Os contextos da Seleção na Copa, o Paulinho, a cabeça e a importante "escapada" da Suécia

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Philippe Coutinho foge da marcação de Matic durante partida entre Brasil e Sérvia
Philippe Coutinho foge da marcação de Matic durante partida entre Brasil e Sérvia André Mourão/MoWA Press

O título acima tem muita informação, confesso. Mas trata-se de uma ordem lógica. E ela tem a ver com maneira que tratarei a classificação da Seleção Brasileira para as oitavas de final da Copa do Mundo. Tentarei fazer uma espécie de balanço, de acertos e erros, escolhas e, principalmente, contextos. Estes sim são muito importantes para se assimilar.

Talvez a grande lição para Tite e seus comandados até aqui tenha a ver com os cenários enfrentados.  E de fato o contexto apresentado pela Sérvia nos privilegiou.  Isso não tem a ver com tirar o mérito, ao contrário, mas como forma de entender nossas virtudes e potencializa-las. 

Nos vimos desconfortáveis em campo contra Suíça e Costa Rica. Cada um destes adversários têm suas particularidades, mas também têm algumas semelhanças importantes para levarmos em conta durante a análise.

Ambos usaram um modelo de jogo com uma linha defensiva um pouco mais baixa. Conforme o tempo passava, o bloco defensivo se enfiava dentro da própria área. Com isso, zero profundidade e espaço nas costas dos zagueiros para atacar. Perceba nas imagens abaixo, como os adversários tiraram "campo para correr" nas costas da defesa (LEIA AS LEGENDAS TAMBÉM). E comece a refletir sobre as características de nossos principais jogadores.

Suíça encaixou melhor a marcação no segundo tempo e, com a linha defensiva mais baixa, colocou dificuldade para o Brasil infiltrar
Suíça encaixou melhor a marcação no segundo tempo e, com a linha defensiva mais baixa, colocou dificuldade para o Brasil infiltrar DataESPN
Já a Costa Rica usava um sistema com três zagueiros e uma linha defensiva com 5, mas, assim como a Suíça, fechava bem os espaços na área
Já a Costa Rica usava um sistema com três zagueiros e uma linha defensiva com 5, mas, assim como a Suíça, fechava bem os espaços na área DataESPN

E ainda tinha um detalhe ainda mais importante, principalmente olhando para o segundo tempo da Suíça: muita pressão na bola.  Este é um dos princípios básicos para não tomar lançamentos nas costas da defesa, principalmente quando se joga com ela mais alta. No gol marcado contra a Sérvia, vemos uma situação diferente das imagens acima. Ninguém encurtando no homem da bola, linha defensiva mais alta e Paulinho se projetando. Observe também o movimento de Gabriel Jesus arrastando os dois zagueiros, abrindo espaço onde o volante artilheiro se projetar (veja na imagem abaixo).

Linha defensiva da Sérvia mais alta, Gabriel atrai os zagueiros e Paulinho se projeta. O contexto diferente
Linha defensiva da Sérvia mais alta, Gabriel atrai os zagueiros e Paulinho se projeta. O contexto diferente DataESPN

Agora voltando às características dos  nossos jogadores, mas sem tirar o olhar para o contexto. Paulinho  e Gabriel Jesus foram criticados pelas suas duas primeiras aparições na Copa. Mas vamos brevemente dissecá-los: em qual principal característica eles se assemelham? São infiltradores, caras que fazem leituras dos espaços para se projetar no ponto futuro. Precisam de profundidade e campo para atacar. Contra linhas defensivas mais baixas, mesmo que a bola entre num lançamento, o goleiro vai antecipar e ficar com a bola. Este tipo de situação, definitivamente, trava o que cada um oferece de melhor.

É aí que entra a importância de chegar, e não em estar. Contra times que usam blocos defensivos mais baixos, ambos ficam "presos" na área e perdem essa essência. A referência deles é o espaço. Observar, detectar e chegar neles. Autor do importante e primeiro gol, Paulinho tem sua melhor versão assim. Por isso, pelo menos para mim, fazia mais sentido ter Firmino e Renato Augusto/Fred nos primeiros confrontos. Jogadores mais associativos, que mostram mais mobilidade e se sentem mais confortáveis em um espaço muito reduzido. 

E é claro que isso não quer dizer que eles não servem. Ao contrário. São super influentes quando enfrentam este ambiente. Quando não, ajudam a dar profundidade, a ganhar duelos físicos e no trabalho sem bola. São agressivos e voluntariosos. Ajudam de outra forma, talvez fora do holofote. Mas é importante enxergar o que cada jogador oferece em determinada circunstância.

Agora chegamos à cabeça. E ela não tem a ver apenas com a Seleção Brasileira. Bolas paradas, sistemas defensivos fortes, VAR... Tudo isso tem sido pontos recorrentes na Copa. Mas não tem como tirar o fator psicológico no Mundial. Vemos na Rússia, além de toda riqueza tática e técnica que as equipes trazem, o mental jogando para cima e para baixo seleções de alto nível. Grandes times, não só pelo histórico, mas na qualidade também, se desmanchando em situações de alta pressão. Argentina e Alemanha são grandes exemplos. O gol não sai, o campo diminui e as ideias pré-estabelecidas vão se deteriorando com o tempo. Ansiedade, decisões precipitadas, escolhas erradas... 


Alemanha, nervosa, sucumbiu perante à Coreia do Sul e deu adeus à Copa do Mundo
Alemanha, nervosa, sucumbiu perante à Coreia do Sul e deu adeus à Copa do Mundo Saeed Khan/AFP/Getty Images

E foi um enredo que vivemos na segunda etapa contra a Suíça e também contra a Costa Rica. Hoje, contra a Sérvia, melhoramos neste sentido. Obviamente que um gol condiciona muita coisa dentro do futebol, mas sim, vi uma equipe mais leve, desfrutando mais do jogo, funcionando de maneira mais natural. Neymar se mostrou mais estável e coletivo. Fazendo as leituras corretas, entendendo a hora de prender e soltar a bola. Aliás, mais solto. Depois de meses parado, os movimentos e gestos técnicos vão voltando ao normal. Algo importantíssimo para a sequência na competição.

A Copa do Mundo de Coutinho até aqui é monstruosa. Adaptado ao jogo por dentro, ajudando na iniciação das jogadas e cobrindo espaços durante as transições. Casemiro, Thiago Silva e Miranda fortes nos duelos pessoais. Antecipando e ganhando bolas para ativar o segundo lance, encurtando e retardando na hora certa. A dupla de zaga tem um desempenho impecável até aqui. Fagner, que seria uma catástrofe para muitos, sendo o que é faz anos. Regular. Nem para cima e nem para baixo. Segurando muito bem o rojão apesar de toda responsabilidade que lhe caiu sobre os ombros.

A preocupação, pelo menos na vitória contra a Sérvia, foi o lado esquerdo. Mladen Krstajic iniciou a partida com Rukavima na lateral-direita. O treinador sérvio tentou gerar jogo por ali com um jogador mais ofensivo. Em alguns momentos, com Neymar não baixando até o final para ajudar Marcelo/Filipe Luis, algumas situações foram criadas. As boas coberturas de Coutinho e Casemiro estabilizaram o problema, que pode ser melhor trabalhado nos próximos dias. É um ponto para ajustar.

Por fim, chego à "escapada" da Suécia. Vai parecer meio louco da minha parte, mas não ter batido de frente com a Suécia neste momento foi importante. Caso não ficasse em primeiro, o Brasil pegaria um time extremamente chato de enfrentar. E aí voltamos para o contexto. Apesar de não ser uma equipe com grande repertório técnico,  os suecos proporcionam o jogo que mais nos incomoda. Bloco defensivo baixo, pouco espaço, imposição física e muita concentração.

Não à toa, deixou Itália, Holanda (Eliminatórias) e Alemanha para trás até aqui.  Certamente seria um jogo de muita exigência da nossa parte. Não só ofensiva, para desequilibrar o sistema adversário com passes e dribles, mas também psicológica. Aquele gol que não sai. A rigidez nos movimentos. A posse sem efetividade. Cenário completo para fazer a gente entrar em parafuso dentro do próprio jogo. México e Alemanha sentiram isso na pele.

O México também é perigoso. Tem um treinador que não pensa duas vezes em ousar (INCLUSIVE NAS BOLAS PARADAS, CLIQUE AQUI), mas a tendência é de mais espaço. Mais campo para atacar, mais trocação. Acho que vai ser por aí.

O que não dá é para achar que vai ser fácil - e digo isso para nós torcedores e analistas. É o momento para firmar o pé no chão e seguir as convicções. Mas também dar espaço para um ajuste ou mudança. Os contextos, num torneio tiro curto como a Copa, são importantes e devem ser levados em conta. Até as oitavas!


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Por que não Allan, Tite? Entenda os motivos para o volante do Napoli não ser lembrado pela seleção

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN

Allan comemora gol marcado contra a equipe do Sassuolo
Allan comemora gol marcado contra a equipe do Sassuolo Getty Images

A seleção brasileira volta a campo na próxima sexta-feira, às 14h45, na última data FIFA de 2018, contra a Arábia Saudita. Depois de uma primeira lista de convocados pós-Copa do Mundo com algumas novidades como Lucas Paquetá, Richarlison e Éverton, Tite foi para a última chamada deste ano com uma ausência bastante sentida por quem acompanha o futebol italiano nos últimos anos: Allan, meio-campista do Napoli.

Revelado pelo Vasco e com passagem pela Udinese-ITA antes de chegar ao San Paolo, o brasileiro vai para a sua quarta temporada na cidade de Nápoles. Bastante regular desde que chegou ao clube, principalmente na temporada passada, onde foi uma das peças mais importantes da equipe treinada por Maurizio Sarri (hoje no Chelsea), Allan é presença frequente nas discussões da comissão técnica, que o segue de perto principalmente pensando no planejamento para a próxima Copa do Mundo.

Na visão da comissão técnica de Tite, o maior argumento para a não chance até agora está ligado ao modelo de jogo pensado para o ciclo até o Catar em 2022. A ideia é ter um time com mais controle daqui para frente, principalmente na faixa central do campo. Existe o diagnóstico que o tripé de meio no último Mundial, apesar das boas características físicas e até de infiltração, poderia ter tido uma maior influência na equipe quando tinha a posse da bola.  E é aí que as características de Allan, no modo de ver da comissão, não batem tanto com a proposta.

Se olharmos para as opções de meias-centrais desta última convocação, se vê muito essa tendência mais criativa e de controle de ritmo por dentro, principalmente se levarmos em conta o fato de Arthur e Fred cada vez mais influentes dentro do grupo da seleção. Renato Augusto, remanescente da Copa do Mundo, também tem essa característica de pausar/acelerar o jogo. Coutinho, dos quatro, talvez seja o mais agudo. Paulinho, que foge bastante desse perfil, não tem sido lembrado nas últimas oportunidades.

Na leitura feita pela comissão técnica, Allan vive sim um grande momento, mas se trata mais de um suporte ao jogo de posse trabalhado no Napoli. Com grande imposição física e intensidade nas ações com e sem bola, mas sem ser um destaque técnico e de grande capacidade de construção ofensiva. Até por isso existe internamente a ideia de que, dentro do contexto atual, o ex-vascaíno tem mais características para atuar como primeiro volante e não mais avançado como faz na Itália, onde é o médio pela direita (funcionando como um 2º volante) no tripé de meio de campo do 4-3-3 – Ancelotti, seu atual treinador, também tem variado para o 4-4-2.

 Dentro de um contexto mais propositivo, principalmente quando treinado por Sarri, Allan cresceu muito no aspecto técnico. O brasileiro sempre foi reconhecido por ser um volante de muita força e resistência, capaz de cobrir grandes faixas de campo, mas com o atual treinador do Chelsea ganhou mais repertório no jogo curto e capacidade de infiltração. Mesmo assim, para ser um dos dois meias deste 4-1-4-1 da seleção, a comissão técnica entende que lhe falta uma maior efetividade no último terço do campo. A análise geral é que se trata de um atleta com bom passe, mas que ainda não é diferenciado dentro deste quesito.

Por outro lado, a grande capacidade de exercer pressão na bola e de reagir muito bem à perda da posse, o credencia fortemente a ter chances num futuro próximo. Até por isso, dentro das reuniões na Granja Comary, não se fecha a possibilidade do napolitano ser chamado como um meio-campista mais avançado, principalmente por, aos olhos do staff, ter a capacidade de exercer mais de uma função em campo.

Ao meu ver, escolhas neste grau de detalhamento, principalmente envolvendo uma seleção com muitas opções de qualidade, acaba por ser muito por gosto em vários momentos. Vejo a questão da estatura como um ponto importante também nesta briga – aí é uma opinião e não informação. Wallace e Casemiro, os 1ºs volantes da lista, têm 1,88m e 1,85m respectivamente. Já Allan tem 1,75m. Essa questão da estatura, por exemplo, foi muito temida durante a própria Copa, já que Tite tinha um time titular relativamente baixo. Pode ser algo levado em conta, principalmente por se tratar de uma posição que entra muito nas disputas de 1ª bola.

Por outro lado – e aí também entra a opinião do autor do post -, o jogador do Napoli traria uma profundidade maior ao elenco. Além de trazer força física e a capacidade de infiltração para o setor, teria maior aptidão associativa e de construção de jogo que Paulinho, por exemplo. Neste caso seria uma opção mais equilibrada para o treinador em todos os sentidos. Temos também que levar em conta que se trata de um setor muito disputado. Talvez o que mais brotou jogadores de qualidade nos últimos anos. Mas eu já teria dado uma oportunidade ao jogador do Napoli. Seu desempenho, principalmente da temporada passada para cá, é o suficiente para isso. Por outro lado, também acredito que isso deva acontecer cedo ou tarde. 

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O início da era Emery: quais são as principais ideias do espanhol nestes primeiros nove jogos pelo Arsenal?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN

Unai Emery iniciou bem o seu trabalho pelo Arsenal com sete vitórias em nove jogos
Unai Emery iniciou bem o seu trabalho pelo Arsenal com sete vitórias em nove jogos EFE/RONALD WITTEK

Foram 22 anos sob só um comando técnico no Arsenal. Depois da revolução, das glórias e um fim de trajetória bem abaixo do esperado, Arsene Wenger teve que passar o bastão no clube londrino. E o escolhido foi Unai Emery. 

O espanhol, com um trabalho brilhante pelo Sevilha, mas sem um grande sucesso em meio às cifras altas investidas pelo PSG, viu seu anúncio despertar vários sentimentos no Emirates Stadium: confiança, pé atrás, uma nova oportunidade para se firmar...  

Depois de nove jogos, incluindo Premier League, Liga Europa e Copa da Inglaterra, buscamos então destrinchar as principais características - e também diferenças do antigo trabalho - que estão presentes no atual desempenho dos Gunners. Apesar das duas derrotas logo de cara para Manchester City e Chelsea, pela Premier League, Unai e seus comandados agora vivem uma série de sete triunfos consecutivos.

Na análise abaixo foram usados mais lances da última partida, vitória por 2x0 contra o  Watford, mas trata-se de padrões que refletem grande parte dos últimos compromissos do time nesta temporada. No geral, é possível enxergar um trabalho promissor, com erros e acertos claro, mas que ainda tem um imenso caminho pela frente. Aos poucos Emery vai dando seus traços a um novo Arsenal. Se os títulos vão vir? Aí é outra história.  

O ARSENAL COM A BOLA

Com a posse o Arsenal já tem um padrão bem claro sob o comando de Unai Emery. A saída de bola, num primeiro momento, é feita de maneira mais sustentada (ou seja, com zagueiros, laterais e volantes próximos e tentando gerar superioridade numérica no setor).

Além da busca ser por ter mais gente que o rival nesta faixa inicial do campo, também se trata de uma medida mais cautelosa, já que, caso aconteça a perda da posse, você tem um maior número de jogadores para tentar a recuperação imediata ou mesmo se colocar atrás da linha da bola.

Instalados no campo do adversário, os Gunners abrem o campo com os laterais Bellerín e Monreal. São eles os incumbidos de dar amplitude para tentar descompactar os adversários. Dos volantes, Xhaka é quem tem um pouco mais de liberdade para avançar. Mesmo assim é muito ativo na saída de bola ao lado de Torreira.

E este espaço aberto no corredor para os laterais subirem se encaixa muito bem com as movimentações de Özil e Aubameyang. Os dois pontas saem da beirada e circulam pelo centro do campo de maneiras bem distintas, inclusive (abaixo mais informações sobre isso). Por dentro, se juntam a Ramsey, Lacazette e Xhaka. Neste momento o sistema 4-2-3-1 se desfaz com a mobilidade ofensiva da equipe e vira algo próximo de um 2-2-4-1. De fato é um Arsenal que busca muito mais a construção pelos lados, mesmo tendo muita gente posicionada por dentro. E está aí o desafio de Unai: aumentar esse repertório e também usar mais as investidas pelo meio.

Em sua essência das últimas temporadas, inclusive as mais vitoriosas, o Arsenal não deixou ser uma equipe afim de propor o jogo. Tanto que carrega a quinta maior média de posse de bola da Premier League até o momento com 56,4% (atrás de City, Liverpool, Chelsea e Tottenham, em sua maioria rivais com modelos mais consolidados).

Talvez a grande mudança dos tempos de Arsene Wenger seja na velocidade da posse. É bem nítido como a equipe busca ser mais vertical. É um time que ataca melhor os espaços, que busca ser mais aguda e que tenta ganhar campo sempre o mais rápido possível. Um início de trabalho com mais movimento ofensivo, mais infiltrações e muitas trocas de corredor.

Tal urgência em conduzir a bola até o terço final mudou um pouco o cenário de posse do Arsenal se compararmos com a temporada passada quando a média foi de 61,3%. No resumo da obra, se trata de um time mais elétrico, direto e mais intenso nas ações com bola. Confira um pouco dos aspectos citados no vídeo abaixo:

  

O PERDE E PRESSIONA E  O ENCAIXE DE LUCAS TORREIRA NAS TRANSIÇÕES

Contratado junto à Sampdoria para esta temporada, Lucas Torreira não chegou ao Emirates Stadium como um titular absoluto. O fato de ter participado da reta final da Copa do Mundo também atrasou um pouco seu retorno e indiretamente a sua adaptação. Com isso o volante foi entrando aos poucos no time que até então tinha o também promissor Guendouzi ao lado de Xhaka na linha de volantes.

Apesar de o jovem francês mostrar um bom repertório técnico, principalmente na construção do jogo, o uruguaio acabou tomando espaço muito por ser o fio condutor de um conceito muito característico destes primeiros jogos com Unai: o perde e pressiona. Sua agressividade e ações intensas sem bola deram o equilíbrio que Guendouzi ainda não havia entregado.

E tais características vão de encontro a toda estrutura de jogo da equipe.

Quando o Arsenal se organiza em fase ofensiva, Torreira é o cara do balanço defensivo. Ou seja, fica posicionado mais recuado, fazendo companhia aos zagueiros na retaguarda e sendo importante para neutralizar um possível contra-ataque adversário. Além da boa saída de bola, o jovem uruguaio tem mostrado uma incrível leitura e entendimento do jogo para escolher os momentos de antecipar, desarmar, pressionar ou mesmo e compensar espaços.

A importância de reagir rápido e de forma coordenada à perda da posse é de extrema importância dentro dessa ideia de se instalar no campo do adversário. É um ponto crucial dentro do modelo de jogo trabalhado até aqui. É sanar na raiz um possível contra-ataque quando você tem pouca gente atrás da linha da bola.

Torreira é muito inteligente e importante neste aspecto, mas trata-se de uma ação coletiva e, por ser muito arriscada em vários momentos, precisa ter margem de erro quase que zero. Caso contrário, falhas podem custar tiradas da pressão, espaços, gols e até campeonatos. De fato é algo que exige um nível de entendimento do jogo muito bom, além da intensidade máxima em cada momento de fazer pressão na bola. No vídeo abaixo temos exemplos não só de ações do time neste sentido, mas também da importância do jovem Torreira como o gatilho de toda essa mecânica.

FECHANDO O LADO DO CAMPO

Se não consegue retomar a bola ainda durante a transição defensiva, como vimos acima, o Arsenal também já mostrou alguns padrões fortes quando entra em fase defensiva. E sem a posse, de fato, usa a estrutura do 4-2-3-1, muito presente no trabalho vitorioso de Unai Emery pelo Sevilha. Tal “desenho” aparece quando esse momento de pressão pós-perda é ultrapassado. Se a bola sai da pressão, cabe aos jogadores se colocarem atrás da linha da bola o mais rápido possível.

Quando recuado,  o comportamento mais forte dos Gunners é de “encurtar o campo”. Por isso os jogadores têm a missão de flutuar para o lado que a bola estiver e juntar o máximo de jogadores próximos do setor. Com isso a equipe consegue manter superioridade numérica no espaço que a bola está na maioria das vezes.

O calcanhar de Aquiles talvez seja a rápida troca de corredor. Se o adversário conseguir tirar a bola da pressão e atacar o lado contrário, que certamente estará mais vazio, o Arsenal tende a ter problemas. Por isso é muito importante sempre pressionar a bola. Não dar espaço para passes mais longos e que desequilibrem todo o sistema.

O sistema de coberturas também ficou mais alinhado. O comportamento do Arsenal sem a bola, num todo, também sofreu uma grande mudança. Depois das primeiras rodadas complicadas, o time tem conseguido atingir um bom nível de concentração e agressividade. Se pressiona muito mais a bola. O vídeo abaixo tem um trecho mostrando um pouco disso, além de outras questões citadas até aqui.

AUBA, LACA E ÖZIL: COMO ENCAIXOU?

Apesar de serem os pontas do 4-2-3-1, necessitando retornar pelas beiradas em fase defensiva, Özil e Aubameyang  cumprem papeis bem diferentes no atual modelo de jogo do Arsenal quando o time ataca seus adversários.

Ambos saem da ponta para gerar jogo pelo centro. Enquanto o meia alemão faz o movimento buscando associações, jogo curto e por vezes se colocar nas costas dos volantes, o atacante gabonês fica mais no limite da linha defensiva, muitas vezes gerando profundidade. Por ter características muito mais terminais, seja infiltrando ou mesmo concluindo dentro da área, o ex-jogador do Borussia Dortmund não é tão influente na circulação da bola como o camisa 10.

Temos visto também um Özil um pouco mais intenso e comprometido nas ações sem bola. Menos disperso, vem imprimindo ritmo com passes ao invés de prender a bola desnecessariamente. O pós-perda também evoluiu. 

Como Aubameyang cumpre bem o papel da profundidade em vários momentos, Lacazette acaba ganhando mais liberdade para sair da área e participar da construção das jogadas. O francês, aliás, tem feito jogadas primorosas de costas para o gol e, em muitos momentos, partindo de fora para dentro da área, se aproveitando com mais eficácia dos espaços. 

Mesmo não tendo grandes atuações ofensivas nas últimas partidas, Ramsey, o meia-centralizado do sistema, acaba por ser um ponto importante de equilíbrio para este trio ofensivo. É o cara mais agressivo e com melhor timing para puxar pressões no terço final. Acrescenta muito neste sentido, sendo o primeiro a fazer o adversário “jogar para trás”, ajudando em vários momentos o time a ter tempo de se reorganizar em transição. 

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Entrevista do mês: Larghi fala em reconstrução no Galo, revela inspiração em Guardiola e Sarri e diz que falta sequência na Seleção

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Larghi é um dos treinadores mais jovens trabalhando no Brasileirão
Larghi é um dos treinadores mais jovens trabalhando no Brasileirão Bruno Cantini/Atlético-MG

Thiago Larghi não é só o típico caso de estar no lugar certo e na hora certa. Quando o Atlético-MG se viu numa sequência ruim de resultados - e também  de desempenho - no início de fevereiro deste ano, coube ao ainda jovem auxiliar técnico substituir interinamente Oswaldo de Oliveira no comando da equipe.

O que de início era só um momento de transição, sendo que o próprio Thiago esperava a chegada de um outro profissional, acabou se estendendo. Após conquistar bons resultados e dar, enfim, um padrão de jogo ao Galo, o carioca de de Paraíba do Sul, com seus 37 anos, foi enfim efetivado em junho. Início de Brasileirão arrasador, perdas de peças importantes durante a Copa do Mundo, sequência de oscilação da equipe, retomada do padrão... Não à toa, devido a todas circunstâncias, seu trabalho é apontado por muitos como um dos melhores do Brasil.

Formado em Educação Física, Larghi teve uma rápida ascensão no futebol. Depois de ter tentado ser jogador, foi para faculdade, fez cursos e iniciou sua trajetória com pesquisas junto à Jairo do Santos, que o apresentou à Carlos Alberto Parreira. Passou por Botafogo em 2011 antes de virar analista da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2014. Já participante da comissão técnica de Oswaldo, ainda teve passagens por Sport e Corinthians.

Nesta entrevista, fomos além da sua breve experiência como treinador. Além de todo "retrabalho" feito no Galo e da adaptação de novos jogadores, muitos deles estrangeiros, Thiago Larghi abriu a sua cabeça para falar de futebol. Foi da sua admiração ao futebol praticado por Pep Guardiola e Maurizio Sarri até a experiência dentro do 7 a 1 durante a Copa do Mundo no Brasil. 

Em quase 40 minutos de papo, falou da necessidade de ser claro e objetivo nos treinos, da sua relação com o Jogo de Posição, das suas primeiras referências no futebol e até sobre a dificuldade do futebol brasileiro em se organizar melhor com a posse de bola. Disse que espera do Atlético-MG, acima de tudo, um time equilibrado e que teve que colocar muito treino e estudo para arrumar problemas defensivos. 

Confira a entrevista  na íntegra:

Como enxerga o estágio do Atlético-MG neste momento? Quais são as maiores dificuldades para adaptar novamente um modelo em meio a tanta mudança no elenco?  Viu a necessidade de algum ajuste mais drástico pelas características dos novos jogadores?

Realmente durante a parada para a Copa mudou bastante algumas peças. Agora é o momento de entrosar o time. Os jogadores que chegaram precisam compreender e se adaptar aos jogadores que já estavam aqui. A principal dificuldade, além das saídas dos jogadores e a chegada de outros, foram as lesões. Teve muita perda nesse meio tempo. A busca agora é pelo padrão, com novas características, mas buscando um time bem equilibrado. É por isso que estamos trabalhando.

Vocês viveram um período bem oscilante após a Copa, qual foi o maior diagnóstico que vocês chegaram? O que ainda existe a necessidade de ajustar?

É complicado. As coisas mudam tanto e mudam tão rápido... Às vezes você vai e acerta algum aspecto da transição defensiva, um retardo, uma pressão pós-perda. Mas aí tem a mudança dos jogadores. De jogo para jogo variou muito estes detalhes. Se não me engano a gente usou três ou quatro linhas defensivas diferentes em seis jogos. Aí é mais difícil retomar o padrão. Mas de um modo geral temos tomado poucos gols de transição defensiva. O que vinha chamando mais a atenção é a questão da bola parada. Teve alguns sofridos neste sentido, fizemos alguns ajustes e o time tem respondido. Adotamos uma nova postura, já vejo os atletas mais conscientes do que fazer. E isso para tudo: lateral direto, faltas cruzadas na área... Já tenho encarado como página virada.

E como buscar essa melhora nas bolas paradas defensivas? É questão de repetição? Era necessária uma mudança de postura de vocês?

A bola parada hoje em dia, dependendo da postura que você adota, é 50% dos gols. Os números durante a Copa chegaram a ser quase isso por um momento. Muita situação assim. Então a gente tinha que dar uma carga maior disso nos treinamentos, dar mais atenção mesmo. Usamos bem as semanas buscando isso.

OBS: Entrevista foi feita no fim do mês de agosto, por isso o gol levado de bola parada contra o Atlético-PR não entrou na conversa.

Viu alguma mudança durante a Copa do Mundo nos comportamentos em bola parada? Acha que o VAR vai mudar um pouco a postura e até a metodologia de algumas equipes neste momento do jogo? O que mais te chamou a atenção durante o mundial?

Ficou nítido que o VAR acabou inibindo mais o contato, o empurrão mais duro. A partir do momento em que a arbitragem pode rever o lance, tudo muda. Até a questão de deslealdade, que foge do jogo. Acho que de fato isso foi bem evitado. Por outro lado muitos pênaltis foram marcados. Quem não se atentou a isso na preparação acabou sofrendo mais. Mas o que mais me chamou a atenção foi algumas seleções que deixaram muitos jogadores em rebotes para puxadas de contra-ataque. A Bélgica mesmo. O próprio México que fez bastante isso. E tiveram êxito em contra-ataques após escanteios defensivos, por exemplo. Defendendo já pensando na transição ofensiva. Isso não é algo muito comum atualmente. As equipes estavam se defendendo com nove ou dez dentro da área. E estas seleções fugiram um pouco do padrão, fizeram uma opção interessante para tentar os contra-ataques. Era algo que acontecia ainda nas Copas de 2002 e até 2006, mas que nas últimas temporadas foi mudando, com todo mundo defendendo com todos os jogadores. Agora teve o retorno de uma ideia.

OBS: durante a Copa do Mundo o blog fez um post exclusivamente sobre isso, com o México de Juan Carlos Osório. Clique aqui e veja.

Obviamente que na hora de escolher uma maneira de se defender em bolas paradas vocês precisa olhar para a característica dos jogadores que tem. Mas, de um modo geral, como você prefere organizar sua equipe neste sentido?

Tendo uma equipe com uma estatura média, que não seja nem das mais altas e nem das mais baixas, eu acho que a marcação mista encaixa bem. Você tem um pessoal marcando zona, pode usar alguns bloqueios fortes. Acho que assim encaixa bem. Na falta lateral é importante ter uma altura razoável da linha defensiva. É algo positivo que a gente vê e que algumas seleções fizeram bem na Copa. É importante não deixar muita gente dentro do gol, se manter mais distante.

Thiago Larghi em treino pelo Atlético-MG
Thiago Larghi em treino pelo Atlético-MG Bruno Cantini/Atlético-MG

Existe muito a discussão sobre ter um time que buscar mais propor o jogo e outros que tendem a ir melhor reagindo. O Atlético-MG parece um meio termo disso. É de fato um objetivo seu ter equilíbrio nestas duas maneiras de se jogar? E como buscar isso?

Minha procura é sempre por uma equipe equilibrada. Não só na questão de velocidade, nas transições. Ou mesmo ter o controle, uma posse de bola maior. Precisamos de um equilíbrio entre atacar e defender. Por um bom tempo a gente teve uma defesa bem sólida. Aí começamos a tomar uns gols mais evitáveis. Agora a gente tem colocado muito esforço nisso para voltar a ter um padrão forte. Estamos trabalhando muito nisso. É algo que precisa ter para se fazer um bom campeonato. Ofensivamente, com bola no pé, é importante fazer a leitura do que o jogo pede. Se a situação exige mais transições rápidas a gente tem que fazer. Mas tem sido uma característica do Atlético-MG ter a bola, a gente se sai melhor assim. Buscando ter um controle desta forma. Mas também não podemos abrir mão de ter bons contra-ataques. Tudo depende do que o jogo pede.

Você recebeu muitos jogadores estrangeiros nos últimos meses. Como tem sido o processo de adaptação destes jogadores? Como você e a comissão técnica podem ajudar neste sentido? E como funciona o trabalho de captação destes atletas aí no Atlético-MG?

Acho que este processo de captação de talentos tem funcionado por estar bem integrado. É importante estar bem alinhado a comissão e diretoria. O diálogo tem funcionado muito bem, principalmente através do Alexandre Gallo (diretor de futebol). Temos também o pessoal de análise aqui, que faz essa busca. Tem também um observador técnico que era do clube e agora está como auxiliar, que é o Bernardo Motta. Ele ajuda bastante nessa função. O mais importante é o diálogo. Só assim consegue se acertar tanto a questão financeira quanto à parte técnica/tática, sempre buscando boas alternativas para o clube. Tentamos fazer sempre com muito cuidado, sempre um trabalho bem minucioso para não ter muitos erros. A adaptação, por outro lado, está cada vez mais fácil devido à tecnologia. Os caras conseguem ter comunicação, ter acesso a tudo que acontece aqui e sobre onde vieram. Então acompanham bem. Da nossa parte é importante a receptividade. É buscar um ambiente positivo sempre. Nós já temos um histórico aqui no Galo de estrangeiros que tiveram sucesso. Então a gente procura é dar sequência nisso, receber os estrangeiros bem, deixar eles bem à vontade. Temos trazido caras com um perfil legal, que chegam e já se entrosam. A cidade também ajuda muito. Belo Horizonte é muito acolhedora, o povo mineiro recebe bem. Isso é muito positivo. E temos tido uma resposta rápida. Alguns jogadores que chegaram e já se encaixaram no time, que estão jogando bem.

Como tem sido essa oportunidade como treinador sendo tão jovem? Muito se fala da necessidade de experiência para treinar no Brasil, de ser "cascudo"... Acha o atleta de futebol na atualidade se apega a este tipo de coisa ainda? A qualidade do trabalho não deveria bastar?

O jogador pede muita clareza e objetividade no trabalho. Que o conteúdo do treino esteja claro para eles ali no dia a dia do campo. A mesma coisa nas análises que a gente faz e mostra para eles. Mas tudo buscando ser o mais próximo possível da realidade do jogo. Querem sempre alguma coisa que de fato ajudem eles a vencer as partidas. Eles são os principais protagonistas dos jogos, então precisam de alguém que os ajudem nas tarefas que o jogo exige. Na compreensão do jogo, na execução de um treinamento que vai transformar em resultados dentro de campo. Por isso é preciso ser bem objetivo. É o que a gente tem procurado fazer aqui. De fato a oportunidade apareceu para mim. Não era isso que eu esperava no momento. A partir da hora que eu aceitei ficar como um auxiliar fixo aqui no Atlético-MG, pensava em ficar um tempo nesta posição. Pensei que o clube traria alguém de imediato para o cargo, mas acabou não acontecendo. Aí a gente foi vendo que a equipe se sentiu bem, os jogadores ficaram à vontade comigo e os resultados foram surgindo. Apesar de não ter conseguido o título mineiro, era possível ver uma evolução na forma de jogar da equipe. Acho que a busca por um jogo bem jogado fez com que os jogadores se sentissem bem. Mas, ao mesmo tempo, as dificuldades sempre aparecem. Tem que manter os pés no chão. Muito pouco foi feito até aqui. A trajetória é longa, temos muitos desafios pela frente, o Brasileirão é bem longo. Fizemos um primeiro turno bom, principalmente porque sabemos que alguns pontos perdidos poderiam ter sido evitados. Deixamos escapar alguns pontos muito por falhas nossas. Agora vamos tentar recuperar, tentar deixar o Atlético-MG pelo menos entre os seis primeiros. 

Você pontuou o fato de o treinamento ser o mais próximo da realidade do jogo. Existe quem não dá muita importância para ele. Qual a importância do treino dentro de todo este processo que você está tocando?

É o que condiciona, não tem jeito. A gente tem que sempre tentar simular o jogo no treino. Fazer isso de uma forma sucinta e clara. Porque certamente isso vai acontecer durante a partida. Aliás, que a gente imagina que vá acontecer. Que sirva para preparar o jogador para o dia do jogo. Então tem que tentar transferir esses elementos o máximo possível. O que importa é o jogador estar preparado, não só na questão física, mas também para poder resolver os problemas que o jogo traz.

Em alguns momentos dá para se observar alguns elementos do Jogo de Posição na forma que sua equipe busca jogar. Qual a sua relação com ele? De fato é uma referência dentro do seu trabalho?

É um tipo de jogo que me agrada muito. Primeiro que eu entendo que é necessário ter uma boa ocupação dos espaços em campo. E isso de forma inteligente, não simplesmente aleatória. É preciso ter uma sincronia entre os jogadores. A gente tem que se movimentar, mas sem virar uma bagunça. Eu busco sim pegar algumas referências, mas sempre levando isso de forma clara e simples. Até porque não vai adiantar ser muito teórico com o jogador neste momento. A informação tem que ser direta. Eu busco muito isso. Não temos muito tempo de treinamento, se a gente não aproveitar bem, fica difícil. Às vezes numa sessão de vídeo também se consegue passar uma ideia, fazer uma correção. Mas a gente precisa ser claro.    

Acha que nossa cultura como futebol enxerga organização apenas no sentido de se defender? Acredita que, com bola, só o talento resolve?

Se organizar na fase ofensiva também é necessário. Ter ideias, se movimentar com inteligência... Claro que fazendo isso sem tirar a criatividade do jogador brasileiro, sem podar a liberdade que ele precisa para desenvolver o seu jogo. O atleta brasileiro é acostumado a ter essa liberdade. Mas vejo bons trabalhos acontecendo por aqui neste sentido. Acho que temos seguido uma linha positiva. Os treinadores, independente de ser mais experiente ou os mais novos, estão trazendo novidades, desenvolvendo bons trabalhos. Tenho visto bons jogos dentro do cenário brasileiro. Isso é positivo para a formação do nosso jogador. Até para trabalhar na linha de frente para vencer competições internacionais, tanto de clube quanto com a Seleção. 

Em qual estágio você vê a qualidade do jogo atualmente no Brasil? Não acha que estamos devendo no aspecto ofensivo? Onde você acha que dá para evoluir?

De fato trabalhar uma defesa é mais fácil. Não deixar jogar é mais fácil, destruir é mais fácil que construir. Acho que a qualidade do jogo é satisfatória. Creio que vem evoluindo, isso está bem claro para mim. Agora tem o lado também de dar mais tempo aos treinadores. Se a gente conseguir isso, tende a ser melhor. Até a perda de atletas no meio dos processos influencia também. Nestes cenários a gente teria um ganho qualitativo na parte ofensiva. A realidade do futebol brasileiro limita as equipes, principalmente por sequência de trabalho. É a longevidade que vai conseguir dar um padrão de jogo, tanto em ser bonito quanto em questão de resultado. Para as duas coisas casarem, para você ter um jogo atrativo e com resultado, é só com tempo. E tanto para o treinador, em sequência de processo, quanto para os jogadores, de se conhecerem. Por isso é importante a gente conseguir reter um pouco mais nossos talentos, para ter mais tempo de trabalho com os mesmos jogadores.

Acha que essa não manutenção dos processos influência nas tomadas de decisão do atleta em campo? Como trabalhar isso dentro de toda essa realidade conturbada?

O treinador atual tem que trabalhar num nível mais específico a capacidade do jogador em entender o jogo. Pra que, individualmente, ele tenha uma bola leitura no contexto geral do jogo e que aplique isso no contexto coletivo, dentro do que lhe é pedido em posição/função. Só percebendo o jogo e o que a situação pede, o jogador vai conseguir tomar as melhores decisões. As respostas não são sempre pré-definidas, até porque o jogo apresenta uma série de situações muito dinâmicas. É impossível prever tudo. Então é ter um jogador capaz de raciocinar o que a situação pede que é o ideal. E cabe ao treinador estimular ele no dia a dia. Que ajude, busque esse entendimento. Assim o cara vai para o jogo e vai escolher melhor.

E o atleta de futebol hoje é mais interessado em entender o jogo? Os caras buscam um entendimento mais tático no dia a dia?

Nem é uma questão de comparar gerações. Não é o caso. Mas o jogadores que eu tenho trabalhado nos últimos anos são, em grande maioria, muito inteligentes. Atletas que buscam aprender, que percebem a importância daquele treinamento, que percebe que o trabalho do dia a dia é para ajudá-lo não só vencer o jogo, mas se tornar um profissional melhor. Tenho tido experiências com muitos jogadores bem interessados. 

A abordagem com os jogadores, num modo geral, mudou? Como é lidar com esse conhecimento no dia a dia? Respinga em ti o velho debate sobre estudioso vs boleiro?

Nascemos e vivemos num país onde deveríamos aprender desde cedo que não podemos ter preconceito. Essas diferenças nos faz uma nação muito rica em cultura, por exemplo. Não pode ter esse preconceito, tanto para um lado como para o outro. E para o futebol vale da mesma forma. Pra mim tanto faz. A gente tem que trabalhar o que ambos têm de positivo. Buscar juntos um bom produto final. Tentar ter um jogo atrativo e vencedor. Se é mais boleiro, se é mais estudioso, enfim, não importa o perfil. Temos que respeitar e trabalhar com as diferenças sempre buscando melhorias. As diferenças sempre vão existir, em qualquer setor. A construção que precisa ser positiva. Não precisa e nem é bom ter todo mundo igual. É respeitar e aproveitar o que cada um tem de melhor.

Uma parte dessa nova safra de treinadores, a maioria mais jovem, tem tido dificuldades para se firmar no futebol brasileiro. Em alguns casos nem sequência estão tendo. O que você acha que falta? Acha que a pressão aumenta nestes casos por não serem nomes já consagrados?

É difícil dizer mais especificamente. Acho que temos vários treinadores que já mostraram talento e competência. Mas é somente com o tempo que as coisas vão acontecer e as coisas vão ser provadas. É tempo, trabalho, mais sequência... Espero que isso aconteça para todo mundo. Não é nem questão de ser jovem ou velho. O tempo que vai dizer, as oportunidades que forem surgindo. Até mesmo os mais experientes já passaram suas dificuldades, que são totalmente naturais. Faz parte do processo. Os vitoriosos não começaram, tirando um ou outro exemplo, ganhando tudo desde sempre. São fases, momentos de aprendizado. Nós jovens temos que passar por isso, a profissão traz dificuldades. É ir se aprimorando, corrigindo detalhes que às vezes não dão certo. Sempre buscar contribuir com o futebol brasileiro.

Thiago Larghi conversa com auxiliar Kaio Fonseca, que também já foi analista de desempenho
Thiago Larghi conversa com auxiliar Kaio Fonseca, que também já foi analista de desempenho Divulgação / Atlético-MG

Quais são suas referências de futebol? Onde você busca inspiração e informação para treinar sua equipe?

A minha primeira referência assistindo futebol foi o Milan do Arrigo Sachi. Eu acompanhei muito e depois de um tempo ainda comprei vídeos dos jogos, li muito material e vi muita coisa. Tive com ele (Arrigo Sacchi) uma vez aqui no Brasil também e pude conversar com ele. Minhas referências aqui no Brasil são Parreira e Zagallo. Sempre foram mestres para mim em organização. Tanto eles quanto o Arrigo Sacchi sempre mostraram um futebol bem organizado, presando muito por uma linha defensiva com quatro jogadores, compactação e posse de bola. De uns anos para cá, agora mais recente, o Guardiola. Futebol ofensivo, dinâmico. Me agrada muito. Aí a coisa evoluiu muito rápido de uns anos para cá. Em nível posicional, de posse de bola, controle, pressão após a perda muito eficiente... Mudou muito. Num geral essas são fundamentalmente essas. Tem o Felipão na questão de gestão de grupo que é uma referência também. O estilo dele ali, de ser mais paizão, isso é bacana absorver também. De procurar ter um bom ambiente. Essas são as referências que carrego comigo.

Você já citou Pep Guardiola e até Jogo de Posição. Se olharmos para aquele Barcelona dele e para o futebol de hoje, já vê muitas diferenças? Acha que a exigência atual é de mais velocidade? 

Na verdade é algo que acontece na própria natureza do jogo. A partir do momento que o Guardiola conseguiu ali, por 2008 ou 2009, ter o sucesso que teve, soluções foram sendo buscadas para tentar neutralizar aquele tipo de jogo. As equipes passaram a se compactar ainda mais, em espaços mais curtos. Blocos defensivos que antes eram de 30 metros passaram a ser de 20 ou 15 metros. As situações de transição defensiva, para se reorganizar, passaram a ser ainda mais trabalhadas. O nível competitivo foi subindo. Conforme essas soluções para neutralizar um jogo que dava certo foram sendo encontradas, o futebol mais ofensivo teve que buscar novas situações para conseguir novamente assumir o controle do futebol mundial e bater equipes que aprenderam a lidar com seu jogo. É uma busca constante, algo que acontece no futebol desde o início de sua existência. É uma dinâmica natural do futebol e o que faz ele ser tão brilhante. É tudo muito motivador isso. É apaixonante. Tanto para o torcedor que vê a gente tentando superar um adversário, quanto para nós que estamos sempre tentando achar saídas e as melhores escolhas. Isso é muito legal e serve até para a vida.

Acha que no Brasil enxergamos o jogo ainda muito de forma individual?

Eu acho que isso está mudando. Tenho visto muitas análises coletivas. Toda cadeia do futebol, começando por comissões técnicas, jogadores, a formação dos treinadores, a própria imprensa, todos estão buscando uma leitura maior do jogo, tentando olhar de forma coletiva. De buscar os princípios do jogo, tanto defesa quanto de ataque. Acho que estas análises são bem positivas e estão ficando cada vez mais claras. 

Você citou a questão da gestão do Felipão como algo que carrega na carreira. Como foi a experiência da Copa de 2014 quando você esteve com ele como Analista de Desempenho? Quais foram as lições após o resultado final sendo eliminado para a Alemanha?

Ali no caso meu vínculo era mais com o Parreira, com quem eu já tinha trabalhado anteriormente. Por isso participei do trabalho. Foi um trabalho que teve toda uma contestação após o resultado da semifinal. Mas até ali era um trabalho bem desenvolvido. Vejo que foi uma questão de fatalidade mesmo, infelizmente. Teve coisas boas também dentro daquele processo. A gente sempre espera uma evolução do futebol brasileiro, acho que é assim que temos que pensar. Acho que agora estamos no caminho certo. Não venceu a Copa neste ano, mas é importante ter uma sequência de trabalho com o Tite. As coisas não precisam ser sempre assim, de perdeu, acabou, nada mais serve... Não é assim. Acho que o nosso amadurecimento como cultura tem que ir por esse lado, de olhar também para o que é positivo. Não é só o resultado. Perdemos para a Bélgica agora, não era o que a gente esperava, mas teve muita coisa até ali. Muita coisa boa. É se agarrar no que foi bom e tentar arrumar o que não foi tão bom assim. É por aí que o nosso futebol vai evoluir de uma maneira mais ampla.

Felipão e Parreira assistem a análises feitas por Thiago Larghi nos tempos de Seleção
Felipão e Parreira assistem a análises feitas por Thiago Larghi nos tempos de Seleção Divulgação - CBF

E a sua passagem no Corinthians com o Oswaldo de Oliveira? O que acha que pegou ali para não dar certo o trabalho?

Foi muito rápido, né? A diretoria optou por tirar o Oswaldo. Mas para mim ficou uma experiência positiva, uma relação muito legal com o Carille, por exemplo. Com o Fernando Lázaro (ex-coordenador do CIFUT, departamento de Análise de Desempenho) que depois foi para a Seleção também. De um modo geral com todos que ali estavam no momento. Foi pouco tempo, mas do que eu conheci ali do Corinthians eu gostei muito. A gente tentou desenvolver um trabalho, mas o tempo foi curto, não deu para colocar muita coisa. Ficou uma lembrança boa e um respeito pelo clube.

Larghi reencontra Alessandro, gerente de futebol do Corinthians, e Carille, treinador na época
Larghi reencontra Alessandro, gerente de futebol do Corinthians, e Carille, treinador na época Daniel Augusto Jr/Corinthians

Assiste muito futebol internacional quando tem tempo? Quais são suas preferências com relação a ligas, campeonatos e países?

Gosto muito. Dentro do possível estou sempre assistindo. O tempo é curto, então tem que selecionar. Não dá para ver muita coisa, então eu prefiro pegar as coisas que podem mais me acrescentar. Os times do Guardiola que gosto de ver, o Bayern de Munique é outro time que gosto de assistir. Até porque o futebol alemão tem umas variáveis interessantes, as transições também. Futebol italiano está crescendo de novo. O Napoli com o Sarri eu acompanhava bastante também. Fico de olho em algumas equipes inglesas também. Sempre que dá eu assisto. Não se tem muito tempo, até porque, quando eu vejo, eu gosto de olhar com mais atenção, analisar as situações com cuidado, não só deixar passando. Tento fazer que acrescente. É sempre muito prazeroso assistir. 

O que é jogar bem para você?

É uma pergunta muito boa! Até porque você pode jogar bem de várias maneiras. Estando compacto e usando transições rápidas, vencendo jogos assim. Isso também é bonito de ver. Sempre gostei da competitividade italiana, dá forma que se organizam, como se defendem e usam bem as saídas rápidas. Mas também gosto de ter a posse da bola. Também tem sua beleza. No fim das contas acho que o jogar bem é você usar da melhor maneira as características que você tem em mãos. Entender os jogadores que estão à sua disposição, a cultura do clube que você vive. É muito importante você se adequar. Se você usa de maneira inteligente aquela realidade, se você consegue elaborar uma boa forma de jogar, independente de ter ou não a bola, você pode agradar sua torcida, o seu público. Isso é que importa. O jogar bem vai partir muito de uma relação do que você apresenta dentro de todo este contexto.


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Entrevista do mês: Larghi fala em reconstrução no Galo, revela inspiração em Guardiola e Sarri e diz que falta sequência na Seleção

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A posse pela posse e o aspecto psicológico no círculo vicioso vivido pelo Flamengo

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Barbieri conversa com jogadores durante treino do Flamengo
Barbieri conversa com jogadores durante treino do Flamengo Gilvan de Souza/Flamengo


A derrota para o Ceará, diante de mais de 60 mil pessoas no Maracanã, expôs de vez o mau momento que o Flamengo vive na temporada. Depois de um pré-Copa irretocável, a equipe treinada por Maurício Barbieri oscila e mostra poucos picos de desempenho. Posses longas, na maioria das vezes poucas chances cristalinas criadas e uma pressão que só aumenta na Gávea.

Com a ideia de um futebol propositivo e de controle através da posse, o Fla padece para marcar gols. A montagem do elenco, aliás, foi feita com este pensamento de protagonismo dentro das partidas. Mas a verdade é que, no fim das contas, os rubro-negros sofrem dos mesmos problemas de muitas equipes no Brasil que tentam impor este estilo de jogo - com exceção do Grêmio, o modelo mais estabelecido por aqui atualmente e construído ao logo de pelo menos duas temporadas.

As derrotas para Atlético-PR e Ceará, por exemplo, nos trazem números intrigantes: 66% e 65% de posse, respectivamente. Por outro lado, no entanto, poucas chances claras criadas e todas elas desperdiçadas. Mas o número frio, neste caso, não nos diz absolutamente nada. A forma como toda essa posse é usada sim nos traz alguns diagnósticos bastante comuns em termos de futebol brasileiro.

No geral falta movimento e intensidade ao Fla em fase ofensiva. Aliás, falta isso a boa parte do futebol jogador por aqui. Mas no caso dos flamenguistas falta também uma porção de confiança para fazer toda uma dinâmica funcionar. O aspecto psicológico, neste sentido, vem batendo forte a cada revés. 

Enfrentar equipes fechadas, com muita gente atrás da linha da bola e boas coberturas, não é algo recorrente apenas ao Flamengo. Ao assumir a sua forma de jogo, isso fica ainda mais nítido. E furar esse tipo de situação requer uma posse de bola mais rápida, dinâmica e intensa. E é aí que entra a questão anímica da coisa.


Retém, toca, movimenta... Retém, toca, movimenta... Esta dinâmica, com jogadores mentalmente não tão fortes, é simplesmente quebrada a todo momento. Primeiro que o passe vai vir lento. O domínio vai exigir mais de um ou dois toques. A velocidade de execução não será a ideal. O movimento vai sair atrasado. E por aí vai, como um "loop infinito". Conseguem perceber como todas as ações citadas se interagem e a não excelência em algum ponto deste caminho prejudica todo o funcionamento de uma jogada?

Pois é. A sensação é de um Flamengo que tem dificuldades para cumprir todo esse mecanismo. Em alguns jogos isso fica ainda mais explícito. Outro ponto agravante é ver o tempo passando. Em casa isso se acentua bastante. Um time que por vezes trava, parece hesitar por medo do erro e as reações que acontecem após o mesmo. Com tudo isso, a dificuldade em gerar desequilíbrio e espaços nas defesas do adversário triplicam.

O 1x1 contra o Grêmio, em Porto Alegre, é o ponto alto e a grande antítese de todos estes problemas. Não à toa, foi talvez a melhor atuação do time de Barbieri na temporada. É de fato a referência de desempenho, a conjuntura onde comissão técnica e jogadores precisam mirar. Tudo que se precisa foi feito neste duelo: troca de posição, infiltração, apoios rápidos, posse rápida alternando distância e direção, intensidade nas ações...

E a palavra intensidade é a chave para que tudo isso aconteça. No calendário caótico de agosto, o Flamengo se viu desmantelado neste sentido. Até por certa culpa, já que poderia ter dosado um pouco mais a sequência de alguns atletas, os maiores responsáveis pela qualidade e velocidade do jogo praticado. Sinceramente não sei como foi o planejamento feito, qual foi o diálogo diretoria/comissão e os direcionamentos dados por preparação física e fisiologia, mas era impossível manter um ritmo de jogo satisfatório dentro destas circunstâncias. Até o gramado ruim do Maracanã tem lá seu peso em tudo isso.

Sempre bato muito na tecla que nenhuma equipe fracassa por um ou dois motivos. O futebol é sistêmico demais, mas nossa cultura tem a necessidade de buscar o culpado a cada crise. No caso do Flamengo trata-se de um momento de tirar os diagnósticos de más partidas o mais rápido possível. Esse da confiança é nítido e talvez por isso seja o momento de dar um passo atrás na questão do modelo. Não é abandonar as convicções e tudo que foi construído, mas sim engessar um pouco mais, dar mais consistência e, aos poucos, recuperar o aspecto mental.

Jogar em time grande se exige muito neste sentido e os jogadores precisam responder, o alto nível exige isso. A confiança, em três ou quatro partidas, pode te jogar tanto para o céu quanto para o inferno e, dependendo do estrago, a retomada de desempenho acaba por ser quase impossível de acontecer. Por isso, neste momento, vencer é muito mais importante que desempenhar para os rubro-negros. É hora de estancar a sangria e fortalecer o conjunto.

Os resultados da rodada, por incrível que pareça, deixam o Fla totalmente vivo no Brasileirão. Não vejo um trabalho totalmente mal feito. É possível enxergar as ideias por trás do jogo flamenguista. Por outro lado, já passou da hora de uma resposta e uma mobilização que faça deste conjunto um time confiável. A troca de treinador pode até acontecer, mas só nesta gestão isso acontece mais de 15 vezes. Já está claro que começar do zero não é um bom caminho.

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Por que tanta consistência? Veja como o Palmeiras de Felipão tem neutralizado contra-ataques rivais

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Felipão comanda o Palmeiras contra o Botafogo
Felipão comanda o Palmeiras contra o Botafogo Divulgação / Palmeiras

Depois de uma sequência oscilante com Roger Machado, principalmente nos aspectos defensivos, o Palmeiras, enfim, ganhou a consistência que tanto buscava. Já são 8 partidas sem ser vazado. E muito disso tem a ver com o modelo de jogo que Luiz Felipe Scolari tem implantado na equipe. 

Muito se questiona sobre a riqueza ou não de conceitos trabalhados pelo treinador de 69 anos (e de fato acho que alguns pontos merecem discussão), mas existe uma ideia por trás deste jogo mais "rústico", porém mais sólido. O mecanismo de jogo de Felipão, que é mais conservador que seu antecessor, cria algumas vantagens defensivas para o time alviverde, principalmente nos casos de contra-ataques adversários. 

Existe toda uma lógica por trás das bolas mais longas e do uso do centroavante. Nesta análise vamos mostrar três situações que explicam um pouco desta segurança que a equipe tem mostrado nos últimos confrontos. E, sinceramente, não tem a ver com certo e errado, mas sim escolhas. Situações que você ganha e perde, como quase todas no futebol.

Toda essa discussão parte da forma como o Palmeiras de Scolari inicia suas jogadas, que vai até um pouco além da bola mais longa buscando a disputa física do centroavante, algo muito padronizado desde a sua chegada. O primeiro vídeo, que vem logo abaixo, mostra um pouco desta primeira fase de construção e como ela influencia no momento que a equipe perde a posse da bola.

Perceba que, ao sair jogando de trás, a linha defensiva está praticamente toda montada. Num primeiro momento, Mayke e Diogo Barbosa não avançam. Felipe Melo e Bruno Henrique, a dupla titular de volantes, também se aproxima. A saída por si só já mostra muita cautela. É feita de forma sustentada, sem avançar jogadores de uma vez só. Ganha-se em segurança, mas também perde-se em opções mais verticais para progredir no campo. É bem lógico: quanto mais gente atuando numa faixa mais recuada, menos jogadores avançados para gerar superioridades em faixas mais altas do campo. Como eu disse, uma escolha.

Ainda em cima deste primeiro vídeo, veja como a bola longa é usada rapidamente. Bruno Henrique faz a ligação direta e vemos muito essa questão de o time se separar em dois blocos. Não existe uma compactação ofensiva.  A ideia é ganhar a disputa e ficar com a segunda bola. Com a posse dominada, acionar a velocidade. Mas aí entra a grande questão da jogada: o contra-ataque.

Com menos jogadores na frente, menor é a chance de ficar com a posse. Mas aí, como um cobertor curto, tem o outro lado. Veja que, quando o Botafogo recupera a bola e tenta acelerar em transição, são seis jogadores do Palmeiras atrás da linha da bola. Dudu ainda tenta uma volta, mas a linha defensiva inteira, junto dos volantes, estão posicionados para defender. Deste modo, fica praticamente impossível contra-atacar os alviverdes. 

Neste lance fica claro que Felipão prefere, em muitos casos, atacar com 4 jogadores e defender com 6.  Claro que existem algumas variações, principalmente quando o treinador solta mais o time (segundo tempo ficou claro isso com a entrada de Lucas Limas na vaga de Bruno Henrique), mas geralmente não é algo que foge muito dessa perspectiva de mais seguranças no seu jogo.

No próximo lance, que vem logo em seguida, vemos um pouco dessa variação e como as coberturas dos volantes são importantes para que toda a engrenagem funcione. Mayke está fechado na linha defensiva pela direita e não sobe. Com isso, Diogo Barbosa percebe o espaço para avançar e se projeta.  Note que, de imediato, Felipe Melo (que está mais posicionado pela esquerda) já dá uns passinhos para o lado e já vigia o setor que o lateral se desprendeu. 

O próprio Edu Dracena também se coloca ali para bloquear uma saída mais rápida dos botafoguenses. Se trata de um momento em que o Palmeiras ataca com 5 e defende com 5. Treinadores que buscam um jogo mais propositivo, com características mais ofensivas, de ter a bola, normalmente usam 7 ou até mesmo 8 atletas para atacar.  Alguns atacam com os dois laterais ao mesmo tempo. Como já apontamos anteriormente, é um cobertor curto: se por um lado você ganha na frente, com mais opções de passe e movimentação, por outro você acaba se expondo mais, sendo mais suscetível aos contra-ataques. É muito mais questão de escolha do que de certo ou errado.

No terceiro e último vídeo vemos também uma mudança no comportamento de Bruno Henrique, um dos principais jogadores alviverdes da temporada. Com 9 gols marcados em jogos oficiais neste ano, alguns deles com chegadas na área (ou na entrada dela), o camisa 19 perdeu um pouco de liberdade para avançar no campo em alguns momentos. Antes da chegada de Felipão, por exemplo, tinha uma média de 1,2 finalizações por partida. Agora, com o novo treinador, tem uma marca de 0,8. Com uma função mais organizadora e menos conclusivo, o volante agora é uma peça chave dentro deste equilíbrio defensivo.

No trecho acima isso fica bem claro. Bruno recua, vem buscar jogo e encaixa um bom lançamento no avanço de Mayke (veja na parte de baixo da tela como Diogo Barbosa segura e não sobe ao mesmo tempo). Uma boa chance de gol é criada, mas, na retomada de bola do Botafogo, o volante está bem recuado e ajuda a fazer a pressão na bola. Felipe Melo, menos móvel e mais posicional, se coloca mais recuado para fazer coberturas. E, em poucos minutos, o padrão já está quase restabelecido: linha defensiva e volantes se colocando atrás da linha da bola.

Neste espaço falamos muito do propósito de se jogar bem. Ao meu ver isso nada mais é que executar com eficácia uma ideia pré-estabelecida, ou seja, o que é treinado e traçado como estratégia. Partindo deste ponto, sim, o Palmeiras vem tendo bom desempenho. A questão de se jogar bonito já é outros quinhentos. Até porque tem muito a ver com nosso gosto pessoal, uma questão de preferência mesmo. E aí cada um tem a sua.

Se fosse para resumir o trabalho de Felipão até aqui em uma só palavra eu diria simples. Sem tempo para treinar, sua experiência ajudou na mobilização de ideias mais compreensíveis partindo de um período da temporada bastante caótico dentro de um calendário maluco. De fato é um jogo rústico e mais pragmático. Está longe de ser um jogo rico em ideias ofensivas. Mas é uma forma de jogar. Uma maneira de competir. A busca em médio e longo prazo deve ser em acrescentar mais coisas neste modelo de jogo mais prático. Com tempo e treinamento, a cobrança será neste sentido. Aí sim Felipão terá a oportunidade de evoluir o jogo de um elenco cheio de boas individualidades.   

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Análise técnica: conheça os reforços gringos contratados por Corinthians, Palmeiras e Santos

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Os seis gringos que chegaram no trio paulista para a disputa do Brasileirão
Os seis gringos que chegaram no trio paulista para a disputa do Brasileirão DataESPN

O trio paulista Corinthians, Palmeiras e Santos movimentou o mercado de transferências nas últimas semanas. Depois de ver o rival São Paulo acertar com o bom Joao Rojas (veja mais análises clicando aqui), as três diretorias foram aos negócios e emplacaram reforços gringos para a sequência da temporada.

De uma maneira geral, investidas bem interessantes, com jogadores promissores, cascudos e até mesmo nomes para resolver carências claras de cada elenco. Ao todo foram três paraguaios, um chileno, um uruguaio e um costa-riquenho. A ideia foi dissecar as características de cada um, apontar seus pontos fortes, fracos, posição/função e como cada um deles pode ajudar sua respectiva equipe.

Confira na íntegra o resumo de cada contratação:


CORINTHIANS

Ángelo Araos - 21 anos - chileno - 1,82m - meio-campista - destro

Ángelo Araos foi apresentado como novo reforço do Corinthians
Ángelo Araos foi apresentado como novo reforço do Corinthians Gazeta Press

Movimentação de mercado interessante por parte do Corinthians. Se trata de um jogador bastante promissor, com qualidades importantes para a posição e que tem alguns pontos ainda a desenvolver. Atingindo excelência nestes aspectos que citarei, certamente é um atleta que pode dar um bom retorno técnico e financeiro ao clube.

Apesar de ser mais meia na sua essência, Ángelo Araos ocupa uma grande faixa de campo. Tem atuado como meio-campista pela direita dentro do 4-1-4-1 da La U nos últimos jogos em que atuou. Creio que, pelas características que tem, também possa atuar um pouco mais avançado, atrás do centroavante num 4-2-3-1, por exemplo. Por outro lado, não o vejo com perfil para fazer o lado do campo. 

Trata-se de um jogador que circula bem entre as duas áreas. É um organizador, que ajuda na circulação da bola, com passes saindo da pressão e se projetando à frente. Busca sempre atacar os espaços, o que é bastante positivo. Faz bem este tipo de leitura, mas precisa aumentar seu número de gols. Dá para crescer neste sentido (em 2018 são dois gols em 19 jogos). 

Apesar de ocupar um grande espaço de campo, não é muito veloz. Não tem grande agilidade e mostra alguma dificuldade na troca de direção. Nos arranques em distâncias maiores, vai bem. Tem boa condução.

Tem um porte físico mais avantajado, que o ajuda muito a suportar contatos físicos e ganhar duelos na faixa central do campo. É um cara que protegem bem a bola e usa bem o corpo para isso. Em alguns momentos até exagera, prendendo muito a posse ao invés de dar ritmo ao jogo. É mais um ponto a melhorar. Quando executa rápido e coloca ritmo nas suas ações, se torna muito influente dentro do desenvolvimento do jogo.

O jovem chileno também se comporta bem nos movimentos de apoio. É um cara que busca abrir linhas de passe e dar suporte ao companheiro que está com a bola. Se coloca bem no espaço entrelinha (nas costas dos volantes). Seu primeiro contato com a bola é bom e ele mostra bom controle. Precisa ser mais ligado, ter mais intensidade em suas ações em certos momentos. Manter o nível de concentração.

Sem bola é um cara que compete bem. Fecha espaços em transições defensivas e reage bem à perda da bola. Sua atitude após o time perder a posse é positiva. Pressiona a bola, busca encurtar. Não tem grande cacuete para marcar, mas ajuda dentro do necessário.

Como disse no início da análise, é um jovem bastante promissor. A comissão técnica alvinegra tem bons desafios com ele, tanto no uso dentro da estrutura da equipe, como no desenvolvimento de características que ele ainda pode melhorar. É um cara para ser aproveitado e ajudar. Se bem trabalhado, tem tudo para virar peça importante da equipe num médio prazo.


Sergio Díaz - 20 anos - paraguaio - 1,70m - atacante - destro

O paraguaio Sergio Díaz foi emprestado pelo Real Madrid ao Corinthians
O paraguaio Sergio Díaz foi emprestado pelo Real Madrid ao Corinthians Twitter/Corinthians

Surgiu muito bem no Cerro Portoño-PAR. Jogos conscistentes, sempre causando grandes estragos nas defesas adversárias. Tanto que o Real Madrid fez o investimento de 5 milhões de euros no jovem atacante. 

Depois de atuar pelo Real Madrid Castilla (time B merengue) e também no sub-19, foi emprestado ao Lugo, da segunda divisão espanhola. Por lá alternou oportunidades entre titulares e reservas antes de sofrer a lesão no joelho que o afastou dos gramados desde dezembro de 2017.

Díaz é um atacante de muita mobilidade. Não guarda muita posição e flutua por todo campo ofensivo. Tem o 1x1 como um dos seus fortes. Gosta deste tipo de duelo e tinha boas vitórias pessoais em solo sul-americano. Na Espanha, no entanto, sofreu bastante com o contato físico dos adversários e pecou bastante nas tomadas de decisão. Muitas escolhas erradas, retenções de bolas desnecessárias e movimentos incorretos marcaram sua passagem por lá.

É um jogador leve, de rápida troca de direção e boa aceleração em espaços curtos. Sua principal posição é de segundo atacante, tendo liberdade criativa e encostando no centroavante. Pode ir como 9, mas com características bem distantes de um centroavante mais característico. Outra possibilidade é usá-lo pelas beiradas atuando como ponta. Neste sentido, precisaria de uma readaptação, principalmente levando em conta a grave lesão que sofreu ano passado.

Em seu melhor momento da carreira, pelo Cerro, era capaz tanto de concluir jogadas dentro da área como abrir espaços e acionar companheiros em condições de marcar. Mostrava boas leituras para infiltrar e era uma arma letal nas puxadas de contra-ataques, sempre imprimindo velocidade. Bastante agressivo e proativo sem a posse. 

Por outro lado, seu último ano foi bastante inconstante. Teve dificuldades para se firmar na Europa e aparentemente pouco desenvolveu do seu jogo. É um atleta com potencial, mas que ainda não deu aquela guinada esperada na carreira. Obviamente que a lesão atrapalhou por demais sua trajetória. Seu sucesso ou não no Parque São Jorge passa por muitas variáveis: retomada da condição física, adaptação ao novo ambiente e, principalmente, em qual contexto será usado. 


PALMEIRAS

Gustavo Gómez - 25 anos - paraguaio - 1,85m - zagueiro - destro

Gustavo Gómez chega para reforçar a defesa do Palmeiras
Gustavo Gómez chega para reforçar a defesa do Palmeiras Getty Images

Após surgir muito bem no Libertad-PAR, teve seu ápice de desempenho atuando pelo Lanús-ARG. Gustavo Gómez tem passagens pela Seleção Paraguaia desde as categorias de base. Sua ida para Itália foi vista como muito bons olhos, mas, de fato, não conseguiu se firmar no Milan. Era elogiado durante os treinamentos, mas sempre que ganhava chances, não correspondia. Analisando alguns jogos, muito disso se deu também pelo contexto apresentado pela própria equipe, que oscilou muito nos últimos anos. 

Imposição física e jogo aéreo talvez sejam as suas grandes características. Trata-se de um zagueiro que vai muito bem nos embates corporais. Quando encurta nos atacantes no timing certo, dificilmente leva a pior. É uma parede. Apesar de ser muito forte, tem boas recuperações. Não é totalmente lento. Vai até bem nas coberturas de profundidade. Quando arranca num espaço maior atinge boa velocidade. A troca de direção, no 1x1, talvez seja seu calcanhar de aquiles. 

Com bola não é um zagueiro totalmente limitado. Tem algum recurso até. Sai com segurança, acha bons passes. No Lanús, por exemplo, era muito explorado nesta iniciação de jogadas e fazia muito bem, com bolas verticais e importantes para a construção ofensiva. Aí depende muito do contexto e do modelo de jogo que o mesmo estará inserido.

Entende bem o posicionamento de linha defensiva de 4. Faz boas leituras para coberturas. Joga como zagueiro tanto pela direita quanto pela esquerda e até nas laterais já chegou a ser usado. É um cara que dá certa versatilidade para o setor. Sofreu um pouco na Itália contra ataques mais rápidos, principalmente por se precipitar na hora de buscar os botes e desgarrar da linha. Sem dúvida é algo que pode crescer ainda.

De um modo geral foi uma boa cartada do Palmeiras. Acredito que Gómez pode atuar no Brasil no mesmo nível que teve na Argentina. Se assim for, é reforço para chegar e jogar. As duas temporadas mais apagadas no Milan também são relevantes, principalmente na questão da confiança. Era esperado um salto, o que não aconteceu. É aguardar para ver como o próprio atleta vai lidar com isso.


SANTOS

Bryan Ruiz - 32 anos - costa-riquenho - 1,88m - meia-atacante - canhoto

Bryan Ruiz vem sendo a referência da seleção costa-riquenha nos últimos anos
Bryan Ruiz vem sendo a referência da seleção costa-riquenha nos últimos anos Gazeta Press

Investida interessante do Santos para uma lacuna que falta no elenco: jogadores com característica de organização. E é neste sentido que o costa-riquenho tem mais a oferecer ao Santos em um ano bastante difícil oscilante até aqui.

Bryan tem uma larga experiência no futebol europeu. Passagens por Bélgica, Holanda e Portugal fizeram dele a grande referência técnica da seleção da Costa Rica. O novo reforço santista tem sido a principal figura de sua nação nos feitos atuais, como boas campanhas em Eliminatórias e chegadas a Copa do Mundo. Inclusive com muito a ofertar no aspecto de comunicação e liderança dentro de campo. 

Trata-se de um jogador altamente versátil. Pode atuar como um segundo volante, meia e até pelo lado do campo (neste caso flutuando por dentro para gerar jogadas). Certamente muito do jogo do Santos passará por seus pés daqui para frente. É um cara capaz de controlar e dar ritmo às jogadas. Entende bem a hora de segurar ou acelerar o jogo, consegue fazer boas leituras neste sentido.

Tecnicamente está longe de ser um cara altamente refinado. No entanto, tem bom equilíbrio em várias vertentes. Acha bem os companheiros em passes mais profundos. Busca movimentos de apoio e abre bem linhas de passe. É um cara que, independente da função que estiver cumprindo, tem boa chegada na área. Sabe o momento de infiltrar e tem lá seus momentos de definidor. Claro que tais comportamentos vai depender do que Cuca usará o reforço.

Fisicamente Ruiz já demonstra certo declínio. Nunca foi um cara de muita velocidade. Acelera mais no passe do que propriamente em sprints e trocas de direção rápidas. Neste sentido, não espere muita coisa dele. Não vai ser o cara do 1x1 constante e jogadas de aceleração. Muito por isso, é um cara que busca se posicionar bem. Já tem vivência quanto a isso e compensa tais fragilidades com a inteligência de jogo desenvolvida nos últimos anos.

Sem bola costuma preencher bem espaços. Não tem uma transição defensiva potente, seja no retorno da equipe ou mesmo no perde e pressiona, na reação imedianta após a perda da bola. Até por isso o vejo mais pelo centro do que propriamente pelo lado. Teria dificuldades para acompanhar um lateral, por exemplo. Principalmente com sequências fortes do nosso calendário.

Certamente é um reforço interessante. Ainda mais pelos moldes, já que Bryan vinha sem contrato após passagem pelo Sporting-POR. Existe a questão da adaptação agora. Não só ao páis, mas ao modelo de jogo também. Cuca costuma privelegiar a intensidade. Já o costa-riquenho pode ajudar de outras maneiras.  


Carlos Sánchez - 33 anos - uruguaio - 1,70m - meio-campista - destro

Santos contratou o uruguaio Carlos Sánchez que estava no México
Santos contratou o uruguaio Carlos Sánchez que estava no México Gazeta Press

Mais uma aposta do Santos em um jogador muito polivalente. Com passagens importantes por River Plate e seleção uruguaia, Sánchez oferece uma série de opções para este início de trabalho do Cuca. Pode atuar como um "ponta-volante", segundo volante ou até mesmo como lateral-direito (fez isso em algumas oportunidades).

Suas melhores aparições são como o beirada direito no 4-4-2 em linha ou mesmo como um volante pela direita num meio de campo com um losango. É um cara capaz de cobrir uma grande faixa de campo e fazer isso numa intensidade insana. Sua maior caracterísitica é essa, a intensidade. Jogador extremamente agressivo, com e sem a bola. Compete demais. Equilibrado em questões defensivas e ofensivas.

Tecnicamente não tem grande repertório. Não é um cara de controle, de jogo curto e organização do jogo. É mais agudo. Trabalha melhor em transições. Seja para atacar espaços durante a chegada ao ataque ou mesmo nas reações pós-perda da bola. Dependendo da função que fizer, tem capacidade de pisar área e fazer boas ultrapassagens para chegar ao fundo.

Fisicamente tem grande resistência. Obviamente que, pela idade, é natural que se inicie um declínio neste sentido. Mas é um cara capaz de jogar em uma alta intensidade por grandes períodos de tempo. Indo e voltando e até pegando as duas áreas. Apesar de não ter grande estatura, vai bem nos contatos. É "parrudo", ganha na trombada. 

Sem bola agride o portador a todo o momento. Pressiona muito a bola. Reage bem à perda. Morde o tempo todo. Tem uma característica que casa muito com o jogo do Cuca. De sufocar, ganhar a posse e acelerar. Pode encaixar bem neste sentido.

Sua passagem pelo México foi menos constante. Mesmo assim esteve na Copa do Mundo e teve oportunidades na Rússia. Não conseguiu se firmar na equipe de Tabárez durante a primeira fase, mas se mostrou uma peça importante no grupo.

A cultura de futebol do Santos é de futebol leve, com a bola, bem jogado. Não espere do uruguaio alguém com capacidades para acrescentar neste sentido. Está longe de ser um cara para dar criatividade ao meio de campo. Por outro lado, tem outras qualidades a oferecer. Aí vai do tipo de futebol praticado e as funções que o mesmo terá em campo.


Derlis Gonzélez - 24 anos - paraguaio - 1,72m - ponta - destro

Derlis González trocou o Dínamo de Kiev pelo Santos
Derlis González trocou o Dínamo de Kiev pelo Santos Getty Images

Apesar dos seus só 24 anos, Derlis já tem rodagem no mundo do futebol. Cria do Rubio Ñú-PAR, frequenta as seleções de base do Paraguai desde o sub-17. Ainda passou por Benfica, Guarani-PAR, Olimpia-PAR e Basel-SUI antes de chegar ao Dínamo de Kiev, seu último clube. Também é peça costumeira na seleção principal de seu país desde a temporada 2015.

Ponta bem característico. Pode atuar em ambos os lados do campo. Jogador de extrema velocidade, vertical e agudo nas suas ações. Busca frequentemente o 1x1, é bem forte neste quesito. Jogador capaz de vencer duelos pessoais neste sentido. Se bem colocado, tem grande poderio de desequilíbrio pelas beiradas. Joga bem no limite da linha defensiva adversária, com boa leitura para infiltração. A diagonal de fora para dentro, nas costas do lateral, é um dos seus movimentos preferidos. 

Tem boa relação com a bola. Jogador talhado para contra-ataques. Funciona muito bem em transições. Muita energia para fazer todo corredor, inclusive nas exigências defensivas. Baixa até o final, acompanha as subidas dos laterais. Faz bem a função.

Fisicamente tem grande resistência e pulmão para trabalhar em alta intensidade. Seu ponto fraco é no contato físico. Não vai muito bem nos duelos corporais. Por isso busca executar rápido, se livrar do choque antes mesmo do marcador encurtar. Quando prende demais a bola, prejudica bastante seu jogo. A tomada de decisão também é falha por vezes. Se precipita, precisa aprender controlar melhor o ritmo e não acelerar em todas. Pelo alto também não tem grande força. Não é um atleta para jogar curto, triangular... Precisa de espaço e campo para potencializar seu jogo. Tem grande dificuldade num cenário mais propositivo.

De fato se trata de uma boa contratação. A grande questão é que chega para uma função/posição onde o Santos é bastante forte. Certamente brigará forte por posição, mas a concorrência será forte. Pode ser peça importante nos desafios que a temporada colocará pela frente.


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Análise técnica: conheça os reforços gringos contratados por Corinthians, Palmeiras e Santos

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A queda de Jair Ventura no Santos vai além do mau desempenho e tem muito a dizer sobre o nosso futebol

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Jair Ventura
Jair Ventura Gazeta Press

- Pode estar empregado ou desempregado, mas com um perfil do Santos, com DNA ofensivo. Temos que voltar a ter alegrias. Hoje você vai assistir o time do Santos e é um time que joga atrás por uma bola. Vamos mudar um pouco....

Esta frase acima foi dita por José Carlos Peres, presidente do Santos, no dia em que o mesmo tomou posse do cargo, em dezembro de 2017. 

E ela é de extrema importância para termos como ponto de partida o que foi a passagem de Jair Ventura pela Vila Belmiro. Marca, antes mesmo da chegada do treinador ex-Botafogo, a clara falta de entendimento sobre os rumos de uma equipe de futebol. 

Na época, o time alvinegro ainda buscava um nome após a saída de Levir Culpi, mas certamente não tinha a mínima ideia que tipo de futebol gostaria de praticar. O clichê do "jogar para frente" e "ser ofensivo" caiu por terra no exato momento em que houve um acerto com Jair.  E não tem a ver como o fato de ele ser ou não um bom profissional. Vai muito além disso.

A única e bem sucedida experiência do técnico como profissional havia sido praticando um jogo totalmente inverso do que o mandatário dizia buscar. E, sério, não precisava ser estudioso da bola para notar que o perfil não tinha nada a ver com que era pregado. Bastava assistir um ou dois jogos da ex-equipe de Jair. Tratava-se de algo bastante nítido. O desafio era ver o treinador em um outro cenário, criando um modelo diferente do que já havia experimentado e dado certo no Rio de Janeiro.

Seu Botafogo tinha uma essência reativa. Bloco baixo para defender, duas linhas de 4 compactas e muita pressão na bola no terço defensivo. Na retomada, esticadas para os jogadores de frente em velocidade - principalmente o "ponta-volante" Bruno Silva, uma das grandes armas da equipe carioca na época. O modelo que usava contra-ataques mortais  se encaixou fortemente e potencializou os jogadores que ele tinha em mãos. Sem dúvidas foi um bom trabalho dentro do que era proposto (no vídeo abaixo da para enxergar um pouco disso). 

DataESPN: Calçade analisa bola mais longa e recuperação com intensidade do Botafogo

No Santos a cobrança seria por algo diferente, seria por um jogo que Jair ainda não havia experimentado. 

Poucas equipes no Brasil tem uma identidade histórica tão forte quanto o Santos. É fácil saber o que um santista espera do seu time dentro de campo: futebol leve, de 1x1, posse envolvente, velocidade e muita juventude, que traz consigo a ousadia em cada drible tentado. E mudar tal cultura, sem resultados imediatos, é praticamente uma utopia no futebol brasileiro (não que eu ache que o Santos precise mudar sua forma de jogar, ao contrário). 

Não tive a impressão que Jair Ventura tentou mudar essa tal característica santista. Tentou, da sua forma, se adaptar ao novo desafio. Talvez tenha encarado como um momento de autoaprovação também, de que poderia triunfar em um cenário diferente, onde as exigências seriam novas. Era o momento de provar que sua forma de pensar e construir futebol não era estritamente aquele estilo praticado em General Severiano.

Mas aí precisamos olhar para o jogo. E a ideia, de fato, passou longe da execução. Não foi vista uma evolução dentro do processo. Não tinha resultado e muito menos desempenho em campo. As vitórias e tropeços, de um modo geral, vinham com o mesmo cenário de pouco padrão e incertezas sobre um modelo muitas vezes aleatório. Os comportamentos coletivos mal interpretados eram nítidos. Nas pressões pós-perda e em fase defensiva, por exemplo. O problema crônico na construção, de se organizar para atacar, gritava a cada rodada do campeonato. Neste sentido faltou muito (o vídeo abaixo mostra um pouco disto).

Logicamente que a análise se dá apenas pelo mostrado durante os jogos. Seria até leviano apontar algo sobre a qualidade dos treinos, por exemplo. Outra questão impossível de se avaliar por não estar no dia a dia do clube é a absorção das ideias que o treinador propunha durante os treinamentos. Clima, aceitação do vestiário, trato e gestão de pessoas... Nada disso eu posso medir. As respostas que trago aqui são apenas por perguntas feitas ao jogo. E só.

A falta de jogadores mais criativos no meio-de-campo foi um problema que perseguiu Jair. Não podemos fechar os olhos para isso. Mas mesmo com as peças que lá estavam era possível entregar mais. Ou então que se assumisse uma outra ideia de jogo enquanto os reforços (que chegaram e ele não poderá usar) não fossem a campo. Foi algo que impactou forte no trabalho de Ventura. Mas até as oscilações dentro de cada proposta nos jogos foram perceptíveis. 

Sinceramente não acho que a chegada de um camisa 10 resolveria tudo da água para o vinho. Aliás, não entendo que isso funcione em lugar nenhum onde o coletivo não está forte. Também estou longe considerar o elenco do Santos ruim. Tem seus desequilíbrios, mas conta com bons laterais e zagueiros. Goleiro também está bem servido. Nas beiradas do campo, por exemplo, se tem muita capacidade individual. Jogadores com extrema eficiência para vencer duelos pessoais, impor 1x1 e criar situações à partir do drible. O que precisou foi de uma estrutura por trás para potencializar toda essa qualidade.

Talvez o que tenha faltado ao jovem treinador foi encontrar saídas dentro de um cenário que não ajudava. A lesão de Bruno Henrique e Vitor Bueno após lesão sem entregar o que já desempenhou, se insere neste contexto. 

Enfim, são muitas as variáveis e certamente não existe um só culpado em todo o processo mal sucedido. Acredito que sim, todo treinador precisa de um tempo de trabalho para desenvolver uma ideia (qualquer que seja, aliás). Mas também não existe uma regra, uma cartilha ou período certo para se entender que o trabalho tem ou não perspectivas de crescimento. O dia a dia, volto a afirmar, que deve ser o senhor da razão neste sentido. E é aí que a gestão de futebol no Brasil peca muito.

Muitos de nossos dirigentes não têm a capacidade de entender se um treinamento foi bem planejado, se teve a intensidade necessária, se os objetivos foram alcançados ou mesmo se os jogadores absorveram o conhecimento ali proposto. Quem comanda, como neste caso e na grande maioria dos outros, não consegue nem identificar um perfil de treinador. Não entende minimamente do jogo, o ponto final de todo um processo complexo, que pode dar certo ou errado por inúmeras coisas - umas controláveis e outras não.  Não sabemos, por vezes, nem o tipo de futebol que queremos praticar. Não se tem identidade de jogo.

Jair Ventura teve sim sua parcela de culpa pelo desempenho do Santos dentro de campo. Mas ainda é jovem. Vai buscar se aprimorar, parece buscar isso. Outras oportunidades vão aparacer e ele terá novos desafios para se desvincular ou novamente praticar o jogo competitivo que encaixou no Botafogo. Vai se adaptar, errar e acertar muitas vezes. Mas o problema vai muito além do treinador. Tem suas particularidades e um amontoado de culpados. Como praticamente tudo no futebol que dá errado. Por isso é necessário sempre olhar para o todo. 

O que começa errado, normalmente, acaba errado. Nada diferente do que já estamos acostumados por aqui. 

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A queda de Jair Ventura no Santos vai além do mau desempenho e tem muito a dizer sobre o nosso futebol

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Análise técnica: conheça os reforços "desconhecidos" que chegam ao Brasileirão no pós-Copa

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN

A parada para a Copa do Mundo não serviu apenas para treinamentos e ajustes nas equipes que voltam a disputar o Brasileirão a partir do dia 18 deste mês. Entre uma folga inicial e uma mini pré-temporada, muitos elencos foram modificados. Se por um lado alguns nomes importantes como Vinicius Junior e Arthur rumaram à Europa, por outro, chegaram alguns reforços para a sequência da temporada.

Muitas destas contratações, aliás, um pouco desconhecidas do torcedor brasileiro. Chegaram nomes repatriados da Europa, artilheiro no México e até apostas do mercado sul-americano. Abaixo preparei uma breve análise de alguns destes nomes. Nem todos são gringos, mas tentei ir dentro das características e o que cada um pode oferecer para cada clube. Pontos fortes e fracos, posições preferidas, onde evoluir... 

É sempre importante olhar para os contextos antes de analisar individualmente qualquer jogador. Portanto, antes de qualquer verdade absoluta, precisamos sempre levar em conta onde estava e onde chega cada atleta. O modelo, o ambiente, a cultura do clube, a adaptação... Tudo isso é muito importante para dar ou não certo dentro de uma variável muito grande que é o futebol.

Peço perdão se esqueci de algum nome e aceito sugestões para um segundo post com mais perfis - lembrando que os dois estrangeiros que chegaram no Atlético-MG eu já dissequei aqui neste post.


INTERNACIONAL

Martin Sarrafiore – Meia-atacante – 1,80m  20 anos – canhoto – argentino

Martin Sarrafiore já foi apresentado pelo Internacional
Martin Sarrafiore já foi apresentado pelo Internacional Twitter: @SCInternacional


Fez uma grande Copa Ipiranga RS na temporada passada, sendo um dos melhores jogadores da competição sub-20 pelo Huracan-ARG. 

Sarrafiore é um camisa 10 com grandes atributos de atacante. Uma mescla dos dois, mas com maior essência organizadora. Vai muito bem dentro da área.

Sua posição preferida é atrás do centroavante (pode ser num 4-2-3-1, por exemplo) ou mesmo como um segundo atacante (4-4-2). Não chega a ser aqueles enganches argentinos típicos, que são mais baixos, leves e motorzinhos. É um cara de maior estatura, trabalha mais com a força física no setor. Suporta bem os contatos, algo importante para uma região do campo sempre com muita pressão na bola e encontrões.

Jogador com boa capacidade de criação e finalização. Mostra um bom primeiro toque na bola e tem um bom repertório técnico. Tem qualidade no passe final, com capacidade de achar companheiros em profundidade.

Sem bola ajuda. Dentro do contexto da sua ex-equipe, que tinha como modelo pressionar a saída dos adversários, fazia bem esse papel de puxar as pressões. Pode ser melhor estimulado na reação à perda da posse. Ainda pode crescer neste sentido. É algo para ser trabalhado na sua passagem pelo Internacional.

Não é um jogador rápido e está longe de ser um cara com boas trocas de direção, de ter grande mobilidade.  Talvez aí seja o seu ponto mais baixo.

Tem a questão não só de adaptação a um novo país, mas também ao âmbito profissional. Martin ainda não teve experiência neste sentido ainda. Atuou apenas no time sub-20. Mas é um cara que tem potencial. Um perfil que tem qualidades e características ainda a serem potencializadas. Vejo como uma aposta, mas bem interessante.

 

SÃO PAULO

Joao Rojas – ponta (direita/esquerda) – 1,72m 29 anos – destro – equatoriano

Joao Rojas em entrevista ao canal oficial do São Paulo no YouTube
Joao Rojas em entrevista ao canal oficial do São Paulo no YouTube YouTube: São Paulo FC


Já tem uma certa rodagem no futebol, inclusive com experiência em Copa do Mundo. Esteve entre os convocados do Equador no Mundial de 2014. O ponto alto de sua carreira foi durante a passagem pelo México. Lá marcou 44 gols e ajudou Monarcas e Cruz Azul com 37 assistências.

É um ponta mais característico. Jogador de velocidade e que busca muito o 1x1. Bem agudo e vertical, é mais criador que finalizador. Atleta leve, com boa troca de direção e projeção nos espaços. Pode atuar pelos dois lados do campo. Pelo Talleres-ARG, seu último clube, terminou a temporada mais pela esquerda. Nesta posição, buscava centralizar mais as jogadas, trazendo para o pé bom (direito). Foi possível vê-lo flutuando muito para o centro, tentando o lance pessoal ou passe em profundidade.

Mapa de ações com bola de João Rojas nas suas duas últimas temporadas
Mapa de ações com bola de João Rojas nas suas duas últimas temporadas DataESPN

Neste sentido mostrava algum problema nas tomadas de decisão. Questão de escolher a melhor a jogada. Vai melhor quando prende menos a bola. Tem uma jogada bem característica: de recuar pela ponta na iniciação, escorar e de primeira e atacar as costas do lateral. Vai bem assim. Faz bem as diagonais para dentro e tem certa chegada na área.

Pelo lado direito, como vem treinando no São Paulo, fica um jogador mais de fundo do campo. Vai buscar a finta e o cruzamento, com maior enfoque na preparação das jogadas.

Sem bola é um cara que faz bem o retorno pelo corredor e ajuda o lateral a não ficar no 2 contra 1. A sua reação depois da perda da bola pode ser melhorada. Às vezes demora um pouco, mas é algo que pode ser assimilado e concertado. Não tem uma relação com a bola exuberante, mas vai bem na condução da mesma. Pode ser um bom escape nas transições ofensivas.

Pelos moldes do negócio – pelo que parece veio à custo zero -, Rojas é uma boa aposta e pode ser uma peça importante na composição do elenco, que teve as perdas de Marcos Guilherme e Valdivia. É um cara para ajudar, mas não creio que seja para resolver. Tem sua utilidade e pode se beneficiar do modelo de jogo atual do São Paulo, que usa bem a velocidade pelos lados e costuma se dar melhor quando aposta num jogo mais reativo.

 

FLAMENGO

Fernando Uribe – centroavante – 1,82m – 30 anos – canhoto – colombiano

Fernando Uribe treina na academia do Flamengo
Fernando Uribe treina na academia do Flamengo YouTube: FLA TV


Centroavante com características bem diferentes do Henrique Dourado. Dará boa profundidade ao elenco, oferecendo outras alternativas para a posição (não se sabe ainda se o Guerrero continua). 

Foi muito bem nos seus dois últimos clubes: Once Caldas-COL e Toluca-MEX. Marcou 74 gols em 145 partidas.

Muito se fala que sua saída do México se deu por conta do mau relacionamento com o treinador. O negócio parece ainda mais vantajoso pelo fato de o Flamengo o trazer a custo zero, já que o colombiano estava em fim de contrato – claro que existe as luvas, que geralmente causam um gasto maior ao clube. Mas, dependendo do que pensa Barbieri, me parece um cara que chega pronto para jogar. Ainda mais que o atual titular ainda não conseguiu ter um desempenho dos melhores.

Uribe é um centroavante mais móvel. Mais leve. Se mexe muito no campo ofensivo. 

Sai da área para trabalhar no espaço entrelinha, nas costas dos volantes. Procura abrir linhas de passe ali para ajudar na construção. Não é um cara de grande imposição física, por isso não retém muito a bola de costas, como um pivô. Prefere executar rápido, de primeira ou com dois toques. Geralmente aparece, escora a bola e já ataca espaços na área.

Mapa de ações com bola de Uribe nas suas duas últimas temporadas
Mapa de ações com bola de Uribe nas suas duas últimas temporadas DataESPN

Longe de ser o típico 9 grandalhão e mais pesado, tem uma ótima explosão no arranque para atacar profundidade e antecipar bolas rápidas na área. Essa talvez seja sua grande característica. É um cara muito ligado. É elétrico. Está sempre buscando o melhor posicionamento na área e geralmente chega primeiro que o zagueiro se acionado em velocidade. 

É um cara que busca a infiltração e recebe bem a bola no ponto futuro. Não tem um grande repertório técnico e capacidade de improviso, mas costuma ser simples em suas ações. Não “mata” o jogo da equipe duranta  construção. 

Apesar de não ser dos mais altos e fortes, Uribe tem boa impulsão. Se acionado com bolas mais rápidas, tende a ganhar pelo alto dos defensores por sua agilidade. É um cara que depende do tipo de jogada que chega até ele. A equipe precisa entender o tipo de bola que ele costuma levar vantagem, se não tem dificuldades para se impor entre os zagueiros.

Sem bola é um jogador muito proativo. É agressivo, está sempre pressionando e causando dificuldades ao portador da bola. Incomoda bastante, está sempre brigando. Logicamente que um centroavante precisa ter outras qualidades, principalmente fazer gols, mas julgo ser um aspecto importante no seu jogo.

 

PALMEIRAS

Nicolás Freire – zagueiro – 1,86m – 24 anos – canhoto – argentino

Nicolas Freire responde perguntas em apresentação à torcida no canal de YouTube do Palmeiras
Nicolas Freire responde perguntas em apresentação à torcida no canal de YouTube do Palmeiras YouTube: TV Palmeiras/FAM


Chega da Holanda depois de um bom início na Eredivisie. Individualmente foi bem no começo da temporada, mas muito amparado também ao bom momento da sua equipe. O PEC Zwolle costumava até atuar com uma linha defensiva mais alta. Depois o modelo foi perdendo a consistência e seu ex-clube terminou a temporada na nona colocação. Isso impactou muito na confiança do próprio zagueiro. Seu rendimento caiu um pouco nas rodadas finais, assim como todo aspecto coletivo da equipe.

Freire é um zagueiro com uma boa capacidade técnica para a posição. Boa relação com a bola e principalmente com capacidades para iniciar as jogadas. Busca um passe mais vertical e acha companheiros nos espaços ofensivos. É até um pouco acima da média neste sentido para o mercado brasileiro. Tende a ajudar neste aspecto do jogo, principalmente dentro de um modelo que busca mais propor do que reagir.

Tem uma boa leitura das jogadas para cobrir profundidade e encurtar coberturas. É um cara que entende bem o jogo, toma boas decisões e não se precipita toda hora. É agressivo, mas exerce essa qualidade nos momentos certos. 

Por outro lado, não é um defensor muito físico. Inclusive tem alguma dificuldade para se impor em alguns momentos, principalmente nas bolas pelo alto. Busca a antecipação através da leitura. Acabou desenvolvendo isso por não ser um cara tão físico nos duelos. Acaba compensando de alguma maneira. Mas de fato é algo que preocupa pelas características do nosso futebol.

Mapa de ações com bola de Freire nas suas duas últimas temporadas
Mapa de ações com bola de Freire nas suas duas últimas temporadas []

Mostra um bom aspecto de liderança dentro da partida. Na Argentina, pelo Argentinos Juniors, por exemplo, chegou a ser capitão. Era um cara bem comunicativo, que falava muito em campo, buscava organizar o setor.

Pelo molde do negócio – empréstimo de 1 ano com opção de compra -, parece ser mesmo uma aposta. Não o vejo chegando e tomando conta da posição, mas é um cara que pode ajudar na composição do elenco e se desenvolver dentro do próprio Palmeiras. Ainda tem alguns aspectos a melhorar e tem algum potencial para evoluir. Se conseguir desenvolver algumas deficiências, pode se firmar.

 

CORINTHIANS

Danilo Avelar – lateral-esquerdo – 1,85m – 29 anos – canhoto – brasileiro

 Danilo Avelar, jogador do Corinthians, durante sua apresentação no CT Joaquim Grava
Danilo Avelar, jogador do Corinthians, durante sua apresentação no CT Joaquim Grava DJALMA VASSÃO/Gazeta Press


Atleta com longa rodagem pelo futebol europeu. Experiências na Ucrânia, Itália, Alemanha e na França. Estava no Amiens-FRA, com certa consistência de minutos jogados nos últimos anos, principalmente no futebol francês. Tem características importante para dar equilíbrio ao elenco. Tem um perfil bem diferente do Juninho Capixaba, com quem vai brigar por espaço após a Copa do Mundo.

Lateral mais base. Jogador equilibrado, que se destaca mais pelos aspectos defensivos. Costuma trabalhar mais por trás, na base da jogada, organizando e iniciando as construções. Tem uma boa leitura dos espaços, se comporta bem na linha defensiva. Sabe fechar bem ali, algo importante dentro do contexto do Corinthians das últimas temporadas. Esteve em ambientes que o estimularam a isso. Pode até jogar numa linha mais avançada, mas aí gerando mais imposição no meio. Longe de ser ponta de velocidade.

Jogador mais de imposição física, vai bem no contato e tem bom desenvolvimento do seu jogo pelo alto. Inclusive aumenta bem a estatura da linha defensiva, algo importante, até reforçando as bolas paradas defensivas.

Mapa de ações com bola de Avelar nas suas duas últimas temporadas
Mapa de ações com bola de Avelar nas suas duas últimas temporadas DataESPN

Relação com a bola é média. Não é um cara com grande capacidade de desequilíbrio com a posse. Tem um passe seguro, não arrisca muito. Quando avança no campo, vai mais na força. Tem até um bom cruzamento. Costuma achar bem os companheiros neste sentido, sempre com uma uma bola mais rápida. Não é um cara de grande condução da bola, prefere tocar e projetar. Não tem grande capacidade na troca de direção. É mais pesado.

Me parecia mais um jogador para compor o elenco, ainda mais por se tratar de um setor bem carente no Corinthians. Mas agora, com a saída de Sidcley, deve já iniciar sua passagem como titular, já que Juninho Capixaba ainda não conseguiu se firmar. Vem por empréstimo, até dentro da realidade financeira do clube, que não é das melhores. 

 

Jonathas – centroavante – 1,90m – 29 anos – destro – brasileiro

Jonathas de Jesus em foto publicado em seu Instagram
Jonathas de Jesus em foto publicado em seu Instagram Instagram: @jonathasjesus09

Já esteve na mira do Corinthians antes. Em 2015, após marcar 14 gols no Campeonato Espanhol pelo pequeno Elche, chegou a negociar com o clube. Na época, sem contrato, acabou indo para a Real Sociedad, onde não se firmou totalmente. No Rubin Kazan da Rússia, por outro lado, conseguiu maior sequência.

Sua passagem pelo Hannover (seu último clube) foi muito minada por lesões. Fez 12 jogos na Bundesliga, sendo sete como titular e com três gols marcados. A falta de oportunidades acabou abrindo o caminho para voltar ao Brasil.

Revelado pelo Cruzeiro, Jonathas é um centroavante bem característico. Estatura muito boa para a posição. É um cara com ótima imposição física. Vai bem no contato, busca a retenção e proteção da bola quando acionado. Tecnicamente não tem grandes recursos, até por isso, busca escorar as bolas com simplicidade. Não inventa muito e está longe de ser um atleta com grandes qualidades criativas.

É muito mais terminal. Quando constrói, o faz de costas, retendo e achando opções de passe mais próximas. Apesar de ser bem alto, não é um jogador totalmente lento. Tem uma boa força no arranque em distâncias curtas. É um cara para jogar no limite da linha defensiva, para infiltrar e antecipar os zagueiros. Gosta de puxar no primeiro pau na hora de finalizar. 

Mapa de ações com bola de Jonathas nas suas duas últimas temporadas
Mapa de ações com bola de Jonathas nas suas duas últimas temporadas DataESPN

Por outro lado, está bem longe de ser um jogador com bola agilidade. Tem problemas na troca de direção. Também não tem grande característica de 1x1, de ganhar do oponente com o drible. Vai mais na força do que na habilidade.

É um bom alvo nas disputas de primeira bola (tiros de meta, saídas de laterais...). Se impõem em jogadas aéreas, vai bem neste sentido. 

Sem a posse é um jogador agressivo. Reage bem às perdas da posse. Busca pressionar a bola, ajudar na recuperação. No entanto é um pouco afobado neste sentido. Não tem grande cacoete para marcar/desarmar e acaba fazendo muitas faltas.

A grande questão é observar sua readaptação ao futebol brasileiro e, principalmente, como chega fisicamente. Não é um cara com uma carreira muito regular, mas com algumas boas temporadas na Europa. Conseguiu ser influente no jogo de algumas equipes. Em outras, não se firmou.

 

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Análise técnica: conheça os reforços "desconhecidos" que chegam ao Brasileirão no pós-Copa

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Na Copa das bolas paradas, Juan Carlos Osório é ponto fora da curva em escanteios e faltas do México

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Osorio deixou o São Paulo para comandar a seleção  mexicana
Osorio deixou o São Paulo para comandar a seleção mexicana Getty

Na Copa do Mundo que vem se evidenciando pelo alto número de gols marcados através das bolas paradas - cerca de 49% até o início do dia de hoje 22/6) -, Juan Carlos Osório, conhecido dos brasileiros por conta de sua passagem pelo São Paulo, tem sinto um ponto fora da curva em faltas e escanteios, principalmente nos defensivos.  O jogo contra a Alemanha já nos mostrou um pouco disso. Amanhã, contra a Coréia do Sul, poderemos ter mais mostras disso. 


Famoso, e também muito criticado, por seus rodízios de jogadores e funções dentro de campo, "Profe" sempre se colocou como um treinador ofensivo em sua abordagem do jogo. Tal visão, inclusive, reflete na forma como vem se defendendo de escanteios e faltas laterais. Diferente do grande padrão atual, que consiste em se organizar com 10 ou 9 jogadores posicionados, Osório tem se defendido sua meta neste momento do jogo com apenas 7 jogadores (confira na imagem abaixo).

No escanteio defensivo contra Alemanha, jogadores ficam praticamente no mano a mano
No escanteio defensivo contra Alemanha, jogadores ficam praticamente no mano a mano Reprodução DataESPN

O lance acima aponta para um escanteio, mas a ideia se mantém também em faltas cruzadas na área. Perceba como o número é o mesmo (ilustração abaixo).

Veja o mesmo número de defensores na falta lateral contra a Alemanha
Veja o mesmo número de defensores na falta lateral contra a Alemanha DataESPN

A ideia é que, enquanto estes jogadores defendem, inclusive ficando no mano a mano em algumas oportunidades, três escapes ficam mais adiantados para aproveitarem os contra-ataques. Contra a Alemanha, por exemplo, o trio Lozano, Chicharito Hernández e Vela - em alguns casos Layún - ficava mais à frente. E não era nem uma situação de rebote. Se posicionavam quase no círculo central, sustentando a saída rápida e acelerando o jogo. IMPORTANTE: repare nos minutos da partida na imagem acima e também na que vem em seguida. Se trata da mesma jogada. Recuperação da posse após a falta e contra-ataque armado.

Trio de ataque do México recebe a bola em contra-ataque. Situação de 3 vs 3
Trio de ataque do México recebe a bola em contra-ataque. Situação de 3 vs 3 DataESPN

E para tal estratégia dar certo se exige muita organização. Primeiro na reação dos jogadores no pós-recuperação. A necessidade de todos estarem coordenados na corrida e também nas projeções dos espaços que se abrem. Neste sentido, Chicharito fez um grande jogo. Era ele o primeiro escape (inclusive na jogada do gol), para reter a bola ou simplesmente dar de primeira nas investidas de Lozano, muito eficiente nas diagonais de fora para dentro do campo.

Se por um lado esta abordagem da bola parada dá vantagens ofensivas ao México, por outro também pode favorecer defensivamente. Simplesmente pelo fato de, ao deixar três jogadores posicionados para o contra-ataque, faz com que a equipe adversária deixe no mínimo três defensores encaixados nestes jogadores para uma suposta transição, como fizeram os alemães. Em outros casos, acontecia de optarem por quatro defensores, usando um na sobra. Ou seja, Osório conseguia esvaziar e ter vantagem numérica dentro da sua área ao mesmo tempo. 

Mas se engana quem pensa se trata de uma estratégia nova para o treinador colombiano. Antes do México, já utilizava esta ideia pelo São Paulo (confesso que não sei se fazia em trabalhos anteriores). Foram vários os casos de indecisões de adversários pelo Brasil: deixar todo mundo no mano a mano ou ser mais conservador e ficar com uma sobra? Um dilema que muitos viveram na estratégia para as partidas contra o time paulista.

Existem algumas situações para tentar gerar vantagens em cima desta escolha de Osório. O escanteio curto, usado pela a Alemanha em alguns momentos, inclusive, é uma opção. E ao deixar todo mundo no mano, qualquer vacilo pode ser fatal, já que um duelo pessoal/físico vencido neste momento implicará num efeito dominó.

De fato tal estratégia é algo fora da curva na Copa do Mundo onde a maioria das equipes preferem defender a sua área com o máximo de jogadores (no caso todos). A Seleção Brasileira, por exemplo, usa os 10: oito marcando de maneira mista (com bloqueios na maioria das vezes) + dois prontos para o rebote, mas muitas vezes também dentro da área (veja na imagem abaixo).

Seleção Brasileira se defendendo de escanteio contra a Suíça, antes do gol de empate
Seleção Brasileira se defendendo de escanteio contra a Suíça, antes do gol de empate DataESPN

Outra grande seleção que adota tal estratégia é a Espanha. Apesar de toda obrigação e necessidade de furar o bloqueio do Irão, os espanhóis também usaram seus 10 atletas na defesa de escanteios (veja abaixo).

Espanha se defende com 10 jogadores nos escanteios do Irã
Espanha se defende com 10 jogadores nos escanteios do Irã DataESPN

Está mais do que evidente o quanto a bola parada pode ser decisiva dentro do futebol. A Copa do Mundo talvez seja o ápice destra mostra. Momento do jogo totalmente diferente, este tipo de situação exige muito mais estratégia e concentração. Trata-se da hora que todos param, se organizam e agem para uma só situação, lembrando até ataques e defesas de futebol americano, por exemplo. É um jogo de gerar vantagens, assim como o futebol num todo. Quantos vão e quantos ficam pode ser determinante. Juan Carlos Osório, tido como louco por alguns, segue sua jornada de surpreender. Que bom pra nós! 


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Brasil, Argentina, Neymar e Messi: a grande arte da "análise de um time só" chega à Copa do Mundo

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Tite comanda treino da Seleção Brasileira antes de enfrentar a Suíça
Tite comanda treino da Seleção Brasileira antes de enfrentar a Suíça Lucas Figueiredo/CBF

A Copa do Mundo vai de vento e popa. Uma rodada inteira já foi disputada. Mas aqueles nossos velhos hábitos permanecem no olhar para o jogo. Se sempre achamos que Palmeiras, Corinthians, Cruzeiro, Flamengo e outros gigantes de nosso futebol têm a obrigação de atropelar adversários "sem tradição" em Copa Libertadores, por exemplo, o que acharemos de Argentina e Brasil contra Islândia e Suíça, respectivamente?

Pois é. São muitos os protestos usando uma palavra talvez muito forte para o futebol nos dias atuais: obrigação. Obviamente que algumas equipes são melhores que as outras. Favoritismo existe. Até aí normal. 

Mas o absurdo é achar que não existe um trabalho por trás de cada uma das 32 seleções que estão na Rússia. O saco de pancadas, tão comum décadas atrás, é cada vez mais raro. E existe um porquê. A informação está por todos os lados e existe um desenvolvimento enorme do futebol em países de menor expressão. Não à toa todo mundo se prepara bem e são muitas as variáveis que definem o ganhador de uma partida. O alto nível que uma Copa pede não dá espaço para algo diferente.

O jogo do último sábado, entre Argentina e Islândia, nos deu uma boa mostra disso. O 1 a 1 foi inacreditável para quem olha apenas para o "time mais forte". Não é nenhuma novidade o ciclo turbulento que nossos vizinhos viveram até a Copa do Mundo. Conseguiram, no fio da navalha, a classificação nas Eliminatórias, mesmo não tendo um desempenho satisfatório em várias rodadas. Trocas de treinadores - com mudanças drásticas de metodologias e modelos de jogo -, lesões, crises internas... 

Jorge Sampaoli durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo
Jorge Sampaoli durante as Eliminatórias para a Copa do Mundo Getty

E ainda tem a Islândia nisso tudo. Sim, por incrível que pareça, temos que lembrar disso. País com menor população nesta Copa, tiveram a primeira participação na Eurocopa em 2016. O resultado? Quartas de final. Líder de seu grupo nas Eliminatórias e primeira ida a Copa do Mundo, deixando Croácia, Turquia e Ucrânia para trás (croatas passaram pela repescagem). Alguma coisa estava acontecendo ali. Só não parou para olhar antes quem não quis. 

Mas aí veio o jogo.

De fato, olhando para as últimas atuações da equipe de Sampaoli antes do Mundial, não foi um jogo todo ruim dos argentinos.  Obviamente que, coletivamente, ainda falta muito. A grande posse de bola durante os 90 minutos (72%) tinha que ser mais eficaz. Faltou movimento, passes mais rápidos e, principalmente, jogadores que pudessem infiltrar no tempo e espaço certo dentro da área adversária. Por outro lado, a Argentina conseguiu quebrar parte do plano da Islândia: os contra-ataques. Boas reações pós-perdas e muito agressividade no terço final fizeram com que Messi & Cia. conseguissem neutralizar as fortes saídas rápidas do rival. Isso é desempenho, é a execução de um plano.

Mas a Islândia teve um desempenho melhor. Dentro do que se propôs a fazer, fez um jogo quase perfeito. De fato é uma das seleções do Mundial que parecem ter atingido quase o máximo do que pode entregar. Se de alguma forma a Argentina não conquistou o resultado esperado, muito disso tem a ver com as dificuldades condicionadas pelo adversário, pelos méritos do mesmo. Duas linhas de 4, muita rigidez defensiva e proteção da própria área (veja as fotos e as legendas abaixo). Fora a concentração para se manter alerta e intenso nos 90 minutos e, principalmente, a força física para vencer os duelos corporais. Os islandeses serão osso duro para qualquer seleção nesta Copa. Esqueça sua tradição, olhe para o que eles dão em campo.

Posicionamento defensivo da Islândia com duas linhas de 4 e todos os jogadores de linha atrás da linha da bola
Posicionamento defensivo da Islândia com duas linhas de 4 e todos os jogadores de linha atrás da linha da bola DataESPN
Agora perceba como a Islândia protege a sua área, priorizando o centro e não os lados do campo
Agora perceba como a Islândia protege a sua área, priorizando o centro e não os lados do campo DataESPN

Já o caso da Seleção Brasileira é um pouco diferente. Grande preparação, bons resultados, confiança... Tite não pegou o ciclo de Copa do Mundo lá no seu início, como o ideal, mas é perceptível que existe um processo, uma ideia por trás de todo trabalho. A obrigação não é de vencer, mas sim de ser competitivo e estar nas cabeças. Ser um dos candidatos ao título não só na teoria, mas também na prática. 

E os 25 primeiros minutos foram de bom desempenho. Equipe agressiva, controlando o jogo e tendo boas associações pelo lado esquerdo com Neymar, Coutinho e Marcelo. O gol sai de uma grande jogada coletiva, que ainda contou com a forte pontaria de Coutinho em sua jogada característica. Mas tal performance não foi mantida. E mais, a Suíça melhorou no jogo. Ajudou a condicionar o baixo desempenho brasileiro até certo momento do jogo.

Travou o lado esquerdo de nossa Seleção. Ajustou as marcações e pressionou muito a bola (veja a próxima imagem e legenda). Não existia sequer um brasileiro a partir do terço central se sentindo confortável com a bola. O gol de empate caiu como uma bomba psicológica para nós. A concentração baixou, pouco se criou e a ansiedade, principalmente se tratando de estreia, se aflorou. Os últimos minutos ainda foram de maior domínio de nossa parte, mas a proteção da área suíça foi bem feita e não conseguimos furar os bloqueios. Apesar das 20 finalizações, boa parte delas não foi condicionada, como uma chance realmente clara de se marcar o gol. Devemos na construção e organização ofensiva. 

Marcelo com a bola e a Suíça travando todas as opções de passes para a frente da Seleção Brasileira
Marcelo com a bola e a Suíça travando todas as opções de passes para a frente da Seleção Brasileira DataESPN

As criticas a Neymar e Messi também viram um epicentro de todo este debate. Ambos não tiveram grande desempenho, mas é no mínimo leviano acusar a dupla de omissão em seus respectivos jogos. Buscaram, tentaram... Até de forma exagerada em alguns momentos. 

No caso do craque brasileiro, a insistência em jogadas individuais em vários instantes foi um erro. O tempo foi passando, e a necessidade de resolver foi crescendo. Melhores decisões, mais desmarques e trabalho sem bola, mais dinâmica para receber, tocar e se projetar... São todos aspectos que melhorariam seu jogo. O coletivo da Seleção, é sempre bom lembrar, também não esteve num grande dia e contribuiu para tais ações. Não tem como desvincular o jogador do seu contexto. Esse é um aspecto importantíssimo dentro de qualquer análise.

Já Messi sentiu bastante o pênalti perdido. Seu entorno já não ajuda faz anos. A ruptura de trabalhos, com trocas de modelos e até de elenco, contribuem para isso. Mas não foi um grande dia, independentemente do penal. Erros técnicos e de tomadas de decisão que não fazem parte do seu normal. Os problemas da equipe como um todo, também foram impactantes no seu desempenho. Se viu, em vários momentos, seus companheiros tocando para ele e esperando. Não existia uma segunda ação após o passe. Era jogar no craque e esperar (rezar?). Os problemas de Sampaoli para os próximos jogos vão muito além de Messi estar bem ou não. Isso é nítido. 

Tais considerações servem para apontar dois vícios que carregamos no nosso dia a dia. O primeiro é achar que o time mais forte joga contra ninguém. Que não existe nada do outro lado além de jogadores prontos para serem atropelados. Essa reflexão busca apurar o nosso olhar, perceber que nem sempre uma má atuação se dá somente por um dia ruim de uma equipe, mas também pelo ótimo desempenho do adversário. O segundo ponto é ainda mais simples: retratar a nossa mania de individualizar e desumanizar o futebol que tanto amamos. O talento individual faz parte de um todo. Tende a ser cada vez mais decisivo quando bem aparado. Do contrário, a única andorinha não fará verão por tantos anos.


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Copa do Mundo: O dilema uruguaio, a pressa marroquina e o desempenho vs Cristiano Ronaldo

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Cristiano Ronaldo celebrando gol contra Portugal
Cristiano Ronaldo celebrando gol contra Portugal Getty

Enfim, Copa do Mundo! Para não encher o blog de textos e a paciência de vocês com uma enxurrada de divulgações por dia, vou tentar escrever um texto por data para analisar rapidamente as partidas que eu for asssitindo na competição. 

Esta sexta-feira, o primeiro dia com rodada tripla na Rússia, trouxe diversos contextos e modelos de jogo para serem analisados. Nada que fuja do que as seleções vinham mostrando durante Eliminatórias e últimos amistosos, mas confrontos de ideias e estilos bem diferentes. Tivemos bons e maus momentos de desempenho, o duelo entre Espanha e Portugal com futebol em alto nível e, principalmente, Cristiano Ronaldo arrasador.

Vamos às análises:

Egito 0x1 Uruguai (Grupo A)

Óscar Tabárez tem um dilema para resolver no time do Uruguai no restante da Copa
Óscar Tabárez tem um dilema para resolver no time do Uruguai no restante da Copa Getty

O dilema uruguaio já entrou em cena logo em sua primeira aparição na Copa do Mundo. No cargo desde 2006, Oscár Tabázer, enfim, deu uma leve mostra que abriria mão do jogo mais físico e direto praticado nas últimas temporadas. Modelo que, aliás, trouxe grandes resultados para o Uruguai em suas últimas participações em grandes competições.

Vecino, Bentancur, De Arrascaeta e Nandez iniciaram o Mundial entre os titulares. O jovem e promissor Lucas Torreira, com grande temporada na Sampdoria, ficou no banco. Todos eles jogadores com maiores capacidades técnicas que os meio-campistas das últimas Copas, por exemplo. Atletas para elevar o jogo mais curto e associativo com a posse. E de início vimos um pouco disso. Ou pelo menos uma tentativa.

Os uruguaios buscaram um posicionamento nos espaços entrelinha (nas costas dos volantes e à frente dos zagueiros). Arrascaeta flutuou muito por ali. Tentaram sair pelo chão, com passes mais verticais é verdade, mas tentando ter mais controle com posse. 

O tempo foi passando e a proposta do Egito foi tomando conta do jogo. Bloco médio/baixo, muita pressão na bola e controle dos espaços. Sem Salah, ainda no banco por conta da lesão no ombro, Trezeguet e Warda não foram muito efetivos como escapes nos contra-ataques. Um primeiro tempo do Uruguai pouco criativo, mas também sofrendo pouco com as saídas rápidas dos africanos.

A segunda já iniciou diferente para os sulamericanos. Apesar de não fazer substituições no intervalo, ficou percepítivel o jogo mais direto sendo resgatado no Uruguai. Bolas mais longas, pouca circulação e muita disputa física para Cavani e Suarez no terço final. As trocas de Arrascaeta e Nandez por Cebola Rodriguez e Carlos Sanchez foi a mostra de que o plano B, que por muito tempo foi o plano A, entraria em cena. Time mais agressivo, físico e direto.
 
O gol na bola parada resolveu uma estreia com muita oscilação uruguai. Um dia ruim de Suaréz e com Cavani melhor oferecendo alternativas quando saia da profundidade para ajudar na construção. A questão para Tabárez agora é: como seguir até o final? Se ajustar a cada adversário? Manter ou trocar a ideia?

Para o Egito, agora é só decisão pela frente  contra Rússia e Arábia Saudita. O grande acréscimo de qualidade com Salah é a esperança. A fase defensiva é o grande trunfo do treinador argentino Héctor Cúper. A melhora tem que ser nas tiradas de pressão para acelerar. Tentar condicionar as melhores situações de jogo para potencializar seu astro. Não vai ser fácil.


Marrocos 0x1 Irã (Grupo B)

Jogadores do Irã comemoram gol da vitória sobre Marrocos
Jogadores do Irã comemoram gol da vitória sobre Marrocos Getty

Jogo com propostas bem claras. O Irã, com um projeto já bem estabilizado com Carlos Queiroz, treinador da equipe desde 2011, não fugiu do seu modelo: controle de espaços, bloco baixo (alternou médio em alguns momentos) e muita rigidez defensiva. Algo que já havia mostrado durante a Copa de 2014, sendo um dos adversários mais difíceis de ser furados durante a o Mundial em solo brasileiro. Proposta e execução. Simples assim. Eficiente e letal no 1 a 0 no finalzinho do jogo.

Já Marrocos colocou toda sua agressividade e mobilidade em campo. Muito do que fez principalmente contra a Sérvia, adversária do Brasil, num amistoso recente. Pressão na bola, perseguições por setor e muita intensidade para recuperar a posse e acelerar o jogo. O primeiro tempo foi muito disso. Tamanha a efetividade destas recuperações pós-perda, fez com que a equipe treinada por Hervé Renard quase não entrasse em fase defensiva, que é o momento em que a equipe se posiciona atrás da linha da bola e se organiza em seu próprio campo. Posse, transição e recuperação.

O grande problema, ao meu ver, foi a pressa. Não ter alternado ritmo durante o confronto. Várias situações mostraram que nem sempre o melhor a se fazer é acelerar. Entendo que tal característica é a essência da equipe, mas tais ações fizeram com que os jogadores jogassem sempre no limite, a mil por hora. Quanto mais rápido, maior a chance de erros. E de fato, o último passe, as ações finais antes da conclusão, não tiveram grande qualidade.

Hakim Ziyech (Ajax) e Belhanda (Galatasaray), as referências técnicas da equipe, não conseguiram exercer a grande influência que se espera deles dentro da estrutura marroquina. E isso muito pelo mérito iraniano, que marcou de forma agressiva, controlando espaços como ninguém. 

O Irã soube encaixar suas boas transições ofensivas. No contra-ataque, usava bem as tentativas de antecipações dos zagueiros Benattia e Saïss, quebrando a linha defensiva de Marrocos e ganhando campo (com superioridade numérica) para acelerar. Foi assim que criaram as melhores chances além da bola parada derradeira nos instantes finais do duelo. Aliás, situação importante para os africanos corrigirem no decorrer da competição, inclusive. Estas quebras deixaram a equipe vulnerável. 

O grupo é pesado. Espanha e Portugal são as grandes favoritas à avançar. Mas o Irã, mais uma vez, vai demonstrando um forte coletivo dentro de suas limitações. Nada fora do esperado, mas com bom desempenho no que se propõem a fazer. O Marrocos, com melhores individualidades, acabou pecando pela falta de precisão. É uma equipe legal de ver, mas podia ter dado mais em sua estreia. 


Portugal x Espanha

Espanha x Portugal duelaram em Sochi e ficaram no 3x3
Espanha x Portugal duelaram em Sochi e ficaram no 3x3 Getty

A  foi Espanha melhor coletivamente e Cristiano Ronaldo melhor que o coletivo da Espanha. Ou não?

Impossível olhar para o contexto de um 3 a 3 alucinante em Sochi sem discutir o quão influente é Cristiano Ronaldo dentro da estrutura portuguesa. Odeio o papo do "ele joga sozinho". Mas o seu hat-trick chegou perto disso. Muito pelo fato de algumas individualidades portuguesas não funcionarem hoje. Mas, por outro lado, também não dá para negar que portugueses têm muita qualidade no plantel que foi para a Rússia. Talvez até com um nível maior se compararmos ao elenco do título da Euro, dois anos atrás.

William Carvalho, por exemplo, fez um grande jogo. Ocupou bem os espaços, fez boas leituras e conseguiu dar equilíbrio defensivo para Portugal. Talvez tenha faltado uma melhor saída, principalmente para acionar a velocidade nos contra-ataques, já que, em vários momentos, sua equipe esteve com a vantagem no placar e posicionada para explorar as transições ofensivas. Guedes, Bernardo Silva e Bruno Fernades, que terminaram a temporada europeia em alta, não estiveram em seu melhor nível.

O gol cedo condicionou muito a história do jogo. A Espanha demorou um pouco para assimilar o golpe inicial. Mas foi se estabelecendo, recolhendo os cacos e... Colocou seu modelo para funcionar. As boas associações entre Isco, Iniesta e Alba pelo lado esquerdo foram importantes para tal domínio. Chances criadas, bola na trave... Mas o empate veio em jogada brilhante (e polêmica) de Diego Costa, em uma aula de "centroavância".

O segundo gol português veio, além de uma falha de De Gea, num dos melhores momentos espanhóis no jogo. As transições ofensivas de Portugal não funcionava. A Espanha trabalhava a bola, com apoios próximos, se movendo muito no campo ofensivo. A bola era perdida e recuperada rapidamente, com boas reações no pós-perda. 

A virada espanhola aconteceu. E o jogo ficou confortável para a equipe de Hierro que, defendia com a posse, escondia a bola e tentava atrair os portugueses para seu campo. Um cenário bastante complicado para a equipe de Fernando Santos. Mas não para Cristiano Ronaldo. Falta, perto da meia lua e... Caixa!

De fato o empate não é uma tragédia para ninguém. Se tudo correr como esperado, ambos disputam a primeira colocação por saldo de gols. Dentro do que se propõem a fazer, a Espanha foi melhor e tende manter este nível de atuação contra Marrocos e Irã. Já Portugal precisará propor com mais qualidade, já que tem, teoricamente, duas equipes que vão esperar mais em seu campo nos próximos duelos.


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Análise técnica: como jogam os novos gringos do Atlético-MG?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Thiago Larghi, treinador do Atlético-MG, recebeu dois reforços estrangeiros
Thiago Larghi, treinador do Atlético-MG, recebeu dois reforços estrangeiros Gazeta Press

O Atlético-MG acertou a contratação de dois reforços vindos de fora do Brasil para se juntar ao elenco de Thiago Larghi após a Copa do Mundo: Yimmi Chará (ex-Junior Barranquilla-COL) e David Terans (ex-Danubio-URU) - o segundo, é importante ressaltar, ainda passa por exames antes de ser anunciado. 

Se por um lado o meia-atacante colombiano é um pouco mais conhecido e rodado, muito pelas suas boas aparições em Copa Libertadores, por outro o meia uruguaio ainda não tem uma longa rodagem no futebol. Muito por conta disso, o blog resolveu analisar as principais características de ambos. Uma análise de seus comportamentos em campo, pontos fortes, pontos fracos e como cada um pode encaixar na estrutura atual do Galo. Confira:

Yimmi Chará
02/04/1991 - 27 anos
Meia-atacante - Destro - 1,62m

Yimmi Chará, sendo apresentado como novo reforço do Atlético
Yimmi Chará, sendo apresentado como novo reforço do Atlético Gazeta Press

De fato o colombiano, que começou sua carreira no Deportes Tolima-COL e passou por Atlético Nacional-COL, Dorados-MEX e Monterrey-MEX, antes de desembarcar em Belo Horizonte, chega com um jogador mais pronto e com grandes qualidades para agregar ao elenco atleticano. Chará, apesar de ser um ponta com muita velocidade, 1x1 e com rápidas trocas de direção, pode acrescentar mais ao modelo de Largui. Muito por conta disso o denominei como um meia-atacante.

Apesar de todas características peculiares do bom e velho ponta-direita, o novo camisa 11 do Galo tem potencial para não ser apenas um beirada agudo, de buscar o fundo do campo e a velocidade a todo custo. 

Em suas últimas aparições pelo Junior, Chará mostrou bom repertório técnico para jogadas combinadas, centralizando a posse e gerando constantes apoios. Trata-se de um jogador que, além do poder de aceleração, tem também uma veia mais organizadora, do jogo curto e trabalho sobre pressão no terço final do campo. Pode muito bem fazer às vezes de um "ponta-armador", saindo do lado e flutuando por dentro. Aí vai muito do que Larghi pensa para ele dentro do modelo de jogo estabelecido.

Mesmo sendo um jogador com capacidade de criar situações de gol, com boa capacidade de passe para a posição (tem um aproveitamento de 80% dos tentados entre Libertadores e Torneio Apertura em 2018), Chará tem em sua essência a ideia de sempre acelerar. Bastante dinâmico e móvel, tende a tocar e se projetar no espaço. Sua natureza é de verticalizar as jogadas, mas é também um cara preocupado em abrir linhas de passe e participar da fase ofensiva da equipe.

Tem boa relação com a bola. Não é excepcional neste sentido, mas tem gestos rápidos e executa com velocidade suas ações, algo importante para a exigência atual do futebol. Tem boa leitura dos espaços ofensivos e, sempre que os detecta, busca a infiltração. Pisa bastante na área. Em sua ex-equipe, inclusive, sempre teve grande liberdade para se movimentar. É bom sempre lembrar que o contexto é muito importante dentro da análise.  A estrutura que ele estava inserida o ajudava a potencializar algumas de suas características.

Está longe de ser um atleta de grande estatura, e por conta disso, tende a não ter muito sucesso nas bolas disputadas pelo alto. Já por outro lado, se trata de um atleta com bastante força física. Sustenta bem no contato, é agressivo e se impõem nos duelos corporais. Se olharmos para sua altura, podemos dizer que lida muito bem com tais situações. Confesso que era uma preocupação que eu tinha antes de analisá-lo com mais critério.

Defensivamente é um cara com bastante resistência e pulmão para fazer os retornos pelo lado direito. No entanto, pelo contexto que estava inserido, muito por ser uma das referências do Junior, devia um pouco neste sentido em algumas partidas. Demorava a reagir no pós-perda da bola. Em alguns momentos retardava um pouco a transição defensiva, se desligava. Obviamente são questões que tem a ver com o ambiente que estava inserido e o status conquistado no antigo clube. Algo que deve ser mais estimulado aqui no Brasil. Pela Libertadores o vi com mais energia, executando tais ações com mais intensidade.

Outra preocupação que tenho é com a adaptação. Apesar de toda qualidade, Chará não conseguiu se firmar nas experiências fora de seu país. Teve alguma sequência no México, mas era constantemente substituído e acabou voltando muito rápido para a Colômbia. Sem ter acompanhado de perto estas passagens, é difícil afirmar que foi algo relacionado à aclimatação, mas é algo relevante de se salientar e por vezes é um processo complicado para muitos atletas. 

O contrato de 5 anos com o Galo, aliás, mostra a confiança que o clube mineiro tem no reforço. Por conta disso terá que o ajudá-lo neste primeiro momento.  Lembrando que cada caso é um caso e as reações são sempre variadas. O vínculo longo, por outro lado, pede um alerta maior sobre o jogador.  É necessário ambientá-lo e estimulá-lo, já que contrato mais extensos, por vezes, traz um certo relaxamento a certos jogadores.

Tendo pontuado seus pontos fortes e algumas das minhas preocupações, acredito ter sido uma ótima contratação. Para alguns observadores técnicos com que tive contato, trata-se de um dos pontas mais qualificados que ainda jogam em nosso continente. Cabe agora respeitar sua adaptação e individualidades, estimulando e potencializando o que Chará tem de melhor em seu jogo. Sem dúvidas pode ser uma peça influente no grupo atleticano.


David Terans
11/08/1994 - 23 anos
Meia - canhoto - 1,76m

David Terans em ação pelo Danubio-URU
David Terans em ação pelo Danubio-URU Gazeta Press

Já a contratação de Terans tem um outro viés, pelo menos ao meu ver. Trata-se de um jogador que ainda precisa evoluir em alguns sentidos e, se bem estimulado, pode atingir um patamar melhor de desempenho. O Atlético-MG não revelou valores, mas creio eu que esteja pagando um valor menor, apostando no desenvolvimento do atleta jovem e que, num primeiro momento, pode ser uma peça de composição do elenco.

David é mais meia em sua essência. Chegou a jogar pela beirada esquerda no Santiago Wanderers-CHI, mas nunca foi um cara de buscar o fundo do campo, de explosão e jogadas de 1x1. Mesmo jogando com o seu pé por fora, fazia o movimento para dentro, flutuando e sendo mais um organizador.

Pelo Danubio seu posicionamento mudou. Hoje é um jogador mais interior, que se aproxima do centroavante e que, sem bola, fica até mais adiantado com a equipe fechando duas linhas de 4. Até por isso tem tido um rendimento maior, já que marcou 14 nesta temporada.

Terans tem um bom repertório técnico. É um atleta que tem uma boa relação com a bola. Finaliza bem de média e longa distância, pisa na área, ajuda na construção ofensiva. Tem dinâmica para acrescentar nestes sentidos citados anteriormente. Sua bola parada tem bastante qualidade. Tem uma boa leitura e batida na bola para achar um companheiro neste momento do jogo.

Fisicamente é a minha grande preocupação. Não é um jogador rápido e também está longe de ser um especialista no contato físico. Lhe falta a explosão nas trocas de direção, mais agilidade no giro do corpo e nas tomadas de decisão. Coisas que podem ser melhoradas se bem estimuladas, mas que dificilmente darão um salto tão grande em sua carreira. 

O que ainda pode se desenvolver no jovem é a inteligência individual e coletiva. Coisas que o farão se posicionar melhor e tomar melhores decisões. Controlar melhor os espaços em que se coloca. Isso potencializará suas qualidades e compensará algumas deficiências. E isso não é nenhum demérito, afinal jogadores que são bom em tudo, normalmente, são os top mundiais. 

Sem bola é um cara agressivo. Busca pressionar os adversários, busca a recuperação da bola. Mas a questão física também implica nisso. Seu arranque para reagir, para prontamente atacar a bola, não é dos melhores. Também é uma questão que pode ser melhorada. 

Terans é um cara que ainda pode ser lapidado e melhorado. Seus comportamentos dentro de campo dão indícios que é um cara proativo, que aparece, oferece apoio, participa... De fato se mostra alguém interessado, que tende a não ser resiliente ao aprendizado, coisa que o favorecerá nos treinos se bem estimulado. 

Ainda existe a questão da adaptação. O jovem chegará em um futebol bem diferente de onde ele joga atualmente. Essa questão física pode ser uma dificuldade em seu início no Brasil. Por conta de tudo acima citado, acredito ser um jogador que não chega tão pronto assim como Chará. Mas que tem qualidades que podem ser potencializadas e, em algum momento, ajudar o Galo nos próximos anos. 



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Análise técnica: como jogam os novos gringos do Atlético-MG?

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Real Madrid e Liverpool duelam “liberdades criativas” e confrontam CR7 e Salah, os grandes mutantes da Europa

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Zidane e Klopp, rivais na final da Champions
Zidane e Klopp, rivais na final da Champions Getty

Real Madrid e Liverpool se enfrentam no próximo sábado, em Kiev, na Ucrânia, para definir qual é o melhor clube da Europa na temporada 2017/2018. E esta final de Champions League nos traz, acima de tudo, particularidades bem interessantes. A maior, que se faz presente em ambos os lados - cada uma da sua maneira, claro - , trata-se da liberdade criativa que os treinadores impuseram aos seus jogadores durante toda a temporada.

Apesar de praticarem futebol de formas distintas, Zenédine Zidane e Jürgen Klopp prezam o jogo ofensivo e, principalmente, de muita mobilidade com a posse de bola. Tais ideais, inclusive, dificultam até no estabelecimento de uma só plataforma de jogo durante os confrontos até aqui – com os madridistas é ainda mais difícil definir um sistema de jogo. 

Muita variação, trocas de posições e jogadores de qualidade no último terço do campo faz das equipes os melhores ataques da competição até aqui (ingleses com 40 gols marcados e os espanhóis com 30). Marcas e formas de jogar que deixam o confronto único em campo neutro totalmente aberto.

O duelo entre ingleses e espanhóis também colocará frente a frente Cristiano Ronaldo e Mohamed Salah. Jogadores que precisaram sofrer algumas transformações para chegar ao grande número de gols marcados na temporada: ambos têm 44. 

Confira na íntegra a análise dos times e dos craques que envolvem este jogão:

REAL MADRID: COM QUAL TIME, ZIZOU?

É totalmente plausível afirmar que o Real Madrid fez uma temporada de altos e baixos. Mais que nos resultados, a equipe comandada por Zinédine Zidane oscilou bastante em desempenho. E tal afirmação não fica apenas dentro da não briga pelo título espanhol vencido pelo Barcelona, mas também escorre no caminho trilhado na UEFA Champions League.

Foram vários os momentos de aperto durante os mata-matas da competição. Temos que ressaltar que o caminho até a final não foi dos mais fáceis: PSG, Juventus e Bayern de Munique foram derrubados. Mas também é fato que o Real não conseguiu exercer grande controle durante estes duelos. Na verdade foi mais controlado. Se viu pressionado e encurralado em vários momentos, mas a fortaleza psicológica fundada em seus jogadores nos últimos anos acabou sendo decisiva.

O contexto da equipe madridista vai muito além da parte tática. Tem um time que, apesar de se desorganizar em várias situações, consegue ser letal nas chances que cria. E normalmente em momentos cirúrgicos do jogo, muitas vezes condicionando o restante da partida. 

Além da qualidade acima da média no terço final do campo, que é totalmente determinante durante sua campanha, paira no Santiago Bernabeu uma mentalidade vencedora, capaz de dar a tranquilidade necessária ao grupo de jogadores nos momentos mais difíceis. Uma coisa é certa: se você não matar sua chance, será morto na sequência. Não tem como, o aproveitamento tem beirado a perfeição neste sentido.

A mobilidade talvez seja a grande virtude da equipe treinada por Zinédine Zidane. Muitas trocas de posição no setor ofensivo e ataques aos espaços, somada à liberdade criativa que os jogadores obtiveram com seu comandante, acaba por ser um dos grandes motivos do sucesso recente. Uma engrenagem cheia de intuição e talento, com sua organização para justamente potencializar todo esse repertório técnico.

A flexibilidade dos esquemas táticos utilizados até aqui também mostra muito deste retrato de autonomia dos atletas em campo. O Real varia entre 4-3-3 (normalmente com o trio BBC em campo), 4-3-1-2 (com Isco na ponta do losando e três meio campistas por trás) e até mesmo o 4-4-2 em linha (este quando Zizou opta por Asensio e Vazquez). Durante sua passagem pelo Santiago, o treinador francês chegou a usar três zagueiros, mas não foi algo que se manteve com regularidade.

Tal metamorfose nas plataformas de jogo traz até o questionamento de qual time iniciará o duelo contra o Liverpool no próximo sábado. Zidane tem, por vezes, se baseado nos adversários para escolher os 11 jogadores que iniciam. Me parece, inclusive,  que a formação com um losango no meio e Isco municiando os atacantes (normalmente Benzema e Cristiano avançados) é a preferida. Por outro lado, Bale vem de bons desempenhos nos últimos jogos e pode estar cavando sua vaga na decisão.

A terceira opção (como mostra o vídeo abaixo), no entanto, tem dado um maior equilíbrio ao Real Madrid, principalmente durante as transições. Foram vários os momentos que Zidane recorreu aos jovens Asensio e Lucas Vazquez (virada contra o PSG e partida contra a Juve), ambos fechando os lados e auxiliando o trabalho defensivo dos seus laterais. Um time mais agressivo, mais intenso e, principalmente, com melhor ocupação dos espaços defensivos. 


O lado esquerdo, inclusive, é o céu e o inferno do Real Madrid. Tem Marcelo, com grande repertório técnico e cognitivo chegando muito ao ataque, inclusive pisando na área em vários momentos, porém a necessidade de coberturas e compensações, já que o brasileiro é incapaz de estar em dois lugares ao mesmo tempo. É aí que a importância das coberturas e o jogo físico de Casemiro, peça importante para a grande engrenagem funcionar. Certamente será um espaço observado por Klopp e atacado durante o confronto.

LIVERPOOL: INTENSIDADE E CONTRA-ATAQUE FULMINANTE

A grande marca do Liverpool na vitoriosa caminhada até a final da UCL, sem dúvida nenhuma, é a intensidade. Um time elétrico em campo nos grandes jogos. Agressividade, transições fortes e muita, mas muita mesmo, velocidade no terço final do campo.

E talvez a grande referência para Klopp neste processo à frente do clube inglês seja os primeiros 45 minutos do mata-mata contra o Manchester City de Pep Guardiola. O dia em que o campeão da Premier League praticamente não respirou dentro de campo, tamanho o sufocamento dos Reds, que exerceram muita pressão na bola durante o confronto. Foi o ponto alto do Liverpool durante a temporada.

E é no momento da recuperação da posse que mora o maior perigo nesta equipe do Liverpool. As reações dos seus jogadores são instantâneas. Projetam e atacam os espaços em velocidade máxima, sempre buscando o gol com muita objetividade. Este contra-ataque, aliás, gera uma jogada bastante padronizada em gols e lances de perigo criados ao longo da temporada (veja no vídeo abaixo).


Perceba que, ao retomar a bola, Roberto Firmino tem um papel de grande relevância para que a bola chegue até a área dos adversários. É o camisa 9 o escape, o jogador para receber a posse num primeiro momento de transição ofensiva. Cabe a ele, nesta altura do jogo, tomar as melhores decisões possíveis: reter a bola e esperar os movimentos de Salah e Mané? Jogar de primeira e já se projetar no espaço mais próximo? Atacar a profundidade? Pois é. Isso não tem sido problema para o brasileiro.

Apesar da grande número de gols anotados por Salah, Firmino tem tido um papel de grande importância no sucesso do Liverpool. Entende o tempo e a maneira certa de soltar a bola, onde coloca-la e onde ir após a ação (vídeo acima mostra bem isso, com ele concluindo jogadas após ajudar na criação das mesmas). Depois de muita crítica, sobretudo com a camisa da Seleção Brasileira, o "meia que joga de centroavante", enfim, tem conquistado a confiança de todos.  Faz até aqui uma temporada impecável.

E essa força nas transições ofensivas tem muito a ver com uma escolha de Klopp que, por vezes, faz a opção de defender com menos jogadores para, inevitavelmente, ter mais peças para atacar na retomada da bola. Retorna com 7 ou 8 jogadores (Firmino recua mais que os pontas) e, quando a posse é recuperada, tem dois jogadores de muita velocidade para atacar a profundidade. Perceba no vídeo acima como o posicionamento corporal deles é importante neste momento, de como estão todos prontos para o primeiro arranque, deixando os marcadores (na maioria mais lentos) para trás. E existe outro sentido na ideia: ao segurar dois atacantes mais avançados, o treinador também pense que eles possam segurar três defensores. Existe toda uma lógica nisso, pensando em duelos no mano a mano e em sobras.

E o bom momento do Liverpool não se dá apenas pela fase de seu trio de ataque, Klopp achou e conseguiu evoluir jogadores importantes. Robertson, Alexander-Arnold, Oxlade Chamberlain e Milner... Todos casos destes, seja em soluções ou mesmo reinvenção de talentos num contexto que os potencializam. Hoje, de fato, o elenco do Liverpool entende como ninguém o jeito Klopp de jogar.

O desequilíbrio defensivo também foi melhorado. Depois de um início de temporada oscilante, tomando gols infantis e, muitas vezes com erros individuais durante a jogada, o treinador alemão teve a contratação de Van Dijk (zagueiro mais caro da história) como um ponto determinante da caminhada até Kiev. Foi muito dinheiro, mas foi uma movimentação de mercado bem precisa. O holandês qualificou a linha defensiva e se encaixou prontamente ao jogo alucinante da equipe.

 

CR7 E SALAH: MENOS CONSTRUTORES, MAIS LETAIS

Se somarmos as redes balançadas por Cristiano Ronaldo e Mohamed Salah nesta temporada, chegamos a um número de 88 gols. Agora, se pensarmos que, tempos atrás, tratava-se de dois pontas, que não jogavam necessariamente dentro da área dos adversários, tal marca impressiona ainda mais.

Mohamed Salah em ação pelo Liverpool no dérbi contra o Everton
Mohamed Salah em ação pelo Liverpool no dérbi contra o Everton Getty

De fato, são jogadores que passaram por um tipo de mutação nos últimos anos. Deixaram de ser mais construtores, criadores de situações de gol para ser a outra ponta da jogada: a conclusão. E os números abaixo (TODOS NO FORMATO DE MÉDIA) mostram bastante disto.

Médias ofensivas de Salah na atual temporada (legenda: quanto mais escura a cor, melhor a marca)
Médias ofensivas de Salah na atual temporada (legenda: quanto mais escura a cor, melhor a marca) ESPN

Perceba na tabela acima como Salah praticamente dobrou sua média de gols se compararmos com as duas temporadas anteriores (Roma e Chelsea). Outros números que chamam a atenção são os de finalizações e ações dentro da área adversária. Todos numa crescente.

Na contramão disso, o egípcio tem uma queda no número de chances criadas, algo que era muito recorrente nos tempos em que era um ponta direita mais característico, sempre trabalhando no corredor, ajudando o lateral na marcação e criando situações de linha de fundo ou mesmo cruzamentos com a perna esquerda. No seu caso, não foi bem uma mudança de posição, mas sim de função, de como trabalhar os movimentos em campo.

Atualmente Salah não tem a obrigação de se manter aberto pela direita a todo custo. Ao contrário disso, tem liberdade para jogar mais por dentro. Em muitos momentos, se coloca até mais avançado que Firmino que, teoricamente, é o centroavante da equipe (usei o teoricamente porque se trata de um falso 9, que tem como ideia justamente sair da referência e abrir espaços). Cabe a ele então jogar sempre atacando a profundidade, infiltrando e tendo mais chances de sair na cara do gol (o vídeo abaixo mostra bem isso).


Ainda dentro da análise acima, perceba como o egípcio se mantém sempre no limite da linha defensiva. Quando sai, toca e já projeta nos espaços. Para dar este tipo de liberdade para ele, Klopp por vezes usa meias, volantes e até mesmo laterais para abrir o campo. O conceito de amplitude, para alargar o bloco defensivo do adversário, se mantém. Mas com outras peças exercendo tal ideia.

Além desta leitura e inteligência para saber o momento certo das infiltrações, Salah ainda tem o privilégio de não precisar percorrer um espaço tão grande do campo. Como é um dos jogadores que se mantém posicionados para atacar enquanto a equipe defende (chamamos isso de balanço ofensivo), acelera em distâncias menores, tendo uma reserva energética maior para, na hora do arranque, deixar seus marcadores para trás. Ou seja, trabalha dentro de um contexto para, nos momentos certos, dar tudo de si na questão física. Isso sem dúvida potencializa seu poder de destruição contra as defesas.

Cristiano Ronaldo com 5ª Bola de Ouro no Santiago Bernabeu
Cristiano Ronaldo com 5ª Bola de Ouro no Santiago Bernabeu Getty Image


O caso de Cristiano Ronaldo é diferente. Apesar de também estar passando por uma transformação na sua maneira de jogar, sua mudança também é, em vários momentos, de posição. Com o passar dos anos, o português deixou de ser um ponta-esquerda típico e tem se movimentado praticamente como um centroavante, principalmente quando Zidane usa uma formação sem Bale e com dois atacantes.

A ideia, assim como no caso de Salah, é fazer com que o camisa 7 deixe de percorrer grandes distâncias e, principalmente, fique próximo ao gol. Veja nos números abaixo, nos mesmos moldes do rival do Liverpool, como suas ações dentro da área aumentaram. Mais que isso, maior média de gols e menos assistências. O número de finalizações também chegou ao seu ápice nesta temporada.

Números ofensivos de Cristiano Ronaldo na atual temporada (legenda: quanto mais escura a cor, melhor a média)
Números ofensivos de Cristiano Ronaldo na atual temporada (legenda: quanto mais escura a cor, melhor a média) ESPN

A adaptação de Cristiano Ronaldo neste novo papel é assustadora de tão eficaz. Claro que já vem de alguns anos, mas mostra características muito próprias de um camisa 9, principalmente em questões como leitura dos espaços e primeiro toque, sempre muito usado para concluir jogadas de primeira. Na análise abaixo, perceba como ele consegue trocar de direção e, em muitos momentos, enganar a marcação na hora da conclusão a gol.


Outra questão muito perceptível em seu jogo é a infiltração. O craque português consegue, por vezes, ter um timing perfeito para antecipar jogadas. Atua sempre no limite do impedimento, deixando as condições dos zagueiros em levarem a melhor nos lances ainda menores. Preenche bem o funil (entrada da área), arremata de pequena, média e longa distância, finaliza por cima e por baixo, de cabeça, direita, esquerda... Consegue ser letal em espaços cada vez menores e cheios de pressão na bola.  Uma reinvenção como atleta de futebol profissional, muito da sua busca pela perfeição, profissionalismo e inteligência para entender o jogo de uma maneira mais ampla.

Está longe de ser aquele jogador de beirada potente dos tempos de United, com transições e distâncias enormes percorridas no campo, mas qualificado para ser um dos melhores (se não o melhor) centroavante no mundo. Uma força mental sem limites, capaz de resolver jogos com poucas chances. Peça essencial para o Real Madrid, apesar de suas oscilações, chegar a mais uma final de UCL.

 

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Análise do Dérbi: formas de controlar, o talento potencializado e desempenho na Arena Corinthians

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Roger, Rodriguinho e Edu Dracena durante Corinthians x Palmeiras, pelo Campeonato Brasileiro, na Arena Itaquera
Roger, Rodriguinho e Edu Dracena durante Corinthians x Palmeiras, pelo Campeonato Brasileiro, na Arena Itaquera Gazeta Press

Corinthians e Palmeiras voltaram a se encontrar após a polêmica final do Campeonato Paulista. Vindo de uma boa atuação contra o Vitória, pela Copa do Brasil, tanto em resultado quanto em desempenho, o time alvinegro fez prevalecer o mando de jogo contra os alviverdes que, por outro lado, vinham de uma sequência de quatro vitórias seguidas longe do Allianz Parque: 1x0 na Arena Corinthians.

Muita competitividade e, principalmente, estratégia por trás das mentes de Fábio Carille e Roger Machado. Se por um lado o Verdão teve um leve desempenho melhor durante o primeiro tempo, controlando os espaços mesmo sem ter a bola (apesar do gol corintiano nos minutos finais), por outro o Corinthians teve amplo domínio nos últimos 45 minutos. O time alvinegro alternou momentos de supremacia com e sem a posse. Exerceu diferentes maneiras de controle.

O único gol do jogo, aliás, teve grande participação de Pedrinho. O jovem, que tem um potencial enorme pela frente, foi decisivo na jogada concluída por Rodriguinho após grande construção com Jadson e Maycon.

O tento, aliás, é a prova do talento colocado na melhor situação e sendo potencializado pela organização. Ou seja, nenhuma das duas coisas caminhando sozinha, mas sempre interagindo e gerando desempenho. Nem 8 e nem 80. Equilíbrio é a palavra.

Confira análise do jogo:

 1º TEMPO: EQUILÍBRIO E TALENTO DECISIVO

A partida foi de muito equilíbrio nos primeiros 45 minutos. A estratégia palmeirense, logo de cara, foi de dar a bola para o Corinthians e buscar acelerar o jogo após recuperá-la – algo que já havia feito com bastante eficiência no jogo de ida na final do Paulistão e Contra o Boca, na Bombonera, pela Copa Libertadores.  

Marcando em bloco médio (como mostra o vídeo abaixo), os alviverdes controlaram bem os espaços de uma forma geral. Com sua já conhecida saída sustentada, envolvendo zagueiros e laterais, o Timão teve certo êxito nos primeiros minutos de jogo.


Gabriel e Maycon abriam boas linhas de passe. Jadson e Rodriguinho, com muita mobilidade e sem uma referência no ataque, arrastavam os zagueiros rivais para fora da área a cada movimento nas costas de Tiago Santos e Bruno Henrique. Foram algumas chegadas seguidas no último terço do campo, mas sem nenhuma chance real criada.

O tempo foi passando e o time visitante encaixou melhor as marcações por setor. A pressão na bola também foi mais perceptível e a iniciação alvinegra já não fluía tanto. Foram momentos desconfortáveis de circulação da bola por parte do Corinthians.

O time de Roger Machado variava do 4-2-3-1 para um quase 4-2-4 em fase defensiva. Em alguns momentos avançava mais Lucas Lima, Dudu e Keno para, junto com Borja, fazerem uma primeira linha de marcação. A ideia era bloquear a saída do adversário. Este posicionamento, também chamado de “cinturão”, tem duas linhas de 4 (defensiva e ofensiva) com dois meio campistas entre elas (no vídeo abaixo dá para ver bem essa 1ª linha de marcação).

Quando se organizou melhor sem a bola, o Palmeiras de fato cresceu. Sempre que recuperava a posse, ainda no centro do campo, acionava Lucas Lima para acelerar o jogo. O meia, servindo como escape nas transições ofensivas, buscava sempre Keno e o seu forte 1x1 pelo lado direito.

Com melhores tomadas de decisão após sair vitorioso em duelos pessoais, o camisa 11 do Verdão poderia ter colocado o seu time à frente no placar (confira no próximo vídeo).  


Ainda dentro dessa melhora no confronto, o Palmeiras perdeu a primeira chance real de gol na partida. Depois de uma bola recuperada no campo de ataque e troca rápida de corredor, um bate e rebate deixou Tiago Santos na cara de Cássio. O volante, com a bola quicando na sua frente, optou pela força ao invés do jeito. Até tirou a bola do goleiro rival, mas a fez explodir na trave.

No lance seguinte Pedrinho deu, enfim, a contribuição de talento que o jogo tanto pedia. O jovem corintiano, de grande potencial futuro, foi acionado da maneira que melhor explorar as suas características. O Corinthians, em um dos raros momentos que teve campo e profundidade para acelerar no 1ºT, abriu o placar.  O garoto recebeu em velocidade e, num lance de puro talento, passou por Tiago Santos e Bruno Henrique, abrindo um clarão e deixando o Palmeiras desorganizado. De um 5 palmeirenses contra 4 corintianos, a jogada passou a ter um 3x4. E a superioridade numérica alvinegra foi letal. Jadson, Maycon e Rodriguinho, cnesta sequência de construção da jogada, colocaram os alvinegros na frente (o próximo vídeo mostra exatamente como foi a construção do gol).


2º TEMPO: EQUILÍBRIO E DOMÍNIO CORINTIANO

O gol do Corinthians na primeira etapa condicionou o jogo e praticamente inverteu os papeis dentro da Arena. Agora era momento de o Palmeiras abrir mão de sua estratégia inicial, deixando o time da casa mais confortável para explorar espaços em velocidade. Isso na teoria, já que o time palmeirense teve dificuldades para construir, com poucos apoios verticais e dificuldade para quebrar a marcação do rival (vídeo abaixo mostra bem isso).


Se no início da segunda etapa o Timão de fato conseguiu encaixar alguns contra-ataques, o restante da partida mostrou o contrário. O time de Carille conseguiu equilibrar as ações e foi equilibrado com e sem a bola, até desmistificando a fama de sair na frente e só se defender. Motivo até para o próprio treinador afirmar que foi a melhor atuação (em desempenho) da sua equipe nesta temporada.

Jadson e Rodriguinho foram importantíssimos para isso. Foram os termômetros do jogo corintiano, retendo bola, trocando a posse de lado, acelerando quando as jogadas pediam... Foram os dois grandes controladores do jogo. Boas leituras, infiltrações e passes para criar situações claras para ampliar o placar. Prova do quanto está encaixado e absorvido este sistema sem um jogador de referência, mas com muita gente trocando de posição e alternando profundidade. Movimentos naturais (confira no vídeo abaixo), que fizeram do Corinthians o dono da partida na etapa final.


Pelo lado alviverde, mais uma vez o “construir” foi um problema. Obviamente que o rival teve seus méritos, pressionando sempre a bola e fazendo o time de Roger jogar para trás, mas as associações entre os jogadores não foram tão fluídas. Nem a entrada de Guerra, que se movimentou muito, deu esse upgrade do Palmeiras em fase ofensiva.

Apesar da chance criada já no finalzinho com Antônio Carlos – inclusive, a segunda bola na trave -, o Palmeiras não foi sólido e não conseguiu dominar os diferentes momentos do jogo. Em movimentos de ansiedade por parte dos jogadores, escolheu muito errado, acelerando quando não devia, segurando quando era para colocar velocidade. Muitos erros técnicos (veja no próximo vídeo um exemplo claro disto).



Nos últimos minutos do jogo, tudo conspirou a favor dos alvinegros. Com um Palmeiras correndo contra o tempo, a bola ficou viva e vimos um jogo mais de transições, duelos pessoais e muitos embates físicos no terço central. Faltou imposição do time visitante, sobrou maturidade para controlar o jogo do time da casa.

E assim foi mais um Dérbi Paulista em 2018.


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Entrevista do mês - Mano projeta Copa do Mundo, diz que "brasileiro nunca gostou de defender" e fala sobre críticas no Cruzeiro: "Acho que são justas, podemos mais"

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Mano Menezes espera recuperar a identidade do Cruzeiro
Mano Menezes espera recuperar a identidade do Cruzeiro Light Press/Cruzeiro


Mano Menezes gera muitas emoções no torcedor brasileiro. Carrega boas lembranças no Grêmio. Da volta à primeira divisão à semifinal de Libertadores. Já no Corinthians fez parte de toda uma estruturação de um DNA que rende frutos até hoje. Ganhou títulos, perdeu outros, saiu e voltou. Não se firmou na Seleção Brasileira. No Flamengo, saiu de maneira traumática...

Tem quem goste muito da sua figura como treinador. Por outro lado, muita gente o vê apenas como um bom e velho “retranqueiro”. Embates com a imprensa, respostas mais ríspidas e um jeito mais sisudo também criaram certa empatia por onde ele passou.

Mano Menezes de fato divide opiniões. Inclusive no seu atual clube.

Depois de visitar Dorival Júnior, ainda treinador do Santos em 2015, e Fábio Carille no Corinthians, antes do título Brasileiro de 2016, o DataESPN agora foi até Belo Horizonte para tentar dissecar o trabalho e as ideias de Mano Menezes em sua segunda passagem pelo Cruzeiro (primeira foi entre setembro e dezembro de 2015, antes de se aventurar no futebol chinês).

Dessa vez não tive a companhia de Paulo Calçade como em outras edições, mas o papo com o comandante cruzeirense rendeu quase uma hora na Toca da Raposa. Os assuntos foram do momento em que vive com o Cruzeiro, com muita cobrança e oscilação de desempenho, até expectativas para a Copa do Mundo de 2018.

Uma conversa só sobre futebol. Conceitos, ideias, sistemas, referências... Mano não se preservou em nenhuma resposta. Mais que isso: expos de forma bastante clara como pensa e vê futebol. Falou sobre sua visão do trabalho de Paulo Bento na própria Raposa, sobre seu planejamento para o time em três etapas e se posicionou pelas críticas que vem sofrendo por não praticar um futebol com mais posse.

Viu vídeos e análises do DataESPN, explicando momentos e ideias do seu atual Cruzeiro.

Não parou por aí. O treinador ainda firmou que o “brasileiro demorou para aprender defender”, se posicionou sobre o calendário brasileiro e falou sobre o que os treinadores mais jovens precisam para se firmar de vez no nosso mercado. Também analisou a qualidade do jogo no Brasil, jogadores que dão certo em um clube e em outro. Explicou de onde tirou seus conceitos de linha de 4, projetou Copa do Mundo, apesar de não concordar com tal “rixa”, viu como natural a resistência com novos termos e o estudo no futebol. Até sobre a imprensa, com quem já teve seus problemas, Mano Menezes se posicionou.

Veja na íntegra, nos três vídeos abaixo, a entrevista completa com o treinador:

CRUZEIRO, PROCESSO NO FUTEBOL, PAULO BENTO E ATACAR VS DEFENDER


CRÍTICAS POR NÃO ATACAR BEM NO CRUZEIRO, CALENDÁRIO, NOVOS TREINADORES E ATLETAS QUE NÃO DÃO CERTO


RESISTÊNCIA AO ESTUDO NO FUTEBOL, QUALIDADE DA IMPRENSA, CORINTHIANS, CARILLE E “O QUE É JOGAR BEM? ”

 

 

 

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A qualidade do jogo no Brasil sob a ótica de Grêmio x Atlético-PR: verdade absoluta ou contraponto?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Luan, do Grêmio, em meio aos jogadores do Atlético-PR na partida na Arena
Luan, do Grêmio, em meio aos jogadores do Atlético-PR na partida na Arena Divulgação / Grêmio

Enquanto Grêmio e Atlético-PR se enfrentavam em Porto Alegre uma enxurrada de manifestações sobre futebol, qualidade do jogo e coisas do tipo dominavam as redes sociais. Os românticos, apreciadores da posse de bola e da troca de passes, vibravam a cada tabela. Viam o que acontecia na Arena como uma sobrevida ao futebol brasileiro, cobrando mais ideias similares dos outros 18 clubes da Série A.

De um outro lado os críticos. Estes não viam a hora que uma saída de bola errada virasse gol para descer a lenha no tal “jogo suicida” que Fernando Diniz. Também teve gente que, tamanha a expectativa gerada para este confronto, esperava mais.

O debate caminhava por aí. Uma sequência imparável de 8 e 80, radicalismos e até amargura (sim, existem os que só reclamam, mas estes o fazem com absolutamente tudo, então segue o jogo).

E se tirarmos o zoom sobre o jogo e aumentarmos a visão para o todo? Colocar o foco em cima do que o futebol brasileiro nos oferece atualmente. Creio ser uma ótima oportunidade para falar da qualidade do jogo. Sobre o tal do jogar bem.

De fato, o duelo na Arena do Grêmio foi acima da média do que estamos acostumados a ver a cada rodada de Estaduais e Brasileirão. E isso não tem a ver apenas com um enfrentamento de duas equipes que priorizam a manutenção da bola, a construção ofensiva através de apoios e mobilidade. A questão são as ideias ali presentes. De tão raras aqui, elas encantam.

E em toda essa troca de opiniões, surgem as verdades absolutas. Uma espécie de ditadura. Imposições radicais, confrontos histéricos acompanhados de muita gritaria Coisas que, cá aqui entre nós, nunca são saudáveis em qualquer ambiente.

Eis que se começa: os seguidores de Guardiola e Sarri, por exemplo, acreditam que o verdadeiro futebol só se faz assim, tendo a bola. O resto simplesmente não presta. Afirmam que, plasticamente, só este tipo de jogo emociona. Se você tem outra opinião – neste caso outro gosto -, você apoia a mediocridade do nosso futebol e faz um desserviço a ele.

Aí aparecem os que preferem as defesas sólidas. O “busões” na frente da área. Estes acharam o máximo ver o Leicester controlando espaços e utilizando o jogo direto, ganhando a Premier League 15/16 na base dos contra-ataques. Vibram com a força mental e os fortes sistemas defensivos montados por Diego Simeone. Ficaram loucos com a forma que a Internazionale de José Mourinho eliminou o Barcelona de Guardiola na Champions League 09/10.

No fim das contas não existe (e não deve existir) a tal da verdade absoluta. O que Grêmio e Atlético-PR nos ofereceram, além de um ótimo jogo, foi um contraponto da nossa realidade. Aí sim algo importantíssimo e digno de todos elogios. E não tem nenhum problema o brasileiro exaltar o futebol praticado na Arena do Grêmio. Afinal, é o que nos falta (assista abaixo a análise do jogo feita no BB na Veia da última segunda-feira).

Vivemos sim um ciclo onde dominamos melhor o controle dos espaços e as organizações defensivas, mas, em vários momentos, não sabemos o que fazer com a bola. Por isso viramos um país reativo. Que se sente confortável em apenas devolver uma ação e nunca de tomar a iniciativa. Um futebol de uma nota só. Com pouco confronto de estilos.

A cultura do resultado, que abomina os nossos treinadores, os fazem (além de outras coisas, inclusive a falta de ideias em alguns casos) ter medo de arriscar. Alguns profissionais têm conteúdo, mas não conseguem passar isso para a prática. Outros não contam com respaldo para construir uma ideia maior. Mas tem, acima de tudo, os que simplesmente preferem X ou Y. Estão convictos que X é o melhor e ponto. Não vejo problema nisso. O clube que contrata, por sua vez, que saiba ler o perfil e, ao trazer, tenha consciência do que o treinador faz de melhor e tem como sua essência de trabalho.

Propor o jogo é se expor mais. Diminuir os riscos de sofrer um contra-ataque que mate o jogo, tendo a bola, sufocando o adversário, é mais difícil. Construir demanda tempo, criatividade, sintonia e relações muito além das técnicas, táticas ou físicas. Mas também humanas. Um simples passe, por exemplo, não é uma ação individual. São duas pessoas se conectando. O bom passe não sai só com o bom gesto técnico de quem está com a bola, ele precisa de uma boa colocação de quem recebe. Imagine então criar isso entre 11 seres diferentes. E entre 30?

Defender exige coordenação de movimentos. Um nível de concentração máxima. Espírito coletivo, de mentalidade forte e, principalmente, ajuda ao companheiro. Uma cobertura, por exemplo, é um gesto de solidariedade. Você ataca a bola na sequência de ver o “amigo” perder um duelo pessoal. Por isso encosta para ajudá-lo no objetivo geral, que é recuperar a bola. Acha que é fácil criar todo essa mentalidade e organização? Convencer talvez seja um dos grandes (e mais difíceis) papeis de um treinador.

Se destruir é mais difícil que construir? Talvez. Mas de fato nenhum é fácil. No futebol de alto nível, nada é simples ou mágica.  

Existem inúmeras maneiras de ganhar e perder. E jogar bem, no fim das contas, é executar com excelência aquilo que foi proposto. Colocar em prática o que foi treinado e planejado na semana que antecede a partida. Se você quer ter a bola e faz mau uso dela, você está jogando mal. Se sua ideia é jogar reagindo e você não encaixa um mísero contra-ataque, também não tem desempenho aí. Não existe o bom ou ruim. Não tem essa de certo ou errado. É escolha.

Jogar bonito já são outros quinhentos. É totalmente pessoal. Cada um vê beleza de uma forma. Retranca, jogo apoiado, contra-ataque, cruzamento... É gosto. E sabemos bem que gosto é que nem...

Neste espaço a defesa será sempre por um futebol com ideias, independentemente de quais sejam elas. Tenho meu gosto e meu apreço por um estilo, mas a minha briga sempre será contra o jogo aleatório, pobre e a não aceitação do conhecimento. Equipes que fazem por fazer, que não apresentam nada conceitualmente. As zonas, para falar português claro.   Renato Gaúcho e Fernando Diniz nos mostram que dá para fazer diferente. Que o jogo que praticam não é uma verdade absoluta. Mas que a diversidade no futebol é a chave para o crescimento. Que confrontar ideias é o melhor caminho para evoluirmos por aqui.

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A qualidade do jogo no Brasil sob a ótica de Grêmio x Atlético-PR: verdade absoluta ou contraponto?

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Ter ou não a bola no Allianz, eis a questão: o que o Palmeiras pode esperar do Boca nesta quarta?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Tevez  e Gustavo Barros Schelotto, treinador do Boca Juniors
Tevez e Gustavo Barros Schelotto, treinador do Boca Juniors EFE/NICOLÁS AGUILERA

O Boca Juniors chega ao Brasil para enfrentar o Palmeiras falando em, pelo menos, pontuar no Allianz Parque. Depois de um empate e uma vitória na Libertadores, os argentinos, como esperado, se apresentam como a grande força do grupo ao lado dos alviverdes. Fruto não só da tradição xeneize na competição continental, mas também do alto investimento feito nas últimas janelas em busca de novos triunfos pela América.

Capacidade de contratação, inclusive, que pode ser comparada à do Verdão. Sem dúvidas dois dos clubes que mais investiram nos últimos anos aqui no continente. Formando elencos não só qualificados, mas também numerosos. Tudo em busca de sonhos maiores.

Nahitan Nández (Peñarol-URU), Emmanuel Más (Trabzonspor-TUR), Paolo Goltz (América-MEX), Ábila (Cruzeiro), Reynoso (Talleres-ARG), Buffarini (São Paulo), Tevez (Shenhua-CHN) e Cardona (Monterrey-MEX) foram as últimas chegadas na Bombonera. Investidas que, apesar de não firmar todos como titulares, dá à equipe xeneize a liderança tranquila do Campeonato Argentino, com sete pontos à frente do Godoy Cruz.

Melhor ataque do seu campeonato nacional com 40 gols marcados e a segunda melhor defesa ao lado do Independiente, com 15 tentos sofridos, o Boca vê o título encaminhado. Entre o meio e o final do ano passado, emplacou uma série de nove vitórias consecutivas e, mesmo oscilando nas últimas rodadas, vive uma situação relativamente tranquila.

Entre lesões e suspensões, mas também por decisões técnicas, o treinador Guillermo Barros Schelotto, ex-jogador e ídolo do clube, tem rodado o elenco nos últimos compromissos. Ainda busca uma alternativa para o centroavante Benedetto, artilheiro da equipe com 9 gols e que segue lesionado. Entre Tevez, Walter Bou e Ábila, deve optar pelo ex-cruzeirense para iniciar o jogo na capital paulista. O trio tem se alternado, mas ninguém virou unanimidade até aqui.

Pérez, Reynoso e Nandéz também se revezam no meio campo, geralmente com a companhia do bom colombiano Wilmar Barrios. Apesar de não ter grande estatura e imposição física, é ele o volante que atua à frente da linha defensiva protegendo a área.

Se olharmos para a plataforma de jogo usada nas últimas partidas, pouca variação. As trocas ficam sempre entre o 4-3-3 (4-1-4-1 sem a posse) ou o 4-2-3-1. Todos sistemas praticamente “irmãos”, que mudam com ajustes bem sutis. É nítido que existe ali um modelo firmado e uma ideia pré-estabelecida. Me surpreenderia se algo diferente disso aparecesse nos minutos iniciais da partida contra o Palmeiras.

Em solo argentino fala-se muito na seguinte escalação para enfrentar os alviverdes: Rossi; Jara, Goltz, Magallán e Fabra; Barrios, Pablo Pérez e Reynoso; Pavón, Abila e Cardona. Se olharmos para último jogo disputado (derrota em casa para o Defensia por 2x1), são oito os atletas que serão mantidos. Neste caso os que saem são: Buffarini, Nandéz e Bou. Com essas peças, o posicionamento de Pérez, mais adiantado ou alinhado a Barrios, vai definir o sistema. Carlitos Tevez, ao que tudo indica, começa no banco após voltar de lesão. 

 

PADRÕES COM BOLA

O Boca Juniors é, de fato, uma equipe que gosta de ter a bola. Dentro do Campeonato Argentino é o time com a segunda maior média de posse com 55,3% - perde apenas para o rival River Plate. Claro que o poderio técnico e financeiro é mais que relevante neste contexto, principalmente para se tomar a iniciativa dentro dos jogos domésticos, mas a equipe de Schelotto tem alguns padrões posicionais e de movimentos bem claros quando está em organização ofensiva. Resta saber se, contra o Palmeiras, fora de casa, eles vão manter a ideia de controlar com posse ou se vão ajustar uma outra estratégia.

Quando se instala no campo do adversário, os xeneizes iniciam as jogadas sempre com os zagueiros Goltz e Magallán. Barrios também encosta e por vezes tem a ajuda de um dos meias centrais mais avançados. No entanto, são os três primeiros citados que, além de construir o jogo por trás, são designados a ficarem a postos para defender enquanto o time ataca (veja na imagem abaixo).

Boca instalado no campo do rival: Barrios à frente dos zagueiros, laterais abertos e pontas por dentro
Boca instalado no campo do rival: Barrios à frente dos zagueiros, laterais abertos e pontas por dentro DataESPN

Normalmente são os laterais Fabra e Jara que buscam abrir o campo para gerar amplitude (imagem acima mostra isso). Avançam e, espetados, geram até profundidade em determinados momentos. Com isso, cabe aos pontas Pávon e Cardona flutuarem mais pela região central, se juntando à Reynoso e Pérez. Com isso, eles formam trios pelos lados do campo (lateral + meia + ponta do mesmo setpr) para triangular e avançar pelo campo. Por vezes é Pávon que fica rente à linha lateral. Neste momento, Jara faz a ultrapassagem por dentro. É uma troca que costuma acontecer. Pela esquerda já é mais difícil, justamente pelas características dos atletas.

Pela direita Pavón é o típico ponta. Velocidade, 1x1 e muita verticalidade em seus movimentos. Gera volume mais com jogadas agudas, não tem grande perfil de organizador. Apesar de ser o maior assistente do Campeonato Argentino (8 passes para gol no total), o jovem e promissor camisa 7 ainda peca um pouco nas tomadas de decisão. Já pela esquerda, Cardona é mais meia em sua essência. Faz o papel de “ponta-construtor”, saindo da beirada para gerar tabelas e associações por dentro. O fato de ser destro facilita tais movimentos do colombiano, que tem muita qualidade técnica, além de força e imposição física. Também chuta bem de fora da área, mas não chega a ser um atleta de grande mobilidade.

Por dentro, Reynoso e Pérez são meio-campistas leves. Pouca estatura e força, mas muita dinâmica para fazer a bola rodar. Jogadores que dão ritmo ao time e que precisam ser pressionados para não pensarem o jogo. Mais à frente, a entrada de Ábila tende a dar mais imposição física na área. Com bom pivô e jogo aéreo, o camisa 17 já é um velho conhecido de nós brasileiros.

Apesar de buscar um jogo mais apoiado e propositivo, o Boca também encaixa boas transições ofensivas. Normalmente é Pavón o grande escape para estas saídas rápidas. O ponta de 22 anos tem boa leitura para atacar espaços quando a bola é retomada e costuma ter velocidade na condução da posse, chegando rapidamente na área adversária.

 

PADRÕES SEM BOLA

Ao olhar para os últimos jogos uma coisa fica bem clara: o Boca tem sido uma equipe que joga e, ao mesmo tempo, deixa os adversários jogarem. E talvez o maior calcanhar de Aquiles nos seus últimos compromissos pelo Campeonato Argentino tem sido os contra-ataques.

Ao se instalar no campo do rival, os comandados de Schelotto não têm mostrado boas reações à perda da posse e, normalmente com a linha defensiva mais alta, sofrem no retorno para atrás da linha da bola. Barrios e zagueiros (que estão longe de ser rápidos) são atormentados com jogadas em velocidade, sempre correndo para trás e tendo, em muitos os casos, superioridade ou igualdade numérica do oponente (veja na imagem abaixo).

Defensia, última adversário, encaixa contra-ataque e chega em igualdade numérica. Os dois gols da vitória foram assim
Defensia, última adversário, encaixa contra-ataque e chega em igualdade numérica. Os dois gols da vitória foram assim DataESPN

O trio de meio de campo, apesar de ter qualidade técnica e mobilidade, sofre com o jogo mais físico. Não é capaz de se impor neste sentido e, geralmente, lançamentos mais diretos, que necessitam de vitórias em 1ª e 2ª bolas, acabam sendo perdidos e decisivos para estas escapadas em velocidade dos adversários.

Outra questão que o Palmeiras pode se aproveitar no duelo desta quarta-feira são os espaços entrelinhas deixados pelos argentinos. Por vezes é possível ver os setores pouco compactos sem a bola (veja na imagem abaixo). Barrios, entre as duas linhas de quatro afastadas, fica bastante sobrecarregado. Um passe mais vertical neste espaço pode ser determinante na criação de chances.

Entre Barrio e a linha defensiva do Boca: são três adversários se colocando no espaço
Entre Barrio e a linha defensiva do Boca: são três adversários se colocando no espaço DataESPN

Com bastante mobilidade dos meias e atacantes alviverdes e, principalmente, usando a forte saída de Felipe Melo, capaz de dar esse passe que quebre a primeira linha de marcação, o Palmeiras pode gerar bastante volume ofensivo e bolas em profundidade para Borja.

O lado esquerdo, com o muito ofensivo Fabra e o pouco intenso Cardona, também pode ser um caminho importante a se explorar. O lateral costuma avançar bastante e o meia aberto, sem grande resistência física, tende a não recompor com grande regularidade.

Essa falta de compactação acaba por ser um problema até em disputas de tiro de meta, por exemplo. Perdido estes duelos no meio de campo, dificilmente a linha de meias/pontas participará da 2ª bola e muito menos será capaz de bloquear o ataque, já que estará à frente da linha da bola (veja na imagem abaixo).

Contra o San Lorenzo, vemos os setores do Boca bastante espaçados
Contra o San Lorenzo, vemos os setores do Boca bastante espaçados DataESPN

A bola parada defensiva também tem sido um tormento pelos lados da Bombonera. Nos últimos três jogos pelo torneio nacional foram dois gols sofridos desta maneira (Tucuman e Talleres).

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A eletricidade do Liverpool "modo NBA" e a cara de um treinador em 45 minutos de Champions

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Klopp x Guardiola: alemão levou a melhor na vitória sobre o City
Klopp x Guardiola: alemão levou a melhor na vitória sobre o City Getty


Se para muitos (inclusive eu) o Manchester City é o time que melhor pratica futebol na atual temporada europeia, o Liverpool pode ser apontado como o time que fez o melhor primeiro tempo do ano até aqui. E foram estes 45 minutos alucinantes contra a equipe de Pep Guardiola que garantiram a ótima vantagem de 3x0 para a partida de volta, no Etihad Stadium, semana que vem, pelas quartas de final da Champions League.

O melhor estilo Jurgen Klopp esteve presente como nunca em Anfield: pressão, pressão e pressão na bola! Transições rápidas e muita intensidade nas ações com/sem a bola. Um Liverpool elétrico. Um Liverpool que encurralou um adversário forte em todos os aspectos e se fez grande na primeira parte do duelo inglês na competição continental.

Ganha a posse, transição! Perda a bola, transição! Recupera, perde, acelera, transição, transição e transição! Essa foi a tônica do jogo imposto pelo Liverpool. Situações que lembravam grandes partidas da NBA. Afinal, basquete em alto nível é jogado com transições cada vez mais organizadas, inclusive servindo, e muito, como estudo para o futebol. Trocas de fases do jogo contínuas, ataque aos espaços e muita concentração no plano de jogo. 

Tanto que pouco se viu na primeira etapa os donos da casa instalados em seu campo, em organização defensiva. As reações após a perda da bola eram instantâneas e organizadas, deixando o City praticamente sem reação em muitos momentos.

Foi um tempo de forte trocação de golpes. O problema é que só um dos times acertava de fato as partes vitais do rival. Sabe aquele amigo que não sabe brincar? Você vai lá e dá um tapinha nele na brincadeira e ele devolve com um murro de mão fechada? Perguntas e respostas desproporcionais. O City praticamente nas cordas.

Talvez o grande erro da equipe de Manchester foi iniciar a partida também tentando acelerar o jogo. Feito isso, deixou o Liverpool em seu habitat natural, com um cenário perfeito para impor as suas melhores características.

A impressão era que, a cada investida de De Bruyne, Silva, Jesus & Cia., o time da casa respondia com uma velocidade dobrada. Essa perda e recuperação da bola, abrindo espaços na defesa adversária, deixou o Liverpool confortável no jogo, potencializando o que tem de melhor: a velocidade e a mobilidade do trio Firmino, Mané e Salah.

E o primeiro gol já deu a letra do que seria essa noite mágica para os torcedores vermelhos. Retomada da posse, Salah no limite da linha defensiva do City (até me parecendo impedido, inclusive), poucos toques e bola rápida na diagonal de Firmino. Dois minutos depois Salah (que temporada!) já fazia o movimento contrário. Acompanhava um contra-ataque do rival, fechando o passe em De Bruyne e percorrendo quase o campo inteiro para defender a sua meta. A essência do que Klopp sente futebol, tudo que foi praticado pelo Borussia Dortmund em seus melhores momentos na Alemanha.   

Em 2013, Klopp e Götze dividiam espaço no Dortmund
Em 2013, Klopp e Götze dividiam espaço no Dortmund Getty


A pressão forte não sessava. Vimos momentos em que os zagueiros Lovren e Van Dijk davam botes nos atacantes do City quase que na entrada do terço ofensivo (deles) do campo. O suprassumo do conceito de “ataca marcando”. Explico o termo: seu time está atacando, os jogadores que ficam na retaguarda (balanço defensivo), ao invés de assistirem seus companheiros tentarem o gol, eles já se posicionam e ficam encaixados em possíveis escapes do rival. Quando estes oponentes recebem ou tentam receber a bola para acelerar um contra-ataque, estes atletas (normalmente zagueiros e um dos volantes, justamente o que não sobe tanto) estão prontos para atacar a bola, seja para recuperá-la ou matar a jogada com uma falta.

Enquanto isso, o Manchester City saia cada vez mais do eixo. Vários de seus jogadores, principalmente Sané, vivendo uma noite bastante infeliz. Tomadas de decisão erradas, erros técnicos no gesto do passe ou chute, movimentos sem bola incorretos... Ficou claro que todos de azul claro ali não viam a hora do árbitro determinar o fim do primeiro tempo. Só assim para estancar tamanha tortura vivida em campo até então.

O contexto do Liverpool – e do jogo, naturalmente – mudou bastante na segunda etapa. Era impossível manter o mesmo ritmo imposto no tempo anterior. O jeito foi baixar um pouco mais o bloco defensivo e, ao invés de atacar a bola no campo todo, cuidar melhor dos espaços. Compactado, o time de Klopp pouco sofreu. Já sem Salah e Firmino no fim da partida, tão pouco conseguiu explorar contra-ataques, mas nunca deixou de ter o controle. Só teve as rédeas da partida de uma forma diferente. Mas teve.

De fato as críticas sobre a escalação de Guardiola são bastante consistentes. Principalmente a escolha por Laporte na lateral-esquerda quando o time defendia. Justo no setor do Salah. Mas o segundo tempo, apesar da maior posse, foi de pouca efetividade. Longe do desempenho e da regularidade que vinha tendo durante a temporada até então. Um apagão de 90 minutos que pode custar caro na próxima semana.

Já Klopp deve ter saído do campo anestesiado. Se é que ele não vai dormir por lá mesmo. Intenso a cada gesto, reclamação ou comemoração, o alemão viu sua face em seu Livepool. Foi protagonista contra um protagonista. E isso não tem preço para quem está lá dentro. 

Jurgen Klopp é um personagem peculiar. E é maluco. É só olhar para sua cara para constatar que se trata daquele “doidão do bem” que todos gostam. O tipo de jogo que gosta de praticar é tão insano quanto. Por isso é tão difícil. Pressão, pressão e pressão... Parecia um time com 22 jogadores em campo. E quando essa eletricidade toda encaixa, quase ninguém acompanha. 

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O desafio contra a linha de 5, as ideias e a execução: como foi o desempenho da Seleção Brasileira contra a Rússia?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Tite comanda treino da seleção Brasileira. E ainda tem muito trabalho pela frente
Tite comanda treino da seleção Brasileira. E ainda tem muito trabalho pela frente Mowa

A Copa do Mundo se aproxima e tudo o que acontece daqui para frente tende a ser cada vez mais decisivo. Treinamentos, jogos, convocações... Tite, por sua vez, trabalha forte em cima de uma das maiores tendências do futebol mundial: a linha defensiva com 5 jogadores. Como enfrentar e furar tal organização que será recorrente no torneio? Que tipo de movimentos buscar e treinar? Quais características se apoiar para o desafio?

Depois de um difícil embate contra uma sólida Inglaterra e o 0x0 em Wembley – momento que inclusive despertou de maneira mais efetiva essa preocupação no treinador brasileiro –, agora um teste contra a Rússia, também com o sistema com três zagueiros, e uma vitória por 3x0. Momentos que são determinantes para uma compreensão e, principalmente, o desenvolvimento destes novos mecanismos para enfrentar diferentes ideias e conceitos que o Mundial vai oferecer.

Se olharmos sob uma ótica apenas em cima do desempenho voltado para essa ideia, a Seleção Brasileira voltou a sofrer na tarde desta sexta-feira. Pegou um adversário que, se por um lado faltava qualidade técnica, por outro mostrava bastante rigidez defensiva, com jogadores físicos e, principalmente, concentrados. O primeiro tempo mostrou bastante isso e a forte bola parada brasileira, que vai ser importante na competição, foi crucial para a vitória.

Mas se tem uma diferença do jogo contra os ingleses para este, ela está nas ideias. Tite mostrou uma maior mobilização para defrontar tal sistema, que congestiona a entrada da área e faz vítimas mundo à fora. As saídas buscadas para o confronto foram bastante interessantes. A execução delas, por sua vez, demonstrou alguns problemas, principalmente na naturalidade dos movimentos de alguns jogadores.

Assim como a Inglaterra, a Rússia manteve dois jogadores mais adiantados e se defendeu no 5-3-2 sem a bola. Os anfitriões da Copa foram mais agressivos sem a posse. Enquanto o último rival controlava mais espaços, o time russo foi mais intenso e buscou mais o contato físico, bem característico na sua cultura de futebol.

Quando tinha a bola, o Brasil buscou abrir o campo ao máximo. A lição no Reino Unido foi aprendida. E a ideia era fazer isso com os pontas. Willian e Douglas Costa, mais agudos, tinham que se manter na linha lateral para tentar abrir espaço entre os cinco jogadores russos alinhados.

Enquanto isso, Daniel Alves e Marcelo teriam que trabalhar mais por dentro. E faz sentido, já que ambos são laterais mais construtores, com facilidade no jogo curto, em trabalhar sob pressão. Mas a execução não foi totalmente efetiva. Dani até se posicionou assim na maior parte do tempo, mas Marcelo, em vários trechos do jogo, bateu na mesma região de Douglas. Simplesmente não se sentiu à vontade para centralizar as jogadas. No fim das contas, ambos laterais se associaram pouco com os jogadores de meio. Realmente não foram bem.

Sem a bola, tanto Marcelo quanto Daniel Alves foram mal nas transições defensivas. Demoraram a sustentar na linha defensiva e a Rússia criou algumas boas situações neste sentido. A presença de Casemiro, mais fixo e saindo pouco enquanto o time atacava, fez com que o estrago não fosse maior.

Brasil comemora um dos gols da vitória sobre a Rússia ALEXANDER NEMENOV/AFP/Getty Images
Brasil comemora um dos gols da vitória sobre a Rússia ALEXANDER NEMENOV/AFP/Getty Images ALEXANDER NEMENOV/AFP/Getty Images

Ainda na construção do jogo, a Seleção usou pouco a bola em profundidade pelo alto. Quando o fez – lance de Dani no Gabriel Jesus logo no início da partida é um bom exemplo – criou situações interessantes. Tite já havia detectado que o Manchester City de Guardiola, que defronta muito estes sistemas, usa muito deste artifício para furar tais barreiras. É um diagnóstico importante feito pela comissão técnica, mas que ainda não está totalmente amadurecido.

Coutinho, testado por dentro e não como um ponta mais armador (posição que arrebentou no Liverpool), também não fez uma boa primeira etapa. Não foi o controlador que o meio de campo exigia. Foi mais infiltrador que organizador. Na segunda etapa, com mais espaço e buscando faixas diferentes, melhorou.

Não existe dúvidas que tais observações devem ser feitas com bastante meticulosidade pela comissão técnica. Assim como a pouca participação de Casemiro na construção do jogo, o que tirava outros jogadores de suas respectivas faixas do campo para buscar jogo, engessando a criação de jogadas. A circunstância do jogo pedia alguém saindo com passes mais agudos. E o volante do Real Madrid tem capacidade para fazer isso. Fernandinho, seu reserva imediato, tem grande facilidade para tais ações.

Outra situação bastante evidente para se analisar foi a saída de bola. A Rússia, que alternou bem a pressão média e alta, criou problemas na iniciação das jogadas do Brasil. Estes momentos poderiam ser usados como arma dentro do confronto com a estratégia de atrair o adversário e, com a bola tirada da pressão, ganhar campo e profundidade para atacar em velocidade.

Ficou evidente que, quando a Seleção teve espaço para atacar, principalmente com duelos no 1x1 ofensivo, o jogo ficou mais fluente. E foi aí que a Rússia se quebrou totalmente no segundo tempo.

Tal constatação, mostra muito do que somos como essência de futebol. De fato, temos jogadores e uma cultura de explorar o drible e a velocidade. Tenho a sensação que, quando somos mais reativos, somos mais letais. Inclusive deixo tal reflexão aqui para quem lê (comentem). Temos mesmo a obrigação de propor? Devemos fazer isso sempre? Qual o melhor caminho para “performar” na Copa? Confesso que tenho minhas dúvidas. E vou esperar mais um pouco para formar uma opinião mais definitiva.  

Sem a bola ficou nítido que o ajuste precisa ser na transição defensiva. Foi neste ponto que o adversário mais criou. Como dito acima, os laterais precisam reagir mais rápido à perda da bola. O conceito de pressionar a bola logo após a perda, algo muito cobrado por Tite, mostrou boa regularidade num âmbito geral. Foram vários momentos de perda e retomada rápida. Inclusive com os zagueiros encurtando nos escapes russos, preparados para pressionar nas tentativas de contra-ataques. Tais ideias, principalmente nos 30 primeiros minutos, funcionaram de forma bastante coesa e precisam ser mais regulares nos 90 minutos.

Quando se instalou no campo defensivo, já organizado no 4-1-4-1, a Seleção reagiu bem. Controlou bem os espaços e quase não deu chances para a Rússia. Foram poucas infiltrações.

O Brasil vive um momento de preparação. Tudo que acontece agora é importante, mas não precisa ser definitivo.  É o momento do ajuste, dos testes e de lapidar convicções. Nem céu, nem inferno. De olho nas ideias, mas também na execução. Esse é o caminho.

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Organização, rigidez defensiva e competitividade: o que esperar de Diego Aguirre no São Paulo?

Renato Rodrigues
Renato Rodrigues, do DataESPN
Diego Aguirre, na vitória do San Lorenzo sobre o Flamengo, com Zé Ricardo ao fundo
Diego Aguirre, na vitória do San Lorenzo sobre o Flamengo, com Zé Ricardo ao fundo Getty

Diego Aguirre inicia a partir desta quinta-feira seu terceiro trabalho como treinador no Brasil. Após ver seus processos serem quebrados em Inter e Atlético-MG de maneira até meio que precoce – nos dois casos não vi grandes motivos para a demissão – agora o uruguaio tem o instável São Paulo pela frente.

Sem dúvidas trata-se de um dos maiores desafios de sua carreira. Não pela grandeza da equipe paulista (isso não se discute), mas por um cenário totalmente desgastado com 25 trocas de comando nos últimos 10 anos. De referência em organização dentro e fora de campo, o time do Morumbi hoje não tem sequer uma identidade, uma forma de jogar estabelecida nos últimos anos. Vem ano e passa ano, nada de títulos, nada de competir por eles.

A pressão e insatisfação da torcida só cresce. Elencos montados e desmontados seguidamente, treinador chega, treinador cai... Uma bola de neve que não para de rolar e crescer. Uma ausência de lucidez que parece ser eterna para o são-paulino.

Mas o que o torcedor tricolor pode esperar de Aguirre dentro das quatro linhas? Enfim o São Paulo escolheu bem? O uruguaio pode ser a pessoa que estabeleça um DNA na forma de jogar da equipe? Quais são seus conceitos e ideias? Que tipo de futebol pratica?

Apesar de usar algumas referências das suas passagens por Belo Horizonte e Porto Alegre, usei como referência seu último trabalho. Ao analisar mais afundo o seu San Lorenzo, onde esteve de junho de 2016 até setembro de 2017, acredito ser o mais justo. Pela proximidade das ideias. Afinal, todos nós estamos em uma mudança contínua certo?

Bom, a primeira questão que precisamos clarear ao traçar o perfil do novo comandante tricolor é constatar que sim, o São Paulo trocou limão por melancia mais uma vez. Sai de Dorival, que tem como ideias de jogo ter a bola, propor e circular a bola com mais paciência, para um profissional que tende a ser mais reativo na sua forma de jogar. Aguirre é um treinador mais pragmático – e isso, apesar do tom pejorativo para muitos, tem lá suas vantagens.

Em todos seus trabalhos até aqui o uruguaio se mostrou um treinador adepto de uma estrutura mais rígida dentro de campo. Ou seja, prioriza a organização, principalmente sem bola. Busca sempre uma estrutura sólida, difícil de ser furada. Não abre mão (POR NADA!) da intensidade. Suas equipes são extremamente agressivas sem a posse da bola. Competem, competem e competem. Simplesmente não existe negociação neste sentido.

Tem uma veia mais estratégica. Um perfil que se adapta às necessidades de cada jogo e adversário. Busca sempre usar uma proposta de acordo com o que vem pela frente. Para isso roda peças e vária alguns sistemas. Uma das suas grandes marcas, inclusive, é aumentar a pressão na bola nos 15 primeiros minutos de jogo, buscando sufocar os adversários e já sustentar uma vantagem no placar para poder controlar melhor o jogo no restante do tempo. Fora de casa, por outro lado, consegue truncar o ímpeto do rival para, no momento certo, atacar suas deficiências. De fato, consegue ter boas leituras neste sentido. Contra o Lanús, na Libertadores, em casam, por exemplo, não pressionou alto de início. Entendia que Jorge Almiron e seus comandados, como modelo, tinham a ideia de atrair o adversário e atacar profundidade com jogadores eliminados na primeira etapa de construção.

Diego Aguirre tem alguns sistemas bem estabelecidos nos últimos anos. De uma forma geral circula entre o 4-2-3-1, o 4-1-4-1 e o 4-4-2, principalmente sem a bola. Na verdade são todas plataformas “irmãs”, que não exige uma grande ruptura na ideia para variar. Um ajuste, uma troca de peça. Não chega a ser mudanças drásticas de estrutura.


Em seus últimos jogos pelo San Lorenzo, Diego Aguirre usou o sistema 4-1-4-1
Em seus últimos jogos pelo San Lorenzo, Diego Aguirre usou o sistema 4-1-4-1 DataESPN

Suas equipes jogam muito sem a bola. Inclusive controlam jogos assim. Marca de forma zonal, mas com encaixes por zona que implicam em pressionar sempre o homem da bola. Sempre com muita agressividade. Estes pequenos encurtamentos de espaço no campo, por muitas vezes, quebra a saída de bola dos adversários. E isso independe de estar em bloco alto, médio ou baixo (faixa do campo que você começa a marcar). Seus times fazem isso muito bem. Bloqueiam a circulação, forçam o erro e, na recuperação da bola, aceleram em direção à área adversária para concluir o mais rápido possível.

San Lorenzo faz pressão na bola, recupera a posse e acelera para empatar o jogo contra o Cipolletti
San Lorenzo faz pressão na bola, recupera a posse e acelera para empatar o jogo contra o Cipolletti DataESPN

Jogando contra o Racing, em casa, o Ciclón de Aguirre sobe a marcação e encaixota a saída de bola do adversário
Jogando contra o Racing, em casa, o Ciclón de Aguirre sobe a marcação e encaixota a saída de bola do adversário DataESPN

Para manter sempre o portador da bola desconfortável em cada execução ou tomada de decisão, Aguirre libera muito seus laterais a desgarrarem da linha defensiva. Se a bola entra do lado, ambos pressionam e perseguem distâncias maiores. Os zagueiros, por sua vez, são mais podados neste sentido e sustentam mais a linha. Se a bola sai do setor deles, retornam e cuidam do espaço.

Quando o adversário inicia as jogadas com bola no chão, o San Lorenzo treinado pelo novo treinador são-paulino buscava o conceito do “direcionamento”, que tem como objetivo induzir o rival a progredir seu jogo em uma determinada faixa do campo. Neste caso, a ideia sempre foi de jogar a bola para o lado do campo, onde sua equipe busca pressionar a posse com superioridade numérica, fechando as linhas de passe para frente.

Veja na imagem, como o San Lorenzo direciona a saída do Lanús pelo lado do campo e fecha o setor. Mais atrás, lateral e zagueiro quebram a linha para
Veja na imagem, como o San Lorenzo direciona a saída do Lanús pelo lado do campo e fecha o setor. Mais atrás, lateral e zagueiro quebram a linha para DataESPN

Neste momento, como vemos na imagem acima, os laterais costumam ter mais liberdade para quebrar a linha defensiva e encurtar o espaço no ponta ou meia que cai pelo seu setor. Aguirre gosta de manter a linha de 4 sempre estruturada – geralmente não joga com ela tão estreita – mas, por outro lado, sofre com algumas quebras de laterais e zagueiros. Busca estruturar boas linhas de coberturas, mas para isso, em vários momentos, precisa liberar uma subida maior do zagueiro no campo adversário. São momentos que, numa tirada rápida da pressão, o time acaba desequilibrado defensivamente e cedendo espaços em profundidade para o rival atacar.

Linha defensiva da equipe de Aguirre sustentada mas, pela direita, lateral sai para caçar o adversário
Linha defensiva da equipe de Aguirre sustentada mas, pela direita, lateral sai para caçar o adversário DataESPN

Ainda em cima do comportamento sem bola, outra situação bastante usada pelo uruguaio em sua passagem recente pela Argentina são as subidas de pressão em cobranças de laterais. Como vemos na imagem abaixo, ele fecha o setor da batida e praticamente encaixota o rival em um pequeno espaço. Tudo isso para disputar e ganhar as 1ª’s e 2ª’s bolas. Na segunda foto, no entanto, um risco que se corre nestes momentos: o time sobe, mas para manter certa cautela, o restante da linha defensiva fica mais recuada. Caso essa bola saia dessa zona de pressão, serão poucos jogadores para duelos individuais e muito campo para o rival se projetar. Tal ideia, inclusive, persiste com bola rolando. Raramente Aguirre sobe seus zagueiros. Prefere sempre mantê-los num avanço intermediário, justamente para cortar campo do adversário atacar nas costas da linha.

Vemos o Lanús batendo o lateral no seu campo defensivo e oito jogadores do San Lorenzo pressionando o setor
Vemos o Lanús batendo o lateral no seu campo defensivo e oito jogadores do San Lorenzo pressionando o setor DataESPN

Na sequência do lance acima, vemos a linha defensiva metade no setor da bola e metade profunda, gerando um espaço central para o adversário
Na sequência do lance acima, vemos a linha defensiva metade no setor da bola e metade profunda, gerando um espaço central para o adversário DataESPN

Com a bola os times de Aguirre também mostram alguns padrões mais claros, principalmente no San Lorenzo. Prefere uma construção ofensiva mais vertical. Inclusive usando a bola longa em profundidade em alguns momentos. A ideia é sempre passar para frente. E rápido.

Para isso, algo bem nítido no seu último trabalho era o primeiro passe rompedor saindo dos pés dos zagueiros. Visando essa primeira quebra da marcação, usa apoios “entrelinhas” – entre os zagueiros adversários e as costas dos volantes. Quando a bola mais aguda entra no setor, a posse tende a ser ainda mais vertical, seja com infiltrações ou mesmo chegadas no fundo para cruzar, visando sempre preencher a área com bastante jogadores para concluir. As chances de gols, geralmente, são sempre construídas com poucos passes.

Zagueiro tem a bola e acha o companheiro entre as linhas de marcação do Lanús
Zagueiro tem a bola e acha o companheiro entre as linhas de marcação do Lanús DataESPN

Para abrir o campo, gerar amplitude e tentar criar espaços nos sistemas defensivos dos rivais, o novo treinador do São Paulo costuma usar seus laterais. Com isso vê pontas, meias e volantes circulando por dentro. Abrindo linhas de passes e gerando apoios rápidos.

É muito habitual também as tentativas de triangulações pelos lados do campo. Meia, ponta e lateral se aproximam e, em passes curtos e rápidos, tentam levar a bola à frente. A ideia é gerar superioridade numérica no setor e, com muita mobilidade, atacar espaços em profundidade.

San Lorenzo projeta três jogadores pelo lado do campo e tenta a triangulação para progredir no campo adversário
San Lorenzo projeta três jogadores pelo lado do campo e tenta a triangulação para progredir no campo adversário DataESPN

Se olharmos de uma maneira geral, os times de Aguirre são muito mais estruturados defensivamente do que com a bola – algo bem recorrente no futebol praticado aqui no Brasil. Os seus últimos trabalhos mostram alguma dificuldade para criar, principalmente quando não tem essa bola roubada um pouco mais avançada, que pega o adversário desequilibrado em seu campo. Muito por isso, traz consigo um histórico de bolas paradas ofensivas bastante interessante. No Ciclón, por exemplo, criou muitas chances e viu sua equipe marcar bastante gols desta forma.

Aguirre traz consigo conceitos e uma identidade de jogo que são fáceis de se observar. Características que podem ser importantes para o momento em que o clube passa. Dar solidez defensiva e recuperar a confiança para, lá na frente, incrementar o jogo ofensivo? Pode ser. Por outro lado, como dito acima, o uruguaio não negocia completividade e entrega. E a intensidade, definitivamente, não vem sendo a característica do elenco, principalmente se olharmos para os atletas mais rodados e que chegaram com um status mais elevado. 

 O seu grande desafio, sem dúvida alguma, será estimular tais comportamentos sem bola nos seus jogadores. E arrisco a dizer: quem não competir em campo, tem sérios riscos de não jogar. O recado, apesar de bem sutil, foi dado logo na sua chegada. É esperar para ver.

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Organização, rigidez defensiva e competitividade: o que esperar de Diego Aguirre no São Paulo?

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