeta press

Não são de hoje as reclamações acerca do desempenho do Flamengo sob o comando de Abel Braga. No melhor estilo montanha-russa, os rubro-negros foram do céu ao inferno em 45  minutos. "Viraram uma virada" no Maracanã, mas, apesar de tudo, demonstraram deficiências antigas na vitória por 3 a 2 contra o bom Athletico Paranaense que, apesar de usar reservas em campo, fez um jogo bastante consistente longe de Curitiba. 

No fim das contas, trata-se de uma partida muito difícil de ser analisada. O sentimento para muitos rubro-negros foi de superação,  de emoção, de uma remontada heroica... Mas a razão pode nos mostrar pontos importantes para serem discutidos. Lições que precisam ser absorvidas por Abel, Gabriel, Diego & Cia. Deficiências que precisam ser sanadas na busca por coisas maiores.

A vitória foi importantíssima para se manter no bolo de cima da classificação do Campeonato Brasileiro. Isso ninguém nega. Mas expôs um dos principais problemas deste atual Flamengo: a incapacidade de, em vários momentos, não conseguir cumprir sua estratégia de forma completa. Afinal, qualquer ação traz uma reação. E com ela, é preciso resolver problemas dentro de campo, ser capaz de se adaptar inteiramente ao que está sendo proposto. 

Explico.

A ideia dos flamenguistas na primeira etapa foi subir jogadores para pressionar a saída de bola dos paranaenses. Por vários momentos conseguiu recuperar bolas e acelerar em direção a Santos, que fez algumas boas defesas. O pênalti convertido por Gabriel, foi fruto de um erro do lateral-direito Madson, um dos bons momentos que o Flamengo conseguiu fechar linhas de passe do Athletico e incomodar o adversário na circulação da bola. Mas a coisa mudou completamente na segunda etapa. Não só por parte dos rubro-negros, mas também de imposição e muito mérito do Athletico.

A ideia era clara: esperar o adversário e usar a velocidade para matar o jogo. Mas trata-se de uma escolha sempre muito polêmica se tratando de Flamengo. 

Obviamente que devemos entender que grande parte dos flamenguistas espera um time protagonista em campo. Que tenha a bola na maior parte do tempo, que use suas grandes individualidades para dominar qualquer adversário, principalmente dentro do Maracanã. Isso se amplifica pelo fato de não sobrar qualidade individual para tal modelo. O investimento, a expectativa gerada em cima desse grupo... Mais que isso, trata-se da cultura do clube. Algo que tem que ser respeitado.

Por outro lado, também é bastante sedutor pensar em Gabriel, Éverton Ribeiro e Bruno Henrique explorando espaços em velocidade. Se o trio ainda tiver a presença de Arrascaeta então, torna-se uma máquina de jogar acelerando com campo aberto. O duelo contra o Peñarol, no Uruguai, com a equipe empilhando chances desperdiçadas em contra-ataques, é uma prova disso. São jogadores que, de fato, funcionam muito bem dentro neste cenário. O que faz até a decisão fazer sentido. Mas a questão é bem mais ampla...

Quando voltou dos vestiários do Maracanã vencendo o Athletico por 1 a 0 e baixando seu bloco defensivo, o Flamengo não cumpriu parte importante da sua estratégia: a de defender bem sua própria área. Teve armas vorazes para acelerar, um adversário se expondo e instalado no seu campo, mas não foi capaz de neutralizar os espaços defensivos. Antes de pensar em contra-atacar, deve-se defender bem. Aí veio o sofrimento.

Querendo ou não essa é uma tônica bastante recorrente em vários compromissos ao logo desta temporada. Um roteiro já bem rotineiro na mente do rubro-negro:  sai na frente, recua, desperdiça contra-ataques e, por fim, acaba cedendo o gol ao adversário. A tal da "meia estratégia", a ideia que funciona em partes, mas que não dá a consistência necessária para o Flamengo ser mais competitivo.

O Athlhetico cresceu na segunda etapa. Se instalou no campo ofensivo e, após boas sequências de perde e pressiona, foi colecionando ações dentro da área. Se olharmos na ótica do desempenho, os paranaenses mereceram pelo menos pontuar fora de casa. Jogou para isso.

O Flamengo por sua vez, mostrou grande dificuldade de manter a posse. Não conseguia por nada esfriar um pouco o ímpeto paranaense. Os problemas eram nítidos desde a saída de bola. E veio o empate, a virada... A pressão reversa. Mais um exemplo claro do Maracanã vindo abaixo e isso nitidamente afetando o psicológico de quem estava em campo. O caos instalado. O filme repetido rodando na tela de milhões espalhados pelo Brasil.

O que era tão simples no primeiro tempo, a partir daí já não era tanto. Um passe fácil de dois metros virava um quebra-cabeça para jogadores técnicos, com qualidades acima da média para o mercado brasileiro. Apesar do parafuso geral, algo recorrente nestes últimos anos de Flamengo, o time reagiu. Foi para o abafa, viu a entrada de Rodinei surgir efeito e a virada acontecer com Rodrigo Caio aos 50 minutos. Algo que mostra que não se trata de brio. Mas de melhor organização mesmo, um repertório maior para não se colocar nesta tal situação. Esse lance de raça, de vontade, sinceramente, nunca foi um problema. Pelo menos na minha humilde visão.

Vale ressaltar que, apesar da vitória, o Flamengo ainda sofreu com contra-ataques. Foi para o abafa e expôs sua linha defensiva às investidas rápidas do Athletico que, apesar do sentimento ruim de ter deixado escapar a vantagem no fim, fez um jogo bastante consistente. O carrinho de Renê, aos 47, salvou. A auto-estima pode ter voltado. Mas sem refletir sobre os verdadeiros motivos de se sofrer tanto. Sem virar as costas e apenas se emocionar.

Nunca se faltou tanto equilíbrio ao Flamengo. Na gestão, no campo, no comando... Tardes com estas no Maracanã podem servir muito. Se a razão for usada.





Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Solução pivô: como Pochettino fez o "impossível" e levou o Tottenham à final da Champions League?

Renato Rodrigues
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Mauricio Pochettino Tecnico Tottenham chega à final da UCL
Mauricio Pochettino Tecnico Tottenham chega à final da UCL BEN STANSALL/AFP/Getty Images


Não existem dúvidas que o grande personagem da virada do Tottenham, por 3 a 2, contra o bom Ajax, dentro de Amsterdã, pela Champions Leguae, foi Lucas Moura. Importante durante toda a temporada pela equipe inglesa, mesmo que não sendo titular absoluto, mas com muitos minutos em campo, o brasileiro anotou um hat-trick e foi decisivo ao protagonizar mais uma "remontada" na atual UCL.

Mas um ajuste de Mauricio Pochettino, durante o intervalo,  foi crucial para levar os londrinos à sua primeira final européia. Ajuste, inclusive, que colocou Lucas Moura ainda mais no jogo, até então amplamente dominado pelos holandeses. 

O cenário era o pior possível: derrota por 1 a 0 em casa e virada de tempo na Holanda tomando 2 a 0. Mais que isso, um Tottenham que não conseguia sair da pressão do Ajax, sempre muito agressivo na retomada pós-perda e deixando a circulação inglesa totalmente inibida.  Um desempenho muito abaixo do que a equipe já mostrou e algo que, para quem mantinha os olhos com o mínimo de razão, faria do feito ainda mais impressionante.

O desconforto londrino já era nítido desde a iniciação das jogadas. Com Ziyech, Van De Beek, Douberg e Tadic pressionando a saída de bola e fechando linhas de passe, os Spurs não conseguiam sair com a bola limpa pelo chão para acionar a velocidade de Lucas e Son (sem Kane, lesionado, equipe veio a campo num 4-2-3-1, com Lucas Moura como um 9 de mais mobilidade e uma linha de meias com Son, Eriksen e Dele Alli).

Foi aí que entrou a "solução pivô" na história do jogo. 

Convencido que uma saída mais curta e pelo chão - característica presente no seu modelo de jogo -  não dava resultados a um Tottenham apagado em campo, Pochettino apelou para Fernando Llorente no lugar de Wanyama. Com seus 34 anos, o centroavante espanhol que nunca foi uma referência técnica, tão pouco teve passagens marcantes por grandes clubes na Europa, foi muito influente no condicionamento da partida. Acrescentou uma variação na construção dos Spurs, dando a opção de um jogo mais direto e físico,  justamente para ganhar terreno e proximidade da área holandesa até então um tanto confortável. 

Com grande capacidade física e de retenção de bola para jogar de costas para o gol, Llorente foi crucial para sua equipe conseguir ser mais presente no terço final do campo, coisa que praticamente não aconteceu nos primeiros 45 minutos do confronto. A lógica foi: não deu para sair pelo chão? Estica a bola! Mesmo nos momentos que o pivô não ganhou a disputa, conseguiu criar dificuldades para o adversário conquistar a segunda bola (o rebote da jogada). 

E foi neste momento que esta cartada contribuiu brutalmente para o jogo de Lucas Moura. Agressivo, elétrico e de uma resistência física acima da média (lembre-se que ele esteve em campo em todo o jogo contra o Bournemouth, no fim de semana, quando sua equipe jogou boa parte do jogo com dois jogadores a menos), o brasileiro esteve muito ativo nas disputas destes rebotes estabelecidos após essa briga entre Llorente e os defensores. Tanto ele como Son foram também  foram imprescindíveis para a ideia funcionar. 

Com a bola mais presente no ataque, ambos ativaram suas velocidades e movimentos de rupturas. Algo que deixou a Ajax atordoado nos momentos de muita pressão na bola. Empurrando a linha defensiva para o próprio gol.

Estica, retém, avança... Estica, retém, avança... E foi assim, nesse mecanismo que o Tottenham ganhou as "jardas" (nos moldes NFL) que tanto precisava. Uma saída que, por mais simples que seja, foi muito efetiva.

E o jogo virou. Literalmente.

O acréscimo e o casamento de características foram preponderantes para a virada. A entrada de um jogador que está longe de ser um craque ou decisivo durante toda sua carreira, mas que foi capaz de entregar uma função específica, do jeito certo e na hora certa, foi certeira. Pochettino conseguiu acrescentar um jogo até ali inexistente, uma saída perspicaz num momento muito crítico. E isso não quer dizer (definitivamente!) que é só esse o jogo do Tottenham. Ou o único no caso. Longe disso.

O que vimos de fato foi a capacidade de adaptação que seu treinador, com 5 anos no cargo, teve. Para quem já pensa: "Ah, mas no Brasil vocês xingam o chutão, a bola longa...", a questão é simples: não se trata de só jogar direto. Mas sim de jogar direto também, ter isso como uma saída. Ter alguém no elenco que te traga essa opção. A questão da variação, da inquietude de um técnico para mudar um cenário com uma sacada - e isso não quer dizer que isso também não aconteça por aqui. 

Mais que tudo isso, nos mostra como o futebol tem várias facetas e maneiras de se chegar a glória. De como ele pode ser dinâmico e imprevisível. De como a tática e a fibra, a emoção, a mobilização, andam todas juntas. E que não são antíteses, por mais que muitos batam nessa tecla.

07/05/2019 e 08/05/2019 certamente são datas que ficarão muito tempo no imaginário de quem ama tanto este jogo. Noites para desfrutar deste esporte que cabe ponta marcador, volante brucutu, goleiro que joga com os pés, falso 9, tática, escanteio curto e qualquer forma de se sentir ou jogar. Esporte que também cabê aquele pivozão bonito, por que não?

Pivô é vida! (Também!).


Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Solução pivô: como Pochettino fez o "impossível" e levou o Tottenham à final da Champions League?

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Seleção Brasileira: eis a virada dos externos desequilibrantes

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Tite em treino da Seleção Brasileira
Tite em treino da Seleção Brasileira Getty

A vitória da Seleção Brasileira, de virada, por 3 a 1, sobre a República Tcheca, nesta terça-feira, marca mais um passo no ciclo visando a Copa do Mundo de 2022. Período com uma clara necessidade na renovação de peças, de busca por alternativas dentro de um modelo de jogo e, principalmente, na retomada da confiança de comissão técnica e atletas, bastante questionados por uma crítica geral nos últimos meses. 

Apesar de todo exagero de todos os lados - tanto para o bem quanto para o mal -, no fim das contas tratava-se de um amistoso. Colado em uma Copa América, é verdade, mas que deveria ter um ar maior de testes, de diagnósticos e possíveis soluções para o andar da temporada.  A necessidade, acima de tudo, era de mostrar maior desempenho. Algo que, de fato, tem faltado desde a eliminação para a Bélgica na Copa do Mundo de 2018. 

Apesar da boa imagem do segundo tempo, foi uma atuação oscilante e com tempos distintos, como vinha sendo nos últimos compromissos. Altos e baixos, algumas peças respondendo melhor e outras nem tanto. Mas, acima de tudo, Tite teve algumas respostas interessantes, principalmente se olharmos a desnecessária polêmica em função dos "externos desequilibrantes" - termo que causou certa histeria após o empate contra o Panamá. No fim das contas, o desequilíbrio gerado por estes pontas, foi determinante pela maior produção da equipe.

O Brasil iniciou a partida com a mesma ideia das suas últimas aparições, buscando um ataque mais posicional. Coutinho teve bons primeiros minutos e expôs logo de cara a fragilidade do adversário em jogadas mais rápidas, de 1x1. Jogando como um ponta mais construtor (saindo da esquerda e circulando pelo centro), o jogador do Barcelona mostrou maior intensidade em suas ações. Abriu bons espaços para Alex Sandro usar as ultrapassagens e Lucas Paquetá infiltrar. Foi um início promissor de toda a equipe.

Allan se posicionou com mais naturalidade entre as linhas de marcação, principalmente no espaço entre zagueiros e volantes tchecos. Firmino, saindo da referência, e Paquetá, o acompanhavam neste setor. Para iniciar a construção do ataque, a ideia era ter Casemiro na base da jogada junto com os zagueiros. Os laterais, por sua vez, não avançavam tanto no campo e ajudavam nesta iniciação mais sustentada. 

Mas foi nessa saída de bola que a Seleção mais penou nos primeiros 45 minutos. A equipe teve dificuldades para iniciar com fluidez. Com Casemiro recebendo a maior parte das bolas de costas para a marcação e pressionado, o que lhe impossibilitava de girar e jogar de frente para o campo, foi de Marquinhos e Thiago Silva que saíram os passes mais verticais. Allan, Paquetá e Coutinho tentavam, por vezes, recuar para ajudar nesta iniciação, mas sem grande sucesso. O volante do Napoli, no entanto, mostrou alguns pontos importantes, tanto na ajuda da construção como em projeções na área rival. 

Mesmo sendo uma peça de grande importância para o equilíbrio defensivo da Seleção, com imposição física e boas antecipações, a presença de Casemiro foi praticamente nula neste início das jogadas. Certamente é algo para ser revisto e para buscar alguma alternativa. Baixá-lo para atuar entre os dois zagueiros, nesta primeira etapa de construção, o deixando de frente para o campo, pode ser uma possibilidade.

Já Richarlison, atuando aberto pelo lado direito, mesmo não tendo feito um grande jogo, mostrou uma alta capacidade de sustentar jogadas de costas para o gol. Uma espécie de "ponta-pivô", suportando bem os embates da forte (fisicamente) República Tcheca. O jogador do Everton segurou bons trancos, um touro neste tipo de disputas, e que mostra uma capacidade pouco presente nas outras opções de ataque da Seleção.

Os tchecos, de uma forma geral, controlaram boa parte do primeiro tempo. Sem grande impeto ofensivo, mas também oferecendo poucos espaços aos brasileiros. O gol, em si, surgiu de uma jogada bem esquisita, após um bate rebate. O mesmo, inclusive, se pode falar do tento de empate brasileiro, marcado por Roberto Firmino. 

Mas era claro, desde as primeiras fintas de Coutinho logo nos minutos iniciais, que se tratava de um adversário pesado, com dificuldades na troca de direção e que teria dificuldades para suportar duelos em 1x1 com espaço para correr. E Éverton e David Neres escancararam isso...

Conforme os tchecos foram afrouxando a pressão na bola, o campo foi crescendo para a jovem dupla, que tem a característica do tal externo desequilibrante. algo pontuado por Tite dias atrás. Com as mudanças, o treinador usou Firmino (ainda mais móvel) ao lado de Jesus. Assim, os pontas de Grêmio e Ajax ficaram mais abertos. Um 4-2-3-1 que, por vezes, até parecia um 4-2-4, com Allan um pouco mais preso à base da jogada, pisando um pouco menos na área. 

Com mais liberdade de movimento e mais campo para correr, Éverton e Neres trataram de quebrar coberturas e eliminar oponentes nas jogadas pessoais. Boas leituras, boas decisões... De fato, se olharmos para uma estrutura geral de ataque, a vitória veio num modelo mais móvel, de troca de posições e maior liberdade de movimento. Eis aqui mais um retorno importante para a comissão técnica. 

No fim foi uma resposta bem interessante de duas peças de grande potencial, mas que disputam espaço com atletas mais estabilizados a nível de mercado mundial. Mais que isso, um retorno importante de um grupo que sentia, nitidamente, a pressão pelo resultado. Boa parte das tentativas de contra-ataque dos tchecos, inclusive, foi neutralizada no segundo tempo. Bons movimentos de perde e pressiona, com bastante agressividade, que, por vários minutos, sufocou o adversário, impossibilitado de sair do seu próprio campo.

É bem verdade que, no Brasil, amistosos, principalmente se não for contra seleções mais tradicionais, só valem em caso de derrota/empate. Ganhar, para boa parte da crítica, não é mais que a obrigação.  Prefiro ver estes compromissos, que de fato têm um nível de competitividade mais baixo, como momentos cruciais para uma preparação. Longe de serem decisivos, mas que podem apontar caminhos e possibilidades. 

Neste sentido, se não foi uma atuação 100% consistente da Seleção Brasileira, Tite conseguiu, enfim, ter algumas respostas bastante relevantes para a sequência de trabalho.

Termos polêmicos

Sinceramente, acho bem pouco relevante ficar batendo na tecla dos termos. Não cabe a mim definir como alguém deve ou não deve se comunicar. Acho que muita gente tentou criar até um debate construtivo em cima deste tema, mas muitos também entraram nessa onda simplesmente para debochar ou menosprezar, e não só o próprio Tite, mas todo um segmento que busca uma abordagem diferente do que os mesmos julgam a correta. 

No fim das contas um resultado - e principalmente uma atuação melhor contra o Panamá - , barraria essa discussão que sequer entra no conteúdo que o próprio treinador passou, tamanha a irrelevância. 

Obviamente que se comunicar com sua torcida através da imprensa trata-se de um papel relevante na função de um treinador, mas não é a principal. Os questionamentos poderiam ser muito mais em cima dos por quês que o jogo mostravam. Das más atuações e dos motivos para tal. Do por quê as dificuldades para criar, por exemplo, algo bem recorrente não só com a Seleção, mas no futebol brasileiro de maneira geral. 

Mas, de fato, olhar para o jogo dá mais trabalho. Ver e rever, buscar um conteúdo, ler, repetir lances para buscar respostas... Tudo isso, para quem simplesmente não quer, é desgastante. Tem quem diga que não gosta de melão, sem ao menos ter comido melão uma vez na vida. Acontece.


Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Mobilidade ofensiva: a chave (e a tendência) para um Grêmio vitorioso na temporada 2019

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Renato Gaucho tem um dos trabalhos mais estabilizados do futebol brasileiro
Renato Gaucho tem um dos trabalhos mais estabilizados do futebol brasileiro Jayson Braga/Getty Images

A temporada está apenas começando. Para o Grêmio, que ainda nem sequer entrou em campo pela Copa Libertadores, isso fica mais claro. Por outro lado, o Campeonato Gaúcho tem se mostrado um grande laboratório que, acima de tudo, nos traz boas referências do que pode ser a engrenagem de Renato Gaúcho para 2019. Principalmente do meio para frente.

Qualquer análise, obviamente, precisa incluir o ambiente e a competitividade nele inserida. Tanto para aspectos coletivos quanto individuais. E nisso podemos ser unanimes: o Gaúchão não traz grandes parâmetros para apontar dificuldades - mesmo que elas se apresentem de maneira bem clara para o arquirrival Internacional, que não consegue elevar seu nível de desempenho.

A intenção, no entanto, é tentar absorver um pouco do que tem sido as ideias de Portaluppi e, principalmente, como o treinador está adaptando novas peças à sua forma de jogar após movimentações bem interessantes no mercado de transferências. Felipe Vizeu, Montoya e Diego Tardelli foram aquisições importantes. Aliada à essas chegadas, a aposta em Alison na temporada passada e uma maior maturação de Matheus Henrique, Pepê e Jean-Pyerre, no ano passado, deixa o Tricolor Gaúcho com um equilíbrio de funções e características em seu elenco.

O controle e o ritmo de Maicon, por trás de toda estrutura ofensiva gremista, principalmente por iniciar o ano livre de lesões, também é um ponto crucial para o sucesso de Renato Gaúcho & Cia. Aliás, a meu ver, trata-se de um dos meio-campistas mais influentes no desempenho/funcionamento de uma equipe atuando solo brasileiro. Um jogador determinante para o andar do ano. Mas vamos avançar mais no campo.

Independentemente do resultado contra o desesperado Veranópolis (e também do desempenho, já que o Grêmio já teve atuações melhores em 2019), é possível enxergar alguns padrões e movimentos ofensivos bastante interessantes. Principalmente se olharmos para mobilidade do quarteto de frente. Com a saída de Jael, sempre muito explorado num pivô mais puro, retendo bolas e aproveitando por vezes um jogo até mais direto, novas características foram acrescentadas. Tanto Vizeu quanto Tardelli trazem outras possibilidades.

É possível ver um Grêmio mais móvel em fase ofensiva. Instalado no campo do adversário com a bola, não existe espaço totalmente pré-determinado para os três meias do 4-2-3-1 (Marinho, Luan e Everton). Até Vizeu, com uma função mais clara de gerar profundidade junto à linha defensiva, tem seus momentos de flutuar por setores para tentar abrir espaços para as diagonais dos dois atacantes de lado.

Vizeu deixa a referência e trabalha entre os volantes, para desequilibrar a defesa do Veranópolis
Vizeu deixa a referência e trabalha entre os volantes, para desequilibrar a defesa do Veranópolis DataESPN

O ex-flamenguista tem até estrutura para jogar de costas, mas não é a dele. Prefere a jogada mais profunda, a bola no ponto futuro aliada à infiltração. Até por isso, pode rodar mais e se projetar nos momentos certos. Chegar no lugar decisivo e não simplesmente estar, como já muito tratamos neste espaço.

Se for Tardelli por ali, essa troca de posições tendem a ficar ainda mais recorrentes. Contratação mais impactante do clube para 2019, principalmente pelas cifras envolvidas, o atacante está bem longe de ser um 9 característico. Menos que Vizeu, aliás. Dono de uma agressividade e verticalidade enorme, trata-se de um atleta que busca constantemente o contato com a bola. Toca e projeta. Roda. Vai nos espaços. 

E a aposta de Renato tende a ser muito neste aspecto, principalmente contra equipes mais fechadas: dar mobilidade ofensiva aos seus meias/atacantes, inverter posições e tentar, com todo este caos ofensivo, desestruturar defesas mais posicionadas. Para isso, os laterais seguem com a tarefa clara de abrirem o campo em amplitude. Se posicionam bem espetados e, por vezes, avançam até ao mesmo tempo conseguindo até produzir profundidade. Enquanto isso, por dentro, a mágica acontece.

Fase ofensiva: laterais (circulados) abrem o campo, enquanto Vizeu dá profundidade por dentro, que tem os meias circulando
Fase ofensiva: laterais (circulados) abrem o campo, enquanto Vizeu dá profundidade por dentro, que tem os meias circulando DataESPN

Luan sai das costas dos volantes ( espaço entrelinha) para buscar a bola de Michel/Maicon - estes mais na retaguarda (balanço defensivo) junto dos zagueiros. Marinho e Éverton se posicionam no espaço deixado pelo camisa 7 e, sempre que possível, estão à postos para concluir as jogadas se juntando ao centroavante dentro da área. Se a jogada se constrói do lado oposto, cabe a eles fecharem na segunda trave. O primeiro gol de Marinho contra o Veranópolis mostra bem isso.

- A gente trabalha neste sentido. De estar sempre fechando na área. O Renato cobra isso de mim, do Alisson, do Pepê... Para estar mais atento e fazer mais gols - disse o autor do único gol da partida, na saída para o intervalo, em entrevista ao canal SporTV.

Tanto Marinho quanto Éverton - vale o mesmo para Alison, que se recupera de lesão - mostram certa naturalidade não só para estarem mais centralizados na conclusão das jogadas, mas também na construção delas. Ambos possuem um bom jogo curto e capacidade associativa para trabalhar sob pressão. Conduzem bem a bola e mostram um bom repertório técnico para driblar os adversários. Atuam na função de "pontas-construtores". Ou seja, não é a ideia pela ideia. De fato, o que tem buscado Portaluppi faz sentido, simplesmente por ter peças que lhe entregam tais características.

Dos pontas mais utilizados no elenco, Pepê talvez seja o mais agudo e menos "construtor". Mas, com o jovem promissor em campo, outras possibilidades aparecem, principalmente em jogadas de linha de fundo. Se juntarmos isso a Léo Moura recuperado, por exemplo, tem aí uma variação interessante, já que o veterano lateral tem grande facilidade de jogar por dentro, deixando Pepê mais aberto. O ponto principal é aliar características, fazer com que a engrenagem funcione de maneira confortável para todos em campo.

Na partida contra o Ceará, em 2018: perceba como Léo Moura trabalha por dentro enquanto Pepê abre o campo
Na partida contra o Ceará, em 2018: perceba como Léo Moura trabalha por dentro enquanto Pepê abre o campo DataESPN

É bastante nítido que o modelo de jogo do Grêmio segue ali. Talvez seja a forma de jogar com mais continuidade e mais absorvida por um grupo de jogadores entre todos os clubes brasileiros. Se olharmos para a estrutura defensiva do Grêmio, não nos grita nenhum aspecto tão diferente, apesar de alguns ajustes. Mas se tem algo que tem uma grande margem de crescimento são nestas mecânicas ofensivas.

E, nestes momentos, apesar de o Grêmio não ser dos clubes mais ricos em investimentos no país, o clichê do elenco bom ou ruim cai por terra. Afinal, o valor do elenco está no quanto custa os jogadores ou simplesmente no tanto que eles podem produzir juntos? Eu fico, tranquilamente, com a segunda opção.

 

Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Mobilidade ofensiva: a chave (e a tendência) para um Grêmio vitorioso na temporada 2019

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As lições de Old Trafford: Kylian Mbappé é melhor de 9 ou na ponta?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Depende. Simples assim.

Tudo bem, não é tão simples. Mas se olharmos para o cenário que o PSG tinha pela frente para o duelo contra o Manchester United, nesta terça-feira, fora de casa, pelo jogo de ida das oitavas de final da Uefa Champions League, Thomas Tuchel não tinha escolha, mesmo que muitos não concordavam com a ideia – bastante plausível e nada de tão nova, inclusive.

A lesão de Edinson Cavani, de última hora, inclusive, deixou clara uma relevante lacuna do elenco parisiense: a de não ter um reserva imediato para o centroavante uruguaio apesar de todas as cifras gastas nos últimos anos. Mas isso também não quer dizer que  Kylian Mbappé não poderia atuar numa função que, inclusive, já fez em outros momentos da carreira. No Monaco, inclusive, atuou praticamente por toda sua passagem, como um segundo atacante, ao lado da referência, mas como toda profundidade do campo à sua disposição para acelerar. 

A grande questão é: ao olhar para a jovem estrela francesa, logo de imediato, pensamos em velocidade. É, de longe, sua maior virtude. Aliás, há quem diga que se trata do jogador mais veloz do planeta na atualidade. E é neste momento que bate uma verdade bastante cultural por aqui: É rápido? Dribla? Então é ponta! A sua boa Copa do Mundo, aliás, reforçou ainda mais esta ideia para o público geral.

Mas quando digo que depende, é justamente pelos diferentes cenários que o PSG pode ter ao longo de sua temporada. A partida vencida por 2 a 0 contra o Manchester United, é um exemplo bastante claro disso.

Mbappé comemora gol do Paris Saint-Germain contra o Manchester United
Mbappé comemora gol do Paris Saint-Germain contra o Manchester United Getty Images

Longe de achar que Mbappé não possui repertório técnico para jogadas mais curtas, combinadas e dentro de um contexto de menos espaços para acelerar. Mas também é fato que, com campo para arrancar, o camisa 7 é uma arma muito potente para qualquer equipe. Didier Dechamps usou e abusou disso durante o Mundial na Rússia. Com uma equipe mais reativa, com Giroud sustentando bolas na frente, viu Kylian sendo um escape mortal pelo lado direito, conduzindo a bola em velocidade e encaixando boas diagonais, seja para finalizar ou servir os companheiros.

Mas isso não tem a ver com a faixa de campo que ele está no início da jogada. E sim para onde ele vai. Mbappé é um atacante de espaços nato. E tem uma percepção grande neste sentido. Ao enxergar qualquer tipo de brecha, por menor que seja, usa toda sua explosão para estar nela o mais rápido possível – e, principalmente, antes que seu oponente.

Independentemente de estar como centroavante ou ponta, eu diria que Mbappé precisar estar sempre posicionado no limite da linha defensiva adversária. Em jogos como o de Manchester, principalmente. É inevitável que os donos da casa sairiam para jogar também. Então haveria, uma hora ou outra, espaços nas costas da defesa para acioná-lo em velocidade. E como foi possível ver, se você jogar a bola no espaço, certamente ele chegará primeiro que o zagueiro. São raros os momentos que isso não acontece. O lance do segundo gol dos visitantes, aliás, é um grande exemplo: bola sai da pressão, abre-se todo um campo e Mbappé, no limite da jogada, arranca na frente do adversário para completar o rápido cruzamento de Angel Di Maria.

E por isso que, por vezes,  deixá-lo entre os zagueiros, contra uma defesa em bloco baixo, fechadinha, não é grande negócio.

Entende como tudo depende do cenário que você tem pela frente? E mais, de como a estratégia para a partida precisa ser levada em conta nesta escolha? Em Old Trafford, Tuchel não só o escalou com a peça mais adiantada num sistema que variava entre 3-4-3 com bola e 4-4-2 sem posse, mas lhe deu total liberdade de movimentos. Principalmente no quesito profundidade, quando o PSG tentava sair com a bola para atrair o United para seu campo e acelerar após uma saída de pressão.

Mapa de toques na bola de Mbappé vai desde dentro da área até em regiões mais abertas do campo
Mapa de toques na bola de Mbappé vai desde dentro da área até em regiões mais abertas do campo Reprodução: WhoScored

Perceba no gráfico acima, onde é pontuado todos os toques na bola de Mbappé, como o mesmo teve liberdade de movimentos. Mesmo centralizado, fez boas diagonais para fora, recebendo no ponto futuro. Por dentro, não teve a obrigação de sustentar a posse para o time sair de trás, mas sim executar rapidamente quando recebia de costas. Nada de pivô. A ordem era tocar e se projetar. Pisar e acelerar no espaço. Muito além da posição em si, uma ideia totalmente voltada para função, de quais ações você precisa executar dentro de um todo, de uma engrenagem muito maior que você.

A ideia de ter Mbappé mais avançado, além de tudo que foi citado, também tem um ganho ofensivo durante as transições. Nesta posição, é claro que suas funções defensivas diminuem. Mesmo que pressione a saída, feche um volante ou mesmo direcione a iniciação do adversário, não se compara o desgaste da função de um típico ponta atual: de cobrir todo o corredor, indo e voltando insanamente.

Com isso, a cada corrida e ataque ao espaço, você terá um jogador com o tanque de combustível praticamente cheio. Capaz de causar grandes danos à linha defensiva do seu oponente, vendo seu atacante chegando a frente dos zagueiros em quase todas as investidas. No fim das contas tratou-se de uma saída bastante natural para Tuchel. Mas o mais importante, sem dúvida alguma, foi a forma como Mbappé executou suas obrigações dentro do cenário desenvolvido na Inglaterra. Mostrou que não se trata apenas de um “quebra galho” como 9, mas que sim, dependendo do contexto em que estiver, pode ser eficaz dentro dos ambiciosos planos da equipe de Paris.


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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Propor o jogo vs qualidade técnica: conheça a história do inglês que revolucionou clube na Suécia com muita posse de bola e sociologia

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Graham Potter em treino do Swansea City na atual temporada
Graham Potter em treino do Swansea City na atual temporada Getty

O promissor início de trabalho de Jorge Sampaoli no Santos chama a atenção nestes primeiros meses de 2019 não só pela rapidez da absorção de suas ideias por parte dos jogadores, mas também pelo jogo propositivo e protagonista apresentado. Por outro lado, apesar de ter boas peças, o Peixe está longe de ter grandes investimentos no futebol e jogadores caros como alguns de seus rivais.

Tal cenário nos traz uma reflexão bastante perspicaz: até onde a excelência técnica dos atletas é imprescindível para a prática de um futebol ofensivo e de controle através da posse de bola? Guardiola faz isso só porque tem milhões para investir ou é possível aplicar este estilo de jogo em outros cenários? Até onde ser competitivo através destas ideias implica em ter dinheiro para ter os melhores?

De fato, trata-se de um tema que causa bastante discussão e que pode ser visto de muitos ângulos. Mas, ao refletir sobre o assunto, me veio à cabeça um nome muito interessante e desconhecido de muitos que acompanham o futebol por aqui: Graham Potter.

Ex-zagueiro, o inglês não teve grande brilho na sua carreira como atleta. Passou por quatro divisões da Inglaterra e chegou até a defender sua seleção na categoria sub-21, mas nunca teve oportunidades em clubes maiores.

Potter contempla estádio do Ostersunds
Potter contempla estádio do Ostersunds Getty

Mas foi do banco de reservas e através de um jogo envolvente e propositivo, que o atual treinador do Swansea (que disputa a Champiomship, 2ª divisão inglesa) ganhou protagonismo no esporte. Suas ideias e sua história são um bom ponto de partida para essa discussão que acalora debates Brasil afora. Para isso, precisamos entender toda sua trajetória e sua forma de ver futebol.

Após largar a carreira de jogador ao fim da temporada 2004-2005, atuando pelo Macclesfield Town (4ª divisão da Inglaterra), Potter se formou em Ciências Sociais. Mais tarde, depois de trabalhar como diretor técnico da seleção feminina de Gana na Copa do Mundo de 2007, terminou seu mestrado em Liderança e Inteligência Emocional na cidade de Leeds. Mas foi fora da Inglaterra que seus sonhos como treinador iriam se realizar. Mais precisamente na Suécia.

Destino incomum para treinadores ingleses, que geralmente contam como inúmeras divisões e times para iniciarem suas carreiras, Graham Potter assinou por três temporadas com o pequeno Östersund FK, da terceira divisão sueca. E foi por lá que, sem grandes investimentos para montar times repletos de talentos individuais, que ele levou o modesto clube até a primeira divisão. Acrescente ainda em seu currículo a conquista da Copa da Suécia em 2016/2017 e além de ter chegado até oitavas de final da Liga Europa 2017/2018, sendo eliminado pelo Arsenal. E estes 7 anos no Círculo Ártico já tinha alguma ligação com Swansea, já que foi o auxiliar do treinador Roberto Martinez, Graeme Jones, que tirou a equipe de Gales da quarta divisão para chegar à Premier League, que o indicou ao clube sueco.

Mas o que chama a atenção em sua passagem pelo Östersund FK, além dos resultados, são os métodos. Antes mesmo de entrar na parte tática, é muito importante entender a abordagem humana de Potter dentro deste trabalho na Suécia. Visando a aproximação entre comissão técnica, clube, jogadores e a comunidade, o treinador estimulava e estipulava apresentações públicas do elenco, seja para peças de teatro ou mesmo atividades musicais.

- Às vezes há uma desconexão entre futebolistas e torcedores, porque há pessoas muito bem pagas aqui e torcedores por lá, e nada entre os dois. E quando você precisa do apoio, quando as coisas correm mal, não há nenhuma referência para eles dizerem: 'Ok, eu lhe darei o benefício da dúvida'- contou Potter, em entrevista ao The Guardian, meses após sua chegada ao Swansea.

- Mas você só precisa entender o ambiente em que está e como pode fazê-lo. Não é um processo fácil. Você anuncia para um bando de caras que em seu dia de folga eles vão praticar dança. Eles não vão dizer: 'Isso é fantástico.' Portanto, há questões gerenciais que você precisa explicar, sempre vinculando estas decisões ao futebol. Minha ideia sempre foi tirar todos da zona de conforto. Inclusive eu mesmo – completou.

Além da ideia de sempre propor o jogo e tentar praticar um futebol que aproximasse o público aos seus jogadores, Potter batia muito na tecla de que desenvolver a profundidade do ser humano ia muito além dos estímulos praticados nos treinamentos.

 

Entre ataques rápidos e posicionais, o Östersund FK fez história propondo

Obviamente que, além de se tratar da Liga Sueca – que está longe de ser uma das mais ricas da Europa – e de uma equipe sem grande poderio financeiro, o Östersund FK não tinha uma equipe repleta de referências técnicas. Mas mesmo assim praticava um futebol agradável de se assistir. Independente de certo ou errado, ou mesmo de gostos pessoais, se era visto em campo um time com um modelo de jogo bem definido e que, mais que isso, aplicava bem suas ideias dentro de campo. Tanto que atingiu resultados esportivos bem satisfatórios.

Sua plataforma de jogo era extremamente flexível. Variava sistemas de acordo com o adversário, sempre buscando criar vantagens numéricas em diferentes setores no campo. Transitava principalmente entre quatro disposições: 3-5-2, 3-4-3, 4-2-3-1 e 4-4-2 (sistema utilizado na vitória histórica sobre o Arsenal por 2 a 1, em pleno Emirates). Seu trabalho após a pré-temporada, período em que trabalhava os pilares do seu modelo, era muito baseado na preparação do jogo em cima do próximo rival. Em entrevistas na época ele pontuava muito a necessidade de ajudar os jogadores a resolverem problemas durante as partidas, mas que com algumas situações já previstas, aumentava seu percentual de acertos em 90 minutos.

Buscava prioritariamente um ataque bastante posicional, tentando sempre espalhar seus jogadores em campo de forma inteligente, sempre visando abrir diferentes linhas de passe para avançar no campo do adversário (veja na imagem abaixo o Östersund FK em fase ofensiva).

Posicionamento ofensivo do Ostersunds: 3-4-3, com alas abrindo o campo, pontas por dentro e ataque mais posicional
Posicionamento ofensivo do Ostersunds: 3-4-3, com alas abrindo o campo, pontas por dentro e ataque mais posicional DataESPN

A iniciação das jogadas era bastante trabalhada e os zagueiros mostravam extrema coragem para arriscar um passe vertical sempre que algum companheiro se posicionava em espaços entre as linhas de marcação. Eram defensores que nitidamente não possuíam grande qualidade técnica, mas bem estimulados e com seu entorno proporcionando um cenário positivo, conseguiam armar desde trás.

Quando a bola entra próxima ou dentro do terço ofensivo do campo, a equipe conseguia trabalhar com extrema velocidade e, mais importante, com muita chegada na área dos adversários. Tendo vantagens posicionais e numéricas para concluir as jogadas. Existia uma grande preocupação com a compactação ofensiva, independentemente da faixa de campo que a bola estava (veja abaixo):

Já numa faixa mais adiante do campo, equipe mantém compactação e com muita gente pronta para chegar na áera
Já numa faixa mais adiante do campo, equipe mantém compactação e com muita gente pronta para chegar na áera DataESPN

Sem bola, tratava-se de um time altamente agressivo, que buscava pressionar o adversário logo após a perda. Mostrava bom controle contra equipe de transições ofensivas fortes, sabendo alternar momentos de pressão constante com situações que cabiam mais a recomposição rápida para atrás da linha da bola.

Demonstrava também uma boa capacidade para se adaptar não só nos sistemas, mas em diferentes estratégias de jogo para obter vantagens. E o confronto de oitavas de final da Liga Europa, contra o Arsenal, deu pouco dessa tônica. Conseguiu, em vários momentos, fechar espaços e jogar mais postado com certa segurança. E, apesar dos 3 a 0 sofridos em casa no jogo de ida, foi até o Emirates Stadium e alternou momentos de pressão um pouco mais alta e controle de espaços defensivos. A chave para vencer fora de casa foram as recuperações de bola no campo ofensivo. Seja subindo o bloco para pressionar a saída dos Gunners ou mesmo encaixando boas reações no pós-perda, colocando muita intensidade na bola (as duas imagens abaixo mostram um pouco disso).

Na casa do Arsenal, suecos pressionam a bola logo após a perda e no campo ofensivo
Na casa do Arsenal, suecos pressionam a bola logo após a perda e no campo ofensivo DataESPN

A verdade é que, seja qual contexto enfrentava pela frente, o Östersund FK mostrava-se uma equipe extremamente competitiva e agressiva. Buscava o controle acima de tudo, independentemente de estar ou não com a bola. E a coragem/vontade de jogar com a bola nos pés, apesar de não ter grande qualidade técnica, era realmente inspiradora para qualquer pessoa que aprecia o futebol.

 

Modelo de jogo tornou-se vitrine para olheiros

A forma como descobri essa equipe e o trabalho de Graham Potter, ainda no ano passado, é bastante curiosa e mostra o tamanho do mérito que as escolhas do treinador alcançaram. Até num âmbito continental, inclusive.

Com um modelo de jogo bastante específico, dentro de um mercado bastante acessível em questões financeiras e por ser um clube que não teria grande resistência para segurar atletas, o Östersund FK passou a ser observado de perto por outros centros. Tanto que recentemente fez vendas para Inglaterra e França, com Watford e Amiens comprando dois de seus atletas (Ken Sema e Saman Ghoddos).

Graham Potter, ainda pelo Ostersunds FK
Graham Potter, ainda pelo Ostersunds FK Getty

Um destes mercados que passaram a acompanhar o que era desenvolvido na Suécia é o Norte Americano, pela MLS especificamente. Observador Técnico e Scout do Columbus Crew, que nas últimas temporadas tem conseguido feitos interessantes com uma proposta bastante semelhante ao de Potter, Leonardo Baldo achou no Östersund FK uma possibilidade de futuros reforços para seu clube.

- Conheci o estilo de jogo deles fazendo buscas por modelos de jogo que tinham semelhanças aos nossos. Pela média de passes e oportunidades de gols que eles apresentavam, ficava claro que tratava-se de uma equipe bastante propositiva. Depois assisti jogos para confirmar essa minha suspeita – conta o profissional, que antes foi analista de desempenho do Corinthians.

Sem poder contar com grandes investimentos, tendo um dos menores orçamentos da MLS, o cenário era bastante favorável. Além da maior acessibilidade nas negociações, você ainda teria jogadores já acostumados a uma forma de jogar. O que possibilitaria uma maior velocidade na adaptação do atleta.

- Você tem um modelo parecido com o que você joga e em uma liga com menos poderio. Você precisa olhar para sua realidade. Menos dinheiro, elencos mais curtos... Você não pode errar. E tem algumas outras características importantes neste cenário que diminui a probabilidade de erro. Primeiro que jogadores desta região da Europa se adaptam mais fácil. A questão da língua pesa. Se o cara fala inglês já é um passo enorme. E praticamente todo mundo lá fala. A questão do frio também não é um problema para eles. O salário também dá para competir. Então você alia um monte de situações – conclui Baldo.

No Brasil, por sua vez, ainda discutimos onde existe ou não um modelo de jogo bem estabelecido – e aí entra uma grande porção de variáveis para tal problema. Sem entrar na questão de feio ou bonito, certo ou errado, sofremos por vezes pela falta de repertório de possibilidades. Com equipes bem trabalhadas em questões defensivas, mas, como mostrado no último Brasileirão, grandes dificuldades na construção do jogo. E aí reafirmo: são vários os motivos para tal cenário.

   

O desafio em Gales: resgatar a identidade perdida do Swansea

Após um trabalho de 7 anos e meio completamente estabelecido na Suécia, o futuro reservava um desafio cheio de coincidências para Graham Potter. Seu próximo destino era o Swansea City, no sul do País de Gales, onde sua grande fonte de inspiração fizera história. O inglês assumiu o comando dos swans no início da atual temporada (meio de 2018).

A verdade é que Potter nunca escondeu sua admiração por Roberto Martinez, atual treinador da Bélgica. Em seu primeiro trabalho como treinador, o belga conseguiu subir o Swansea para a segunda divisão com apenas seis meses de trabalho e deu início a um ciclo bastante promissor que levou os galeses ao título da Copa da Liga na temporada 2012/2013. Muito deste período ascendente tem a ver com o estilo de futebol ali emposto, sempre muito elogiado por buscar a posse e jogar em cima dos adversários. Tanto que os treinadores posteriores buscaram sempre dar continuidade a essa identidade de jogo que ali estava.

Potter faz trabalho com jogadores do Swansea em treino
Potter faz trabalho com jogadores do Swansea em treino Getty

Além da indicação para o cargo no Östersund FK ter vinda através do auxiliar do técnico belga, Potter nunca escondeu ser um estudioso dos métodos de treinamento de Roberto Martinez e nunca abriu mão de uma abordagem mais propositiva. Ele ainda cita Pep Guardiola e o holandês Raymond Verheijen como suas outras influências dentro futebol.

E sua chegada ao Liberty Stadium vai muito além de recolocar o clube novamente na Premier League. Após o período de ouro que se iniciou lá atrás com Martinez e um jogo baseado na posse de bola, o Swansea se mostrou perdido nas últimas temporadas. Perdeu jogadores importantes e com eles toda uma identidade de jogo. Por isso a Potter não esconde sua satisfação em ter sido escolhido para tal desafio:

- Sempre fui atraído por algo que é sobre construir e criar. Mudei minha família de uma vida maravilhosa na Suécia. Então não cheguei aqui apenas para um emprego. Tinha que ser algo que me fizesse pensar: "Se pudermos fazer isso funcionar, podemos realmente fazer algo especial!". E é isso que quero fazer aqui – afirmou, também em entrevista ao The Guardian.

Graham Potter, agora técnico do Swansea
Graham Potter, agora técnico do Swansea Getty

A verdade é que, após meia temporada, o Swansea ainda não se mostra totalmente fluído praticando este estilo de jogo. Tem sim momentos muito bons, com boas sequências de vitórias e desempenhos que já mostram um caminho a ser trilhado, mas ainda se mostra bastante oscilante e sem grande naturalidade nos movimentos, sejam ofensivos ou defensivos. O meio de tabela, no atual momento, reflete bastante as dificuldades vividas nesta primeira etapa.

Em agosto, por exemplo, Potter perdeu mais de 12 atletas e teve que iniciar toda uma reconstrução do elenco. Aos poucos foi adaptando peças e dando espaços para alguns jovens como Bersan Celina, Baker-Richardson, Oliver McBurnie e Daniel James. A princípio a diretoria parece apostar no trabalho e se mostra bastante compreensiva com o atual cenário do clube, acreditando num projeto ainda mais longevo para voltar à Premier League.

 

Outros exemplos competitivos e a utopia brasileira

A história de Graham Potter e do “ex-pequeno” Östersund FK inspira e nos coloca, mais uma vez, dentro da discussão sobre se é possível praticar um futebol competitivo com a posse de bola mesmo não tendo os melhores jogadores em mãos. E outros exemplos nos traz algumas mostras do quanto é acessível sim, jogar desta forma, sem ter dinheiro para fazer grandes contratações.

O Columbus Crew, citado acima, tem repetidamente chegado aos playoffs e até semifinais de conferência nos últimos anos. Recentemente perdeu seu treinador, Gregg Berhalter, para a seleção dos EUA. Um trabalho que durou mais de 5 anos e que rendeu muitos elogios na MLS.

Real Bétis e Sassuolo, na Espanha e na Itália, respectivamente, também apresentam um futebol bastante atrativo, mas que ainda necessitam de mais tempo para o desenvolvimento. Maurizio Sarri, com o Napoli-ITA, também deu boas mostras disso. E em nível Sul-Americano não podemos esquecer da final de Libertadores entre Grêmio e Lanús que, apesar de serem grandes equipes, não se tratam de clubes com grandes capacidades de investimentos, principalmente os argentinos.

Preparando o terreno: veja a análise do DataESPN sobre o lado italiano de City x Napoli,

A meu ver, a questão de propor ou vai bem além da qualidade técnica que você tem em mãos. Obviamente que, com mais refinamento, suas ações tendem a ser mais eficazes e fluídas. Sem tanto investimento técnico, por outro lado, você terá menos consistências nas ações. Com os mecanismos e os estímulos certos aplicados no dia a dia, você pode sim criar cenários confortáveis para atletas menos técnicos e encorajá-los a melhorar neste sentido.

Tudo depende de como você pensa, como você treina e como isso vai a campo. E, principalmente, na sua capacidade de convencer e criar um time confiante a ponto de jogar desta forma. Falar em tempo de trabalho, calendário, qualidade dos gramados é sim ponderar de forma justa os problemas vividos por aqui. Mas, por vezes, também paramos nas ideias. E falhamos na execução.

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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Propor o jogo vs qualidade técnica: conheça a história do inglês que revolucionou clube na Suécia com muita posse de bola e sociologia

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Um Santos "elétrico" contra o São Bento e os promissores 270 minutos sob o comando de Jorge Sampaoli

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Jorge Sampaoli está com 100% de aproveitamento em jogos oficiais pelo Santos
Jorge Sampaoli está com 100% de aproveitamento em jogos oficiais pelo Santos gazeta press

A primeira aparição do ano, em amistoso contra o Corinthians, já trouxe alguma mostra das ideias de Jorge Sampaoli para o Santos em 2018. Contra a Ferroviária, apesar do placar magro, mais alguns padrões de jogo se repetindo. Mas não tem como negar que o ponto alto da equipe sob o comando do treinador argentino até aqui foi na goleada contra o São Bento, em Sorocaba, na noite desta quinta-feira, pelo Campeonato Paulista.

Obviamente que estamos falando de uma amostragem ainda muito pequena. Se levarmos em conta estamos falando de um início de temporada sem pré-temporada, devemos ter ainda mais cautela nas avaliações. Mas também não podemos fechar os olhos para alguns indícios claros do que Sampaoli pensa para o Peixe em 2019. E, por mais que a naturalidade e a fluência que o jogo exige ainda não esteja totalmente encorpada, podemos sim detectar alguns pilares de seu modelo de jogo. Principalmente por conhecê-lo de trabalhos anteriores.

Foram 35 minutos iniciais muito fortes do Santos em Sorocaba. Um primeiro tempo de total controle das ações do jogo. Claro que as oscilações de ritmo aconteceram, principalmente nos finais de tempos. Mas trata-se de algo bastante natural para o atual cenário e, principalmente, pela exigência que o modelo de jogo aplicado mostra.

Com bola vimos o Peixe saindo sempre pelo chão. Usando bastante Vanderlei como mais uma peça de apoio. Tenho a impressão que a pressão colocada em cima do goleiro por conta do jogo com o pé o fez errar algumas situações até simples. Tanto que não o julgo tão ruim assim na construção. Mas, de fato, a necessidade de dar uma resposta imediata ao novo comandante por ter atrapalhado em seu desempenho neste sentido específico.

Alison vai mostrando que terá um papel bastante importante no desenvolvimento do jogo santista. É o cara incumbido de sempre baixar para perto dos zagueiros para receber a bola (veja na imagem abaixo). Muitas vezes o fazendo de costas, o que torna a ação mais perigosa. No entanto, já dá para notar que o volante está assimilando as ideias de Sampaoli e tentando girar o mais rápido possível para ficar de frente para o jogo.

Vanderlei recebe a bola, zagueiros recuam e abrem o campo para Alison se aproximar pelo centro do campo
Vanderlei recebe a bola, zagueiros recuam e abrem o campo para Alison se aproximar pelo centro do campo DataESPN

Nesta primeira etapa de construção, o Santos até mostrou um pouco mais de paciência. Roda a bola de um lado por outro e tenta sair com segurança até achar a melhor alternativa para ganhar mais campo. Quando a bola saía dos zagueiros, sempre eram mais verticais, quebrando a primeira – e às vezes até a segunda – linha de marcação do São Bento. Feito isso, a ordem era clara: acelerar e trocar de posição alucinadamente para infiltrar na área. Derlys Gonzalez foi determinante para isso. Esteve muito bem, sempre muito procurado para atacar profundidade. Felipe Cardoso se mostrou bastante móvel, abrindo bons espaços para infiltrações. Um time extremamente agressivo e intenso nas ações com bola.

E quem aproveitou estas movimentações do centroavante foram os meio-campistas que atuavam a frente de Alison. Tanto Jean Mota quanto Pituca e Sanchez foram bastante presentes na área – o primeiro chegou mais, inclusive marcando o primeiro gol com 14 segundos de jogo. Ambos alternaram infiltrações e mostravam boas leituras para atacarem espaços no momento certo (veja na imagem abaixo). Sanchez, por sua vez, foi muito importante na condução da bola durante as transições ofensivas. Sem bola, como sempre, o uruguaio se mostrou muito agressivo, encaixando boas pressões pós-perda da posse.

Na primeira jogada da partida, Santos chega pela direita e Jean Mota já está infiltrando. Mais atrás, Pituca se prepara para entrar na área também
Na primeira jogada da partida, Santos chega pela direita e Jean Mota já está infiltrando. Mais atrás, Pituca se prepara para entrar na área também DataESPN

E estes comportamentos sem bola da equipe também foram muito importantes para a construção do resultado fora de casa. Num geral, toda a equipe trabalhou forte neste sentido. Perdeu a bola? Pressão, pressão e pressão... Quando o adversário escapava desta blitz imediata, parte dos jogadores retornavam para atrás da linha da bola o mais rápido possível, sempre priorizando a região central, visando proteger ao máximo a sua área.

Sem dúvida alguma trata-se de apenas o início de um trabalho que se mostra bastante promissor. O que chama a atenção, de fato, é a agressividade e intensidade da equipe. Muitos aspectos ainda serão trabalhados, principalmente na confiança dos zagueiros para construir com mais coragem, para buscarem os companheiros que se posicionam entrelinhas. Vanderlei também deverá ter mais chances e poderá mostrar se tem condições de entregar o que Sampaoli tem em mente. Aliás, vale ressaltar os bons minutos de Yeferson Soteldo, que aos poucos deve ganhar mais espaço.

As transições defensivas também ainda necessitam de alguns ajustes, principalmente quando ocorrem quebras na linha defensiva durante o retorno da equipe. Certamente Sampaoli vai ajustar alguns detalhes para compensar algumas destas situações e tornar o time mais equilibrado.

Por outro lado, é nítido o impacto imediato do treinador argentino neste início de trabalho. Não se trata de conclusões permanentes. Longe disso. Existe muita temporada pela frente. Mas o santista, do mais otimista ao mais pessimista, certamente está animado com o que parecida ser um ano difícil pela frente.

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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Um Santos "elétrico" contra o São Bento e os promissores 270 minutos sob o comando de Jorge Sampaoli

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Além do passe de Laporte: entenda, em 10 tópicos, toda a riqueza de ideias no gol do City contra o Wolves

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Gabriel Jesus e Josep Guardiola: relação vem dando frutos ao futebol do brasileiro
Gabriel Jesus e Josep Guardiola: relação vem dando frutos ao futebol do brasileiro Getty Images

O duelo da última segunda-feira entre Manchester City e Wolverhampton, pela Premier League, de certa forma nos frustrou. Se tratava do time de Pep Guardiola precisando da vitória para manter a distância de 4 pontos para o Liverpool, contra o Wolves treinado pelo ótimo Nuno Espírito Santo e que talvez seja uma das equipes mais interessantes da Inglaterra na atual temporada. 

O gol dos donos da casa logo no início do jogo, mais a expulsão de Willy Boly, deu rumos diferentes se pensarmos no potencial que este confronto carregava.  Mas isso não apaga o nível de desempenho dos Citizens, principalmente a riqueza conceitual demonstrada na construção do primeiro gol marcado pelo brasileiro Gabriel Jesus.

Um tento que vai muito além do lindo passe de Laporte para a arrancada de Sané. Um gol que vale uma atenção especial por nos apresentar vários aspectos do jogo desenvolvido por Guardiola e conceitos/padrões muito claros deste atual Manchester City. Acompanhe abaixo a análise em vídeo de toda a construção da jogada até a finalização de Gabriel Jesus. Logo depois, em texto, 10 tópicos detalhando todo o desenrolar da bonita jogada:


1 - Lateral para o Wolverhampton no seu campo ofensivo. Todo posicionamento do City esta voltado para uma ideia: aumentar suas chances de ganhar disputas de 1ª e 2ª bolas. Veja no vídeo como a superioridade numérica é bem significante neste momento: são 8 citizens contra 4 adversários (mais Ruben Neves [8], um pouco recuado para ser um desafogo). Mais que ter maioria num determinado espaço do campo, existe toda uma compactação para pressionar a bola e recuperá-la o mais rápido possível;

2 - Perceba onde está Walker, lateral-direito da equipe de Manchester durante o arremesso lateral. Essa compactação, além de manter a equipe próxima para pressionar a bola, tem como objetivo se agrupar para trabalhar a bola quando a mesma estiver recuperada. O lateral inglês fecha bem no lado que a bola está, mas mantém vigilância em Jonny Castro, ala-esquerdo do Wolverhampton. Ele flutua para ficar mais próximo do centro do jogo (onde está a posse), mas não descuida do lado oposto, já que uma invertida ali poderia causar estragos à sua defesa;

3 - A cobrança de lateral acontece e a pressão é instantânea. Objetivo alcançado. O adversário não teve a mínima chance de escapar da "armadilha";

4 - Apesar de parecer um simples toque para o lado de Laporte, a primeira ação do City com a bola e a primeira do Wolves sem, nos traz uma situação bem relevante na construção da jogada: o que cada equipe fez em seus momentos de transição? E mais, o fizeram de forma organizada e coletiva? Pois bem. No exato momento da recuperação da posse, quando a equipe o Manchester City entra em transição ofensiva, a decisão do zagueiro é de tirar a bola rapidamente da zona de pressão - que nada mais é onde se acumulava mais gente, ou seja, onde era mais difícil de se trabalhar a bola. Por outro lado, o Wolverhampton também precisou "mudar a chavinha". Perde a posse e, automaticamente, se recompõem para atrás da linha da bola. Tais ações coletivas mostram bastante sobre o que eram as estratégias de ambas as equipes para a partida ou mesmo como foram resolvidos os problemas que tal lance ocasionou;

5 - O campo se abriu e Walker conduziu a bola. No entanto, o Wolves colocou todos seus jogadores atrás da linha da bola. O 5-3-2 em fase defensiva é bastante nítido. Ou seja, agora a situação é de todos jogadores "dentro do jogo". Tal expressão é colocada pelo fato de, dentro do contexto de atrás e a frente da linha da bola, se entende que quem esteja à frente da linha da bola, já está "eliminado" da jogada. Assim posicionado, o jogador deixa de ter a possibilidade de defender sua meta. Dentro deste cenário, vemos a equipe visitante cumprindo muito bem o objetivo estipulado para esta fase do jogo;

6 - A ideia de Nuno Espírito Santos ao ativar uma recomposição rápida para o seu campo logo após a perda da posse tinha muito a ver com a tentativa de minimizar os espaços entrelinhas (dá para ver claramente na análise). Principalmente a região entre a linha defensiva e as costas dos seus volantes, onde as equipes de Guardiola sempre buscam posicionar muitos jogadores para receber o passe, girar e acelerar em direção ao gol, fazendo muitos estragos à defesa rival. Bernardo Silva, jogando por dentro desde a lesão de De Bruyne, flutua exatamente por ali para tentar abrir uma linha de passe e receber a bola;

7 - A importância de Gabriel Jesus além dos dois gols anotados fica evidente também nos movimentos sem bola. Perceba como ele joga no limite do impedimento, muito rente à linha defensiva e tentando fazer movimentos para levar os defensores para trás. Tal movimentação faz o Manchester City ganhar profundidade, jogando a linha de 5 do Wolves mais próxima possível do seu gol. Até por isso a atuação do brasileiro foi bastante positiva. Ele entregou desempenho de várias maneiras, com e sem a posse. E seu nível de confiança cresce, dando mais intensidade e eficácia nas suas ações com bola;

8 - Com dificuldades para progredir com a bola, a equipe de Manchester circula a posse, vai tentando achar espaços. Neste momento vemos a configuração da equipe em fase ofensiva para esta partida. Zagueiros jogando quase no campo do Wolves, Fernandinho um pouco mais a frente trabalhando como regista, sendo determinante para iniciação das jogadas. Os laterais (Walker e Danilo), por sua vez, trabalham um pouco mais centralizados e quem tem a missão de abrir o campo são os pontas (Sterling e Sané). Tal posicionamento é bastante recorrente nas equipes de Guardiola, por mais que o mesmo faça algumas variações de peças e plataformas de acordo com o adversário;

9 - Agora chegamos ao momento crucial da jogada: o passe vertical de Laporte, a projeção de Sané nas costas da linha defensiva e Gabriel Jesus arrancando para completar o cruzamento rápido do alemão. O bom posicionamento do ex-palmeirense, jogando ali no limite do impedimento, inclusive, é que o possibilita chegar antes que os defensores na hora da finalização. Mas a repetição do lance é ainda mais esclarecedora;

10 - Por fim, o replay em câmera aberta. Nele fica mais evidente esse ponto alto da jogada. Laporte recebe a bola sem grande pressão. À sua frente, nos apoios mais próximos para jogar um pouco mais curto, o Wolverhampton fecha bem as opções. Encurta a marcação e fica praticamente impossível progredir com a bola na região central. Não existe espaço entrelinhas para ser explorado. E entre pressionar um zagueiro, que está mais longe de sua meta, e um meia, por exemplo, é bem óbvia a escolha. Na real é uma decisão lógica, já que não dá para pressionar todos ao mesmo tempo. Mas aí entra a capacidade de construção que os zagueiros de Guardiola tem. Um passe que "rasga" toda a equipe adversária. E Laporte consegue eliminar 11 jogadores (e três linhas de marcação) com um só passe. Veja como todo o time do Wolves fica a frente da linha da bola quando Sané recebe o passe em velocidade. A leitura de Laporte é rara. Não se trata apenas de achar um passe que não entraria em qualquer outro espaço, mas também de entender o gesto corporal do atacante que vai receber. Compreender o timing certo de soltar a bola e de entender que não foi apenas um movimento de desmarque do ponta (para só tentar enganar o marcador). Na câmera aberta também fica nítido que Jesus lê rápido a jogada e parte quase junto de Sané, ficando na linha da bola, mas também estando na frente dos defensores que corriam para trás. A vantagem por estar bem posicionado é gritante e a conclusão passa a ser apenas um detalhe. 

Tal lance isolado, que se trata de um gol, nos leva a muito mais reflexões. A questão de como montar uma estratégia contra uma equipe como o Manchester City é uma delas. Mantenho minha linha defensiva mais alta? Pressiono mais no campo deles? Ou baixo a marcação e deixo meus defensores recuados, tirando a velocidade e a profundidade dos citizens? É um papo que vai ainda mais longe. E que nos dá milhões de possibilidades. Que ficarão para um outro momento. 


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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Além do passe de Laporte: entenda, em 10 tópicos, toda a riqueza de ideias no gol do City contra o Wolves

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Entrevista do mês: De saída, Dorival Jr vê Fla pronto, projeta futuro de Paquetá e critica qualidade do futebol no Brasil: ‘Nossa essência é de jogar com a bola’

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Dorival Junior ficou 2 meses à frente do Flamengo durante o Campeonato Brasileiro
Dorival Junior ficou 2 meses à frente do Flamengo durante o Campeonato Brasileiro Gilvan de Souza/Flamengo

Foram apenas dois meses de trabalho no Flamengo.

As esperanças de permanecer no clube após as eleições, que eram bem pequenas, não se confirmaram. Inclusive tudo se leva a crer que Abel Braga será o treinador do Fla em 2019 (veja aqui). Nada que já não esperava, até porque ao aceitar o desafio de comandar a equipe rubro-negra por 12 jogos, Dorival Junior tinha total conhecimento de todo cenário que o clube vivia.

Apesar de não ficar, o treinador tem muito a falar deste período. Curto, mas, segundo ele mesmo, muito intenso. Nessa longa entrevista, Dorival fala muito do que precisou ajustar do trabalho de Maurício Barbieri que, como você vai ver na entrevista, foi muito elogiado, principalmente pelas semelhanças no estilo de jogo. O ex-treinador do Fla também falou da falta de paciência com Vitinho e Uribe, sobre como vê Lucas Paquetá no futuro e, principalmente, sobre como vê o atual elenco do Flamengo, muito contestado nos últimos anos pela falta de títulos expressivos.

Dorival também questionou bastante o atual cenário do futebol brasileiro. Inclusive, destacou número de jogadores que saem para o exterior e a falta de qualidade técnica que vivemos atualmente:

- Nós perdemos para o exterior 1.500 jogadores por ano. E com todo respeito a todo e qualquer tipo de profissional. Espero inclusive que entendam onde quero chegar. Mas ao meu ver, 40% dos jogadores que jogam a primeira divisão do Brasileiro deveriam estar na Série B – explica.

Confira na íntegra o bate-papo com o ex-treinador do Flamengo:

 

O que te fez aceitar o desafio de ir para o Flamengo para ficar num período tão curto? Alguma condição de trabalho específica te fez topar?

A primeira questão é que eu vinha acompanhando o Brasileirão. Vendo a grande maioria dos jogos. E é natural quando você, numa situação que eu vivia, de estar aguardando uma oportunidade, buscar estudar, analisar o futebol num todo, principalmente no mercado onde você está inserido. Você acaba se atentando a alguns detalhes mais fortes de algumas equipes, e me chamava a atenção a forma como alguns times jogavam, entre eles o Flamengo. As ideias de jogo com o Barbieri se assemelhavam com o que eu penso e tento praticar de futebol. É um estilo que sempre tentamos desenvolver nas equipes. Gostava muito de ver as movimentações do Flamengo, assistia bastante. E quando surgiu a oportunidade eu olhei para a tabela e vi que era possível desenvolver um início de trabalho, justamente por ter quatro ou cinco semanas livres para treinamentos. Eram mais jogos de finais de semana. Eu acreditava muito nessa equipe, e ainda acredito. Pela capacidade técnica, pelos jogadores que tem e que casavam com minhas ideias. Eu senti que poderia colaborar de alguma forma. É verdade que o Maurício (Barbieri) não vinha tendo muito tempo para treinar, pegou um período de muitas competições. Para mim foi fundamental ter tempo para ir ao campo com os atletas.  Quando eu estava de fora, olhava, analisava, e talvez eu já tenha chegado bem mais preparado, sabendo onde eu poderia acrescentar um conceito, um ajuste...

A esperança de ficar, mesmo com o clube vivendo eleições, foi um dos fatores que te fez aceitar assumir o Flamengo, mesmo não sendo uma situação ideal para desenvolver um trabalho? Alguém te procurou neste sentido?

Não teve nenhum contato. Eu tenho contrato com o Flamengo ainda. Mas o Flamengo teve uma eleição. E isso significa muitas vezes mudanças dentro da estrutura de um clube. Então é uma situação que precisa ser respeitada. Quando fui contratado as condições foram bem claras. Não tenho nada do que reclamar neste sentido. Tentei dar o meu melhor pelo clube, trabalhei de forma séria. Era um período curto, mas que a gente colocou na cabeça que faria com a maior intensidade e entrega possível.

Dorival teve 12 jogos para tentar levar o Flamengo ao título do Brasileirão
Dorival teve 12 jogos para tentar levar o Flamengo ao título do Brasileirão []

Qual foi o cenário que você pegou na equipe? Apesar da ideia de jogo do Flamengo seguir uma linha parecida com a sua durante esta temporada, quais ajustes precisou fazer?

De fato o trabalho que vinha sendo feito pelo Barbieri era bastante positivo e que tinha uma linha parecida com a que penso. Mas eu enxergava a necessidade de alguns ajustes. O Flamengo vinha sendo uma equipe que conseguia ter controle através da posse, mas que tinha dificuldades para concluir e às vezes até construir. Nós posicionamos os dois meias que jogam na frente dos volantes para jogar nas costas dos volantes adversários. Colocá-los naquele espaço entrelinhas. Também tentamos usar os laterais por dentro em alguns momentos. Via neles a capacidade para ajudar na construção. Para isso os pontas precisavam abrir o campo, dar amplitude para alargar a defesa dos adversários. Nossa linha defesa também se aproximou mais do último atacante, tentamos compactar mais a equipe quando tinha a bola, justamente para recuperar rápido quando a perdesse. Aos poucos fomos aprimorando as triangulações, ataques aos espaços... Foi um trabalho bastante tático, de aprimorar uma ideia, de colocar uma ou outra ideia para potencializar os jogadores. De tentar se posicionar em um espaço de forma inteligente, mas tendo paciência para esperar a bola chegar até seus pés. Que isso vai ser vantajoso não só para o atleta, mas para a equipe. Confiar que seu companheiro, executando o papel dele, vai te trazer a bola na jogada. É questão de convencer também. Foi um trabalho de correção e acréscimo mesmo. De entender que, mesmo numa triangulação, o objetivo final tem que ser infiltrar num espaço, atacá-lo. Então tentamos estimular os atletas neste sentido para que, sempre que aparecesse uma brecha, eles tinham que atacá-la. E peguei um grupo de atletas muito aberto à aprender, à acrescentar novas ideias em cada sessão de trabalho.

O Flamengo talvez seja uma das equipes do Brasil que mais trabalha a ideia de ter a bola nos últimos anos. Rueda, Zé Ricardo, Barbieri... Todos seguindo uma mesma linha. E estes treinadores sempre mostraram bastante ideias em seus trabalhos. O que de fato vem faltando para todo esse conteúdo aplicado se reverta em títulos?

Eu concordo plenamente. Claro que cada treinador tem suas preferências e ideias, mas existe uma linha mesmo. Por isso consegui me adaptar rápido. E o Flamengo é uma das equipes que, ultimamente, tem crescido muito neste sentido. E você percebe que, na maioria das competições, o clube vem chegando, está competindo e se aproximando de conquistas. É algo que precisamos reconhecer. Acho que o Flamengo foi muito feliz com as escolhas de seus últimos treinadores. Por todos tendo a ideia de valorizar a posse de bola, de seguir um mesmo caminho. Entendo ser um processo. E que vai ser finalizado em algum momento. Sinto o Flamengo muito preparado para grandes conquistas. Vejo o clube no mesmo nível dos seus grandes concorrentes. Até superior em alguns sentidos. Não é por acaso que tem disputado, competido forte em tudo que entra. Fazendo finais, semifinais... Num todo o Flamengo vem evoluindo muito nos últimos anos. Vejo tudo isso como uma preparação para coisas grandes. Não acredito que isso demore a acontecer.

Em vários confrontos importantes fica claro que o Flamengo é uma equipe que até consegue criar situações de gol, algo até raro aqui no país. Mas por outro lado é um time que tem dificuldade para concluir, matar os jogos... Porque tem acontecido isso? Acha que é uma questão de confiança também? Algo mais psicológico que técnico/tático?

Creio que é um pouco de tudo. São muitos aspectos dentro deste diagnóstico. De fato, a equipe poderia ter sido mais eficaz em alguns momentos. Mas se não me engano o Flamengo teve o segundo melhor ataque do campeonato. Fomos uma das equipes que mais criaram, que mais recuperaram bolas no campo ofensivo... E também a segunda melhor defesa junto com o Internacional. Também acho que teve muita coisa boa nessa campanha. De repente o reconhecimento disso não vem por não ter conquistado um grande título na temporada. Mas uma equipe que joga como Flamengo, com a atual desenvoltura, criando... Eu não tenho dúvidas, independentemente do que acontecer depois das eleições, o Flamengo está fazendo um trabalho muito consistente. E se preparando para que, num curto espaço, atinja todos seus objetivos. A hora que essa grande conquista acontecer, eu tenho certeza que vai ser uma sequência bastante promissora.

 O Flamengo, de uma maneira geral, se organizou bem administrativamente nos últimos anos e isso criou uma expectativa grande por títulos. Ganhar praticamente virou uma obrigação para grande parte da torcida e da própria imprensa. Acredita que toda essa pressão possa ter atrapalhado em momentos cruciais? Acha que essa cobrança gerou algum tipo de ansiedade no elenco hora de concluir uma jogada ou nas tomadas de decisão?

Eu cheguei a perceber isso também. Principalmente antes de chegar. Sentia um pouco dessa ansiedade da equipe. Mas hoje, sendo bem sincero contigo, não vejo mais essa situação. Acho que ficamos mais maduros, tanto nos momentos de atacar quanto nos de defender. Foi um ano de muito aprendizado para todos os atletas. Mas pelo perfil deles, acho que lidaram bem com tudo isso. Acho que os próprios jogadores começaram a perceber estas situações. Começaram a dominar melhor tudo isso. Por isso que sempre falo: se alguém tinha alguma dúvida sobre esse elenco do Flamengo, acho que essa reta final acabou minimizando isso. É bem nítido que todos estes tropeços estão deixando o Flamengo mais pronto para grandes conquistas. Claro que a equipe ainda tem muito que melhorar, tem detalhes para ajustar. Mas tudo isso faz parte de um processo. De um amadurecimento que eles estão passando. Acho que esse mesmo grupo de trabalho ainda vai dar bons frutos ao Flamengo. Acredito muito nisso. É natural que uma ou outra alteração aconteça, mas tomara que uma base seja mantida. Não tenho dúvidas que isso vai ser um ganho enorme para o próximo ano. Internamente o Flamengo está muito bem estruturado. Em todos os aspectos. O atleta que hoje veste a camisa do Flamengo ele está totalmente amparado. A sua única preocupação é de jogar futebol.

Toda essa pressão em cima do Flamengo, por exemplo, pode ter afetado o início do Vitinho? Foi possível ver muita crítica a ele, pelo investimento, por tudo que representou sua contratação... Já o fim de temporada dele foi bom. Acha que se tem muita pressa com tudo que envolve o Flamengo hoje?

Eu não acho que o Vitinho teve grandes problemas de adaptação. E isso é normal acontecer com a maioria dos jogadores que retornam ao mercado brasileiro. Ele chegou com bastante responsabilidade. Mas ele usou esses períodos com semana cheia de treinamentos para se condicionar melhor na questão física. Ele precisava se encaixar em alguns aspectos até do modelo de jogo. É interessante frisar isso. A partir do momento que ele se estabilizou fisicamente, sua confiança foi aumentando e ele foi se sentindo melhor dentro de campo. O desempenho dele cresceu muito depois de tudo isso. O treinamento em campo foi muito importante para atingir esse patamar. Aquela responsabilidade inicial talvez tenha pesado um pouquinho, mas, a partir do momento que ele se sentiu mais confiante, mais forte fisicamente, dando respostas mais rápidas ao que o jogo pedia, ele passou a ser o mesmo jogador que a gente já conhecia. Passou a entregar o que todo mundo espera dele. Acho que é questão de tempo para ele ir concluindo sua adaptação. Tenho certeza que ele vai abrir 2019 muito bem.

Outro ponto que o Flamengo foi muito criticado foi a posse por posse e, principalmente, de ser uma equipe que, na dificuldade, cruzava muita bola na área. Quem acabou prejudicado foi o Uribe, que não é um centroavante de imposição física no jogo aéreo. Acha que a equipe demorou a entender as características dele e isso gerou uma pressão muito grande?

O Uribe é um atacante muito interessante. E quando houve um crescimento coletivo da equipe, ele também evoluiu individualmente. É um cara que se movimenta demais, te dá muita opção dentro do jogo. Mas existem maneiras de aproveitá-lo melhor. Estamos falando apenas de dois meses de trabalho, tentamos identificar o máximo de aspectos possíveis para melhorar. E para você ver como é uma equipe cognitivamente muito forte, como eles absorveram rápido algumas ideias. Uma delas foi de usar melhor o Uribe, de cruzar mais rápido e menos viajado. Ele precisa da bola para antecipar, para ganhar no arranque contra o zagueiro. E conseguimos melhorar isso em alguns momentos. É um grupo de jogadores bem inteligentes. Não escondo a minha vontade de poder trabalhar com eles por mais tempo. Acho que poderiam dar muitas respostas ainda. Estes pequenos detalhes seriam ainda melhor aprimorados. Com certeza seria um crescimento ainda maior deles. É um grupo muito bom de se trabalhar.

Você acompanhou boa parte do Brasileirão desempregado. De uma forma geral, o que você achou da qualidade do jogo mostrada durante a competição? Por que é tão difícil criar no futebol brasileiro?

Eu defendo uma tese sobre isso. A verdade é que um estudo diz que, em média, nós perdemos para o exterior 1.500 jogadores por ano. E com todo respeito a todo e qualquer tipo de profissional. Espero inclusive que entendam onde quero chegar. Mas ao meu ver, 40% dos jogadores que jogam a primeira divisão do Brasileiro deveriam estar na Série B. Isso não aconteceria se não saísse tanta gente do nosso país. Aí, 40% que estão na Série B, estaria na C. E assim por diante. Muita gente neste caso não se profissionalizaria. Volto a dizer: espero que entendam minha colocação. Acho que equipes que perdem tantos jogadores por ano, que mudam toda hora o elenco, suas formações iniciais...  Times que abrem a temporada com uma escalação e, três meses depois, já perde seus principais jogadores.  Desse jeito é difícil encontrar um caminho, fazer com que essa equipe jogue com qualidade e coletivamente. Aí a grande maioria escolhe esperar o rival, jogando pelo contra-ataque. E é assim que vem sendo desenvolvido o futebol brasileiro nos últimos anos. Isso é uma pena. Sempre tivemos um futebol com bola, trocas de passes, criativo... Essas são nossas essências. Hoje nossos atletas continuam fazendo a diferença, mas não estão mais aqui. Quase nenhum fica. Tínhamos equipes bem mais fortes, que as individualidades definiam partidas muito pelo contexto coletivo também estar ajustado. Hoje damos mais valor ao jogo reativo. E isso tem inibido a maioria das equipes de jogarem com a posse. Muitos jogam apenas por uma bola. Preferem não correr riscos. É uma forma de ganhar uma partida e muitos tem preferido trabalhar nessa linha.

Lucas Paquetá deixou o Flamengo a caminho do Milan-ITA
Lucas Paquetá deixou o Flamengo a caminho do Milan-ITA gazeta press

Por que você acha que o Lucas Paquetá não conseguiu manter o nível de desempenho do primeiro turno e teve oscilações no segundo? Onde ele pode chegar agora indo para a Europa?

É um menino muito talentoso. É uma das gratas surpresas do futebol brasileiro nos últimos anos. Um jogador quase completo. Tem grandes qualidade para se tornar um dos grandes jogadores brasileiros nos próximos anos.  Precisa se manter concentrado, se adaptar à uma nova realidade agora. Acho que teve sim uma queda de desempenho, mas pela idade é normal oscilar um pouco. Não vi nada foram do comum neste sentido. Faz parte do processo de amadurecimento. Mas é um jogador fora do normal. Um potencial enorme. Vai encontrar um caminho muito promissor. É um cara muito concentrado, muito interessado em se desenvolver, inteligente e respeitoso. Dificilmente profissionais assim não atingem um patamar altíssimo. Ele tem qualidades importantes para ser um atleta de ponta. Ainda tem muito a se desenvolver, chega num mercado onde se aprende muito. Tenho certeza que ele vai longe. Vai se tornar um jogador muito importante para a nossa Seleção, inclusive.

Caso se confirme que você realmente não permanece no Flamengo e caso você ainda não tenha falado, qual recado deixaria aos jogadores que teve contato nestes dois meses de trabalho?

Que continuem acreditando no potencial deles. Que continuem com esse trabalho deles. Quem conheceu mais à fundo esse grupo sabe muito bem de tudo que eu falei até aqui nessa entrevista. São jogadores que estão criando uma identidade com o Flamengo e isso é um fator importante para se chegar às conquistas. Que sinto todos eles, não só jogadores, preparados para grandes conquistas. Acredito que não vá demorar para isso acontecer. Tenho frisado muito esse ponto porque para mim foi muito prazeroso poder presenciar o crescimento desse grupo e o fortalecimento deles como equipe. E espero que isso que foi alcançado seja mantido, valorizado e reconhecido. É um grupo que ainda dará muitas alegrias à torcida do Flamengo.  

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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Entrevista do mês: De saída, Dorival Jr vê Fla pronto, projeta futuro de Paquetá e critica qualidade do futebol no Brasil: ‘Nossa essência é de jogar com a bola’

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A temporada 2019 do Palmeiras já começou: o que esperar dos reforços Zé Rafael e Arthur Cabral?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Zé Rafael em ação pelo Bahia, onde se destacou nos últimos anos
Zé Rafael em ação pelo Bahia, onde se destacou nos últimos anos gazeta press

A temporada 2018 já foi. Mas quem quer ter bons frutos em 2019 certamente já planeja a próxima temporada faz alguns meses. O Palmeiras, campeão brasileiro pela décima vez, por sua vez, já se mostra forte no mercado e apostará em dois jogadores que se destacaram em solo nacional durante este ano. 

Conforme outros clubes forem acertando com nomes para a próxima temporada, dentro do possível, publicarei algumas análises técnicas destes reforços. 

Abaixo, uma breve análise de Zé Rafael e Arthur Cabral, os primeiros reforços alviverdes anunciados para 2019. Onde se encaixam? Quais são as principais características? Com quem brigam para ser titulares? Alguns números de ambos, por Bahia e Ceará, respectivamente, você confere nesta matéria do ESPN.com (clique aqui).

Confira a análise na íntegra:

ZÉ RAFAEL

Zé Rafael é um jogador que trará mais profundidade ao elenco palmeirense. 

Com boa regularidade nos últimos anos, o agora quase ex-jogador do Bahia, tem tudo para ser uma opção versátil para Felipão em 2019. O fato de poder jogar nas três posições da linha de três meias (Palmeiras tem jogado no 4-2-3-1) lhe dá bastante perspectiva de ser utilizado.

A lesão de William, por exemplo, é um fator. Principalmente porque o reforço, no geral, tem até atuado mais pela beirada do que pelo centro.

A questão mesmo são as características. Bem diferentes de William, Scarpa e até Moisés e Lucas Lima, os “mais meias” do elenco atualmente – Guerra tem sido pouco usado. Trata-se de um atleta com bastante recurso técnico. Melhor que isso, com agilidade para trocar de direção rapidamente, e velocidade/força para conduzir a bola em transições.

Em sua essência, Zé Rafael é meia. Mas é um cara exatamente habituado a jogar pelos lados, inclusive baixando a marcação e ajudando o lateral do seu lado em situações que o adversário ataca.

Com bola, tem tanto a capacidade de finalização quanto de servir os companheiros. Também costuma ter bastante chegada na área. A disposição e a pro atividade sem bola, por exemplo, podem ser características importantes na adaptação ao modelo de jogo de Felipão.

Já nem o vejo tanto como aposta, devido a regularidade que teve nos últimos anos, mas chega para ganhar seu espaço. Não vejo como titular no atual cenário. Num nível mais competitivo, inclusive, tem ainda margem de crescimento profissional.

ARTHUR CABRAL

Arthur Cabral foi um dos destaques da recuperação do Ceará no Brasileirão
Arthur Cabral foi um dos destaques da recuperação do Ceará no Brasileirão gazeta press

Já Arthur Cabral tem um perfil ainda de afirmação. Fez um ano muito forte, sendo um dos pilares da espetacular recuperação do Ceará no Campeonato Brasileiro. Quem bate o olho no centroavante, de cara, tem a impressão de se tratar de um 9 grandalhão que fica entre os zagueiros. Mas não é só isso.

O matador tem boa capacidade de gerar jogo fora da área. Não chega a ser um jogador com refinamento técnico altíssimo, mas tem boa leitura dos espaços para circular, jogar de primeira e abrir terreno para infiltrações.

Foi, em vários momentos, o cara da retenção de bola do Ceará. Consegue se impor fisicamente, tem estatura e força. Por isso acaba fazendo bons pivôs curtos.

Por outro lado não se trata de um jogador com grande velocidade. Tem até dificuldade neste sentido. Arranca bem, mas na troca de direção não vai muito bem. Até por isso, está longe de ser um atacante de 1x1, de buscar o drible.

Se a gente olhar de uma forma mais geral para o atual cenário do elenco, Arthur terá Deyverson e Borja como concorrentes. Talvez uma vantagem que o jovem traga é o fato de ser um mix dos dois: tem o bom jogo aéreo do primeiro e a boa capacidade de se mover do segundo, até com mais recurso técnico.

Por ser mais completo - mesmo ainda não atuando no nível competitivo que os outros dois centroavantes atuam -, pode ter alguma vantagem na disputa.

Eu o vejo chegando para compor. Se sair algum jogador da posição, suas possibilidades aumentam. Mas se trata de um jogador de potencial. Para trabalhar pensando nos anos que virão. Sem dúvida pode evoluir bastante.

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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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A temporada 2019 do Palmeiras já começou: o que esperar dos reforços Zé Rafael e Arthur Cabral?

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Consistência alviverde: veja os 5 principais pilares da arrancada do Palmeiras de Felipão no Deca

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Felipão mudou os rumos do Palmeiras e foi um dos grandes personagens do título
Felipão mudou os rumos do Palmeiras e foi um dos grandes personagens do título Getty Images

O Palmeiras é, pela décima vez em sua história, campeão brasileiro.

E antes de mais nada, de todo material que você vai ler abaixo, é preciso refletir sobre algo bastante importante. E que vem, sem nenhuma arrogância, de alguém que já esteve do outro lado, viveu este ambiente competitivo: ser campeão é difícil pra c...!

Se abre mão de inúmeras coisas importantes. A família é a mais impactada. E isso vai dos jogadores até o roupeiro, do treinador ao cozinheiro, do médico ao segurança. E não se engane. Um time campeão vai muito além de um elenco nas mãos de um técnico. Muito mais gente está diretamente envolvida. E se o argumento for o de “ah, mas estes jogadores ganham muito bem para isso”, fique sabendo que boa parte deste staff ganha salários bem parecidos com o seu.

A ideia deste blog – e de seu autor, claro – sempre foi tentar discutir futebol com uma abordagem mais profunda, olhando para o jogo e tentando adquirir respostas através dele em todas suas esferas, não só da tática. Até porque o futebol é um esporte totalmente sistêmico e complexo, que envolve e mescla diferentes aspectos além da parte estratégica.

Quando abro o texto falando da dificuldade em se levantar canecos, levo a discussão para o questionamento – que têm sim grande relevância – sobre a qualidade do jogo praticado pelos alviverdes nessa arrancada histórica para o título. Tenho sim minhas restrições ao conteúdo apresentado por Felipão nestes 4 meses de trabalho (e trabalho naquelas, né? Com o nosso calendário é impossível pensar em algo mais elaborado neste período).

Definitivamente, acredito que, com a qualidade que tem em mãos, o comandante pode entregar mais em ideias. Falarei mais disso inclusive no último tópico do post, com projeções para 2019. Mas também não podemos deixar de apontar os méritos, não só do treinador, mas de todo grupo de trabalho envolvido na trajetória até a conquista alcançada após a vitória por 1 a 0 sobre o Vasco.

Antes de apontar de forma mais objetiva os principais pilares que fizeram deste Palmeiras um time de grande consistência – afinal, são 22 jogos invictos -, precisamos olhar para a capacidade de mobilização que o Scolari demonstrou neste pequeno espaço de tempo. Fez do time que oscilava nas mãos de Roger Machado, uma equipe extremamente concentrada e de uma mentalidade muito forte. Talvez esta seja a grande marca deste time que, por mais que tenha tido dificuldades em alguns jogos, até jogando menos que seu adversário, conseguiu resistir fortemente a pressões e ser muito eficaz nas oportunidades que teve.

Existe muito mérito também em delegar. Em ter Paulo Turra, alguém que aborda questões mais atuais no dia a dia, para aplicar treinamentos e ajudar a desenvolver aspectos importantes do jogo. Um bom líder escolhe bem e dá liberdade de trabalho a quem está por perto. Toma a decisão, mas escuta todos que estão à sua volta: analista, preparador, auxiliar, médico, nutricionista...

Também é impossível não apontar a leitura certeira do contexto do futebol que praticamos no Brasil atualmente. E por isso Felipão é competitivo. E não é nem questão de bom ou ruim, mas de entregar o suficiente para vencer dentro da nossa realidade. Aliás, o treinador nunca prometeu nada diferente. Sempre se colocou com alguém para entregar resultado da sua maneira, da forma como pensa o futebol num todo.

Obviamente que, por estar na evidência, Scolari acaba sendo o alvo. Mas definitivamente, não é culpa dele o fato de praticarmos um esporte totalmente diferente do jogado nas grandes ligas do mundo. A falta de ideias e, principalmente, diversidade nos estilos de jogo, é nítida. Mas também trata-se de um problema – que para muitos, que tem meu respeito, não é um problema – muito mais amplo. Esse fardo não é somente do treinador palmeirense.

Dizer que o futebol jogado por este Palmeiras é diferente do alto nível europeu é um fato. Agora, afirmar que ali não existem ideias, é um erro. Por mais que elas sejam menos complexas ou fogem do seu ideal de futebol, é bastante leviano simplesmente fechar os olhos e dizer que elas não existem.

Por conta disso, pontuarei nos próximos tópicos os 5 principais pilares do modelo de jogo que fez o Palmeiras sair da sétima colocação para levar o título com uma rodada de antecedência. Vamos lá:

 

- Segurança acima de tudo

Gustavo Gomez chegou no meio da temporada e foi o melhor zagueiro do Palmeiras na campanha do título
Gustavo Gomez chegou no meio da temporada e foi o melhor zagueiro do Palmeiras na campanha do título gazeta press

O modelo de jogo de Felipão tem a segurança defensiva seu maior norte. Para isso, o treinador abre mão, em vários momentos, de ter maior presença ofensiva no campo do adversário. E este pensamento está totalmente atrelado ao número de jogadores usados para atacar.

Num contexto do futebol praticado na atualidade, os treinadores normalmente atacam com 7 jogadores. Muitas vezes puxam seu primeiro volante para ficar na retaguarda (balanço defensivo) ao lado dos zagueiros e até liberam os dois laterais ao mesmo tempo. Outros seguram um deles e defendem com 4.

Obviamente existem vários jeitos de você separar quem avança e quem segura um pouco o avanço ao campo rival. Mas isso está diretamente ligado à lógica do jogo: ter mais gente do que seu oponente num certo setor. Se você ataca com mais gente, tem mais chance de sucesso. Se defende com um maior número de atletas, tem, de uma forma geral, maior equilíbrio para neutralizar a investida.

É um jogo de tira e põem. Um cobertor curto. Você ganha de um lado e perde de outro. Felipão prefere não arriscar. Dificilmente inicia uma partida atacando com mais de 5 jogadores. Muitas vezes faz uma saída de bola bem sustentada, com 6, enquanto apenas 4 avançam. Com isso, mesmo no caso de uma perda de bola, é praticamente impossível contra-atacar o Palmeiras.

No momento da perda, além da boa reação dos jogadores de frente, que pressionam imediatamente a bola, se tem muitos jogadores atrás da linha da bola. É bem pouco provável que o adversário avance no campo alviverde tendo mais gente para gerar vantagem numérica em velocidade (o vídeo abaixo explica de forma bem mais didática toda essa lógica escolhida pelo treinador).

Claro que existem situações de necessidades, principalmente com o desenrolar de um jogo que o gol dentro de casa não sai, por exemplo. Aos poucos algumas peças vão se soltando e, inevitavelmente, você vai se expondo mais aos contra-ataques do adversário. Alguns deles, inclusive, colocaram dificuldades ao Palmeiras nesta caminhada.

O fato de não ter muita gente à frente da linha da bola ocupando mais espaços, trouxe à tona o grande calcanhar de Aquiles dos alviverdes: a dificuldade em propor, achar espaços contra defesas bem fechadas. Se o adversário coloca muita gente atrás da linha da bola e você escolhe não avançar muitos jogadores, inevitavelmente você não terá superioridade numérica no terço ofensivo. É algo bastante lógico. E esse fato, mais à falta de uma maior elaboração de movimentos ofensivos, criou estes problemas à Felipão nestes cenários específicos.

 

- Nada posicional, muito vertical

Nas mãos de Luis Felipe Scolari o Palmeiras assumiu um modelo muito mais reativo do que propositivo. A verticalização das jogadas, a ideia de sempre acelerar, foi uma das marcas desta equipe campeã. Talvez este tenha sido um dos maiores contrastes em cima da ideia que Roger Machado trazia, de exercer maior controle com a posse e fazer um jogo mais posicional com a bola, onde os jogadores tinham liberdade criativa, mas dentro de setores e espaços mais específicos. Obviamente que com seu antecessor, tiveram situações de esperar mais e contra golpear, contra o Boca em Buenos Aires, por exemplo. Mas de fato são linhas de trabalho e formas de se pensar o jogo diferentes.

A intensidade foi a grande chave para recuperar bolas o mais próximo do gol o possível. Conseguindo assumir a posse mais perto do terço final, o Palmeiras conseguia pegar os adversários em mais situações de desvantagem numérica e desequilíbrio. Sempre muito agressivo e intenso, o quarteto Bruno Henrique, William, Dudu e Deyverson foram decisivos para tal estratégia funcionar.

Tanto que, mesmo contra times menores e bem fechados, os alviverdes chegaram a assumir um papel de esperar em vários momentos. A partida contra o América-MG, por exemplo, depois de não conseguir sair na frente na pressão inicial que tentou fazer no campo adversário, o Palmeiras acabou dando a bola para os mineiros e até os atraindo para seu próprio campo. Depois de ter posicionado Dudu tanto pela direita quanto pela esquerda, Felipão trouxe o camisa 7 para o centro, justamente para ser um escape nas saídas rápidas (veja o vídeo abaixo).

No geral, o Palmeiras foi uma equipe muito agressiva e aguda em suas ações. Que conseguiu, mesmo quando não teve grandes espaços, aproveitar uma ou outra escapada que o adversário não neutralizou. A dificuldade de enfrentamento contra o Cruzeiro, equipe já bastante maturada e que entende como ninguém fechar espaços em fase defensiva, evidenciou bastante o problema. Tanto que a eliminação da Copa do Brasil ocorreu muito por isso. O mata-mata contra o Boca Junior, pela Libertadores, em alguns momentos, também trouxe isso à tona.

Essa agressividade se viu também nos momentos sem bola. A equipe ficou bem menos zonal (referência são os espaços) na hora de defender, com marcações mais individuais por setores e perseguições mais longas (referência mais em encaixar em um jogador). Outra ideia oposta ao que buscava com Roger (entenda no vídeo abaixo).


-  A mutação de Dudu

Dudu Treino Palmeiras 24/11/2017
Dudu Treino Palmeiras 24/11/2017 FERNANDO DANTAS/Gazeta Press

Dudu foi o jogador com a maior influência no desempenho do Palmeiras neste Brasileirão. Tem quem diga que trata-se do melhor jogador da competição – e concordo com isso. Mas o que mais chama a atenção é a mutação vivida pelo camisa 7 desde quando chegou ao clube, em janeiro de 2015, após concorrência forte no mercado com Corinthians e São Paulo.  

O fato de ter feito apenas 3 gols com a camisa do Grêmio na temporada 2014 gerou certa desconfiança. Mas Dudu é outro jogador. Claro que sempre foi um grande condutor de bola e um especialista em preparar jogadas para os companheiros na base da velocidade, mas o palmeirense, a cada ano que passava, deixava cada vez mais de ser um mero ponta de 1x1 e fundo de campo, para ser um meia-atacante. E nas mãos de Felipão isso ficou ainda mais explícito.

Características que estiveram presentes também com os antecessores de Scolari, mas que saltaram os olhos neste segundo turno. A maior delas talvez seja a capacidade de se movimentar e ser muito efetivo num espaço bem específico do campo: a entrelinha.

Jogando pelo lado esquerdo e sendo destro, Dudu sempre teve a tendência de centralizar as jogadas para o pé bom. Seja para finalizar ou tentar um passe. Nos últimos meses, no entanto, trabalhar no espaço que fica entre as costas dos volantes e a frente dos zagueiros, virou sua especialidade. Potente na troca de direção, o camisa 7 conseguia receber ali de costas, girar rapidamente o corpo e acelerar, levando grandes vantagens contra os zagueiros que, normalmente, saiam para o bote com o palmeirense já em velocidade. A partida contra o Fluminense deixou isso muito claro. Foram 8 faltas só no primeiro tempo e a maioria delas por conta destes movimentos (veja o vídeo abaixo).

O fato de o Palmeiras passar a ser uma equipe menos posicional, também privilegiou o meia-atacante. Com mais liberdade criativa e de mobilidade, o alviverde aflorou suas melhores características como jogador de futebol.

Dudu é um jogador tipicamente brasileiro. É extremamente intuitivo. Rápido não só na aceleração, mas também nas tomadas de decisão, no improviso. Não fica totalmente confortável dentro de um só espaço do campo. Tem a necessidade de tocar muitas vezes na bola, gerando confiança e volume de ações. É assim que se sente bem. Simples assim.

É um jogador que quer participar mesmo que, dentro de uma ideia de jogo, o fato de não tocar na bola, pode ser igualmente de grande importância dentro de uma jogada. Não o vejo sendo convencido de que, ficar aberto rente à linha para gerar amplitude e abrir o campo, pode ser tão decisivo quanto achar um passe para o atacante. Ele quer a bola. E Felipão deu. Junto dela, um banho de confiança.

 


- Bruno Henrique: o equilíbrio entre os setores

Bruno Henrique Comemora Gol Palmeiras Sport Campeonato Brasileiro 23/07/2017
Bruno Henrique Comemora Gol Palmeiras Sport Campeonato Brasileiro 23/07/2017 Cesar Greco/Ag Palmeiras/Divulgação

Um dos problemas do Palmeiras em alguns momentos da campanha para o título foi a falta de compactação, seja ofensiva ou defensiva. E um jogador em especial se destacou por ser uma espécie de equilíbrio entre os setores: Bruno Henrique.

Com uma capacidade enorme de percorrer um longo espaço de campo, o volante acabou sendo a faísca de intensidade que Palmeiras necessitava em transições. Seja na perda da bola, quando atacava rapidamente o jogador que estava com ela ou mesmo retardando jogadas, jogando o adversário para um setor específico, ou mesmo na recuperação da posse, quando era o condutor em velocidade para a mesma chegar nos pés de Dudu & Cia (veja no mapa abaixo a grande extensão de campo que Bruno teve nas ações com bola).

Perceba no mapa de ações de Bruno Henrique como ele foi de área a área o campeonato inteiro
Perceba no mapa de ações de Bruno Henrique como ele foi de área a área o campeonato inteiro DataESPN

Se por um lado o Palmeiras não subia seus zagueiros e volantes para jogar no campo adversário, por outro via um grande espaço entre eles e o setor ofensivo. Com o time dividido em dois em vários momentos, Bruno Henrique era quem cuidava de todo este espaço. Com boas leituras, seja para interceptar ou mesmo atrasar a saída do rival, o capitão alviverde foi um destaque quase invisível.

Mas se teve um momento de protagonismo aos olhos gerais para Bruno Henrique este foi nos seus gols marcados. Além de fazer todo esse “trabalho sujo”, de compensar espaços e recuperar bolas, o camisa 19 também foi para as redes com uma característica que sempre esteve consigo: a infiltração. E aí, fazendo justiça, algo que já usava muito bem com Roger Machado, que lhe dava liberdade para pisar na área quando percebesse um espaço (veja no vídeo abaixo).

O aspecto de liderança também foi algo que aflorou durante a campanha do título. Cada vez mais comunicativo, o volante ganhou a braçadeira e foi peça importante em situações de mais pressão, sempre se colocando com um articulador externo do elenco (interno não dá para saber sem estar no dia a dia, mas imagino que também com bastante liberdade comunicativa entre os companheiros).

 

- Deyverson e a potencialização de peças

Deyverson palmeiras coletiva futebol
Deyverson palmeiras coletiva futebol Gazeta Press

O primeiro jogo de Deyverson sob o comando de Felipão – mais ou menos até, já que quem esteve no banco de reservas foi Paulo Turra, seu auxiliar, contra o Bahia – já deram mostras de como o centroavante seria mais aproveitado com o novo treinador. Com dificuldades no jogo mais curto, de aproximação e bola no chão, o camisa 16 não se encaixava bem na proposta de jogo de Roger Machado.

Aliás, chegou da Espanha com Cuca no cargo, que visava um jogo bem específico para o atacante: pivô, disputas no alto para ganhar 1ª bola e muita agressividade sem a posse. E foi exatamente isso que Deyverson entregou nos últimos meses.

Em toda sua carreira Scolari sempre teve a figura do 9 bem característico em suas equipes. Não seria desta vez que não usaria tal artifício. Apesar de ter alternado Dyverson com Borja, sempre foi claro para mim que o primeiro era uma preferência e que, cedo ou tarde, seria o titular. As questões de comportamento pesaram um pouco para sua sequência, mas o centroavante sempre foi de muita utilidade com a nova comissão técnica (veja no vídeo abaixo).

Borja entregava uma ideia diferente. Até por isso as mudanças de acordo com o adversário em vários momentos. O colombiano, longe de ser um especialista para as disputas pelo alto, oferece um jogo mais em profundidade, com infiltrações e finalizações pós-jogadas por baixo. Até na mobilidade para cair pelos lados nas disputas pelo alto ele perdia na concorrência com Deyverson, muitas vezes brigando pela 1ª bola distante do centro do campo.

A capacidade de reter a bola também foi um aspecto importante para o destaque do camisa 16 (isso fica evidente no último vídeo). Fazer um pivô mais físico, segurar a bola e fazer com o que o time saísse de trás. A intensidade e agressividade para brigar com os zagueiros foi determinante e bastante incisiva em alguns cenários que o Palmeiras enfrentou durante os últimos meses.

Deyveson foi um caso claro de que o modelo de jogo de um treinador pode potencializar ou dificultar o desempenho de um atleta. Além do centroavante, Felipão conseguiu tirar mais de Dudu como citado acima. Felipe Melo e Edu Dracena, por exemplo, cresceram em desempenho. Menos expostos a situações de 1x1 em velocidade, justamente pelo time ter mantido um bom sistema de coberturas, ambos fizeram um bom campeonato. Mayke, com um pulmão de ouro, também foi privilegiado pelo sistema num todo e voltou a jogar em bom nível, coisa que não fazia a tempos.

 

 - 2019 para entregar mais

Felipão comanda o Palmeiras contra o Botafogo
Felipão comanda o Palmeiras contra o Botafogo Divulgação / Palmeiras

Apesar de alguns aspectos mais críticos que pontuei no texto até aqui, 2018 foi bastante positivo para Palmeiras e Felipão. Num contexto de curto/médio prazo, o treinador conseguiu entregar um time extremamente competitivo e difícil de ser batido. Dentro de um ambiente de extrema pressão, principalmente por todo investimento feito, estancou uma sangria e entregou um caneco.

Os pontos baixos, sem dúvida, foram as eliminações para Boca e Cruzeiro. E não por se tratar de obrigação ter ganho as copas, muito menos por achar que o Brasileiro é pouco – teve gente com esse discurso patético, aliás -, mas por entender que os desempenhos foram bastante frágeis. Em contextos diferentes, mas que expuseram dificuldades crônicas dos alviverdes.

O desafio para 2019 e colocar mais conteúdo no modelo de jogo. Não deixar a essência mais vertical e agressiva, mas com mais repertório, principalmente ofensivo. Estruturar a equipe para que possa abrir mão de um balanço defensivo tão encorpado em vários momentos sem perder a segurança defensiva. Ter mais apoios para jogar com bola no chão e não se privar tanto da bola mais longa, dependendo das disputas pelo alto.

Ter mais controle dentro de suas atuações também é um passo a ser dado. E isso não tem a ver com apenas ter mais a posse de bola, mas de controle de ações mesmo. Que seja posicionado no seu campo. Tentar não ser um time de tanta trocação, que em vários momentos contou com o acaso para sair vivo de confrontos. Algumas atuações neste sentido podem servir como exemplo. E por último, não menos importante, começar a abrir espaço para os jovens das categorias de base. O Palmeiras tem feito um trabalho muito bom nas categorias inferiores e alguns atletas do sub-20 já merecem algumas chances. E não é jogá-los na fogueira, mas sim ir dando minutos e desenvolvendo alguns bons talentos que o clube tem. Houve toda uma restruturação das categorias inferiores e investimentos feitos. Então é hora de começar colher os frutos.

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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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A Juventus, o United e a injusta relação entre resultado e desempenho no duelo de Turim

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
José Mourinho em vitória do United contra a Juventus
José Mourinho em vitória do United contra a Juventus Getty

O futebol nos pregou uma nova peça na tarde desta quarta-feira. E ela aconteceu em Turim, em nada mais nada menos que em um duelo entre Juventus e Manchester United, pela Champions League. 

Resultado e desempenho, mais uma vez, se confundiram num só placar e José Mourinho , que tirou onda da torcida italiana no final, saiu vitorioso com duas bolas paradas após praticamente não ter produzido nada em 80 minutos. Alguns méritos como nas jogadas pessoais de Martial, mas aleatoriedade em sua forma mais franca apareceu no pesado confronto entre italianos e ingleses.

A Juventus, por sua vez, esteve longe de ter o controle e a consistência que mostra na atual temporada. Apesar de ter sido melhor na conjuntura geral, acabou por deixar escapar o resultado que já a garantiria a Velha Senhora nas oitavas de final da competição.

E a história do jogo passa por alguns detalhes importantes. Com ideias, com tática, mas também no fim, o acaso sendo decisivo:


Escolha por Alexis e mobilidade ofensiva

A escalação, quando anunciada antes da partida, já mostrava algumas das intenções de Mourinho para o duelo contra a Juventus. Ao apostar mais uma vez em Alexis Sanchez como um 9 mais móvel ao lado de Lingard e Martial pelas pontas (direita e esquerda, respectivamente), o treinador português tentou imprimir velocidade e mobilidade ofensiva logo nos primeiros minutos. 

Com o chileno livre para flutuar por todo terço ofensivo, o Manchester até teve bons minutos iniciais. Conseguia ter posse, buscava combinações pelos lados e tentava, nem que sem grande efetividade, tomar as rédeas da partida. Em um desmarque muito bem feito por Sanchez, seguido de lançamento de Matic, quase abriu o placar.

Sanchez sai da referência e trabalha na entrada do terço ofensivo, sempre gerando apoio aos companheiros
Sanchez sai da referência e trabalha na entrada do terço ofensivo, sempre gerando apoio aos companheiros DataESPN

Nesta imagem vemos o chileno caindo pelo lado esquerdo, tentando gerar superioridade numérica no setor
Nesta imagem vemos o chileno caindo pelo lado esquerdo, tentando gerar superioridade numérica no setor DataESPN

A falta de profundidade em alguns momentos foi compensada com boas associações e infiltrações pelos lados da defesa italiana. Pogba, num tripé com Matic mais atrás e Herrera ao seu lado, gerando mais controle no setor, buscava pisar área sempre que possível. Mas este ímpeto, definitivamente, durou poucos (bem poucos!) minutos...


Juventus atrai e passa a controlar

Juventus comemora gol de Ronaldo contra o United
Juventus comemora gol de Ronaldo contra o United Getty

Aos poucos a Juve foi tomando o controle do jogo. Longe do nível apresentado em Old Trafford, por exemplo, mas conseguiu gerar jogo à partir de jogadas mais diretas. Em vários momentos tentava atrair o United para seu campo e, numa quebrada bem direcionada, ganhava campo para atacar em velocidade com Khedira e Cuadrado na condução da bola. Cristiano e Dybala, enfim, começavam a entrar no jogo.


Castigo na linha defensiva de Mourinho

A melhor versão da Juventus durante a partida começava a se desenhar quando a saída de bola começou a encaixar. Com Chiellini, Bonucci e Pjanic rasgando os ingleses com passes verticais, a linha defensiva do Manchester passava a sofrer seguidos ataques em profundidade. Cristiano Ronaldo se colocava no limite do impedimento, sempre pronto para atacar o espaço no momento certo. 

Cristiano jogando no limite da linha defensiva e arrancando no momento certo
Cristiano jogando no limite da linha defensiva e arrancando no momento certo DataESPN

O português também trabalhou alguns bons pivôs, muitas vezes ameaçando atacar a profundidade, mas recuando para receber nas costas dos volantes. 

A diagonal mais longa, muitas vezes tentando pegar o bloco defensivo do Manchester posicionado no lado da bola, também passou a ser uma arma. Principalmente para acionar a velocidade de Cuadrado ou mesmo as subidas de Alex Sandro e De Sciglio, laterais incumbidos de abrir o campo na fase ofensiva.

As principais chances do primeiro tempo foram geradas a partir de infiltrações, seja em bolas mais longas ou mesmo em diagonais curtas. Uma delas, inclusive, achou CR7. O gajo passou para trás e viu Khedira, cheio de espaço na marca do pênalti, acertar o pé da trave de De Gea.  

Mais uma vez: CR7 no limite do impedimento recebe a bola de Bonucci para marcar para a Juve
Mais uma vez: CR7 no limite do impedimento recebe a bola de Bonucci para marcar para a Juve DataESPN

E não deu outra. O placar foi alterado pela Juventus justamente num lançamento em profundidade. Cristiano, de primeira, concluiu um lançamento magistral feito por Bonucci. A complexidade de toda a jogada chamou a atenção. Mesmo não estando pressionado na hora de achar o companheiro, a precisão do zagueiro italiano foi deslumbrante. O passe, um pouco menos ou mais forte, com fração de segundos antes ou depois, definitivamente, não entraria. O timing para arrancar no momento certo e o gesto para concluir com a bola ainda no ar, também foram decisivos. Resumindo: tudo no limite, tudo no maior grau de dificuldade.


Os contras neutralizados no 1º tempo

O Manchester via a Juventus cada vez mais ganhar campo conforme o tempo ia passando. Os italianos, aos poucos, foram se instalando no campo ofensivo. Martial, Lingard e Alexis estavam prontos para serem acionados em velocidade. Os escapes eram certos, mas os botes de Chiellini eram mais ainda na segunda metade do primeiro tempo. O zagueiro somou, ao todo, nove ações defensivas bem executadas e teve um aproveitamento de 66% nos duelos aéreos.  

Os bons encaixes em "ataca-marcando" (quando o marcador já cola nos jogadores prontos para sair em contra-ataque) foram bem eficazes, apesar de algumas faltas (necessárias) cometidas.  

Juventus toda posicionada para atacar e, na perda da posse, Chiellini já se posiciona encaixado para matar a jogada
Juventus toda posicionada para atacar e, na perda da posse, Chiellini já se posiciona encaixado para matar a jogada DataESPN

Alex Sandro e De Sciglio, tiveram boas reações à perda da posse e contribuíram para estes bons momentos do time da casa. Foi um fim de primeiro tempo bastante consistente. Mas que não perdurou muito, principalmente na segunda etapa. Cristiano Ronaldo, por sua vez, manteve boa regularidade e teve uma atuação bem satisfatória. Deixou Cuadrado em condição de ampliar o placar e praticamente sacramentar a vitória em uma chance cristalina. Foram no total três passes chaves no jogo.


Martial e a virada relâmpago do United

Se atuação do Manchester, mais uma vez, passou longe de encher os olhos, a boa notícia para Mourinho é Anthony Martial. Ganhando uma bela sequência entre os titulares desde o duelo contra o Newcastle, o francês foi o ponto alto de uma equipe pouco criativa e contundente nas questões ofensivas. Foi do pé do camisa 11 que saíram as melhoras jogadas, sempre em condução, com dribles curtos e uma força surreal para arrancar em pequenas distâncias. A construção da jogada que gera a falta do gol de empate (bola muito bem batida por Juan Mata), por exemplo, sai de um arranque dele, após tentativas de tabelas que termina num tranco em cima de Pogba.

Szczesny lamenta em derrota da Juventus para o United
Szczesny lamenta em derrota da Juventus para o United Getty

Beirada esquerda no 4-1-4-1 empregado por Mourinho, Martial ainda construiu oportunidades próprias com sua jogada característica: enfrentamento no 1x1, diagonal para dentro trazendo para o pé bom e tentativa do chute colocado, tirando do goleiro. Inclusive, dos cinco gols marcador por ele até aqui na temporada, três tem estas características semelhantes.

O segundo gol também veio de bola parada. Já com Fellaini em campo, mestre em duelos físicos e disputas pelo alto, Mourinho apostou na imposição. Quatro minutos depois, em uma falta rápida batida pelo lado esquerdo, Alex Sandro acabou colocando sem querer para dentro na segunda etapa. 

A virada foi sacramentada, mas longe de seu autor praticando um futebol de alto nível. A Juve, por outro lado, tem entregado muito mais desempenho que o visto neste duelo. Apesar do revés, segue sendo uma das melhores equipes da atualidade. Mas o futebol tem disso. Apaixonante do jeito que é. Simples (ou complexo) assim.


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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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A Juventus, o United e a injusta relação entre resultado e desempenho no duelo de Turim

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Por que não Allan, Tite? Entenda os motivos para o volante do Napoli não ser lembrado pela seleção

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Allan comemora gol marcado contra a equipe do Sassuolo
Allan comemora gol marcado contra a equipe do Sassuolo Getty Images

A seleção brasileira volta a campo na próxima sexta-feira, às 14h45, na última data FIFA de 2018, contra a Arábia Saudita. Depois de uma primeira lista de convocados pós-Copa do Mundo com algumas novidades como Lucas Paquetá, Richarlison e Éverton, Tite foi para a última chamada deste ano com uma ausência bastante sentida por quem acompanha o futebol italiano nos últimos anos: Allan, meio-campista do Napoli.

Revelado pelo Vasco e com passagem pela Udinese-ITA antes de chegar ao San Paolo, o brasileiro vai para a sua quarta temporada na cidade de Nápoles. Bastante regular desde que chegou ao clube, principalmente na temporada passada, onde foi uma das peças mais importantes da equipe treinada por Maurizio Sarri (hoje no Chelsea), Allan é presença frequente nas discussões da comissão técnica, que o segue de perto principalmente pensando no planejamento para a próxima Copa do Mundo.

Na visão da comissão técnica de Tite, o maior argumento para a não chance até agora está ligado ao modelo de jogo pensado para o ciclo até o Catar em 2022. A ideia é ter um time com mais controle daqui para frente, principalmente na faixa central do campo. Existe o diagnóstico que o tripé de meio no último Mundial, apesar das boas características físicas e até de infiltração, poderia ter tido uma maior influência na equipe quando tinha a posse da bola.  E é aí que as características de Allan, no modo de ver da comissão, não batem tanto com a proposta.

Se olharmos para as opções de meias-centrais desta última convocação, se vê muito essa tendência mais criativa e de controle de ritmo por dentro, principalmente se levarmos em conta o fato de Arthur e Fred cada vez mais influentes dentro do grupo da seleção. Renato Augusto, remanescente da Copa do Mundo, também tem essa característica de pausar/acelerar o jogo. Coutinho, dos quatro, talvez seja o mais agudo. Paulinho, que foge bastante desse perfil, não tem sido lembrado nas últimas oportunidades.

Na leitura feita pela comissão técnica, Allan vive sim um grande momento, mas se trata mais de um suporte ao jogo de posse trabalhado no Napoli. Com grande imposição física e intensidade nas ações com e sem bola, mas sem ser um destaque técnico e de grande capacidade de construção ofensiva. Até por isso existe internamente a ideia de que, dentro do contexto atual, o ex-vascaíno tem mais características para atuar como primeiro volante e não mais avançado como faz na Itália, onde é o médio pela direita (funcionando como um 2º volante) no tripé de meio de campo do 4-3-3 – Ancelotti, seu atual treinador, também tem variado para o 4-4-2.

 Dentro de um contexto mais propositivo, principalmente quando treinado por Sarri, Allan cresceu muito no aspecto técnico. O brasileiro sempre foi reconhecido por ser um volante de muita força e resistência, capaz de cobrir grandes faixas de campo, mas com o atual treinador do Chelsea ganhou mais repertório no jogo curto e capacidade de infiltração. Mesmo assim, para ser um dos dois meias deste 4-1-4-1 da seleção, a comissão técnica entende que lhe falta uma maior efetividade no último terço do campo. A análise geral é que se trata de um atleta com bom passe, mas que ainda não é diferenciado dentro deste quesito.

Por outro lado, a grande capacidade de exercer pressão na bola e de reagir muito bem à perda da posse, o credencia fortemente a ter chances num futuro próximo. Até por isso, dentro das reuniões na Granja Comary, não se fecha a possibilidade do napolitano ser chamado como um meio-campista mais avançado, principalmente por, aos olhos do staff, ter a capacidade de exercer mais de uma função em campo.

Ao meu ver, escolhas neste grau de detalhamento, principalmente envolvendo uma seleção com muitas opções de qualidade, acaba por ser muito por gosto em vários momentos. Vejo a questão da estatura como um ponto importante também nesta briga – aí é uma opinião e não informação. Wallace e Casemiro, os 1ºs volantes da lista, têm 1,88m e 1,85m respectivamente. Já Allan tem 1,75m. Essa questão da estatura, por exemplo, foi muito temida durante a própria Copa, já que Tite tinha um time titular relativamente baixo. Pode ser algo levado em conta, principalmente por se tratar de uma posição que entra muito nas disputas de 1ª bola.

Por outro lado – e aí também entra a opinião do autor do post -, o jogador do Napoli traria uma profundidade maior ao elenco. Além de trazer força física e a capacidade de infiltração para o setor, teria maior aptidão associativa e de construção de jogo que Paulinho, por exemplo. Neste caso seria uma opção mais equilibrada para o treinador em todos os sentidos. Temos também que levar em conta que se trata de um setor muito disputado. Talvez o que mais brotou jogadores de qualidade nos últimos anos. Mas eu já teria dado uma oportunidade ao jogador do Napoli. Seu desempenho, principalmente da temporada passada para cá, é o suficiente para isso. Por outro lado, também acredito que isso deva acontecer cedo ou tarde. 

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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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O início da era Emery: quais são as principais ideias do espanhol nestes primeiros nove jogos pelo Arsenal?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues

Unai Emery iniciou bem o seu trabalho pelo Arsenal com sete vitórias em nove jogos
Unai Emery iniciou bem o seu trabalho pelo Arsenal com sete vitórias em nove jogos EFE/RONALD WITTEK

Foram 22 anos sob só um comando técnico no Arsenal. Depois da revolução, das glórias e um fim de trajetória bem abaixo do esperado, Arsene Wenger teve que passar o bastão no clube londrino. E o escolhido foi Unai Emery. 

O espanhol, com um trabalho brilhante pelo Sevilha, mas sem um grande sucesso em meio às cifras altas investidas pelo PSG, viu seu anúncio despertar vários sentimentos no Emirates Stadium: confiança, pé atrás, uma nova oportunidade para se firmar...  

Depois de nove jogos, incluindo Premier League, Liga Europa e Copa da Inglaterra, buscamos então destrinchar as principais características - e também diferenças do antigo trabalho - que estão presentes no atual desempenho dos Gunners. Apesar das duas derrotas logo de cara para Manchester City e Chelsea, pela Premier League, Unai e seus comandados agora vivem uma série de sete triunfos consecutivos.

Na análise abaixo foram usados mais lances da última partida, vitória por 2x0 contra o  Watford, mas trata-se de padrões que refletem grande parte dos últimos compromissos do time nesta temporada. No geral, é possível enxergar um trabalho promissor, com erros e acertos claro, mas que ainda tem um imenso caminho pela frente. Aos poucos Emery vai dando seus traços a um novo Arsenal. Se os títulos vão vir? Aí é outra história.  

O ARSENAL COM A BOLA

Com a posse o Arsenal já tem um padrão bem claro sob o comando de Unai Emery. A saída de bola, num primeiro momento, é feita de maneira mais sustentada (ou seja, com zagueiros, laterais e volantes próximos e tentando gerar superioridade numérica no setor).

Além da busca ser por ter mais gente que o rival nesta faixa inicial do campo, também se trata de uma medida mais cautelosa, já que, caso aconteça a perda da posse, você tem um maior número de jogadores para tentar a recuperação imediata ou mesmo se colocar atrás da linha da bola.

Instalados no campo do adversário, os Gunners abrem o campo com os laterais Bellerín e Monreal. São eles os incumbidos de dar amplitude para tentar descompactar os adversários. Dos volantes, Xhaka é quem tem um pouco mais de liberdade para avançar. Mesmo assim é muito ativo na saída de bola ao lado de Torreira.

E este espaço aberto no corredor para os laterais subirem se encaixa muito bem com as movimentações de Özil e Aubameyang. Os dois pontas saem da beirada e circulam pelo centro do campo de maneiras bem distintas, inclusive (abaixo mais informações sobre isso). Por dentro, se juntam a Ramsey, Lacazette e Xhaka. Neste momento o sistema 4-2-3-1 se desfaz com a mobilidade ofensiva da equipe e vira algo próximo de um 2-2-4-1. De fato é um Arsenal que busca muito mais a construção pelos lados, mesmo tendo muita gente posicionada por dentro. E está aí o desafio de Unai: aumentar esse repertório e também usar mais as investidas pelo meio.

Em sua essência das últimas temporadas, inclusive as mais vitoriosas, o Arsenal não deixou ser uma equipe afim de propor o jogo. Tanto que carrega a quinta maior média de posse de bola da Premier League até o momento com 56,4% (atrás de City, Liverpool, Chelsea e Tottenham, em sua maioria rivais com modelos mais consolidados).

Talvez a grande mudança dos tempos de Arsene Wenger seja na velocidade da posse. É bem nítido como a equipe busca ser mais vertical. É um time que ataca melhor os espaços, que busca ser mais aguda e que tenta ganhar campo sempre o mais rápido possível. Um início de trabalho com mais movimento ofensivo, mais infiltrações e muitas trocas de corredor.

Tal urgência em conduzir a bola até o terço final mudou um pouco o cenário de posse do Arsenal se compararmos com a temporada passada quando a média foi de 61,3%. No resumo da obra, se trata de um time mais elétrico, direto e mais intenso nas ações com bola. Confira um pouco dos aspectos citados no vídeo abaixo:

  

O PERDE E PRESSIONA E  O ENCAIXE DE LUCAS TORREIRA NAS TRANSIÇÕES

Contratado junto à Sampdoria para esta temporada, Lucas Torreira não chegou ao Emirates Stadium como um titular absoluto. O fato de ter participado da reta final da Copa do Mundo também atrasou um pouco seu retorno e indiretamente a sua adaptação. Com isso o volante foi entrando aos poucos no time que até então tinha o também promissor Guendouzi ao lado de Xhaka na linha de volantes.

Apesar de o jovem francês mostrar um bom repertório técnico, principalmente na construção do jogo, o uruguaio acabou tomando espaço muito por ser o fio condutor de um conceito muito característico destes primeiros jogos com Unai: o perde e pressiona. Sua agressividade e ações intensas sem bola deram o equilíbrio que Guendouzi ainda não havia entregado.

E tais características vão de encontro a toda estrutura de jogo da equipe.

Quando o Arsenal se organiza em fase ofensiva, Torreira é o cara do balanço defensivo. Ou seja, fica posicionado mais recuado, fazendo companhia aos zagueiros na retaguarda e sendo importante para neutralizar um possível contra-ataque adversário. Além da boa saída de bola, o jovem uruguaio tem mostrado uma incrível leitura e entendimento do jogo para escolher os momentos de antecipar, desarmar, pressionar ou mesmo e compensar espaços.

A importância de reagir rápido e de forma coordenada à perda da posse é de extrema importância dentro dessa ideia de se instalar no campo do adversário. É um ponto crucial dentro do modelo de jogo trabalhado até aqui. É sanar na raiz um possível contra-ataque quando você tem pouca gente atrás da linha da bola.

Torreira é muito inteligente e importante neste aspecto, mas trata-se de uma ação coletiva e, por ser muito arriscada em vários momentos, precisa ter margem de erro quase que zero. Caso contrário, falhas podem custar tiradas da pressão, espaços, gols e até campeonatos. De fato é algo que exige um nível de entendimento do jogo muito bom, além da intensidade máxima em cada momento de fazer pressão na bola. No vídeo abaixo temos exemplos não só de ações do time neste sentido, mas também da importância do jovem Torreira como o gatilho de toda essa mecânica.

FECHANDO O LADO DO CAMPO

Se não consegue retomar a bola ainda durante a transição defensiva, como vimos acima, o Arsenal também já mostrou alguns padrões fortes quando entra em fase defensiva. E sem a posse, de fato, usa a estrutura do 4-2-3-1, muito presente no trabalho vitorioso de Unai Emery pelo Sevilha. Tal “desenho” aparece quando esse momento de pressão pós-perda é ultrapassado. Se a bola sai da pressão, cabe aos jogadores se colocarem atrás da linha da bola o mais rápido possível.

Quando recuado,  o comportamento mais forte dos Gunners é de “encurtar o campo”. Por isso os jogadores têm a missão de flutuar para o lado que a bola estiver e juntar o máximo de jogadores próximos do setor. Com isso a equipe consegue manter superioridade numérica no espaço que a bola está na maioria das vezes.

O calcanhar de Aquiles talvez seja a rápida troca de corredor. Se o adversário conseguir tirar a bola da pressão e atacar o lado contrário, que certamente estará mais vazio, o Arsenal tende a ter problemas. Por isso é muito importante sempre pressionar a bola. Não dar espaço para passes mais longos e que desequilibrem todo o sistema.

O sistema de coberturas também ficou mais alinhado. O comportamento do Arsenal sem a bola, num todo, também sofreu uma grande mudança. Depois das primeiras rodadas complicadas, o time tem conseguido atingir um bom nível de concentração e agressividade. Se pressiona muito mais a bola. O vídeo abaixo tem um trecho mostrando um pouco disso, além de outras questões citadas até aqui.

AUBA, LACA E ÖZIL: COMO ENCAIXOU?

Apesar de serem os pontas do 4-2-3-1, necessitando retornar pelas beiradas em fase defensiva, Özil e Aubameyang  cumprem papeis bem diferentes no atual modelo de jogo do Arsenal quando o time ataca seus adversários.

Ambos saem da ponta para gerar jogo pelo centro. Enquanto o meia alemão faz o movimento buscando associações, jogo curto e por vezes se colocar nas costas dos volantes, o atacante gabonês fica mais no limite da linha defensiva, muitas vezes gerando profundidade. Por ter características muito mais terminais, seja infiltrando ou mesmo concluindo dentro da área, o ex-jogador do Borussia Dortmund não é tão influente na circulação da bola como o camisa 10.

Temos visto também um Özil um pouco mais intenso e comprometido nas ações sem bola. Menos disperso, vem imprimindo ritmo com passes ao invés de prender a bola desnecessariamente. O pós-perda também evoluiu. 

Como Aubameyang cumpre bem o papel da profundidade em vários momentos, Lacazette acaba ganhando mais liberdade para sair da área e participar da construção das jogadas. O francês, aliás, tem feito jogadas primorosas de costas para o gol e, em muitos momentos, partindo de fora para dentro da área, se aproveitando com mais eficácia dos espaços. 

Mesmo não tendo grandes atuações ofensivas nas últimas partidas, Ramsey, o meia-centralizado do sistema, acaba por ser um ponto importante de equilíbrio para este trio ofensivo. É o cara mais agressivo e com melhor timing para puxar pressões no terço final. Acrescenta muito neste sentido, sendo o primeiro a fazer o adversário “jogar para trás”, ajudando em vários momentos o time a ter tempo de se reorganizar em transição. 

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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Entrevista do mês: Larghi fala em reconstrução no Galo, revela inspiração em Guardiola e Sarri e diz que falta sequência na Seleção

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Larghi é um dos treinadores mais jovens trabalhando no Brasileirão
Larghi é um dos treinadores mais jovens trabalhando no Brasileirão Bruno Cantini/Atlético-MG

Thiago Larghi não é só o típico caso de estar no lugar certo e na hora certa. Quando o Atlético-MG se viu numa sequência ruim de resultados - e também  de desempenho - no início de fevereiro deste ano, coube ao ainda jovem auxiliar técnico substituir interinamente Oswaldo de Oliveira no comando da equipe.

O que de início era só um momento de transição, sendo que o próprio Thiago esperava a chegada de um outro profissional, acabou se estendendo. Após conquistar bons resultados e dar, enfim, um padrão de jogo ao Galo, o carioca de de Paraíba do Sul, com seus 37 anos, foi enfim efetivado em junho. Início de Brasileirão arrasador, perdas de peças importantes durante a Copa do Mundo, sequência de oscilação da equipe, retomada do padrão... Não à toa, devido a todas circunstâncias, seu trabalho é apontado por muitos como um dos melhores do Brasil.

Formado em Educação Física, Larghi teve uma rápida ascensão no futebol. Depois de ter tentado ser jogador, foi para faculdade, fez cursos e iniciou sua trajetória com pesquisas junto à Jairo do Santos, que o apresentou à Carlos Alberto Parreira. Passou por Botafogo em 2011 antes de virar analista da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2014. Já participante da comissão técnica de Oswaldo, ainda teve passagens por Sport e Corinthians.

Nesta entrevista, fomos além da sua breve experiência como treinador. Além de todo "retrabalho" feito no Galo e da adaptação de novos jogadores, muitos deles estrangeiros, Thiago Larghi abriu a sua cabeça para falar de futebol. Foi da sua admiração ao futebol praticado por Pep Guardiola e Maurizio Sarri até a experiência dentro do 7 a 1 durante a Copa do Mundo no Brasil. 

Em quase 40 minutos de papo, falou da necessidade de ser claro e objetivo nos treinos, da sua relação com o Jogo de Posição, das suas primeiras referências no futebol e até sobre a dificuldade do futebol brasileiro em se organizar melhor com a posse de bola. Disse que espera do Atlético-MG, acima de tudo, um time equilibrado e que teve que colocar muito treino e estudo para arrumar problemas defensivos. 

Confira a entrevista  na íntegra:

Como enxerga o estágio do Atlético-MG neste momento? Quais são as maiores dificuldades para adaptar novamente um modelo em meio a tanta mudança no elenco?  Viu a necessidade de algum ajuste mais drástico pelas características dos novos jogadores?

Realmente durante a parada para a Copa mudou bastante algumas peças. Agora é o momento de entrosar o time. Os jogadores que chegaram precisam compreender e se adaptar aos jogadores que já estavam aqui. A principal dificuldade, além das saídas dos jogadores e a chegada de outros, foram as lesões. Teve muita perda nesse meio tempo. A busca agora é pelo padrão, com novas características, mas buscando um time bem equilibrado. É por isso que estamos trabalhando.

Vocês viveram um período bem oscilante após a Copa, qual foi o maior diagnóstico que vocês chegaram? O que ainda existe a necessidade de ajustar?

É complicado. As coisas mudam tanto e mudam tão rápido... Às vezes você vai e acerta algum aspecto da transição defensiva, um retardo, uma pressão pós-perda. Mas aí tem a mudança dos jogadores. De jogo para jogo variou muito estes detalhes. Se não me engano a gente usou três ou quatro linhas defensivas diferentes em seis jogos. Aí é mais difícil retomar o padrão. Mas de um modo geral temos tomado poucos gols de transição defensiva. O que vinha chamando mais a atenção é a questão da bola parada. Teve alguns sofridos neste sentido, fizemos alguns ajustes e o time tem respondido. Adotamos uma nova postura, já vejo os atletas mais conscientes do que fazer. E isso para tudo: lateral direto, faltas cruzadas na área... Já tenho encarado como página virada.

E como buscar essa melhora nas bolas paradas defensivas? É questão de repetição? Era necessária uma mudança de postura de vocês?

A bola parada hoje em dia, dependendo da postura que você adota, é 50% dos gols. Os números durante a Copa chegaram a ser quase isso por um momento. Muita situação assim. Então a gente tinha que dar uma carga maior disso nos treinamentos, dar mais atenção mesmo. Usamos bem as semanas buscando isso.

OBS: Entrevista foi feita no fim do mês de agosto, por isso o gol levado de bola parada contra o Atlético-PR não entrou na conversa.

Viu alguma mudança durante a Copa do Mundo nos comportamentos em bola parada? Acha que o VAR vai mudar um pouco a postura e até a metodologia de algumas equipes neste momento do jogo? O que mais te chamou a atenção durante o mundial?

Ficou nítido que o VAR acabou inibindo mais o contato, o empurrão mais duro. A partir do momento em que a arbitragem pode rever o lance, tudo muda. Até a questão de deslealdade, que foge do jogo. Acho que de fato isso foi bem evitado. Por outro lado muitos pênaltis foram marcados. Quem não se atentou a isso na preparação acabou sofrendo mais. Mas o que mais me chamou a atenção foi algumas seleções que deixaram muitos jogadores em rebotes para puxadas de contra-ataque. A Bélgica mesmo. O próprio México que fez bastante isso. E tiveram êxito em contra-ataques após escanteios defensivos, por exemplo. Defendendo já pensando na transição ofensiva. Isso não é algo muito comum atualmente. As equipes estavam se defendendo com nove ou dez dentro da área. E estas seleções fugiram um pouco do padrão, fizeram uma opção interessante para tentar os contra-ataques. Era algo que acontecia ainda nas Copas de 2002 e até 2006, mas que nas últimas temporadas foi mudando, com todo mundo defendendo com todos os jogadores. Agora teve o retorno de uma ideia.

OBS: durante a Copa do Mundo o blog fez um post exclusivamente sobre isso, com o México de Juan Carlos Osório. Clique aqui e veja.

Obviamente que na hora de escolher uma maneira de se defender em bolas paradas vocês precisa olhar para a característica dos jogadores que tem. Mas, de um modo geral, como você prefere organizar sua equipe neste sentido?

Tendo uma equipe com uma estatura média, que não seja nem das mais altas e nem das mais baixas, eu acho que a marcação mista encaixa bem. Você tem um pessoal marcando zona, pode usar alguns bloqueios fortes. Acho que assim encaixa bem. Na falta lateral é importante ter uma altura razoável da linha defensiva. É algo positivo que a gente vê e que algumas seleções fizeram bem na Copa. É importante não deixar muita gente dentro do gol, se manter mais distante.

Thiago Larghi em treino pelo Atlético-MG
Thiago Larghi em treino pelo Atlético-MG Bruno Cantini/Atlético-MG

Existe muito a discussão sobre ter um time que buscar mais propor o jogo e outros que tendem a ir melhor reagindo. O Atlético-MG parece um meio termo disso. É de fato um objetivo seu ter equilíbrio nestas duas maneiras de se jogar? E como buscar isso?

Minha procura é sempre por uma equipe equilibrada. Não só na questão de velocidade, nas transições. Ou mesmo ter o controle, uma posse de bola maior. Precisamos de um equilíbrio entre atacar e defender. Por um bom tempo a gente teve uma defesa bem sólida. Aí começamos a tomar uns gols mais evitáveis. Agora a gente tem colocado muito esforço nisso para voltar a ter um padrão forte. Estamos trabalhando muito nisso. É algo que precisa ter para se fazer um bom campeonato. Ofensivamente, com bola no pé, é importante fazer a leitura do que o jogo pede. Se a situação exige mais transições rápidas a gente tem que fazer. Mas tem sido uma característica do Atlético-MG ter a bola, a gente se sai melhor assim. Buscando ter um controle desta forma. Mas também não podemos abrir mão de ter bons contra-ataques. Tudo depende do que o jogo pede.

Você recebeu muitos jogadores estrangeiros nos últimos meses. Como tem sido o processo de adaptação destes jogadores? Como você e a comissão técnica podem ajudar neste sentido? E como funciona o trabalho de captação destes atletas aí no Atlético-MG?

Acho que este processo de captação de talentos tem funcionado por estar bem integrado. É importante estar bem alinhado a comissão e diretoria. O diálogo tem funcionado muito bem, principalmente através do Alexandre Gallo (diretor de futebol). Temos também o pessoal de análise aqui, que faz essa busca. Tem também um observador técnico que era do clube e agora está como auxiliar, que é o Bernardo Motta. Ele ajuda bastante nessa função. O mais importante é o diálogo. Só assim consegue se acertar tanto a questão financeira quanto à parte técnica/tática, sempre buscando boas alternativas para o clube. Tentamos fazer sempre com muito cuidado, sempre um trabalho bem minucioso para não ter muitos erros. A adaptação, por outro lado, está cada vez mais fácil devido à tecnologia. Os caras conseguem ter comunicação, ter acesso a tudo que acontece aqui e sobre onde vieram. Então acompanham bem. Da nossa parte é importante a receptividade. É buscar um ambiente positivo sempre. Nós já temos um histórico aqui no Galo de estrangeiros que tiveram sucesso. Então a gente procura é dar sequência nisso, receber os estrangeiros bem, deixar eles bem à vontade. Temos trazido caras com um perfil legal, que chegam e já se entrosam. A cidade também ajuda muito. Belo Horizonte é muito acolhedora, o povo mineiro recebe bem. Isso é muito positivo. E temos tido uma resposta rápida. Alguns jogadores que chegaram e já se encaixaram no time, que estão jogando bem.

Como tem sido essa oportunidade como treinador sendo tão jovem? Muito se fala da necessidade de experiência para treinar no Brasil, de ser "cascudo"... Acha o atleta de futebol na atualidade se apega a este tipo de coisa ainda? A qualidade do trabalho não deveria bastar?

O jogador pede muita clareza e objetividade no trabalho. Que o conteúdo do treino esteja claro para eles ali no dia a dia do campo. A mesma coisa nas análises que a gente faz e mostra para eles. Mas tudo buscando ser o mais próximo possível da realidade do jogo. Querem sempre alguma coisa que de fato ajudem eles a vencer as partidas. Eles são os principais protagonistas dos jogos, então precisam de alguém que os ajudem nas tarefas que o jogo exige. Na compreensão do jogo, na execução de um treinamento que vai transformar em resultados dentro de campo. Por isso é preciso ser bem objetivo. É o que a gente tem procurado fazer aqui. De fato a oportunidade apareceu para mim. Não era isso que eu esperava no momento. A partir da hora que eu aceitei ficar como um auxiliar fixo aqui no Atlético-MG, pensava em ficar um tempo nesta posição. Pensei que o clube traria alguém de imediato para o cargo, mas acabou não acontecendo. Aí a gente foi vendo que a equipe se sentiu bem, os jogadores ficaram à vontade comigo e os resultados foram surgindo. Apesar de não ter conseguido o título mineiro, era possível ver uma evolução na forma de jogar da equipe. Acho que a busca por um jogo bem jogado fez com que os jogadores se sentissem bem. Mas, ao mesmo tempo, as dificuldades sempre aparecem. Tem que manter os pés no chão. Muito pouco foi feito até aqui. A trajetória é longa, temos muitos desafios pela frente, o Brasileirão é bem longo. Fizemos um primeiro turno bom, principalmente porque sabemos que alguns pontos perdidos poderiam ter sido evitados. Deixamos escapar alguns pontos muito por falhas nossas. Agora vamos tentar recuperar, tentar deixar o Atlético-MG pelo menos entre os seis primeiros. 

Você pontuou o fato de o treinamento ser o mais próximo da realidade do jogo. Existe quem não dá muita importância para ele. Qual a importância do treino dentro de todo este processo que você está tocando?

É o que condiciona, não tem jeito. A gente tem que sempre tentar simular o jogo no treino. Fazer isso de uma forma sucinta e clara. Porque certamente isso vai acontecer durante a partida. Aliás, que a gente imagina que vá acontecer. Que sirva para preparar o jogador para o dia do jogo. Então tem que tentar transferir esses elementos o máximo possível. O que importa é o jogador estar preparado, não só na questão física, mas também para poder resolver os problemas que o jogo traz.

Em alguns momentos dá para se observar alguns elementos do Jogo de Posição na forma que sua equipe busca jogar. Qual a sua relação com ele? De fato é uma referência dentro do seu trabalho?

É um tipo de jogo que me agrada muito. Primeiro que eu entendo que é necessário ter uma boa ocupação dos espaços em campo. E isso de forma inteligente, não simplesmente aleatória. É preciso ter uma sincronia entre os jogadores. A gente tem que se movimentar, mas sem virar uma bagunça. Eu busco sim pegar algumas referências, mas sempre levando isso de forma clara e simples. Até porque não vai adiantar ser muito teórico com o jogador neste momento. A informação tem que ser direta. Eu busco muito isso. Não temos muito tempo de treinamento, se a gente não aproveitar bem, fica difícil. Às vezes numa sessão de vídeo também se consegue passar uma ideia, fazer uma correção. Mas a gente precisa ser claro.    

Acha que nossa cultura como futebol enxerga organização apenas no sentido de se defender? Acredita que, com bola, só o talento resolve?

Se organizar na fase ofensiva também é necessário. Ter ideias, se movimentar com inteligência... Claro que fazendo isso sem tirar a criatividade do jogador brasileiro, sem podar a liberdade que ele precisa para desenvolver o seu jogo. O atleta brasileiro é acostumado a ter essa liberdade. Mas vejo bons trabalhos acontecendo por aqui neste sentido. Acho que temos seguido uma linha positiva. Os treinadores, independente de ser mais experiente ou os mais novos, estão trazendo novidades, desenvolvendo bons trabalhos. Tenho visto bons jogos dentro do cenário brasileiro. Isso é positivo para a formação do nosso jogador. Até para trabalhar na linha de frente para vencer competições internacionais, tanto de clube quanto com a Seleção. 

Em qual estágio você vê a qualidade do jogo atualmente no Brasil? Não acha que estamos devendo no aspecto ofensivo? Onde você acha que dá para evoluir?

De fato trabalhar uma defesa é mais fácil. Não deixar jogar é mais fácil, destruir é mais fácil que construir. Acho que a qualidade do jogo é satisfatória. Creio que vem evoluindo, isso está bem claro para mim. Agora tem o lado também de dar mais tempo aos treinadores. Se a gente conseguir isso, tende a ser melhor. Até a perda de atletas no meio dos processos influencia também. Nestes cenários a gente teria um ganho qualitativo na parte ofensiva. A realidade do futebol brasileiro limita as equipes, principalmente por sequência de trabalho. É a longevidade que vai conseguir dar um padrão de jogo, tanto em ser bonito quanto em questão de resultado. Para as duas coisas casarem, para você ter um jogo atrativo e com resultado, é só com tempo. E tanto para o treinador, em sequência de processo, quanto para os jogadores, de se conhecerem. Por isso é importante a gente conseguir reter um pouco mais nossos talentos, para ter mais tempo de trabalho com os mesmos jogadores.

Acha que essa não manutenção dos processos influência nas tomadas de decisão do atleta em campo? Como trabalhar isso dentro de toda essa realidade conturbada?

O treinador atual tem que trabalhar num nível mais específico a capacidade do jogador em entender o jogo. Pra que, individualmente, ele tenha uma bola leitura no contexto geral do jogo e que aplique isso no contexto coletivo, dentro do que lhe é pedido em posição/função. Só percebendo o jogo e o que a situação pede, o jogador vai conseguir tomar as melhores decisões. As respostas não são sempre pré-definidas, até porque o jogo apresenta uma série de situações muito dinâmicas. É impossível prever tudo. Então é ter um jogador capaz de raciocinar o que a situação pede que é o ideal. E cabe ao treinador estimular ele no dia a dia. Que ajude, busque esse entendimento. Assim o cara vai para o jogo e vai escolher melhor.

E o atleta de futebol hoje é mais interessado em entender o jogo? Os caras buscam um entendimento mais tático no dia a dia?

Nem é uma questão de comparar gerações. Não é o caso. Mas o jogadores que eu tenho trabalhado nos últimos anos são, em grande maioria, muito inteligentes. Atletas que buscam aprender, que percebem a importância daquele treinamento, que percebe que o trabalho do dia a dia é para ajudá-lo não só vencer o jogo, mas se tornar um profissional melhor. Tenho tido experiências com muitos jogadores bem interessados. 

A abordagem com os jogadores, num modo geral, mudou? Como é lidar com esse conhecimento no dia a dia? Respinga em ti o velho debate sobre estudioso vs boleiro?

Nascemos e vivemos num país onde deveríamos aprender desde cedo que não podemos ter preconceito. Essas diferenças nos faz uma nação muito rica em cultura, por exemplo. Não pode ter esse preconceito, tanto para um lado como para o outro. E para o futebol vale da mesma forma. Pra mim tanto faz. A gente tem que trabalhar o que ambos têm de positivo. Buscar juntos um bom produto final. Tentar ter um jogo atrativo e vencedor. Se é mais boleiro, se é mais estudioso, enfim, não importa o perfil. Temos que respeitar e trabalhar com as diferenças sempre buscando melhorias. As diferenças sempre vão existir, em qualquer setor. A construção que precisa ser positiva. Não precisa e nem é bom ter todo mundo igual. É respeitar e aproveitar o que cada um tem de melhor.

Uma parte dessa nova safra de treinadores, a maioria mais jovem, tem tido dificuldades para se firmar no futebol brasileiro. Em alguns casos nem sequência estão tendo. O que você acha que falta? Acha que a pressão aumenta nestes casos por não serem nomes já consagrados?

É difícil dizer mais especificamente. Acho que temos vários treinadores que já mostraram talento e competência. Mas é somente com o tempo que as coisas vão acontecer e as coisas vão ser provadas. É tempo, trabalho, mais sequência... Espero que isso aconteça para todo mundo. Não é nem questão de ser jovem ou velho. O tempo que vai dizer, as oportunidades que forem surgindo. Até mesmo os mais experientes já passaram suas dificuldades, que são totalmente naturais. Faz parte do processo. Os vitoriosos não começaram, tirando um ou outro exemplo, ganhando tudo desde sempre. São fases, momentos de aprendizado. Nós jovens temos que passar por isso, a profissão traz dificuldades. É ir se aprimorando, corrigindo detalhes que às vezes não dão certo. Sempre buscar contribuir com o futebol brasileiro.

Thiago Larghi conversa com auxiliar Kaio Fonseca, que também já foi analista de desempenho
Thiago Larghi conversa com auxiliar Kaio Fonseca, que também já foi analista de desempenho Divulgação / Atlético-MG

Quais são suas referências de futebol? Onde você busca inspiração e informação para treinar sua equipe?

A minha primeira referência assistindo futebol foi o Milan do Arrigo Sachi. Eu acompanhei muito e depois de um tempo ainda comprei vídeos dos jogos, li muito material e vi muita coisa. Tive com ele (Arrigo Sacchi) uma vez aqui no Brasil também e pude conversar com ele. Minhas referências aqui no Brasil são Parreira e Zagallo. Sempre foram mestres para mim em organização. Tanto eles quanto o Arrigo Sacchi sempre mostraram um futebol bem organizado, presando muito por uma linha defensiva com quatro jogadores, compactação e posse de bola. De uns anos para cá, agora mais recente, o Guardiola. Futebol ofensivo, dinâmico. Me agrada muito. Aí a coisa evoluiu muito rápido de uns anos para cá. Em nível posicional, de posse de bola, controle, pressão após a perda muito eficiente... Mudou muito. Num geral essas são fundamentalmente essas. Tem o Felipão na questão de gestão de grupo que é uma referência também. O estilo dele ali, de ser mais paizão, isso é bacana absorver também. De procurar ter um bom ambiente. Essas são as referências que carrego comigo.

Você já citou Pep Guardiola e até Jogo de Posição. Se olharmos para aquele Barcelona dele e para o futebol de hoje, já vê muitas diferenças? Acha que a exigência atual é de mais velocidade? 

Na verdade é algo que acontece na própria natureza do jogo. A partir do momento que o Guardiola conseguiu ali, por 2008 ou 2009, ter o sucesso que teve, soluções foram sendo buscadas para tentar neutralizar aquele tipo de jogo. As equipes passaram a se compactar ainda mais, em espaços mais curtos. Blocos defensivos que antes eram de 30 metros passaram a ser de 20 ou 15 metros. As situações de transição defensiva, para se reorganizar, passaram a ser ainda mais trabalhadas. O nível competitivo foi subindo. Conforme essas soluções para neutralizar um jogo que dava certo foram sendo encontradas, o futebol mais ofensivo teve que buscar novas situações para conseguir novamente assumir o controle do futebol mundial e bater equipes que aprenderam a lidar com seu jogo. É uma busca constante, algo que acontece no futebol desde o início de sua existência. É uma dinâmica natural do futebol e o que faz ele ser tão brilhante. É tudo muito motivador isso. É apaixonante. Tanto para o torcedor que vê a gente tentando superar um adversário, quanto para nós que estamos sempre tentando achar saídas e as melhores escolhas. Isso é muito legal e serve até para a vida.

Acha que no Brasil enxergamos o jogo ainda muito de forma individual?

Eu acho que isso está mudando. Tenho visto muitas análises coletivas. Toda cadeia do futebol, começando por comissões técnicas, jogadores, a formação dos treinadores, a própria imprensa, todos estão buscando uma leitura maior do jogo, tentando olhar de forma coletiva. De buscar os princípios do jogo, tanto defesa quanto de ataque. Acho que estas análises são bem positivas e estão ficando cada vez mais claras. 

Você citou a questão da gestão do Felipão como algo que carrega na carreira. Como foi a experiência da Copa de 2014 quando você esteve com ele como Analista de Desempenho? Quais foram as lições após o resultado final sendo eliminado para a Alemanha?

Ali no caso meu vínculo era mais com o Parreira, com quem eu já tinha trabalhado anteriormente. Por isso participei do trabalho. Foi um trabalho que teve toda uma contestação após o resultado da semifinal. Mas até ali era um trabalho bem desenvolvido. Vejo que foi uma questão de fatalidade mesmo, infelizmente. Teve coisas boas também dentro daquele processo. A gente sempre espera uma evolução do futebol brasileiro, acho que é assim que temos que pensar. Acho que agora estamos no caminho certo. Não venceu a Copa neste ano, mas é importante ter uma sequência de trabalho com o Tite. As coisas não precisam ser sempre assim, de perdeu, acabou, nada mais serve... Não é assim. Acho que o nosso amadurecimento como cultura tem que ir por esse lado, de olhar também para o que é positivo. Não é só o resultado. Perdemos para a Bélgica agora, não era o que a gente esperava, mas teve muita coisa até ali. Muita coisa boa. É se agarrar no que foi bom e tentar arrumar o que não foi tão bom assim. É por aí que o nosso futebol vai evoluir de uma maneira mais ampla.

Felipão e Parreira assistem a análises feitas por Thiago Larghi nos tempos de Seleção
Felipão e Parreira assistem a análises feitas por Thiago Larghi nos tempos de Seleção Divulgação - CBF

E a sua passagem no Corinthians com o Oswaldo de Oliveira? O que acha que pegou ali para não dar certo o trabalho?

Foi muito rápido, né? A diretoria optou por tirar o Oswaldo. Mas para mim ficou uma experiência positiva, uma relação muito legal com o Carille, por exemplo. Com o Fernando Lázaro (ex-coordenador do CIFUT, departamento de Análise de Desempenho) que depois foi para a Seleção também. De um modo geral com todos que ali estavam no momento. Foi pouco tempo, mas do que eu conheci ali do Corinthians eu gostei muito. A gente tentou desenvolver um trabalho, mas o tempo foi curto, não deu para colocar muita coisa. Ficou uma lembrança boa e um respeito pelo clube.

Larghi reencontra Alessandro, gerente de futebol do Corinthians, e Carille, treinador na época
Larghi reencontra Alessandro, gerente de futebol do Corinthians, e Carille, treinador na época Daniel Augusto Jr/Corinthians

Assiste muito futebol internacional quando tem tempo? Quais são suas preferências com relação a ligas, campeonatos e países?

Gosto muito. Dentro do possível estou sempre assistindo. O tempo é curto, então tem que selecionar. Não dá para ver muita coisa, então eu prefiro pegar as coisas que podem mais me acrescentar. Os times do Guardiola que gosto de ver, o Bayern de Munique é outro time que gosto de assistir. Até porque o futebol alemão tem umas variáveis interessantes, as transições também. Futebol italiano está crescendo de novo. O Napoli com o Sarri eu acompanhava bastante também. Fico de olho em algumas equipes inglesas também. Sempre que dá eu assisto. Não se tem muito tempo, até porque, quando eu vejo, eu gosto de olhar com mais atenção, analisar as situações com cuidado, não só deixar passando. Tento fazer que acrescente. É sempre muito prazeroso assistir. 

O que é jogar bem para você?

É uma pergunta muito boa! Até porque você pode jogar bem de várias maneiras. Estando compacto e usando transições rápidas, vencendo jogos assim. Isso também é bonito de ver. Sempre gostei da competitividade italiana, dá forma que se organizam, como se defendem e usam bem as saídas rápidas. Mas também gosto de ter a posse da bola. Também tem sua beleza. No fim das contas acho que o jogar bem é você usar da melhor maneira as características que você tem em mãos. Entender os jogadores que estão à sua disposição, a cultura do clube que você vive. É muito importante você se adequar. Se você usa de maneira inteligente aquela realidade, se você consegue elaborar uma boa forma de jogar, independente de ter ou não a bola, você pode agradar sua torcida, o seu público. Isso é que importa. O jogar bem vai partir muito de uma relação do que você apresenta dentro de todo este contexto.


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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Entrevista do mês: Larghi fala em reconstrução no Galo, revela inspiração em Guardiola e Sarri e diz que falta sequência na Seleção

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A posse pela posse e o aspecto psicológico no círculo vicioso vivido pelo Flamengo

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Barbieri conversa com jogadores durante treino do Flamengo
Barbieri conversa com jogadores durante treino do Flamengo Gilvan de Souza/Flamengo


A derrota para o Ceará, diante de mais de 60 mil pessoas no Maracanã, expôs de vez o mau momento que o Flamengo vive na temporada. Depois de um pré-Copa irretocável, a equipe treinada por Maurício Barbieri oscila e mostra poucos picos de desempenho. Posses longas, na maioria das vezes poucas chances cristalinas criadas e uma pressão que só aumenta na Gávea.

Com a ideia de um futebol propositivo e de controle através da posse, o Fla padece para marcar gols. A montagem do elenco, aliás, foi feita com este pensamento de protagonismo dentro das partidas. Mas a verdade é que, no fim das contas, os rubro-negros sofrem dos mesmos problemas de muitas equipes no Brasil que tentam impor este estilo de jogo - com exceção do Grêmio, o modelo mais estabelecido por aqui atualmente e construído ao logo de pelo menos duas temporadas.

As derrotas para Atlético-PR e Ceará, por exemplo, nos trazem números intrigantes: 66% e 65% de posse, respectivamente. Por outro lado, no entanto, poucas chances claras criadas e todas elas desperdiçadas. Mas o número frio, neste caso, não nos diz absolutamente nada. A forma como toda essa posse é usada sim nos traz alguns diagnósticos bastante comuns em termos de futebol brasileiro.

No geral falta movimento e intensidade ao Fla em fase ofensiva. Aliás, falta isso a boa parte do futebol jogador por aqui. Mas no caso dos flamenguistas falta também uma porção de confiança para fazer toda uma dinâmica funcionar. O aspecto psicológico, neste sentido, vem batendo forte a cada revés. 

Enfrentar equipes fechadas, com muita gente atrás da linha da bola e boas coberturas, não é algo recorrente apenas ao Flamengo. Ao assumir a sua forma de jogo, isso fica ainda mais nítido. E furar esse tipo de situação requer uma posse de bola mais rápida, dinâmica e intensa. E é aí que entra a questão anímica da coisa.


Retém, toca, movimenta... Retém, toca, movimenta... Esta dinâmica, com jogadores mentalmente não tão fortes, é simplesmente quebrada a todo momento. Primeiro que o passe vai vir lento. O domínio vai exigir mais de um ou dois toques. A velocidade de execução não será a ideal. O movimento vai sair atrasado. E por aí vai, como um "loop infinito". Conseguem perceber como todas as ações citadas se interagem e a não excelência em algum ponto deste caminho prejudica todo o funcionamento de uma jogada?

Pois é. A sensação é de um Flamengo que tem dificuldades para cumprir todo esse mecanismo. Em alguns jogos isso fica ainda mais explícito. Outro ponto agravante é ver o tempo passando. Em casa isso se acentua bastante. Um time que por vezes trava, parece hesitar por medo do erro e as reações que acontecem após o mesmo. Com tudo isso, a dificuldade em gerar desequilíbrio e espaços nas defesas do adversário triplicam.

O 1x1 contra o Grêmio, em Porto Alegre, é o ponto alto e a grande antítese de todos estes problemas. Não à toa, foi talvez a melhor atuação do time de Barbieri na temporada. É de fato a referência de desempenho, a conjuntura onde comissão técnica e jogadores precisam mirar. Tudo que se precisa foi feito neste duelo: troca de posição, infiltração, apoios rápidos, posse rápida alternando distância e direção, intensidade nas ações...

E a palavra intensidade é a chave para que tudo isso aconteça. No calendário caótico de agosto, o Flamengo se viu desmantelado neste sentido. Até por certa culpa, já que poderia ter dosado um pouco mais a sequência de alguns atletas, os maiores responsáveis pela qualidade e velocidade do jogo praticado. Sinceramente não sei como foi o planejamento feito, qual foi o diálogo diretoria/comissão e os direcionamentos dados por preparação física e fisiologia, mas era impossível manter um ritmo de jogo satisfatório dentro destas circunstâncias. Até o gramado ruim do Maracanã tem lá seu peso em tudo isso.

Sempre bato muito na tecla que nenhuma equipe fracassa por um ou dois motivos. O futebol é sistêmico demais, mas nossa cultura tem a necessidade de buscar o culpado a cada crise. No caso do Flamengo trata-se de um momento de tirar os diagnósticos de más partidas o mais rápido possível. Esse da confiança é nítido e talvez por isso seja o momento de dar um passo atrás na questão do modelo. Não é abandonar as convicções e tudo que foi construído, mas sim engessar um pouco mais, dar mais consistência e, aos poucos, recuperar o aspecto mental.

Jogar em time grande se exige muito neste sentido e os jogadores precisam responder, o alto nível exige isso. A confiança, em três ou quatro partidas, pode te jogar tanto para o céu quanto para o inferno e, dependendo do estrago, a retomada de desempenho acaba por ser quase impossível de acontecer. Por isso, neste momento, vencer é muito mais importante que desempenhar para os rubro-negros. É hora de estancar a sangria e fortalecer o conjunto.

Os resultados da rodada, por incrível que pareça, deixam o Fla totalmente vivo no Brasileirão. Não vejo um trabalho totalmente mal feito. É possível enxergar as ideias por trás do jogo flamenguista. Por outro lado, já passou da hora de uma resposta e uma mobilização que faça deste conjunto um time confiável. A troca de treinador pode até acontecer, mas só nesta gestão isso acontece mais de 15 vezes. Já está claro que começar do zero não é um bom caminho.

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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Por que tanta consistência? Veja como o Palmeiras de Felipão tem neutralizado contra-ataques rivais

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Felipão comanda o Palmeiras contra o Botafogo
Felipão comanda o Palmeiras contra o Botafogo Divulgação / Palmeiras

Depois de uma sequência oscilante com Roger Machado, principalmente nos aspectos defensivos, o Palmeiras, enfim, ganhou a consistência que tanto buscava. Já são 8 partidas sem ser vazado. E muito disso tem a ver com o modelo de jogo que Luiz Felipe Scolari tem implantado na equipe. 

Muito se questiona sobre a riqueza ou não de conceitos trabalhados pelo treinador de 69 anos (e de fato acho que alguns pontos merecem discussão), mas existe uma ideia por trás deste jogo mais "rústico", porém mais sólido. O mecanismo de jogo de Felipão, que é mais conservador que seu antecessor, cria algumas vantagens defensivas para o time alviverde, principalmente nos casos de contra-ataques adversários. 

Existe toda uma lógica por trás das bolas mais longas e do uso do centroavante. Nesta análise vamos mostrar três situações que explicam um pouco desta segurança que a equipe tem mostrado nos últimos confrontos. E, sinceramente, não tem a ver com certo e errado, mas sim escolhas. Situações que você ganha e perde, como quase todas no futebol.

Toda essa discussão parte da forma como o Palmeiras de Scolari inicia suas jogadas, que vai até um pouco além da bola mais longa buscando a disputa física do centroavante, algo muito padronizado desde a sua chegada. O primeiro vídeo, que vem logo abaixo, mostra um pouco desta primeira fase de construção e como ela influencia no momento que a equipe perde a posse da bola.

Perceba que, ao sair jogando de trás, a linha defensiva está praticamente toda montada. Num primeiro momento, Mayke e Diogo Barbosa não avançam. Felipe Melo e Bruno Henrique, a dupla titular de volantes, também se aproxima. A saída por si só já mostra muita cautela. É feita de forma sustentada, sem avançar jogadores de uma vez só. Ganha-se em segurança, mas também perde-se em opções mais verticais para progredir no campo. É bem lógico: quanto mais gente atuando numa faixa mais recuada, menos jogadores avançados para gerar superioridades em faixas mais altas do campo. Como eu disse, uma escolha.

Ainda em cima deste primeiro vídeo, veja como a bola longa é usada rapidamente. Bruno Henrique faz a ligação direta e vemos muito essa questão de o time se separar em dois blocos. Não existe uma compactação ofensiva.  A ideia é ganhar a disputa e ficar com a segunda bola. Com a posse dominada, acionar a velocidade. Mas aí entra a grande questão da jogada: o contra-ataque.

Com menos jogadores na frente, menor é a chance de ficar com a posse. Mas aí, como um cobertor curto, tem o outro lado. Veja que, quando o Botafogo recupera a bola e tenta acelerar em transição, são seis jogadores do Palmeiras atrás da linha da bola. Dudu ainda tenta uma volta, mas a linha defensiva inteira, junto dos volantes, estão posicionados para defender. Deste modo, fica praticamente impossível contra-atacar os alviverdes. 

Neste lance fica claro que Felipão prefere, em muitos casos, atacar com 4 jogadores e defender com 6.  Claro que existem algumas variações, principalmente quando o treinador solta mais o time (segundo tempo ficou claro isso com a entrada de Lucas Limas na vaga de Bruno Henrique), mas geralmente não é algo que foge muito dessa perspectiva de mais seguranças no seu jogo.

No próximo lance, que vem logo em seguida, vemos um pouco dessa variação e como as coberturas dos volantes são importantes para que toda a engrenagem funcione. Mayke está fechado na linha defensiva pela direita e não sobe. Com isso, Diogo Barbosa percebe o espaço para avançar e se projeta.  Note que, de imediato, Felipe Melo (que está mais posicionado pela esquerda) já dá uns passinhos para o lado e já vigia o setor que o lateral se desprendeu. 

O próprio Edu Dracena também se coloca ali para bloquear uma saída mais rápida dos botafoguenses. Se trata de um momento em que o Palmeiras ataca com 5 e defende com 5. Treinadores que buscam um jogo mais propositivo, com características mais ofensivas, de ter a bola, normalmente usam 7 ou até mesmo 8 atletas para atacar.  Alguns atacam com os dois laterais ao mesmo tempo. Como já apontamos anteriormente, é um cobertor curto: se por um lado você ganha na frente, com mais opções de passe e movimentação, por outro você acaba se expondo mais, sendo mais suscetível aos contra-ataques. É muito mais questão de escolha do que de certo ou errado.

No terceiro e último vídeo vemos também uma mudança no comportamento de Bruno Henrique, um dos principais jogadores alviverdes da temporada. Com 9 gols marcados em jogos oficiais neste ano, alguns deles com chegadas na área (ou na entrada dela), o camisa 19 perdeu um pouco de liberdade para avançar no campo em alguns momentos. Antes da chegada de Felipão, por exemplo, tinha uma média de 1,2 finalizações por partida. Agora, com o novo treinador, tem uma marca de 0,8. Com uma função mais organizadora e menos conclusivo, o volante agora é uma peça chave dentro deste equilíbrio defensivo.

No trecho acima isso fica bem claro. Bruno recua, vem buscar jogo e encaixa um bom lançamento no avanço de Mayke (veja na parte de baixo da tela como Diogo Barbosa segura e não sobe ao mesmo tempo). Uma boa chance de gol é criada, mas, na retomada de bola do Botafogo, o volante está bem recuado e ajuda a fazer a pressão na bola. Felipe Melo, menos móvel e mais posicional, se coloca mais recuado para fazer coberturas. E, em poucos minutos, o padrão já está quase restabelecido: linha defensiva e volantes se colocando atrás da linha da bola.

Neste espaço falamos muito do propósito de se jogar bem. Ao meu ver isso nada mais é que executar com eficácia uma ideia pré-estabelecida, ou seja, o que é treinado e traçado como estratégia. Partindo deste ponto, sim, o Palmeiras vem tendo bom desempenho. A questão de se jogar bonito já é outros quinhentos. Até porque tem muito a ver com nosso gosto pessoal, uma questão de preferência mesmo. E aí cada um tem a sua.

Se fosse para resumir o trabalho de Felipão até aqui em uma só palavra eu diria simples. Sem tempo para treinar, sua experiência ajudou na mobilização de ideias mais compreensíveis partindo de um período da temporada bastante caótico dentro de um calendário maluco. De fato é um jogo rústico e mais pragmático. Está longe de ser um jogo rico em ideias ofensivas. Mas é uma forma de jogar. Uma maneira de competir. A busca em médio e longo prazo deve ser em acrescentar mais coisas neste modelo de jogo mais prático. Com tempo e treinamento, a cobrança será neste sentido. Aí sim Felipão terá a oportunidade de evoluir o jogo de um elenco cheio de boas individualidades.   

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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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Análise técnica: conheça os reforços gringos contratados por Corinthians, Palmeiras e Santos

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues
Os seis gringos que chegaram no trio paulista para a disputa do Brasileirão
Os seis gringos que chegaram no trio paulista para a disputa do Brasileirão DataESPN

O trio paulista Corinthians, Palmeiras e Santos movimentou o mercado de transferências nas últimas semanas. Depois de ver o rival São Paulo acertar com o bom Joao Rojas (veja mais análises clicando aqui), as três diretorias foram aos negócios e emplacaram reforços gringos para a sequência da temporada.

De uma maneira geral, investidas bem interessantes, com jogadores promissores, cascudos e até mesmo nomes para resolver carências claras de cada elenco. Ao todo foram três paraguaios, um chileno, um uruguaio e um costa-riquenho. A ideia foi dissecar as características de cada um, apontar seus pontos fortes, fracos, posição/função e como cada um deles pode ajudar sua respectiva equipe.

Confira na íntegra o resumo de cada contratação:


CORINTHIANS

Ángelo Araos - 21 anos - chileno - 1,82m - meio-campista - destro

Ángelo Araos foi apresentado como novo reforço do Corinthians
Ángelo Araos foi apresentado como novo reforço do Corinthians Gazeta Press

Movimentação de mercado interessante por parte do Corinthians. Se trata de um jogador bastante promissor, com qualidades importantes para a posição e que tem alguns pontos ainda a desenvolver. Atingindo excelência nestes aspectos que citarei, certamente é um atleta que pode dar um bom retorno técnico e financeiro ao clube.

Apesar de ser mais meia na sua essência, Ángelo Araos ocupa uma grande faixa de campo. Tem atuado como meio-campista pela direita dentro do 4-1-4-1 da La U nos últimos jogos em que atuou. Creio que, pelas características que tem, também possa atuar um pouco mais avançado, atrás do centroavante num 4-2-3-1, por exemplo. Por outro lado, não o vejo com perfil para fazer o lado do campo. 

Trata-se de um jogador que circula bem entre as duas áreas. É um organizador, que ajuda na circulação da bola, com passes saindo da pressão e se projetando à frente. Busca sempre atacar os espaços, o que é bastante positivo. Faz bem este tipo de leitura, mas precisa aumentar seu número de gols. Dá para crescer neste sentido (em 2018 são dois gols em 19 jogos). 

Apesar de ocupar um grande espaço de campo, não é muito veloz. Não tem grande agilidade e mostra alguma dificuldade na troca de direção. Nos arranques em distâncias maiores, vai bem. Tem boa condução.

Tem um porte físico mais avantajado, que o ajuda muito a suportar contatos físicos e ganhar duelos na faixa central do campo. É um cara que protegem bem a bola e usa bem o corpo para isso. Em alguns momentos até exagera, prendendo muito a posse ao invés de dar ritmo ao jogo. É mais um ponto a melhorar. Quando executa rápido e coloca ritmo nas suas ações, se torna muito influente dentro do desenvolvimento do jogo.

O jovem chileno também se comporta bem nos movimentos de apoio. É um cara que busca abrir linhas de passe e dar suporte ao companheiro que está com a bola. Se coloca bem no espaço entrelinha (nas costas dos volantes). Seu primeiro contato com a bola é bom e ele mostra bom controle. Precisa ser mais ligado, ter mais intensidade em suas ações em certos momentos. Manter o nível de concentração.

Sem bola é um cara que compete bem. Fecha espaços em transições defensivas e reage bem à perda da bola. Sua atitude após o time perder a posse é positiva. Pressiona a bola, busca encurtar. Não tem grande cacuete para marcar, mas ajuda dentro do necessário.

Como disse no início da análise, é um jovem bastante promissor. A comissão técnica alvinegra tem bons desafios com ele, tanto no uso dentro da estrutura da equipe, como no desenvolvimento de características que ele ainda pode melhorar. É um cara para ser aproveitado e ajudar. Se bem trabalhado, tem tudo para virar peça importante da equipe num médio prazo.


Sergio Díaz - 20 anos - paraguaio - 1,70m - atacante - destro

O paraguaio Sergio Díaz foi emprestado pelo Real Madrid ao Corinthians
O paraguaio Sergio Díaz foi emprestado pelo Real Madrid ao Corinthians Twitter/Corinthians

Surgiu muito bem no Cerro Portoño-PAR. Jogos conscistentes, sempre causando grandes estragos nas defesas adversárias. Tanto que o Real Madrid fez o investimento de 5 milhões de euros no jovem atacante. 

Depois de atuar pelo Real Madrid Castilla (time B merengue) e também no sub-19, foi emprestado ao Lugo, da segunda divisão espanhola. Por lá alternou oportunidades entre titulares e reservas antes de sofrer a lesão no joelho que o afastou dos gramados desde dezembro de 2017.

Díaz é um atacante de muita mobilidade. Não guarda muita posição e flutua por todo campo ofensivo. Tem o 1x1 como um dos seus fortes. Gosta deste tipo de duelo e tinha boas vitórias pessoais em solo sul-americano. Na Espanha, no entanto, sofreu bastante com o contato físico dos adversários e pecou bastante nas tomadas de decisão. Muitas escolhas erradas, retenções de bolas desnecessárias e movimentos incorretos marcaram sua passagem por lá.

É um jogador leve, de rápida troca de direção e boa aceleração em espaços curtos. Sua principal posição é de segundo atacante, tendo liberdade criativa e encostando no centroavante. Pode ir como 9, mas com características bem distantes de um centroavante mais característico. Outra possibilidade é usá-lo pelas beiradas atuando como ponta. Neste sentido, precisaria de uma readaptação, principalmente levando em conta a grave lesão que sofreu ano passado.

Em seu melhor momento da carreira, pelo Cerro, era capaz tanto de concluir jogadas dentro da área como abrir espaços e acionar companheiros em condições de marcar. Mostrava boas leituras para infiltrar e era uma arma letal nas puxadas de contra-ataques, sempre imprimindo velocidade. Bastante agressivo e proativo sem a posse. 

Por outro lado, seu último ano foi bastante inconstante. Teve dificuldades para se firmar na Europa e aparentemente pouco desenvolveu do seu jogo. É um atleta com potencial, mas que ainda não deu aquela guinada esperada na carreira. Obviamente que a lesão atrapalhou por demais sua trajetória. Seu sucesso ou não no Parque São Jorge passa por muitas variáveis: retomada da condição física, adaptação ao novo ambiente e, principalmente, em qual contexto será usado. 


PALMEIRAS

Gustavo Gómez - 25 anos - paraguaio - 1,85m - zagueiro - destro

Gustavo Gómez chega para reforçar a defesa do Palmeiras
Gustavo Gómez chega para reforçar a defesa do Palmeiras Getty Images

Após surgir muito bem no Libertad-PAR, teve seu ápice de desempenho atuando pelo Lanús-ARG. Gustavo Gómez tem passagens pela Seleção Paraguaia desde as categorias de base. Sua ida para Itália foi vista como muito bons olhos, mas, de fato, não conseguiu se firmar no Milan. Era elogiado durante os treinamentos, mas sempre que ganhava chances, não correspondia. Analisando alguns jogos, muito disso se deu também pelo contexto apresentado pela própria equipe, que oscilou muito nos últimos anos. 

Imposição física e jogo aéreo talvez sejam as suas grandes características. Trata-se de um zagueiro que vai muito bem nos embates corporais. Quando encurta nos atacantes no timing certo, dificilmente leva a pior. É uma parede. Apesar de ser muito forte, tem boas recuperações. Não é totalmente lento. Vai até bem nas coberturas de profundidade. Quando arranca num espaço maior atinge boa velocidade. A troca de direção, no 1x1, talvez seja seu calcanhar de aquiles. 

Com bola não é um zagueiro totalmente limitado. Tem algum recurso até. Sai com segurança, acha bons passes. No Lanús, por exemplo, era muito explorado nesta iniciação de jogadas e fazia muito bem, com bolas verticais e importantes para a construção ofensiva. Aí depende muito do contexto e do modelo de jogo que o mesmo estará inserido.

Entende bem o posicionamento de linha defensiva de 4. Faz boas leituras para coberturas. Joga como zagueiro tanto pela direita quanto pela esquerda e até nas laterais já chegou a ser usado. É um cara que dá certa versatilidade para o setor. Sofreu um pouco na Itália contra ataques mais rápidos, principalmente por se precipitar na hora de buscar os botes e desgarrar da linha. Sem dúvida é algo que pode crescer ainda.

De um modo geral foi uma boa cartada do Palmeiras. Acredito que Gómez pode atuar no Brasil no mesmo nível que teve na Argentina. Se assim for, é reforço para chegar e jogar. As duas temporadas mais apagadas no Milan também são relevantes, principalmente na questão da confiança. Era esperado um salto, o que não aconteceu. É aguardar para ver como o próprio atleta vai lidar com isso.


SANTOS

Bryan Ruiz - 32 anos - costa-riquenho - 1,88m - meia-atacante - canhoto

Bryan Ruiz vem sendo a referência da seleção costa-riquenha nos últimos anos
Bryan Ruiz vem sendo a referência da seleção costa-riquenha nos últimos anos Gazeta Press

Investida interessante do Santos para uma lacuna que falta no elenco: jogadores com característica de organização. E é neste sentido que o costa-riquenho tem mais a oferecer ao Santos em um ano bastante difícil oscilante até aqui.

Bryan tem uma larga experiência no futebol europeu. Passagens por Bélgica, Holanda e Portugal fizeram dele a grande referência técnica da seleção da Costa Rica. O novo reforço santista tem sido a principal figura de sua nação nos feitos atuais, como boas campanhas em Eliminatórias e chegadas a Copa do Mundo. Inclusive com muito a ofertar no aspecto de comunicação e liderança dentro de campo. 

Trata-se de um jogador altamente versátil. Pode atuar como um segundo volante, meia e até pelo lado do campo (neste caso flutuando por dentro para gerar jogadas). Certamente muito do jogo do Santos passará por seus pés daqui para frente. É um cara capaz de controlar e dar ritmo às jogadas. Entende bem a hora de segurar ou acelerar o jogo, consegue fazer boas leituras neste sentido.

Tecnicamente está longe de ser um cara altamente refinado. No entanto, tem bom equilíbrio em várias vertentes. Acha bem os companheiros em passes mais profundos. Busca movimentos de apoio e abre bem linhas de passe. É um cara que, independente da função que estiver cumprindo, tem boa chegada na área. Sabe o momento de infiltrar e tem lá seus momentos de definidor. Claro que tais comportamentos vai depender do que Cuca usará o reforço.

Fisicamente Ruiz já demonstra certo declínio. Nunca foi um cara de muita velocidade. Acelera mais no passe do que propriamente em sprints e trocas de direção rápidas. Neste sentido, não espere muita coisa dele. Não vai ser o cara do 1x1 constante e jogadas de aceleração. Muito por isso, é um cara que busca se posicionar bem. Já tem vivência quanto a isso e compensa tais fragilidades com a inteligência de jogo desenvolvida nos últimos anos.

Sem bola costuma preencher bem espaços. Não tem uma transição defensiva potente, seja no retorno da equipe ou mesmo no perde e pressiona, na reação imedianta após a perda da bola. Até por isso o vejo mais pelo centro do que propriamente pelo lado. Teria dificuldades para acompanhar um lateral, por exemplo. Principalmente com sequências fortes do nosso calendário.

Certamente é um reforço interessante. Ainda mais pelos moldes, já que Bryan vinha sem contrato após passagem pelo Sporting-POR. Existe a questão da adaptação agora. Não só ao páis, mas ao modelo de jogo também. Cuca costuma privelegiar a intensidade. Já o costa-riquenho pode ajudar de outras maneiras.  


Carlos Sánchez - 33 anos - uruguaio - 1,70m - meio-campista - destro

Santos contratou o uruguaio Carlos Sánchez que estava no México
Santos contratou o uruguaio Carlos Sánchez que estava no México Gazeta Press

Mais uma aposta do Santos em um jogador muito polivalente. Com passagens importantes por River Plate e seleção uruguaia, Sánchez oferece uma série de opções para este início de trabalho do Cuca. Pode atuar como um "ponta-volante", segundo volante ou até mesmo como lateral-direito (fez isso em algumas oportunidades).

Suas melhores aparições são como o beirada direito no 4-4-2 em linha ou mesmo como um volante pela direita num meio de campo com um losango. É um cara capaz de cobrir uma grande faixa de campo e fazer isso numa intensidade insana. Sua maior caracterísitica é essa, a intensidade. Jogador extremamente agressivo, com e sem a bola. Compete demais. Equilibrado em questões defensivas e ofensivas.

Tecnicamente não tem grande repertório. Não é um cara de controle, de jogo curto e organização do jogo. É mais agudo. Trabalha melhor em transições. Seja para atacar espaços durante a chegada ao ataque ou mesmo nas reações pós-perda da bola. Dependendo da função que fizer, tem capacidade de pisar área e fazer boas ultrapassagens para chegar ao fundo.

Fisicamente tem grande resistência. Obviamente que, pela idade, é natural que se inicie um declínio neste sentido. Mas é um cara capaz de jogar em uma alta intensidade por grandes períodos de tempo. Indo e voltando e até pegando as duas áreas. Apesar de não ter grande estatura, vai bem nos contatos. É "parrudo", ganha na trombada. 

Sem bola agride o portador a todo o momento. Pressiona muito a bola. Reage bem à perda. Morde o tempo todo. Tem uma característica que casa muito com o jogo do Cuca. De sufocar, ganhar a posse e acelerar. Pode encaixar bem neste sentido.

Sua passagem pelo México foi menos constante. Mesmo assim esteve na Copa do Mundo e teve oportunidades na Rússia. Não conseguiu se firmar na equipe de Tabárez durante a primeira fase, mas se mostrou uma peça importante no grupo.

A cultura de futebol do Santos é de futebol leve, com a bola, bem jogado. Não espere do uruguaio alguém com capacidades para acrescentar neste sentido. Está longe de ser um cara para dar criatividade ao meio de campo. Por outro lado, tem outras qualidades a oferecer. Aí vai do tipo de futebol praticado e as funções que o mesmo terá em campo.


Derlis Gonzélez - 24 anos - paraguaio - 1,72m - ponta - destro

Derlis González trocou o Dínamo de Kiev pelo Santos
Derlis González trocou o Dínamo de Kiev pelo Santos Getty Images

Apesar dos seus só 24 anos, Derlis já tem rodagem no mundo do futebol. Cria do Rubio Ñú-PAR, frequenta as seleções de base do Paraguai desde o sub-17. Ainda passou por Benfica, Guarani-PAR, Olimpia-PAR e Basel-SUI antes de chegar ao Dínamo de Kiev, seu último clube. Também é peça costumeira na seleção principal de seu país desde a temporada 2015.

Ponta bem característico. Pode atuar em ambos os lados do campo. Jogador de extrema velocidade, vertical e agudo nas suas ações. Busca frequentemente o 1x1, é bem forte neste quesito. Jogador capaz de vencer duelos pessoais neste sentido. Se bem colocado, tem grande poderio de desequilíbrio pelas beiradas. Joga bem no limite da linha defensiva adversária, com boa leitura para infiltração. A diagonal de fora para dentro, nas costas do lateral, é um dos seus movimentos preferidos. 

Tem boa relação com a bola. Jogador talhado para contra-ataques. Funciona muito bem em transições. Muita energia para fazer todo corredor, inclusive nas exigências defensivas. Baixa até o final, acompanha as subidas dos laterais. Faz bem a função.

Fisicamente tem grande resistência e pulmão para trabalhar em alta intensidade. Seu ponto fraco é no contato físico. Não vai muito bem nos duelos corporais. Por isso busca executar rápido, se livrar do choque antes mesmo do marcador encurtar. Quando prende demais a bola, prejudica bastante seu jogo. A tomada de decisão também é falha por vezes. Se precipita, precisa aprender controlar melhor o ritmo e não acelerar em todas. Pelo alto também não tem grande força. Não é um atleta para jogar curto, triangular... Precisa de espaço e campo para potencializar seu jogo. Tem grande dificuldade num cenário mais propositivo.

De fato se trata de uma boa contratação. A grande questão é que chega para uma função/posição onde o Santos é bastante forte. Certamente brigará forte por posição, mas a concorrência será forte. Pode ser peça importante nos desafios que a temporada colocará pela frente.


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Fonte: Renato Rodrigues, do DataESPN

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