Não precisava disso, Pep!

Gian Oddi
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Guardiola não gostou das críticas feitas ao City pelos colegas
Guardiola não gostou das críticas feitas ao City pelos colegas Getty Images (arquivo)

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Pep Guardiola é, dentre os técnicos em atividade no planeta, o maior deles. E isso não significa que Jurgen Klopp não possa ter tido, nesta e na passada, temporadas superiores às de Guardiola, um veredito difícil e subjetivo, que variará de acordo com os critérios que se escolhe para determinar “o melhor” de um determinado ano.

Acontece que, somados o passado e o presente, embora tenhamos nomes de técnicos em atividade muito respeitados como o próprio Klopp ou o italiano Carlo Ancelotti, se todos parassem hoje, ninguém deixaria legado de um trabalho tão autoral e tão pretensamente copiado como Pep Guardiola – para não mencionar sua absurda quantidade de títulos.

Guardiola é o cara cujos detratores tentaram minimizar, por uma eliminação nos detalhes na Champions League passada, na mesma temporada em que ele venceu os três (todos, portanto!) títulos disputados no poderoso futebol inglês contra adversários como Liverpool, Manchester United, Chelsea, Arsenal e Tottenham.

Um personagem desse tamanho e com importante histórico de trabalho em prol do futebol, portanto, não tinha necessidade de sair em defesa de seu clube atual, o Manchester City, após a controversa decisão da Corte Arbitral do Esporte (CAS) de reverter a decisão da Uefa, que optara pela punição do clube com suspensão por duas temporadas nas competições europeias.

Porque foi quase unânime: entre dirigentes, técnicos e jornalistas, a reação geral, após a reversão da decisão, causou evidente e pesada desmoralização do Fair-Play Financeiro da Uefa.


Jurgen Klopp classificou o dia da decisão como “ruim para o futebol”; Mourinho falou que “a porta do circo está aberta” e classificou o FPF como “morto”. Na Espanha, o presidente da Liga colocou em dúvida a capacidade da CAS para julgar esse tipo de recurso. Jornalistas em quase todos os principais diários esportivos do mundo criticaram a decisão, como fez Stefano Barigelli, da Gazzetta dello Sport, ao reconhecer méritos do FPF, mas afirmar que clubes como PSG e City puderam comprar jogadores por cifras absurdas graças apenas a “patrocínios amigos”.

Até mesmo as raras manifestações de compreensão em relação à absolvição do Manchester City se deram por razões técnicas, processuais e jurídicas, como uso de provas obtidas irregularmente ou tempo de denúncia expirado, mas nunca por motivos éticos e morais. E o fato de o City ter sido obrigado a pagar uma multa por "não ter colaborado com as investigações" ainda deixou a dúvida: por que alguém se recusa a ajudar nas investigações de acusações das quais não é culpado?  

Diante desse cenário, Pep Guardiola, que quase sempre presta um serviço ao futebol quando resolve falar sobre o esporte, seja no aspecto do campo ou dos bastidores, poderia ter evitado a entrevista em que exigiu “desculpas” de todos aqueles que criticaram a conduta do Manchester City fora de campo e a decisão final da Corte Arbitral.

Até porque, mesmo que o Manchester City tenha de fato mascarado a entrada de dinheiro para montar o time que montou, os méritos de Guardiola nas conquistas do City não diminuem. Ou alguém acha mesmo que, só para citar um exemplo, um lateral como Walker valia os 57 milhões de euros que o Manchester City pagou para contratá-lo? A eventual incompetência do City para montar uma equipe pagando por ela apenas o que ela vale não diminui a competência de Pep Guardiola ao fazer seu trabalho.

Afinal, o caminhão de dinheiro gasto pelo clube, embora tenha dado a Guardiola um ótimo elenco, não lhe deu um time infinitamente superior aos adversários para que ele conquistasse os títulos que conquistou do jeito que conquistou. Seu trabalho é excepcional de qualquer forma e seus méritos como técnico, inegáveis. Por isso mesmo, Pep deveria apenas comemorar o fato de poder jogar a próxima Champions. 

E deixar com a diretoria do City essa suposta revolta que, para a maior parte dos que amam futebol, nem parece fazer muito sentido.

 
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Uma vitória contra a intolerância: como o Ibra da Roma desafiou a morte para fugir da fome

Gian Oddi
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Ebrima Darboe, em sua estreia como titular da Roma contra o Crotone
Ebrima Darboe, em sua estreia como titular da Roma contra o Crotone Getty

Ebrima Darboe estava pronto para partir. Tinha apenas 14 anos e chorava muito quando abraçou sua mãe, seu irmão mais novo e suas duas irmãs antes de iniciar uma longa e perigosa viagem que o levaria de Bakoteh, um distrito de Serekunda, na Gâmbia, até a Líbia, de onde ele pretendia alcançar a Europa.

Àquela altura seu destino final era incerto, e se alguém lhe dissesse que cerca de cinco anos depois ele estaria vestindo a camisa da Roma contra o Manchester United por uma competição da UEFA, por maiores que fossem seus sonhos, ele mesmo desconfiaria.

Atravessar em veículos lotados e insalubres os mais de 3.600 quilômetros que separam a pequena Gâmbia da Líbia era só a primeira adversidade que aquele garoto, órfão de pai já havia alguns anos, enfrentaria. Darboe, como muitos refugiados pelo planeta, partia com planos vagos, mas um objetivo claro: fugir da fome, ganhar dinheiro e ajudar sua família. Se possível, jogando futebol.

Após duros meses de viagem, quando finalmente conseguiu chegar à Líbia, as coisas não melhoraram. Pelo contrário: exposto à máfia de tráfico de pessoas que ganha dinheiro explorando o sonho de milhares de seres humanos em condições de necessidade, o menino foi submetido a diversos tipos de violência. Fugir ainda era sua prioridade.

Começava então a segunda etapa da viagem: como fazem milhares de refugiados todos os anos – e como morrem muitos deles também todos os anos  –, Darboe conseguiu espaço numa precária embarcação que partia da Líbia em direção à Sicília, na Itália. O risco de cruzar o Mar Mediterrâneo naquelas condições, sem nenhuma garantia de segurança, é enorme e causa centenas de histórias dramáticas e tocantes ano após ano .

Exemplo de embarcação com imigrantes da Tunísia e da Líbia que chegam à costa italiana
Exemplo de embarcação com imigrantes da Tunísia e da Líbia que chegam à costa italiana Getty

“São viagens desumanas e não existe uma só coisa da qual não se tenha medo durante essa travessia, mas certamente a pior sensação é a de poder morrer a qualquer momento”, conta à ESPN Miriam Peruzzi, hoje agente (e como veremos à frente quase parente) do atleta. Ela seria, algum tempo após a chegada do garoto à Sicília, uma das principais responsáveis pelo conto de fadas que Ebrima Darboe tem vivido nas últimas semanas.

Ao desembarcar na Itália, o garoto de boa estatura (ele tem hoje 1,80m) era só pele e osso: pesava apenas 50 quilos, 20 a menos de seu peso atual. Como menor de idade desacompanhado, acabou sendo acolhido pelo SPRAR, um sistema criado pelo governo italiano para dar proteção a refugiados que chegam ao país em busca de asilo.

A instituição, então, encontrou para ele uma provisória casa de família na cidade de Rieti, região do Lácio. Foi ali que Darboe reencontrou-se com a bola, um outro amor que havia deixado em sua terra natal junto à mãe e irmãos. “Havia um campinho bem em frente de casa, atrás de uma mesquita. A minha primeira bola era feita de pano, eu não a largava e chorava se minha mãe a tirasse de mim”, contou o jogador em uma das (ainda) poucas entrevistas concedidas como jogador da Roma.

Em sua nova cidade, Darboe – cujo curioso apelido é “Ibra”, o mesmo do veterano craque sueco do Milan – passou a jogar na escola de futebol Young Rieti, que o ajudou também no processo de se inserir na comunidade local, fazendo com que o garoto passasse a frequentar a escola, onde ele aprendeu a falar bem italiano. 


Persistência e descoberta

Foi aí que Miriam Peruzzi entrou em sua vida. Trabalhando como caça-talentos para clubes importantes da Europa, ela estava em Rieti para assistir a jogos da Scopigno Cup, um importante torneio com jovens de grandes clubes. Através de um amigo, Darboe ficou sabendo de sua presença na cidade e não teve vergonha ao surgir do nada no estádio em que ela estava para pedir que fosse ver seu jogo de amadores, onde poderia mostrar seu talento.

Miriam ouviu o pedido, mas não atendeu. Seu objetivo ali era outro. No dia seguinte, insistente, Darboe reapareceu e mais uma vez fez o apelo para que ela o visse jogar. A agente relembra: “Foi então que eu pensei nas dificuldades que tive para ser aceita num mundo machista como o futebol. E se eu consegui é porque tive quem me ajudasse, então pensei que deveria também tentar ajudar ao Ibra”.

Sorte dele. Bem impressionada com a qualidade do garoto, ainda que num jogo de amadores longe das condições ideais para se fazer tal avaliação, Miriam Peruzzi sugeriu à Roma que fizesse um teste com o garoto. Assim como ela, a Roma não se arrependeu: “Depois de apenas 20 minutos, [Massimo] Tarantino, na época o responsável pela base da Roma, me perguntou se eu gostava do clube. Foi maravilhoso!”, contou Darboe.

Era agosto de 2017, e com 16 anos completados havia dois meses, Ebrima Darboe já poderia se considerar um jogador da Roma. A partir daquele momento, com auxílio da Fifa, o clube começou a tocar as complexas questões burocráticas em relação ao asilo do garoto, além de providenciar também a obrigatória educação para jovens atletas em situações do gênero.

Nas suas redes sociais, Darboe exalta De Rossi e Zaniolo, à sua frente na imagem
Nas suas redes sociais, Darboe exalta De Rossi e Zaniolo, à sua frente na imagem Instagram Ebrima Darboe

Nas categorias de base da Roma, um novato e ainda tímido Darboe foi bem recebido pelo técnico Alberto De Rossi, ex-jogador do clube e pai de um outro volante, pelo menos por enquanto bem mais famoso que o gambiano: o campeão do mundo Daniele De Rossi.

Dois anos se passaram e tão logo completou 18, Darboe pôde, já maior de idade, assinar seu primeiro contrato como jogador de futebol, válido até 2023, pelo qual passou a receber 50 mil euros brutos por ano. Com os descontos, a cifra cai para cerca de 30 mil euros, o que mensalmente significa algo em torno de 16 mil reais, dos quais boa parte Darboe manda para a família em Bakoteh.

Em campo, o volante correspondia. Tanto que já no dia 27 de outubro de 2019, como consequência das muitas lesões no elenco profissional, acabou convocado para ficar no banco no jogo Roma x Milan pelo Campeonato Italiano. Na ocasião, não faltou quem apontasse a ironia de a chance surgir justamente contra o time de Matteo Salvini – um dos políticos mais relevantes da Itália e ao mesmo tempo um dos maiores opositores à entrada de refugiados no país.

Naquela partida, porém, Darboe não jogou. Sua estreia como profissional só viria ocorrer mais de um ano e meio depois, no último 2 de maio, quando Darboe substituiu Gonzalo Villar para jogar os 8 minutos finais de Sampdoria x Roma. Quatro dias mais tarde e veio a estreia europeia, contra o Manchester United pela Liga Europa: quando o zagueiro Smalling se machucou, ao invés de utilizar as opções para a posição que tinha no banco, o técnico Paulo Fonseca preferiu colocar Darboe em campo, recuando Mancini, um zagueiro titular que havia iniciado como volante.

A boa atuação de Darboe nos 60 minutos contra o United foi suficiente para lhe garantir a primeira titularidade com a Roma já na partida seguinte, neste último domingo, na vitória por 5 a 0 sobre o Crotone pelo Campeonato Italiano. À sua atuação, o rigoroso jornal La Gazzetta dello Sport atribuiu uma boa nota 6,5, acompanhada por alguns elogios.


A segunda família

Um dia antes de sua estreia como titular da Roma, o blog tentou contato com o jovem Ibra pelas redes sociais para esclarecer duas dúvidas simples. Simpático, em italiano e com emojis, ele respondeu lamentando não poder dar entrevistas, mas enviou-nos o contato de Miriam Peruzzi.

A quem, aliás, fez questão de agradecer logo na primeira chance que teve para falar com a imprensa após enfrentar o Manchester United. “Conhecer a Miriam mudou minha vida, porque ela me transformou em parte da sua família. Eu era muito novo e precisava de uma família. Me senti em casa com eles, então queria muito agradecer à família Peruzzi porque sei que eles estão nos assistindo”, disse, emocionado, em entrevista à Sky Itália.

Família Peruzzi: a família italiana que Darboe ganhou na Itália (de vermelho, Miriam)
Família Peruzzi: a família italiana que Darboe ganhou na Itália (de vermelho, Miriam) arquivo pessoal

Ao blog, Miriam Peruzzi explicou melhor a relação do novo volante da Roma com seus pais: “Meu pai é técnico de futebol, ele e Ibra sempre passaram horas ao telefone falando sobre tática. Nos dias em que ele estava livre, Ebrima sempre vinha ficar com a gente, com a nossa família, então meus pais decidiram adotá-lo”.

A relação dos Peruzzi com o garoto, é bom ressaltar, começou bem antes de que seu sucesso como jogador tenha se transformado em algo aparentemente inevitável. E assim, na Itália, Darboe encontrou não só a chance de ganhar dinheiro e ajudar sua família fazendo o que mais gosta. Ele encontrou, também, uma nova família, novos amigos e um mundo que hoje, quem diria, parece não lhe impor mais fronteiras ou limites.

Tudo isso não o impediu de, quando questionado sobre a fábula que parece viver, lembrar-se dos refugiados que não tiveram a mesma sorte: “Quando eu penso em quem não conseguiu me dá uma tristeza enorme, é uma experiência que eu não desejo a ninguém”.

Na mesma entrevista à Sky Itália, ele mandou uma mensagem aos que de alguma forma almejam uma trajetória parecida: “Diria para que tenham esperança e deem o máximo, que continuem acreditando nos seus sonhos”. Na era de influenciadores e instagramers, a frase pode soar um tremendo clichê ausente de qualquer valor. Partindo de Ebrima Darboe, é uma inquestionável lição de vida.

***

Veja trechos da entrevista de Darboe após o jogo contra o Manchester United (em italiano):



 
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O que se espera de Mourinho?

Gian Oddi
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José Mourinho é um técnico vencedor. A lista de títulos que ele ostenta no currículo ou que enumera mostrando os dedos para provocar a torcida adversária sempre foi aquilo que levou seus clubes a contratá-lo.

É preciso admitir que esse mesmo adjetivo, “vencedor”, não é o que melhor define a Roma. Seus três suados scudetti não seriam suficientes para manter a fidelidade e paixão daquele tipo de torcedor que precisa arrotar taças, conquistas e placares quando quer encerrar uma discussão sobre futebol.

A conclusão lógica, quase matemática, é, portanto, a de que a euforia causada na capital italiana pela contratação de José Mourinho tem a ver só com isso, tem a ver com o “chegou o cara que vai encher nossa sala de troféus”. Mas não é isso, não é nada disso.

E não é nada disso não só porque a experiência de Mourinho no Tottenham, em vários aspectos um equivalente da Roma no futebol inglês, foi uma passagem pouco frutífera e animadora.

A meta de qualquer clube importante, nenhum dirigente seria louco de dizer o contrário, é conquistar títulos – nem que seja a médio ou longo prazo. Mourinho negar essa ambição ao chegar na Roma renegaria sua história; a nova gestão que o escolheu negar isso seria burrice.

Do ponto de vista técnico e racional, porém, o José Mourinho de 2021 não parece ser melhor escolha que o italiano Maurizio Sarri, até ontem o mais cotado para assumir a Roma. Mesmo assim, o otimismo, a alegria e a euforia deram o tom predominante às margens do Tibre nessa última terça-feira. Por que?

Talvez porque, ao contratar Mourinho, em questão de minutos a Roma tenha conquistado um protagonismo com o qual não está acostumada. Talvez porque a chegada de um técnico renomado como o português denota ambição esportiva como não se via desde os tempos de Fabio Capello. Mas, acima de tudo, porque José Mourinho é como é.

É fácil odiar José Mourinho na mesma medida em que é fácil amá-lo: bom para a Roma
É fácil odiar José Mourinho na mesma medida em que é fácil amá-lo: bom para a Roma Getty

Você pode não gostar de Mourinho, da sua marra, do seu jogo, do seu ônibus. Mas qualquer tentativa de negar seu carisma e a grandeza do personagem será em vão. É fácil odiar José Mourinho na mesma medida em que é fácil amá-lo. E a torcida da Roma só quer amar, só quer amar, só quer amar.

Foi assim não apenas com Francesco Totti, como era óbvio ser. Foi assim com Daniele De Rossi, cujos 18 anos vestindo a camisa do clube não lhe renderam mais que duas Copa da Itália. E foi assim, evidentemente em outra medida, com nomes que foram de Taddei a Naingollan. Em Roma, na Roma, amor com amor se paga, e a chegada de um técnico tão fácil de se gostar tem boa parte na aceitação que se viu nessa terça.

“A inacreditável paixão dos torcedores da Roma me convenceu a aceitar esse desafio” foi a primeira frase de José Mourinho como técnico do time. Pode ser um sentimento verdadeiro, pode ser demagogia. Mas o simples fato de não chegar prometendo títulos em sua primeira fala demonstra alguma compreensão do que dele se espera, do que dele se quer.

Entre jogos posicionais, pressões nos portadores, externos desequilibrantes e campos cheios de terços, Mourinho pode parecer obsoleto, não é sombra do que foi. Se seguir olhando para trás enquanto anda pra frente, seu sucesso talvez dependa mais da alquimia, dos astros ou da lua em Saturno. Mas e daí?

A escolha de um personagem, e não do melhor treinador, talvez soe insensata em quase todo clube do mundo. Mas não na Roma. Essa é, certamente, uma visão otimista e com certa carga emocional. Mas o futebol também é feito disso, o futebol depende disso.    

Em toda sua carreira, para Mourinho, os meios pouco importaram, porque sempre justificaram seus fins: ser campeão. Na Roma ele talvez nem precise disso para ser amado. Mas se a lua estiver em Saturno...

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O que vocês perdem ao continuar odiando Neymar

Gian Oddi
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O texto abaixo é do jornalista Francesco Gerardi, publicado originalmente em italiano no site da ótima revista Undici, e seu interesse independe do placar ou do desempenho de Neymar no jogo de logo mais contra o Manchester City. A própria Undici publicou o artigo pouco antes do apito inicial para PSG x City na semana passada.

Bons textos não são aqueles com os quais você necessariamente concorda, mas aqueles que te fazem pensar, que trazem um ponto de vista diferente. E se o fizerem com classe e estilo, tornando a leitura agradável, melhor ainda. Foi o que me pegou ao ler o artigo de Gerardi na Undici, aos quais agradeço pela autorização para esta tradução.   


'Tudo aquilo que é preciso saber e entender sobre Neymar está em uma jogada inútil feita durante uma partida irrelevante no dia 4 de fevereiro do ano passado'
'Tudo aquilo que é preciso saber e entender sobre Neymar está em uma jogada inútil feita durante uma partida irrelevante no dia 4 de fevereiro do ano passado' AFP via Getty Images


O que vocês perdem ao continuar odiando Neymar
 
Ele se tornou o jogador mais decisivo no mundo, mas também o mais bonito para se ver jogar, sem renunciar aos seus excessos e seu estilo único e atrevido

Por Francesco Gerardi

No 37º minuto do jogo entre Paris Saint-Germain e Bayern de Munique, quartas de final da Champions League 2020-21, Neymar recebe a bola na entrada da área adversária, deixa passar o tempo suficiente para dar a impressão de que vai finalizar, espera que Kingsley Coman se aproxime e com um único movimento muda a direção de sua corrida e da bola: com o calcanhar direito ele a devolve para o lado esquerdo, o movimento continua por todo seu corpo e vira uma pirueta que lhe permite reencontrar a posição para finalizar. Coman segue com sua corrida (perdida) para a direita, e no tempo que leva para girar e reencontrar Neymar, o número 10 do PSG já mirou e decidiu chutar a bola com a parte interna do pé direito, seguindo sua trajetória com o olhar. A esfera traça um doce arco e passa rente ao ângulo esquerdo do gol de Neuer. Tudo menos o gol. Tudo além do gol. Todo Neymar em um só momento, um só movimento.

No final do jogo do Parque dos Príncipes, Maurício Pochettino diz a[o jornalista] Guillem Balague que nesta temporada não houve um Neymar melhor do que o que se viu na partida de volta contra o Bayern. Pochettino obviamente fala por si e também de si: desde que chegou a Paris, uma grande parte de seu trabalho foi dedicada a Neymar, a construir uma relação com a pessoa, a proteger o jogador das lesões, a melhorar suas atuações. Mas Pochettino fala também para todos aqueles que são testemunhas de uma evidência: Neymar nunca jogou tão bem, nem em Paris nem em Barcelona. Nunca foi tão forte e saudável. Aos 29 anos, quatro após a decisão de deixar o Barça e sair da sombra projetada por Messi, Neymar finalmente teve razão: é o melhor atacante do mundo.

Se tem uma coisa que define "o melhor" é a consciência, a sua própria e a dos outros. Hoje Neymar pode dizer que Kylian Mbappé é o próximo de uma linha sucessória que começa com a Pulga e passa por ele: o presente sabe reconhecer o passado e o futuro, sabe distinguir-se daquilo que foi e do que será. Neymar agora diz quem foi o melhor ontem e quem será o melhor amanhã, porque sabe quem é o melhor hoje. Ele sabe e os outros sabem. O cume da montanha é o lugar no qual a supremacia não deve mais ser demonstrada, apenas reconhecida: quem está abaixo olha para cima e sabe, entende, aceita.

Neymar já não precisa mais prestar contas, fazer resumos, juntar estatísticas. Seus números foram absurdos desde o dia em que colocou os pés na Europa, mas nunca eram suficientes para convencer os céticos: ele jogava no Barcelona com Messi e Suarez? Assim não vale... Jogava no PSG e na Ligue 1? Aí é fácil... Na Champions League nunca ia além de uma fase acessível? Isso todos conseguem... Pois agora, depois dos jogos contra o Bayern (o melhor e mais vanguardista time da Europa), esses argumentos não valem mais.

O mais forte consegue sê-lo mesmo, e acima de tudo, na ausência de contexto: a superioridade é uma sensação que vai além da racionalização do aficionado e do especialista. Vendo Neymar contra o Bayern pode-se apenas testemunhar: isso está acontecendo diante dos olhos de quem sabe e quem não sabe, de quem entende e não entende, de quem aprecia e de quem detesta. Todo o resto são provas de uma evidência, a teorização de um fenômeno natural observável empiricamente: 85 toques na bola, 14 duelos individuais vencidos, 11 bolas na área adversária; além das sete faltas recebidas, seis roubadas de bola, seis chutes sendo três deles no gol, três chances criadas, uma bola interceptada, duas na trave. Tudo menos o gol, tudo além do gol.

Como elaboramos uma opinião sobre um jogador capaz de ir além da coisa mais importante que pode acontecer em um campo de futebol? Como observar um jogador que está sobretudo naqueles momentos do futebol em que não se pode somar estatísticas, cuja classe está naquela parte dos pés entre o calcanhar e a sola? Como se reconciliar com um talento capaz de unir a substância com a estética, aquela parte do jogo que por tanto tempo apontamos, discutimos e defendemos como sendo antiética?

Vivemos numa época em que tudo sabemos e não sabemos nada e, portanto, em que o irrelevante terá sempre uma parte maior frente ao relevante. No filme Moneyball, Jonah Hill interpreta Peter Brand, um economista formado em Yale e disposto a virar diretor geral de um time de baseball, autor da frase mais importante do filme: existem jogadores que são ignorados por motivos insensatos e supostos defeitos – por idade, aparência, caráter. Todos os esportes no fim das contas são o mesmo esporte, isso vale para o baseball e para o futebol. Foi sempre difícil negar o valor de Neymar limitando as observações aos jogos, ao campo. Mas foi sempre fácil diminui-lo se nos concentramos em motivos insensatos e seus supostos defeitos.

É possível amar um jogador que define como modesta uma festa de aniversário com todos os companheiros de time, suas famílias e estafes? É possível admirar um jogador cuja ideia de elegância é o branco absoluto? É possível adorar um ídolo que participa de torneios de pôquer e é protagonista de eventos do Fortnite, que desenha roupas e cria perfumes, que faz aparições na Casa de Papel e em Velozes e Furiosos? Podemos aceitar a superioridade de um sujeito tão ligado à estética e à cosmética, dentro e fora do campo? Como fazemos para levar a sério alguém que vai de Paris a Barcelona movimentando o valor do PIB de um país em desenvolvimento e depois se apresenta na coletiva de imprensa dizendo que foi Deus quem sugeriu essa escolha?

Em tempos nos quais o mundo desaba na nossa cabeça enquanto estamos ocupados procurando apontar os erros alheios, essas perguntas são hoje feitas pelas mesmas pessoas que nos últimos 15 anos se dividiram entre as tribos de Cristiano Ronaldo e Messi.

A culpa de Neymar não está no campo, o desprezo e a subvalorização que o acompanham até aqui nada têm a ver com seu jogo. Ao me preparar para escrever este artigo, resolvi rever as partidas consideradas as melhores de sua carreira: logo me dei conta que precisaria de uma semana só para ver aquelas do período blaugrana, e depois ainda faltariam as do Paris e da seleção... Passei então para os highlights e comp(ilações): logo entendi que gastaria ao menos três dias, um tempo que nem mesmo [o diretor de futebol Walter] Sabatini tem quando precisa ver os arquivos dedicados a contratar um próximo lateral-esquerdo qualquer.

Só depois de perder um bom tempo é que me dei conta que o ponto era justamente esse: como se estabelece a grandeza de um jogador cujos feitos vão muito além do tempo e da energia necessários para que os assimilemos? Como se define um jogador cuja grandeza está nas nuances do exagero, na imprudência com a qual realiza coisas que os outros fazem com seriedade, com discrição? E acima de tudo: como se pode negar uma grandeza tão evidente, tão escancarada?

Em geral os highlights de um jogo que encontramos no Youtube são chatos. Mas os de Neymar contra o Bayern são uma experiência diferente: o vídeo dura oito minutos e não tem nada ali que valha a pena editar ou cortar.


Neymar lembra ao futebol, que hoje é arquitetura funcionalista, o quanto são importantes a forma e a estética, o prazer e o indivíduo. Neymar sabe que vencer não é a única coisa que conta: você pode vencer estando aberto pela esquerda, abrindo espaço para um terceiro ou usando o espaço aberto pelo outro; mas pode vencer também protagonizando cada movimento, cada momento do jogo, sendo o pilar sobre o qual todo o peso da estrutura encontra equilíbrio. Neymar sabe que não existem apenas a via da natureza (força do corpo) e a da cultura (superioridade técnica): existe uma terceira via que leva ao triunfo, uma estrada que é a conjugação dessas duas vias.

A culpa de Neymar é ter contrariado abertamente o lugar comum: esportes de equipes requerem esforço coletivo, sim, mas eu quero ser o melhor do mundo; o futebol é fruto de um grupo, sim, mas eu quero construir o meu grupo. A culpa de Neymar está em admitir que a ambição é a premissa da grandeza, que a presunção é parte do sucesso: eu não quero ser Messi, quero ser mais que Messi. A culpa de Neymar está em ter lembrado ao futebol das linhas retas que a beleza está na pirueta: não se trata apenas de ir do ponto A ao B, mas daquilo que está no meio. Na viagem. A culpa de Neymar está em ter tido razão desde o início até o fim: deixar Barcelona e ir para Paris foi a decisão correta.

Tudo aquilo que é preciso saber e entender sobre Neymar está em uma jogada inútil feita durante uma partida irrelevante. Era 4 de fevereiro do ano passado, o PSG jogava contra o Montpellier: lá pela metade do primeiro tempo, o número 10 brasileiro está perto da bandeirinha de escanteio, pressionado por Arnaud Souquet. De todos os modos possíveis e disponíveis para se livrar da pressão do adversário, Neymar escolhe o mais difícil e atrevido: uma bicicleta, aquele movimento semi mecânico descrito tão bem por essa palavra em italiano ou português, mas ao qual o inglês faz justiça com a maravilhosa imagem evocada pelo nome rainbow flick. Souquet fica confuso e humilhado, a bola bate nele e tudo acaba em arremesso lateral. O árbitro Jerome Brisard intervém e intima Neymar a parar com aquele exibicionismo. Neymar faz mais do que protestar, ele se ofende. Protesta até forçar o árbitro a mostrar-lhe o cartão amarelo. Até o fim do primeiro tempo, Neymar continua a repetir ao árbitro, aos adversários e a um público que naquela época ainda se aglomerava em volta dos campos para observar e escutar: “Estou jogando bola. Estou apenas jogando bola”.

 
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Obsessivo, bronco e pragmático: como funciona o homem que iniciou e acabou com a hegemonia da Juventus na Itália

Gian Oddi
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“Eu trouxe à Inter minha visão de futebol: sacrifício, suor e cansaço. Eu levo todos até o limite, é verdade, mas é esse o caminho a seguir se você quer vencer. Há quem prefira a mediocridade, porque assim não se tem dor de cabeça e se dorme melhor.”

A frase do técnico Antonio Conte, proferida antes mesmo do fim de semana em que garantiu à Inter de Milão seu 19º scudetto interrompendo uma série de nove (!) títulos seguidos da Juventus, resume bem não apenas sua forma de trabalho, mas sobretudo sua obsessão: a de vencer a qualquer custo.

A trajetória de Conte, no que diz respeito aos resultados, é um verdadeiro e quase despercebido fenômeno ao qual sua fama e respeito moderados talvez não façam jus. Basta relembrar sua trajetória desde que, aos 42 anos, Antonio Conte assumiu o primeiro clube grande de sua carreira – a mesma Juventus na qual atuou por 14 anos como jogador.

Como Lukaku e Lautaro levaram Inter ao topo da Itália após 11 anos


Treinador emergente, Conte chegou à Juventus em setembro de 2011 para trabalhar com um elenco que vinha de dois sétimos lugares seguidos no Campeonato Italiano, ainda sofrendo para se recuperar do escândalo batizado como Calciopoli que fez o clube disputar na Série B a temporada 2006-2007.

Resultado: em suas três primeiras e até então únicas temporadas como técnico de clube grande, Conte transformou um time de meio de tabela em tricampeão italiano, iniciando assim uma série de títulos que só viria a ser interrompida agora em 2021, uma década depois, graças à sua Inter de Milão.

Sobre aquele período, as declarações mais impressionantes a respeito da chegada de Conte são de Andrea Pirlo, seu jogador à época e hoje, ironicamente, o novato técnico da Juventus que viu sua série de conquistas interrompida pela Inter.

Pirlo, quem diria, explica

Em sua autobiografia “Penso, Quindi Gioco”, Pirlo dedica um capítulo inteiro ao trabalho de Antonio Conte como treinador. E alguns trechos, traduzidos a seguir em sequência, servem para compreender não apenas seu sucesso naquela Juventus, mas os que viriam nos trabalhos a seguir:

“Trabalhei com muitos técnicos e ele foi o que mais me surpreendeu. Foi preciso um único discurso, com palavras simples, para conquistar não só a mim como toda a Juventus. Quando ele fala, os conceitos te atingem até com certa violência. Várias vezes me peguei pensando: ‘cazzo, mais uma vez o que ele disse faz sentido’. Obviamente ganhamos o scudetto na primeira tentativa, um sucesso todo dele, malditamente dele, acima de qualquer previsão... Conte não é mágico, mas tira da cartola preleções alucinantes... Ou você o obedece ou não vai jogar. Ele atenta para cada detalhe e os utiliza a seu favor. Quando se concentrava na parte tática, ele nos deixava por horas na frente dos vídeos, explicando várias vezes os movimentos errados. Ele tem alergia ao erro... No campo de Vinovo [centro de treinos da Juventus], sempre vencíamos, simplesmente porque jogávamos contra ninguém. Não havia adversários. Ele nos obrigava a jogar partidas de 11 contra zero, nos obrigava a repetir por 45 minutos os mesmos movimentos até que ficassem bons, até enjoar.... Eu esperava um técnico bom, mas não tão bom. Imaginava um treinador com muita vontade e carisma, mas descobri que tática e tecnicamente ele tinha muito para ensinar a vários colegas.”

Seleção italiana

Três títulos italianos depois, Conte deixou a Juventus protagonizando uma das tantas polêmicas de sua carreira – naquele caso, por externar sua insatisfação com o mercado do clube ao afirmar que não era “possível comer com 10 euros em um restaurante de 100 euros” – para depois assumir o comando da seleção italiana, pela qual, novamente, seus resultados foram muito acima do esperado.

Em seu primeiro trabalho na Azzurra, na mesma chave de Croácia, Noruega e Bulgária, ele terminou líder invicto das eliminatórias da Euro 2016. E na etapa final da competição, com um elenco consideravelmente inferior aos dos favoritos no torneio (Giaccherini, Pellé e Éder eram titulares da Itália no ataque...), venceu e superou a favoritíssima Bélgica para liderar uma chave que tinha também Suécia e Irlanda.

Nas oitavas de final, a Itália eliminou de maneira incontestável, com um 2 a 0, a então campeã europeia Espanha. A queda só aconteceria nas quartas de final, contra a campeão do mundo Alemanha, e mesmo assim numa disputa de pênaltis após empate por 1 a 1 no tempo normal e prorrogação. Na Itália, ciente das limitações técnicas do time, jornais como La Gazzetta dello Sport estampavam manchetes assim: “Foi lindo, obrigado!”.

Antonio Conte: seus resultados como técnicos são fenomenais
Antonio Conte: seus resultados como técnicos são fenomenais Getty Images

No Chelsea

Veio então o trabalho no Chelsea. E se na Juventus, como disse Pirlo, a conquista do scudetto estava longe do esperado, no Chelsea a hipótese do título inglês era ainda mais improvável. O que não significava impossível: ao transformar o time jogando com os três zagueiros que têm caracterizado todos seus grandes trabalhos, Conte rumou para a conquista da Premier League deixando para trás o Manchester City de Guardiola, o Liverpool de Jurgen Klopp, o Manchester United de José Mourinho e o Tottenham de Pochettino.

E mesmo na temporada seguinte, talvez a mais contestada de sua carreira sobretudo pelas várias desavenças criadas com o elenco do Chelsea, ainda conquistou um título, o da Copa da Inglaterra, derrotando o Manchester United de Mourinho por 1 a 0 na decisão em Wembley.

Dispensa por SMS

Foi com um jogador daquele grupo do Chelsea, o atacante Diego Costa, que Antonio Conte viveu a mais conhecida das confusões de sua carreira após dispensar por SMS o atleta que segundo ele não tinha mais desejo de atuar pelo clube inglês porque queria voltar ao Atlético de Madrid. De acordo com o Diário AS, o teor da mensagem que Conte enviou a Diego no meio da temporada teria sido o seguinte: “Olá, Diego. Espero que você esteja bem. Obrigado pela temporada que passamos juntos. Boa sorte no próximo ano, mas você não está mais nos meus planos”. A o que o jogador teria respondido com um seco e breve “OK”.

Tempos depois, Diego Costa chegou a comentar o caso na ESPN Brasil, de certa forma corroborando o que muitos apontam como o pior aspecto do técnico, sua relação com o elenco em geral degradada por cobranças intensas, rudes e obsessivas: “Tivemos problemas fora de campo, mas ele era um bom treinador. Não guardo rancor, mas para ser um técnico realmente importante ele tem que mudar algo no lado humano. Creio que em um clube como o Real Madrid ele não duraria uma temporada”.

Diego talvez tenha razão. No Real Madrid, pode ser que Antonio Conte durasse pouco, seja por seu jogo mais pragmático do que plástico, seja pela dificuldade para lidar com as maiores estrelas do mundo. Mas se isso um dia impediu que Conte assumisse e dirigisse o Real Madrid até hoje, a torcida da Inter só tem mesmo é que celebrar essas características de seu treinador.

 
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Obsessivo, bronco e pragmático: como funciona o homem que iniciou e acabou com a hegemonia da Juventus na Itália

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Quando a pressão vira piada

Gian Oddi
Gian Oddi

No menu brasileiro de pressão sobre técnico de futebol tem opção para todo gosto: tem para técnico campeão brasileiro, técnico com menos de 10 jogos, técnico que cai depois de suas melhores atuações em um bom período e até pra técnico estrangeiro que chega por distração e pede o boné rapidinho para fugir logo dessa terra de malucos.

De todas as pressões, porém, nenhuma é tão surreal como a que vinha sendo vivida pelo português Abel Ferreira, técnico do Palmeiras campeão sul-americano e da Copa do Brasil na última temporada. Não é que as pressões fossem absurdas pela simples existência dos títulos e a indiscutível parcela de Abel nas conquistas, mas sim pelos motivos usados para contestá-lo.

Os motivos? Resultados. Porque os questionamentos pontuais até justos a se fazer após os jogos da Recopa contra o Defensa y Justicia só tiveram peso quando somados à derrota nos pênaltis (com bela atuação) pela Supercopa contra o Flamengo e aos resultados em um campeonato estadual que deveria e deve ser usado como mero laboratório no ano em que o Palmeiras ostenta o recorde mundial de número de partidas disputadas.

Libertadores: Palmeiras tem atuação impecável e atropela o Del Valle; assista aos melhores momentos


A necessidade de desprezar ou menosprezar o Paulista, possivelmente discutível em outro grau nos anos anteriores, nunca foi tão óbvia como neste segundo ano de pandemia – um 2021 em que os Estaduais, não vivêssemos num futebol onde os interesses políticos se sobrepõem aos esportivos, deveriam ter sido cancelados da agenda dos grandes para que fosse feito o necessário ajuste de calendário.

A provável eliminação no Paulista também não deveria ser motivo de drama ao se constatar que, entre os 11 atletas que mais jogaram pelo clube no torneio, estão nomes como Vinícius Silvestre, Gustavo Garcia, Lucas Esteves e Rafael Elias; some-se a isso o fato que, mesmo com o fraco desempenho e escalações inéditas a cada jogo, o Palmeiras estaria avançando se estivesse em qualquer outro grupo do torneio.

A goleada por 5 a 0 sobre o Independiente del Valle escancara ainda mais o ridículo das pressões sobre Abel, pois permite a constatação de que, nos cinco jogos disputados com titulares na temporada, o Palmeiras teve duas ótimas atuações contra Flamengo e Del Valle, seus melhores adversários. E nas outras três partidas de desempenho mais questionável, mesmo em meio à mudança no esquema de jogo e peças utilizadas, venceu duas.

Quarto gol do Palmeiras foi uma aula de contra-ataque; assista


Em que outro lugar do planeta um técnico seria contestado no contexto acima?

Com competidores fortes nas três competições que contam, Abel Ferreira pode não conquistar nada na temporada e poderá, dependendo dos roteiros, ser responsabilizado pelos insucessos. Mas a insanidade que se fazia até essa terça-feira passou a soar como piada na madrugada de quarta.

Uma piada que sem dúvida voltará a ser contada por muita gente na noite de quinta caso o time não derrote a Inter de Limeira com um bando de garotos.


Abel Ferreira na (discutível) vitória contra o Defensa y Justicia
Abel Ferreira na (discutível) vitória contra o Defensa y Justicia Cesar Greco / Palmeiras

 
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Após intensivão de Brasil, Ariel Holan deu aula no Santos

Gian Oddi
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Provavelmente não se trata da maioria, mas não será difícil encontrar torcedores do Santos a comemorar a decisão do técnico argentino Ariel Holan de deixar o clube após comandar o time em apenas 12 jogos – quatro vitórias, três empates e cinco derrotas.

As cinco derrotas e (sim) o baixo nível de futebol apresentado em boa parte das 12 partidas serão para muitos, incluindo os imbecis responsáveis por estourar rojões ao lado de seu apartamento após uma derrota num jogo irrelevante com reservas em campo, motivo suficiente para celebrar sua saída.

Em dois meses, Holan recebeu um intensivão sobre como funciona o futebol brasileiro: num clube em crise financeira e em meio a disputas políticas, não ganhou reforços, perdeu jogadores importantes, foi submetido a um calendário bizarro que chegou a incluir 4 jogos em 8 dias, viu salários não serem pagos em dia e teve que suportar uma pressão desmedida que despreza completamente todo o contexto acima.

Presidente do Santos anuncia que Ariel Holan pediu demissão: 'Sai pela porta da frente'; assista


Se a principal motivação de sua saída foram rojões, atraso em pagamentos, a falta de confiança no trabalho com o elenco de que dispõe ou qualquer outro fator, só saberemos quando Holan falar, se falar. As justificativas dadas pelo presidente do Santos, Andres Rueda, precisam ser vistas com óbvias e prudentes ressalvas.

É provável que o motivo não seja apenas um, mas a soma de todos os citados (e talvez não só). Seja qual for(em) o(s) motivo(s) de sua decisão, o fato é que depois de passar por dois meses de curso intensivo sobre o funcionamento do futebol brasileiro, o argentino Ariel Holan deu uma aula sobre como reagir a essa insanidade.

Se o exemplo de Holan for seguido por outros, talvez um dia consigamos enxergar o quanto temos sido ridículos.

Ariel Holan ficou apenas dois meses no comando do Santos
Ariel Holan ficou apenas dois meses no comando do Santos Ivan Storti/Santos FC

 
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“Então defenda os Estaduais. Mas e a NBA? Você é fã da FIFA?” Por que não faz sentido contestar assim quem combate a Superliga

Gian Oddi
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Florentino Pérez, o poderoso chefão da fracassada Superliga
Florentino Pérez, o poderoso chefão da fracassada Superliga Getty Images

 

Não foi um fenômeno imediato ao lançamento da prepotente e descabida Superliga – os porquês dos adjetivos já foram bastante debatidos –, mas é curioso como, pelo menos no Brasil, não tardou muito para que surgissem inúmeras contestações aos que se posicionaram de maneira contundente e até óbvia contra o elitismo dos 12 clubes inicialmente envolvidos no torneio.

Quatro perguntas bastam para resumir os argumentos dessas contestações: “Se são a favor dos pequenos, então por que vocês não defendem os campeonatos estaduais em vez de criticá-los? Por que não olhar para o exemplo de sucesso das ligas dos EUA, como NBA e NFL? Ah, então vocês são a favor do monopólio de FIFA e UEFA? É tão difícil perceber que o dinheiro já domina o futebol?”.

As duas últimas perguntas de certa forma se misturam e talvez sejam as de resposta mais simples. Afinal, entre os tantos críticos da Superliga, pouca gente contesta que poder e faturamento da UEFA e FIFA são excessivos e que os clubes deveriam apitar e ganhar mais. Assim como ninguém discute o enorme poder do dinheiro no modelo de futebol que hoje impera no planeta.  

Presidente da polêmica Superliga, Florentino Pérez diz: 'Queremos salvar o futebol'



Reconhecer as questões acima, porém, não deveria servir para validar o que o clubinho de privilegiados queria (ou quer) fazer, levando a relevância do faturamento a patamares nunca antes vistos, muito piores que os atuais, e excluindo completamente os critérios técnicos e esportivos que são a essência do futebol. Neste caso, quem posa de resignado em relação à força da grana no futebol parece na verdade desejar que essa força seja ainda maior.  

O aspecto dos critérios técnicos e esportivos citados acima é também o melhor argumento para desfazer qualquer relação lógica sobre ser contra a Superliga e ter que defender os campeonatos estaduais como eles são hoje. Não é que se peça sua extinção, mas do jeito que funcionam os Estaduais servem bem mais aos dirigentes das federações de Estados do que aos clubes pequenos.

Ver times de Série A obrigados dedicar quase um terço dos meses de seu calendário com jogos para enfrentar times das Séries C ou D também não faz sentido, embora seja o extremo oposto da Superliga. Ou aqueles que são contrários à Superliga por acaso defendem que o Real Madrid jogue anualmente contra o Atletico Pulpileño ou o Deportivo Minera, times da terceira divisão espanhola? Esses times até têm a chance de enfrentar o Real, mas se isso ocorrer terá sido por méritos esportivos.

Por fim, resta o argumento “olha como a NBA é legal com sua liga de clubes". Primeiro, ser contra a Superliga como foi proposta não significa ser contrário a uma liga de clubes menos elitista e com critérios esportivos. Segundo, há evidentes e necessárias ressalvas (leia mais no blog do Ubiratan Leal) que precisam ser feitas sempre que se compara o global futebol com outras modalidades e, mais ainda, a autossuficiência esportiva (para o bem e para o mal) dos norte-americanos na relação com o resto do mundo.

O mais curioso na manifestação daqueles que rebatem as duras e justas críticas feitas à Superliga é que apenas em raríssimos casos eles admitem ser defensores do torneio. Assim, contestam quem combate um campeonato bizarro com o simples argumento de que já existem coisas erradas no futebol como ele é hoje.

Mas não é por que as coisas estão ruins que precisamos aceitar algo pior.


 
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A Superliga, suas causas e o que ela nos trouxe de bom até aqui

Gian Oddi
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Muito já foi dito – e muito ainda precisará ser – sobre a fatídica Superliga da Europa. O objetivo da patota está escancarado, e as causas que levaram a turminha a buscar esta solução específica (em vez de outras mais preocupadas com o futebol) são variadas e tem a ver não só com o contexto, mas com a cabeça dos caras que hoje comandam os clubes mais poderosos do planeta. Onde tudo isso vai dar? Impossível prever. Mas pelo menos uma (ou até duas) coisas de bom a gente tira dessa história toda até aqui. Análise no vídeo abaixo.






 
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Renato Gaúcho, Abel Ferreira e o uso desonesto dos resultados

Gian Oddi
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A noite de quarta-feira, marcada pelas derrotas de Grêmio e Palmeiras na Libertadores e Recopa, respectivamente, não foi ruim para o futebol brasileiro somente pelos resultados. Ela serviu também para escancarar, sobretudo na relação com os treinadores, o nocivo resultadismo que parece a cada dia mais impregnar enorme parte das ações dos que trabalham nas mais diversas áreas dentro da enguiçada engrenagem do futebol no país.

O caso de Renato Gaúcho é mais relevante porque põe em xeque a própria permanência do treinador no comando do Grêmio. Não que não haja motivos para isso: discutir se Renato merece ou não estar no cargo que ocupa já faz sentido há algum tempo por muitas de suas escolhas, posturas e decisões nos últimos dois dos quase cinco anos em que ele treina o clube gaúcho.

Só que essa discussão foi feita há pouquíssimo tempo pelo Grêmio, e a conclusão da diretoria, como se viu no anúncio de renovação há pouco mais de um mês, foi pela permanência de Renato. Imagina-se que tenha sido uma decisão bem debatida e pensada. Resolver trocá-lo agora, como indicou poder fazer o vice-presidente do clube após a queda na Libertadores, seria ceder a pressões com base em uma coisa apenas, a eliminação de ontem.

Renato Gaúcho comanda o Grêmio na Libertadores
Renato Gaúcho comanda o Grêmio na Libertadores LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

Porque se há motivos para substituir Renato eles certamente não apareceram e tampouco se destacaram nos confrontos contra o ótimo time do Independiente del Valle – nos quais, diga-se, primeiro o Grêmio foi bastante prejudicado pela arbitragem e depois teve uma boa atuação, como há muito tempo não mostrava, pelo menos enquanto as equipes estavam em igualdade de atletas em campo.

Já o caso da Abel Ferreira não envolve dirigentes e, claro, qualquer ameaça ao seu bom trabalho. Mas impressiona como duas atuações tão distintas do Palmeiras, uma digna de elogios na Supercopa e outra passível de críticas na Recopa, são de repente colocadas por parte da imprensa num mesmo balaio, o das “derrotas em finais”, para justificar teses e certezas que surgem e se sustentam baseadas somente em preferências pessoais e estratégias de repercussão. Ou alguém duvida que, com uma só vitória nos pênaltis, o  que em nada teria alterado o nível de futebol nos 210 minutos jogados, o grau de inconformismo, cobrança e críticas mudaria completamente?

A velocidade com a qual se muda do elogio à crítica (e vice-versa) na crítica esportiva brasileira é provavelmente caso único no mundo. Sob o pretexto do “elogiei quando tinha que elogiar e critiquei quando tinha que criticar” surge uma conveniente auto permissão para que se mude repentina e completamente o teor e o tom das críticas e avaliações. Sempre de acordo com os resultados, às vezes em questão de horas.

Há nesse comportamento clara submissão a uma espécie de ditadura da contundência, hoje muito desejada não apenas por torcedores como por empregadores (em certos casos os próprios torcedores) ávidos por uma boa manchete. Passar pelo crivo das redes sociais (“não vai passar o pano, hein?”) e dar audiência são coisas que passaram a requerer contundência, mesmo que ela não faça sentido.

E assim seguimos. Olhando os resultados e agindo apenas em torno deles. Seja para renovar um contrato, demitir um técnico, elogiá-lo ou criticá-lo. Pensando pouco, mas com contundência.    


 
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O incrível e (quase) inexplicável pessimismo são-paulino

Gian Oddi
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Só mesmo o trauma por inesperados reveses recentes e o jejum de títulos podem explicar as inúmeras manifestações de desânimo, pessimismo ou até mesmo desespero de parte da torcida e canais são-paulinos após a contundente derrota sofrida pelo São Paulo para o Red Bull Bragantino por 4 a 2, na última quarta-feira (6).

Poucas horas após o revés já surgiram teorias das mais variadas, envolvendo todos os aspectos imagináveis dentro do universo do futebol, para justificar uma derrota (muito feia, é verdade) ocorrida dentro de campo.

É curioso que seja assim. É curioso que comecem a surgir teorias do caos quando a principal (ainda que não a única) justificativa para a péssima atuação naquela partida estava, provavelmente, dentro de campo, no anúncio dos 11 titulares.

Quem sempre afirmou que um eventual surto de COVID-19 que tirasse quatro ou cinco titulares do time seria crucial para as pretensões de título do São Paulo não pode agora, de uma hora pra outra, negar que a perda de quatro titulares, ainda que por outros motivos, foi a principal razão para a queda de rendimento.

Todo o pessimismo não faz sentido.

Brenner durante jogo do São Paulo. O torcedor tricolor está muito pessimista?
Brenner durante jogo do São Paulo. O torcedor tricolor está muito pessimista? Getty Images

Primeiro, porque, como não se trata de COVID-19, nada indica que os desfalques tão determinantes na derrota de quarta-feira ficarão fora do time por muito tempo.

Segundo, porque, em um campeonato tão equilibrado como o atual, os 6 pontos de vantagem para o vice-líder (que podem ser 4 caso Flamengo e/ou Atlético vençam seus jogos atrasados, cada clube tem um) são bem relevantes a 10 rodadas do final.

Terceiro, porque, olhando apenas para o futebol jogado no Brasileiro, o São Paulo até aqui de fato mostrou mais que seus rivais na competição, incluindo aqueles com um elenco mais encorpado que o de Fernando Diniz.

Quarto, e não pouco relevante, porque, dos 4 confrontos diretos que ainda tem a fazer contra candidatos ao título, o São Paulo joga três em casa (Inter, Palmeiras e Flamengo) e apenas um fora (Grêmio).

Se o São Paulo deixar escapar um título que muito provavelmente, nas mesmas condições, seus rivais mais fortes não perderiam, outra explicação poderá ser acrescentada às extensas listas de razões que surgiram após a goleada para o Red Bull Bragantino: hoje, nenhum outro clube brasileiro é capaz de saltar tanto da euforia à depressão em apenas 90 minutos.


 
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O melhor elenco de todos os tempos da última semana

Gian Oddi
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O Flamengo tem o melhor elenco do futebol brasileiro. A frase é óbvia, batida, e até meados do segundo semestre de 2020 não sofria qualquer tipo de contestação. Já não é mais assim. Como costuma ocorrer no Brasil toda vez que um grupo de alta qualidade não rende o que dele se esperava, essa qualidade passa a ser questionada.

Até outubro, antes da chegada do português Abel Ferreira, o mesmo ocorria com o Palmeiras. Vanderlei Luxemburgo falava em “cobertor curto”, questionava a qualidade do elenco para poder “jogar bonito” e cobrava, com a cumplicidade de boa parte de imprensa e torcida, a necessidade de contratar um meia, mesmo com um elenco cheio deles.

Pouco mais de dois meses depois, o tal elenco carente, mesmo passando por um surto de COVID e outros problemas que chegaram a lhe tirar 21 jogadores simultaneamente, está na final da Copa do Brasil, bem perto da decisão da Libertadores e, por pontos perdidos, a apenas dois pontos dos vice-líderes do Brasileirão.

Em 2017, Rodriguinho, Jadson, Marquinhos Gabriel, Clayson, Camacho, Maycon, e Pedro Henrique, entre outros, não faziam nem de longe parte do melhor elenco do Brasil. Mas fizeram parte do elenco campeão brasileiro pelo Corinthians. A obviedade da diferença entre essas duas coisas poucas vezes foi tão explícita, mas aquilo não serviu como alerta para que muitos passassem a dissociar resultados de qualidade do elenco.

Como se viu em 2018: antes do início da temporada, comparações entre os elencos de Flamengo e Palmeiras eram comuns nas análises de TV, blogs, sites, rádios e jornais. A disputa era parelha, não havia consenso algum, diferentemente do que ocorrera no fim do ano, quando o título palmeirense com oito pontos de folga sobre o vice-campeão Flamengo transformou o elenco alviverde quase que unanimemente no “melhor do Brasil”. 

Não faz sentido.

Jogadores do Flamengo comemoram gol sobre o Fluminense, pelo Brasileirão
Jogadores do Flamengo comemoram gol sobre o Fluminense, pelo Brasileirão Alexandre Vidal/Flamengo

O julgamento e avaliação da qualidade de um elenco baseado em resultados ou numa tabela de classificação tornaria absolutamente desnecessária qualquer análise. Resultados e classificações dizem respeito a desempenho; avaliações de elencos tratam, ou deveriam tratar, de potencial. E num país que não costuma se destacar pela qualidade de seus técnicos, o potencial máximo de um elenco raramente é alcançado.

Assim, o preço a ser pago por avaliações equivocadas de bons elencos acaba saindo caro, porque jogadores pressionados, mal avaliados e incluídos em listinhas de torcidas organizadas tendem a ser negociados e, se negociados num momento de subvalorização, tendem a sair por menos do que valem, muitas vezes antes mesmo de dar o retorno esportivo que mostrarão já com a camisa de seu próximo time.

Um elenco subvalorizado é acima de tudo sinal de elenco subaproveitado. E seu prejuízo esportivo costuma ser tão grande quanto o financeiro.

 
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Prêmio da Fifa: quando a diplomacia é um problema

Gian Oddi
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Klopp: vencedor do prêmio de melhor técnico da temporada segundo a Fifa
Klopp: vencedor do prêmio de melhor técnico da temporada segundo a Fifa ESPN


Toda vez que a premiação da Fifa não reflete bem aquilo que ocorreu dentro de campo numa temporada, a gente tende a atribuir o discutível resultado da eleição aos votos vindos de países cuja tradição futebolística é equivalente à importância que o Brasil tem, por exemplo, em Lacrosse.

Geralmente existem votos que corroboram a teoria. Neste ano, o capitão das Ilhas Virgens, Kavon Caesar, talvez vestindo sua camisa do Liverpool, votou em Van Dijk, Mané e Salah como os três melhor do mundo, enquanto o mais aleatório Akram Alhadi, capitão do Sudão, elegeu Mané, Thiago Alcântara e Cristiano Ronaldo.

Dando uma olhada com mais calma na lista de votos, porém, não é difícil constatar que esse não é o problema. Ou, pelo menos, não é o único se esperamos um resultado técnico da eleição.

Basta notar, por exemplo, que os treinadores de Itália, Argentina, Espanha e França, quatro das seleções mais relevantes do futebol mundial, não colocaram o polonês Lewandovski, vencedor do prêmio numa temporada irrepreensível, nem mesmo entre os três melhores do ano. Tivessem partido de Papua-Nova Guiné ou do Butão, seus votos seriam ironizados pela origem geográfica.  

Se do ponto de vista técnico é complicado explicar os votos dos treinadores dessas importantes seleções – pelo menos levando em conta os critérios do prêmio –, também não é possível afirmar que suas escolhas foram as que foram porque eles não conhecem ou não acompanham suficientemente futebol.

O principal problema do prêmio da Fifa talvez seja o fato de que três quartos de seu colégio eleitoral, por motivos que me parecem até justos, não têm necessariamente como maior preocupação votar para atingir aquele que é, em teoria, o objetivo do prêmio: escolher os melhores do ano.

Sejamos sinceros. Se você fosse técnico da seleção portuguesa você deixaria de colocar Cristiano Ronaldo em primeiro na sua lista? Se comandasse o Brasil, Neymar não seria o número um? Como técnico do Senegal, aposto que Mané seria seu preferido. E se treinasse a Bélgica escolheria De Bruyne, certo? Como técnico da França, seu voto não seria Mbappè?

A resposta a essas perguntas parece tão óbvia que todos os técnicos das seleções acima votaram nos seus principais jogadores para melhor do mundo. Uma escolha lógica a partir do momento em que o trabalho de um técnico de seleção é, antes de tudo, pensar na sua seleção. E se um voto diferente dos citados acima poderia melindrar uma figura importante de seus times e prejudicar o trabalho em campo, por que votar diferente?

Técnicos de seleções não têm compromisso com uma escolha técnica na hora de votar numa premiação sabendo que suas escolhas serão divulgadas para seus comandados. Eles têm preocupações mais importantes do ponto de vista profissional.

O mesmo vale, ainda que por outros motivos, com os capitães das seleções. Ou será por acaso que Messi, assim como Thiago Silva, votou no amigo Neymar em primeiro? Chiellini votou em Cristiano Ronaldo, o craque do seu time; Hazard e Modric colocaram Sergio Ramos, capitão de ambos no Real Madrid, entre os três. A lista de exemplos é enorme.

Os votos de técnicos e jogadores de futebol, venham eles de onde for, são compreensivelmente baseados em relações profissionais ou pessoais. Ninguém pode culpá-los por isso, mas seus votos são, em boa parte, pura diplomacia. E mesmo quando o critério não é diplomático, se a escolha recair sobre simpatia, antipatia ou qualquer outra razão menos técnica, ninguém o condenará. É o padrão.    

Considerando que os votos de técnicos e jogadores formam metade do peso no colégio eleitoral no prêmio da Fifa e ainda se somam a um quarto do peso vindo de votos de torcedores, pela internet, temos três quartos das escolhas partindo de gente que não necessariamente usa o critério técnico (embora possa até fazê-lo) para elaborar suas listas. É muita coisa.

A escolha estritamente técnica, no fim das contas, acaba predominando apenas entre os jornalistas. Os únicos que têm a obrigação profissional com o voto: afinal, para esses, a divulgação de uma escolha esdrúxula significaria perda de credibilidade e respeito, essenciais na profissão.   

Não à toa, na eleição deste ano, a vantagem de Lewandovski – o prêmio mais indiscutível para quem seguiu de perto a temporada – foi bem maior entre membros de mídia do que entre jogadores, técnicos ou torcedores. Entre os técnicos, o ainda desconhecido Hans-Dieter Flick, após uma temporada que não poderia ser melhor para o Bayern (mas só após sua chegada), venceu a eleição entre jornalistas, mas perdeu entre jogadores e técnicos

Tudo isso não significa que o prêmio da Fifa precise mudar seus critérios, alterando o colégio eleitoral ou mesmo o peso dos votos de cada um. Até porque, é importante ressaltar, com a volta da separação entre o prêmio The Best, da Fifa, e o Bola de Ouro, da France Football, voltamos a ter a divisão entre um prêmio mais midiático e um outro mais técnico, teoria já comprovada por diferentes vencedores em edições passadas das duas premiações.

Só é importante, para a história, que a gente saiba fazer essa distinção e entenda exatamente o valor e o significado de cada prêmio.


 
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A briga que ameaça um time sensação e expõe o quanto é árduo o trabalho de técnicos

Gian Oddi
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Ainda não se sabe com detalhes o que aconteceu. Apenas que houve, no intervalo de um jogo contra o Midtjylland pela Champions League, no mínimo uma ríspida discussão de ordem tática entre o técnico italiano Gian Piero Gasperini e o meia argentino Papu Gómez, justamente os dois maiores protagonistas da modesta mas respeitada Atalanta, time sensação do futebol italiano e europeu nos últimos anos.

"Papu foi nosso jogador mais importante e mais utilizado durante esses cinco anos. Eu busco o melhor para o time e certas situações precisam de adaptação. Neste ano, em alguns jogos era difícil escalá-lo como todocampista, pela condição dele e pela condição do time. Ele continua sendo um grande jogador. Mas é preciso haver confiança e disponibilidade, caso contrário fica difícil”, disse o treinador no domingo (13), após a vitória por 3 a 0 contra a Fiorentina – com Papu no banco.

Antes disso, mesmo com a discussão já pública, o argentino foi titular no decisivo jogo contra o Ajax pela Champions, em Amsterdã. A Atalanta venceu os holandeses por 1 a 0 e avançou de novo às oitavas de final. Para os torcedores, parecia um sopro de esperança de que as coisas poderiam se resolver. O que hoje parece improvável.  

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Palo Autuori pelo Athletico-PR
Palo Autuori pelo Athletico-PR Gazeta Press


Pelo que tem indicado não só a imprensa italiana, mas as próprias manifestações dos envolvidos em entrevistas (no caso do técnico) e redes sociais (no caso do jogador), o rompimento definitivo parece iminente. Após postar um egocêntrico “No Papu, no Party” que desagradou alguns torcedores, o argentino voltou a se manifestar nessa segunda-feira (14) com a seguinte mensagem em seu Instagram:

“Queridos torcedores da Atalanta, escrevo aqui porque não tenho nenhuma forma para me defender e falar com vocês. Quero apenas dizer que quando eu for embora toda verdade virá à tona. Vocês me conhecem e sabem a pessoa que eu sou. Com carinho, do vosso capitão.”

Suas manifestações têm recebido o apoio nem tão velado do amigo e companheiro de time, outra peça muito importante da Atalanta, o meia-atacante Josep Ilicic. Num cenário hoje provável, Papu pode se despedir já em janeiro, antes dos confrontos contra o Real Madrid pela Champions. O que ficaria ainda pior se, mais improvável, Ilicic seguisse o mesmo caminho. “Fico triste pelo Ilicic, ele foi colocado no meio, mas não tem nada a ver com isso”, disse Gasperini.

É tudo surpreendente. Porque a Atalanta vive, desde a chegada de Gasperini em 2016, um período iluminado. Se nos dois anos anteriores à chegada do técnico o time havia ficado na parte de baixo da tabela e flertado bem de perto com o rebaixamento, nas últimas quatro temporadas sua pior colocação foi um 7º lugar no Italiano – em 2018 e 2020 acabou em 3º. O time ainda fez uma final e uma semifinal de Copa da Itália; no ano passado, só caiu contra o PSG nas quartas da Champions e, neste ano, já está nas oitavas.

Papu Gomez pode deixar a Atalanta em janeiro
Papu Gomez pode deixar a Atalanta em janeiro arquivo ESPN

Tudo isso, importante ressaltar, com um elenco que é apenas o 12º mais caro do futebol italiano. Um elenco cujo valor de 36 milhões de euros em salários desembolsados por temporada é apenas cinco milhões mais caro do que custa Cristiano Ronaldo, sozinho, para a Juventus. Um elenco que nos últimos anos perdeu nomes importantes como Castagne (Leicester), Kessie (Milan), Cristante (Roma) e Gagliardini (Inter), mas que seguiu jogando um futebol encantador, ofensivo, competitivo e  bonito de se ver.

Num cenário assim, pelo menos enquanto as coisas ainda estão dando certo – e estão –, seria de se imaginar que caprichos, assim como objetivos e preferências individuais, fossem deixados de lado ou ao menos relativizados até o momento em que as coisas ruins e as mágoas guardadas vêm à tona, o que no futebol costuma ser o momento das derrotas, das eliminações.

Não se trata de escolher um lado na briga, até porque, por mais que o trabalho de Gasperini seja excepcional, pode ter lhe faltado tato ou estratégia para lidar com a situação. Não sabemos e provavelmente nunca saberemos quem é (e se há) o principal responsável. É possível que durante a execução de um trabalho onde o componente emocional é tão forte, um ato impensado, uma reação impulsiva, dependendo do interlocutor, acabe por deteriorar uma relação importante de forma irreversível.   

Independentemente das responsabilidades, porém, o episódio demonstra como é delicado e multidisciplinar o trabalho de um técnico de futebol. Neste caso específico falamos de um profissional cujas escolhas táticas, a variação de jogo, a potencialização do elenco, a escolha de peças e o encontro de soluções para as vendas e demais problemas que se apresentaram foram irretocáveis. A lista de elogios que se pode fazer a Gasperini é enorme.

Mas pode bastar um pequeno deslize, uma dificuldade na hoje essencial gestão de grupo, para tirar um time do trilho do sucesso. Pode. Ainda não sabemos se é o caso. Porque no futebol, apaixonante também por sua imprevisibilidade, assim como os acertos não garantem vitórias, os problemas graves não significam derrotas.

 
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A briga que ameaça um time sensação e expõe o quanto é árduo o trabalho de técnicos

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Técnicos escancarados e a melhor entrevista do fim de semana

Gian Oddi
Gian Oddi


Entrevistas de técnicos de futebol costumam ser reveladoras. Relevam suas qualidades, fraquezas e intenções como nenhuma outra categoria faz quando precisa falar publicamente. A exposição de um treinador após um jogo disputado escancara para torcedores, mídia e dirigentes o que ele tem de melhor e de pior. 

Porque se um alto executivo ou um político costumam ter toda chance do mundo de se preparar para entrevistas, o técnico de futebol é impelido a falar sobre fatos novos de cabeça quente, ainda sob o efeito da adrenalina liberada em um jogo recém-terminado. Assim, é raro que o componente emocional, seja de irritação, euforia ou qualquer outro, não acabe por determinar o tom e o teor de suas respostas. E de recheá-las com doses incomuns de sinceridade.

Até mesmo Pep Guardiola e Jurgen Klopp, hoje os dois melhores e mais respeitados técnicos do mundo, e certamente (não à toa) dois daqueles cujas entrevistas costumam ser as mais enriquecedoras e interessantes no universo do futebol, cometem seus deslizes nesse contexto de tanta pressão e suscetibilidade.

Basta ver, por exemplo, a entrevista do em geral simpaticíssimo Klopp concedida na semana passada em que ele atribuiu à detentora de direitos de TV da Premier League os problemas de calendário do Liverpool. Questionado pelo repórter se a maior responsabilidade não seria da liga e dos clubes, o alemão até tenta manter a discussão em alto nível, mas acaba se perdendo.

O palmeirense Abel Ferreira, assim como fazia Jorge Jesus, vem encantando no pós-jogo, talvez também porque os resultados de ambos, em proporções e relevâncias bem diferentes, ajudaram. Já Abel Braga, assim como Vanderlei Luxemburgo, expõe aos microfones as mesmas dificuldades vistas em campo nos últimos anos. Fernando Diniz, com sua inegável capacidade conceitual e seu conhecimento, mostrou ciclotimia parecida com a das avaliações de seu trabalho. 



         
     


Renato Gaúcho talvez seja um capítulo à parte, ainda que suas entrevistas sejam, também, muito reveladoras. O brasileiro, nas vitórias ou derrotas, nas crises e nos triunfos, costuma variar pouco seu discurso. A retórica do sou-o-bom-e-meu-time-é-o-melhor raramente sai de cena quando Renato fala.

Ele parece ter, entretanto, a intenção e a consciência de colocar seu personagem antes de tudo. Qualidades como técnico à parte, o gremista traz dos tempos de jogador uma (justificada) imagem de bon-vivant da qual não tem a mínima intenção de se livrar – muitas vezes usando isso em prol do seu elenco e outras vezes por autopromoção. De todo modo, ser o bom, ou o melhor, faz parte do seu vocabulário desde os anos 80.

Ainda que sua carreira como treinador de alto patamar só tenha sido reconhecida e consolidada no Grêmio, um ambiente para ele tão peculiar quanto generoso, é difícil negar que Renato Gaúcho soube fazer uso de sua imagem como jogador para se consolidar como treinador.

Missão mais difícil tem pela frente o técnico autor da melhor entrevista pós-jogo do final de semana pelo planeta. Porque se o aproveitamento da imagem de jogador para impulsionar uma carreira como técnico parece fazer sentido, bem mais complicado é ter de apagar uma imagem (vitoriosa) de atleta visando criar uma outra, diferente, como treinador.

Disse o ex-volante Genaro Gattuso, hoje técnico do Napoli, após a vitória por 4 a 0 sobre o Crotone pelo Campeonato Italiano:

Jogadores como eu? Não quero jogadores que se pareçam comigo. Quero jogadores técnicos. [...] Jogadores que se parecem comigo eu não escalo, pois busco um futebol diferente como treinador. Um futebol de toque de bola em busca da superioridade numérica. Eu não era capaz de fazer aquilo que peço aos meus jogadores. Provavelmente, eu seria reserva aqui. Não renego meu passado, tenho orgulho do que fiz, mas o futebol mudou nos últimos anos”.

No Brasil e na Europa, entrevistas escancaram técnicos de futebol
No Brasil e na Europa, entrevistas escancaram técnicos de futebol montagem ESPN

Não é a primeira vez que Gattuso aborda o tema, mas foi, certamente, sua fala mais incisiva a esse respeito. A fala de quem sabe que o trabalho de um técnico vai muito além das entrevistas, mas de quem sabe, também, o quanto elas são importantes nos tempos atuais.

 
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Terrorismo digital no futebol: temos que reconhecer o estrago que ele faz

Gian Oddi
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"Infelizmente existe uma droga na nossa sociedade que se chama redes sociais. É uma droga!" A frase acima foi parte da resposta do técnico palmeirense Abel Ferreira no último sábado, quando perguntado sobre a rescisão de contrato do Palmeiras com o volante Ramires, em comum acordo. A resposta não deixa dúvida em relação à influência do terrorismo virtual na decisão tomada pelo jogador. E ainda que o caso de Ramires tenha chegado a um desfecho inusitado, com o extremo do rompimento de contrato, episódios do gênero vão se tornando cada vez mais comuns no futebol brasileiro.

Nos últimos anos, são incontáveis os casos de jogadores e técnicos de futebol, dirigentes de clubes, jornalistas esportivos e até patrocinadores influenciados por redes sociais na execução de seus trabalhos dentro do esporte. Uma busca rápida no Google aliando o termo “redes sociais” à palavra “futebol” trará como resultado manchetes do tipo:

“São Paulo anula negócio com jogador corintiano que usou ‘bambis’ nas redes. Veron sofre críticas e se afasta das redes sociais. Thiago Neves e Atlético-MG: quando o cancelamento das redes sociais chega ao futebol. Pressão em redes sociais derrubou Rosenberg no Corinthians. Daniel Alves rebate críticas em redes sociais com ironia. Torrent não curte críticas da torcida do Fla e desativa comentários no Instagram. Elenco do Palmeiras se irrita com pressão nas redes sociais. Patrocinador cede a pressão de corintianos, mas impõe condição para mudar logotipo.”

São só alguns exemplos entre centenas que poderiam ser colhidos numa busca mais aprofundada. Nem todos os casos são reflexo de violência virtual, mas a imensa maioria é.

É fácil notar que não há distinção de fama, dinheiro ou qualidade quando tratamos da abordagem aos jogadores: os casos envolvem figuras como o desconhecido Getterson, protagonista da primeira das manchetes citada, até multicampeões consagrados como Ramires e Daniel Alves. Há, dessa forma, quem tem tamanho e poder para reagir, assim como há aqueles que não têm nada a fazer além de assimilar o golpe.

Daniel Alves: alvo de críticas e agressões em redes sociais, ele respondeu
Daniel Alves: alvo de críticas e agressões em redes sociais, ele respondeu Thiago Rodrigues/Gazeta Press

Quando falamos de dirigentes, cujas decisões deveriam obedecer a critérios técnicos e convicções formadas por conhecimento e análises embasadas, não faltam os que sucumbem às pressões digitais para demitir e contratar profissionais de um clube. Alguns chegam até mesmo a vazar intenções para medir a popularidade e aceitação daquela que pode vir ser uma contratação.

Mas há uma categoria ainda mais deplorável de dirigente: aquele que, se criticado, num misto de insegurança, mau-caratismo e incompetência, costuma recorrer às redes sociais no intuito de mobilizar milícias digitais contra jornalistas ou críticos públicos de forma geral.

Já na relação com a imprensa esportiva, o tipo de manifestação que se vê por parte dos torcedores digitais se assemelha muito ao que notamos no jornalismo político: muito fígado, acionado por preferência clubística ou partidária, e pouco cérebro. E no futebol ainda é preciso considerar um agravante na abordagem às mulheres, vítimas de misoginia e machismo no mais alto nível imaginável.

Assim como ocorre com técnicos e jogadores, cada jornalista reage à sua maneira. Há quem, compreensivelmente, prefere abrir mão de ferramentas que lhe seriam úteis em prol da saúde. Há quem busque ignorar, o que nem sempre é possível. E há também quem se alimente da violência das redes para se pautar e produzir. Todos, porém, acabam de alguma forma impactados por essa dinâmica intensa que envolve os mais diversos atores do nosso futebol.

Uma dinâmica geralmente pautada por ignorância e agressividade, mas que em determinados casos serve também para alertar o meio ainda retrógrado e ultrapassado do futebol brasileiro sobre o mundo no qual ele está inserido em 2020: um mundo em que, por exemplo, não é permitido a um clube de futebol contratar um jogador condenado por estupro para ser seu novo ídolo.

O fato é que, para o bem e para o mal, geralmente para o mal, os torcedores digitais estão aí e sua influência não pode mais ser ignorada, sobretudo no que diz respeito aos terroristas virtuais e suas milícias.

Não interessa quantos eles são, se são minoria, se representam ou não o cara na arquibancada, aquele que paga ingresso, que sai de casa, que gasta e se desgasta pelo futebol. Não interessa se o miliciano digital dedica só alguns segundos da sua vida sem propósito para agredir pessoas, entre o efêmero prazer visitando um site pornô e o compartilhamento de uma notícia falsa no Whatsapp. São eles, no futebol, os verdadeiros influenciadores digitais.

E não é por causa da pandemia. A ausência de público nos estádios certamente colaborou para aumentar a relevância dos milicianos digitais, mas eles não surgiram com o vírus. Eles são um outro tipo de vírus. Ou de droga, como diz Abel Ferreira.  

Por muito tempo, sob o pretexto do número irrelevante, da pouca representatividade, da falta de “valor científico”, minimizou-se a importância das manifestações por redes sociais no universo real do futebol: “Não dá para levar em consideração torcedor de Twitter, um covarde que fica escondido atrás de uma tela” era o lema de muitos.

Só que o raciocínio não faz mais sentido diante da influência que os terroristas virtuais passaram a ter. O primeiro passo para minimizar sua influência é justamente reconhecê-la.

 
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Fonte: Gian Oddi

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A dor e a delícia do Neymarcentrismo

Gian Oddi
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Neymar chora no banco de reservas após a derrota do PSG na final da Champions
Neymar chora no banco de reservas após a derrota do PSG na final da Champions Getty

A atuação de Neymar não foi nem de longe o fator determinante para o resultado da final da última Champions League e, portanto, considerando que seu time foi derrotado, essa não é uma afirmação negativa para o atacante brasileiro. Se ele não foi capaz de fazer com que seu time vencesse, tampouco foi o responsável pela derrota.

Havia do outro lado um time melhor que o PSG, jogadores também muito bons, um técnico de trabalho notável na temporada e uma camisa com peso e tradição bem maiores que o do novo-rico time parisiense. Além disso, no esporte, para que alguém vença um outro terá que perder.

O problema é que, por aqui, Neymar torna-se a notícia principal mesmo quando ele não é notícia. É o cara que faz nota de rodapé virar manchete. Cobrir e analisar jogos importantes sob o prisma de um único jogador não é uma prática exclusivamente brasileira, claro. Ou será que a abordagem da final em território polonês não terá sido majoritariamente em torno de Lewandowski?

Nessa final, porém, o Neymarcentrismo extrapolou limites por aqui. Não só porque a ligação do Brasil com o futebol ao menos supostamente deveria gerar mais interesse por um grande jogo fossem quais fossem os personagens, mas principalmente porque, ainda que uma abordagem patriótica seja compreensível, além de Neymar havia outros quatro brasileiros em campo, dois ou três deles com histórias e motivos para roubar algumas das tantas manchetes dedicadas ao atacante após a final. 

A desolação de Neymar, vice-campeão da Champions League

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A ânsia de ver Neymar ser eleito o “melhor do mundo”, aliada a uma tendência brasileira para buscar heróis e vilões que justifiquem nossos triunfos e quedas, tem parcela importante nessa abordagem. Mas ela se deve, também, ao fato de que ao próprio Neymar desfruta, lucra e alimenta-se como poucos jogadores de sua figura midiática.

Quando, no mesmo dia de um jogo decisivo da Champions, Neymar fica atento e reage a um movimento de internet ostentando seu moicano, quando interpreta como um ator o papel que crê lhe caber ao sair do ônibus antes da final, cada vez que tikitoka nesse contexto para saciar a fome da legião de moicanos das redes ele desperta amor e ódio, faz tilintar sua inquieta caixa registradora e chama para si o protagonismo pelos resultados, bons ou ruins, para o bem e para o mal.

Manchetes à parte, porém, sua demonstração de talento e seu bom futebol têm tido variação pequena e se mantêm em altíssimo nível ano após ano. E está claro que, neste 2020, sua mudança mais relevante se deu no aspecto comportamental. Afinal, por mais que possamos até duvidar de uma transformação em seu âmago, é indiscutível que seus atos mudaram e que ele tem no mínimo se controlado para não prejudicar seu time e a si próprio.

O que não muda, e provavelmente não mudará nem mesmo quando Neymar se aposentar, será sua enorme porção midiática, sua capacidade de gerar reações que variam do ódio irracional à paixão cega, reflexos de seu carisma, de sua alienação e de tantas outras qualidades e defeitos que compõem uma fórmula potente, transformando-o, no Brasil, em protagonista de tudo que envolver seu nome.

Sendo assim, se cada um sabe mesmo a dor e a delícia de ser o que é, Neymar não deve se incomodar ao ver, ainda que injustamente, a derrota ser atribuída à sua atuação. Porque o mesmo aconteceria em caso de vitória.

 
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O abuso do VAR e a pergunta que só atrapalha: “E se fosse o Fagner?”

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Sem participar de lance polêmico, Fagner entrou em assuntos mais comentados
Sem participar de lance polêmico, Fagner entrou em assuntos mais comentados DJALMA VASSÃO/Gazeta Press

Que a arbitragem brasileira não está entre as melhores do mundo do ponto de vista técnico e de preparação é um fato, e não é de hoje. Que temos (compreensível) tendência a acreditar em erros motivados por desonestidade e em teorias conspiratórias, também.

Junte as duas coisas e teremos, então, uma convicção na cabeça de muito torcedor brasileiro: o trio de arbitragem invariavelmente entra em campo para prejudicar seu time, ao mesmo tempo que num outro gramado, a quilômetros dali, outro trio está tratando de dar uma forcinha ao seu rival.

A chegada do VAR, ao invés de desmantelar as desconfianças, parece estar tendo o efeito inverso por aqui: o que antes era impressão de decisões parciais transformou-se, para muitos, em certeza. A lógica passou a ser:  quando o árbitro não faz o “serviço” em campo, haverá alguém pronto a assumir a bucha atrás de um monitor.

E é assim que decisões subjetivas, inevitáveis e tão comuns no futebol, passam a ser tratadas por muita gente como lances para os quais não haveria a menor margem de dúvida. O que só faz crescer a convicção sobre as teorias de benefício e prejuízo premeditados.

Foi assim com a expulsão de Juninho, do Mirassol, na semifinal do Campeonato Paulista contra o Corinthians: certezas sobre a correção e o equívoco da expulsão brotaram pela internet com a mesma velocidade e intensidade que surgiram as perguntas: “E se fosse o Fagner?”.

É evidente que uma pergunta assim não ajuda a discussão sobre os procedimentos de arbitragem no Brasil. Porque como só discutimos o tema sob a luz dos (supostos) erros cometidos nos jogos, a discussão nasce sempre contaminada por preferências ou convicções em relação a clubes ou jogadores. E se um debate surge assim, ele surge natimorto.

Caberia à CBF, às vésperas do início do Brasileirão e ainda sem nenhum erro cometido na competição, tomar uma decisão clara em relação ao uso do VAR e, tão importante quanto, comunicá-la com clareza e insistência: “não abusaremos do VAR, ele será utilizado com moderação e nos lances subjetivos será sempre mantida a decisão de campo – resumindo: não espere que o árbitro de vídeo corrija os lances de acordo com o que VOCÊ acha”.

Aliás, bastaria para isso seguir duas máximas que constam inclusive em manuais de orientação/regras para utilização da ferramenta: usar o VAR apenas para corrigir ERROS CLAROS E ÓBVIOS e conseguir, assim, o máximo de benefício valendo-se da MÍNIMA INTERFERÊNCIA.

É evidente que haveria, sobretudo no início, muita reclamação (quando não há?) por mais uso da ferramenta, e questionamentos sobre “por que o VAR não chamou para o árbitro ter certeza?” surgiriam aos montes. Com o tempo, porém, ficaria claro que o uso do VAR ocorreria apenas para corrigir erros indiscutíveis, aqueles em que ninguém (ou quase) teria coragem de defender decisão diferente.

Os pedidos por “mais VAR” cessariam, as interrupções de jogo seriam bem menos e as discussões sobre certos lances diminuiriam. Junto, quem sabe, com as teorias conspiratórias.


 
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Fonte: Gian Oddi

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O pior do futebol. E de nós

Gian Oddi
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E lá se vão mais de dois meses desde que o Brasil começou, ainda que aos trancos e barrancos, entre reiterados surtos de negacionismo, a suspensão de aulas e atividades de serviços e comércios não essenciais para tentar conter a propagação da Covid-19.

Também já se passaram mais de dois meses desde que foram disputadas as últimas partidas de futebol em campeonatos oficiais pelo país.

Se havia, porém, alguma esperança de que essa interrupção forçada em meio a um período tão triste da nossa história pudesse trazer aos protagonistas do nosso futebol qualquer tipo de reflexão capaz de alterar seus padrões de comportamento, essa esperança já era.

Basta constatar, ao consultar qualquer canal com o noticiário relacionado ao futebol brasileiro nos últimos 70 dias, que, com raras exceções, o período da pandemia só serviu para escancarar nossas inúmeras mazelas:

> escancarou a intenção de certos clubes e o caráter de certos dirigentes cujos interesses econômicos se colocam acima de absolutamente tudo, incluindo vidas humanas;

> escancarou as dívidas daqueles que, por ficarem um único mês sem receitas de torcida ou TV, já não tinham recursos para pagar suas dívidas, salários de funcionários ou até contas mais básicas como luz e água;

> escancarou a velha tática de certos cartolas que, sem um centavo no banco, devendo para Deus e o mundo, apostam em contratações surreais para tentar ocultar (e na prática agravar) a crise;

> escancarou o modus operandi dos que se aproveitam de qualquer brecha, ainda que às custas de mais de 22 mil mortes, para estreitar laços com políticos visando, é claro, benefícios adiante;

> escancarou a alienação e a ignorância da maioria dos jogadores de primeiro nível do futebol brasileiro, que, mesmo com recursos mais que suficientes para deixar essas condições para trás, não mostra a mínima intenção de fazê-lo;

> escancarou a falta de união e posicionamento dos treinadores que, supostamente mais preparados para se posicionar contra o absurdo proposto por alguns dirigentes, preferem silenciar;

> escancarou todos os “torcedores de cartolas” do Brasil que, cegados pelo suposto “amor ao clube”, são incapazes de ver o quanto dirigentes de futebol podem causar danos em seus próprios clubes e torcedores;

> escancarou a dependência e subserviência da CBF em relação às federações estaduais e seus campeonatos, cujos cancelamentos ou pelo menos adaptações para 2021 não são nem sequer cogitados como opção para resolver a questão do calendário;

> escancarou também parte da imprensa esportiva, que, com menos material sobre o qual trabalhar, apela para não-notícias na tentativa de manter uma relevância ou audiência que, nessas condições, é impossível manter.

Mais de dois meses já se foram desde que passamos a ser bombardeados com propagandas de todo tipo de produto, de margarinas a bancos, nos garantindo, através da voz mansa de serenos locutores, que “tudo isso vai passar”.

É só uma meia verdade.

O vírus vai passar. O resto, pelo menos no futebol, seguirá como sempre. 

 
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Fonte: Gian Oddi

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Por que o título do Leicester é o maior feito da história do futebol mundial

Gian Oddi
Gian Oddi

| Leicester campeão: bicicleta, assistência com rolinho e muito mais no Top10 golaços do título |

É preciso admitir: por motivos que podemos discutir outro dia, volta e meia o jornalismo esportivo abusa de termos como "épico", "histórico" ou "incrível" para adjetivar feitos que, se não são corriqueiros, vão só um pouco além do habitual. Um jogo contra um time medíocre da Bolívia ou do Peru logo vira "épico", uma virada num modorrento campeonato estadual torna-se "histórica" ou "heroica", e por aí vai...

Getty
Ranieri abraça Vardy: parceria entre técnico e elenco foi harmoniosa do início ao fim
Ranieri abraça Vardy: os dois nomes que melhor simbolizam o absurdo da conquista

Então, antes de continuar, é bom deixar claro que não acredito estar incorrendo nesse tipo de banalização ao classificar o título inglês conquistado há exatos 4 anos pelo pequeno Leicester. Um time de uma cidade com 340 mil habitantes que, no início do campeonato, com o quarto elenco menos valioso do torneio — à frente apenas dos que vieram da segunda divisão —, era candidatíssimo a cair. Cujo artilheiro, então com 29 anos, aos 23 anos ainda jogava na 7ª divisão. E com um simpático técnico que, mesmo renomado, só aos então 64, vencue seu primeiro campeonato nacional.

Estes são apenas alguns entre os tantos ingredientes que fazem com que as palavras "histórico", "épico" e "heroico" sejam adjetivos até modestos para classificar o que fez o Leicester na temporada 2015-16. Porque a conquista foi — e agora vai parecer exagero — o maior feito da história do futebol mundial.

Justifico a seguir. Porque o título do Leicester, entre as raras histórias similares ocorridas em toda a história, é a única a ter em comum os três pontos abaixo.

1) Foi nos pontos corridos.
Esqueça a discussão sobre a "melhor" fórmula de disputa. Existe uma premissa que nem sequer gera debate: a de que, diante da imprevisibilidade do mata-mata, as chances do mais fraco, do azarão, do time menos técnico e menos rico tornam-se bem maiores do que numa disputa por pontos corridos, onde a regularidade (neste caso durante 38 rodadas) é fator determinante para que se chegue ao troféu. Portanto, se você pensou na Grécia campeã da Euro 2004 ou em qualquer outra bizarrice do gênero para "rivalizar" com a conquista do Leicester, já está explicado o descarte feito nesta comparação.

2) É o triunfo de um favorito ao rebaixamento.
Ok, se a gente fuçar a história dos campeonatos por pontos corridos pelo planeta certamente acharemos muitas conquistas de times que não eram apontados como favoritos ao título. Isso é uma coisa. Outra coisa, bem diferente, será encontrar, entre estes campeões, aqueles que eram apontados como favoritos ao rebaixamento no início da temporada. Times cuja chance de ser campeão fossem iguais as de, como mostravam as apostas no caso do Leicester, alguém provar que Elvis Presley está vivo ou que o monstro do lago Ness existe e está à espera de um turista mais atento para sair em sua próxima selfie.

3) Ocorreu contra gigantes milionários donos de seleções mundiais.
Não sabemos, mas podemos até admitir que num campeonato do Congo, da Armênia, da Finlândia ou do Paquistão (será que por pontos corridos?) um time inicialmente favorito ao rebaixamento tenha conquistado o título. Pode ser. Agora, ainda que isso tenha ocorrido, o nivelamento (por baixo) e a (pouca) qualidade dos adversários terá colaborado para a surpresa. Ou alguém acha que em algumas destas ligas o azarão da vez terá superado os bilhões de chelseas, cities e uniteds e derrotado nomes como rooneys, mourinhos e agueros? A força dos rivais é um dos principais pontos a engrandecer o feito do Leicester.

Mesmo considerando os três quesitos acima, não deixa de ser tentador comparar a conquista do time de Claudio Ranieri com outros campeões épicos (de verdade), certo? Então vamos lá.

Getty
Derby County - campeão inglês em 1972
Derby County - campeão inglês em 1972


Derby County
(Inglaterra, 1972)
Embora tenha subido à primeira divisão em 1969, o surpreendente time de Brian Clough ficou na parte de cima da tabela, especificamente no 9º lugar, na temporada anterior à conquista. Portanto, embora não fosse um "candidato ao título" em 1972, também não era nem de longe favorito a cair — como foi o Leicester nesta temporada.

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Nottingham Forest - campeão inglês em 1978
Nottingham Forest - campeão inglês em 1978


Nottingham Forest
(Inglaterra, 1978)
Outro time de Clough, talvez seja o maior rival ao feito do Leicester. Não pelo posterior bicampeonato europeu (no mata-mata), mas por ter sido o título de um time vindo da segunda divisão e, portanto, também candidato a cair. A diferença: numa época em que a Inglaterra não contava com a grana de bilionários estrangeiros e na qual as ligas nacionais praticamente não tinham jogadores de outros países, o time não combatia contra quatro ou cinco seleções intercontinentais como fez a equipe de Ranieri. 

Hellas Verona/Divulgação
Hellas Verona - campeão italiano em 1985
Hellas Verona - campeão italiano em 1985


Verona (Itália, 1985)

Já neste caso o poderio dos rivais até pode ser comparado: naquele ano, cada time italiano passou a poder contar com dois jogadores estrangeiros e por isso, para chegar à incrível conquista, o modesto Verona superou nada menos que o Napoli de Maradona, a Juventus de Platini, a Roma de Falcão, a Udinese de Zico... O Verona, porém, não era um candidato ao rebaixamento como o Leicester: no ano anterior tinha sido o 6º colocado e, uma temporada antes, chegara a obter uma vaga na Copa da Uefa.

Getty
Blackburn Rovers - campeão inglês em 1995
Blackburn Rovers - campeão inglês em 1995


Blackburn (Inglaterra, 1995)

Como Mauro Cezar Pereira já explicou detalhadamente em seu blog (clique aqui se quiser saber mais a respeito), "os Rovers tiveram forte investimento na época e vinham ensaiando a conquista do título há dois anos". O efeito surpresa, dessa forma, não se compara com o que aconteceu neste ano na Inglaterra. 

Getty
Kaiserslautern - campeão alemão em 1998
Kaiserslautern - campeão alemão em 1998



Kaiserslautern
(Alemanha, 1998)
Assim como o caso do Forest, o time chegara da 2ª divisão, era candidato a cair e foi campeão. Também aqui, porém, o nível dos rivais não pode ser comparado com os times milionários que o Leicester pegou. Além disso, o Kaiserslautern é um time tradicional e que já havia conquistado o título nacional três vezes antes de 1998.


Convencido? Chegue-se ou não à conclusão de que o feito do Leicester naquela temporada foi o mais incrível e inesperado da história do futebol mundial, uma coisa é certeza: os termos "histórico, épico e heroico", neste caso, podem ser usados sem moderação.

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Como um zagueiro com apenas três jogos virou o grande exemplo do futebol nesta terrível temporada

Gian Oddi
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Giorgio Chiellini, 35 anos: capitão da Juventus e da seleção italiana
Giorgio Chiellini, 35 anos: capitão da Juventus e da seleção italiana divulgação

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Há dois dias, questionado sobre as consequências da pandemia do COVID-19 no futebol, o renomado técnico italiano Carlo Ancelotti afirmou em contundente entrevista ao jornal Corriere dello Sport: “Será um futebol mais verdadeiro. Quando tudo isso acabar haverá um redimensionamento geral: técnicos e jogadores ganharão a metade, o preço dos ingressos vai cair, as TVs pagarão menos e talvez seja tudo melhor”.

Para muitos, utopia. Para outros, exagero. Entretanto, passaram apenas algumas horas após a publicação da entrevista de Ancelotti para que chegasse, também da Itália, uma notícia surpreendente: a Juventus de Turim, clube mais poderoso do país e um dos maiores do mundo, conseguira convencer seus jogadores a abrir mão de receber nesta temporada os salários dos meses de março, abril, maio e junho.

Aqui é bom explicar, não significa que a Juventus deixará de arcar com os cerca de 90 milhões que significam a soma desses quatro meses de vencimentos: 62,5% desse total ainda será pago, mas só na próxima temporada – o que ajuda o clube a evitar não apenas um déficit considerável, mas também, se não houver mudança nas regras (algo improvável), problemas com o Fair Play Financeiro da Uefa.

Como a Juventus conseguiu uma façanha do gênero? Como convenceu jogadores a abrirem mão de boa parte dos salários a que tinham direito é uma pergunta que não apenas torcedores, mas certamente muitos dirigentes de diversos clubes pelo mundo devem estar se fazendo neste momento. A resposta tem nome e sobrenome: Giorgio Chiellini.

Chiellini fez mestrado em Administração com uma tese envolvendo a Juventus
Chiellini fez mestrado em Administração com uma tese envolvendo a Juventus Divulgação

O zagueiro e capitão da Juventus e da seleção italiana, hoje com 35 anos de idade, não é uma figura comum no meio do futebol. Além da indiscutível qualidade técnica e liderança (com enorme simpatia), Chiellini formou-se em Economia e Comércio pela Universidade de Turim em 2010, recebendo a nota 109 para um máximo de 110. Não satisfeito, tornou-se mestre em Administração de Empresas, curso concluído em 2017 – desta vez, porém, com a nota máxima possível.   

Foi essa figura com atributos improváveis o responsável pela articulação de redução salarial na Juventus. Devido à confiança e ao prestígio que tem entre os colegas, suas argumentações técnicas e embasadas não soaram falsas ou patronais e foram vistas como explicações lógicas a respeito de uma mudança necessária não só para a Juventus, mas, como disse Ancelotti, para o universo do futebol.

Relata a imprensa italiana que Chiellini falou diretamente com seus companheiros de time, iniciando os contatos com os chamados “senadores”, os mais experientes do elenco, como Buffon, Bonucci, Khedira e, claro, Cristiano Ronaldo – cuja redução de vencimentos para esta temporada ficará em pouco mais de 10 milhões de euros. A partir daí, seguiu explicando para os demais, caso a caso, porque o esforço se fazia necessário.

E foi assim que o respeitado zagueiro com apenas três jogos e um gol no atual Campeonato Italiano, vítima de um rompimento de ligamento em agosto de 2019, tornou-se o grande nome da Juventus (e não só) nesta temporada. Chiellini mostrou que com honestidade, respeito, confiança e bons argumentos técnicos é possível, sim, começar a transformar o futebol mundial a partir da crise do coronavírus.  

Não se trata, evidentemente, de afirmar que a conta tenha que ser paga pelos jogadores. Eles são só uma parte de toda a engrenagem e, claro, uma ínfima parcela recebe salários como os que recebem os jogadores da Juve: para se ter uma ideia, só na Itália, os 90 milhões de euros que o clube poupará na temporada seriam suficientes para quitar o ano todo dos salários de 16 entre os 20 times da Série A.

O exemplo, portanto, não é apenas – e talvez seja menos – para os jogadores de futebol do planeta. “O exemplo da Juventus é um exemplo para todo o sistema do futebol”, afirmou o presidente da Federação Italiana, Gabriele Gravina, ao saber do feito de Giorgio Chiellini.

De fato, o exemplo está aí. Mas seria mais fácil aplicá-lo se tivéssemos mais Chiellinis no tal “sistema do futebol”.

 
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Como um zagueiro com apenas três jogos virou o grande exemplo do futebol nesta terrível temporada

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