Renato Gaúcho, Abel Ferreira e o uso desonesto dos resultados

Gian Oddi
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A noite de quarta-feira, marcada pelas derrotas de Grêmio e Palmeiras na Libertadores e Recopa, respectivamente, não foi ruim para o futebol brasileiro somente pelos resultados. Ela serviu também para escancarar, sobretudo na relação com os treinadores, o nocivo resultadismo que parece a cada dia mais impregnar enorme parte das ações dos que trabalham nas mais diversas áreas dentro da enguiçada engrenagem do futebol no país.

O caso de Renato Gaúcho é mais relevante porque põe em xeque a própria permanência do treinador no comando do Grêmio. Não que não haja motivos para isso: discutir se Renato merece ou não estar no cargo que ocupa já faz sentido há algum tempo por muitas de suas escolhas, posturas e decisões nos últimos dois dos quase cinco anos em que ele treina o clube gaúcho.

Só que essa discussão foi feita há pouquíssimo tempo pelo Grêmio, e a conclusão da diretoria, como se viu no anúncio de renovação há pouco mais de um mês, foi pela permanência de Renato. Imagina-se que tenha sido uma decisão bem debatida e pensada. Resolver trocá-lo agora, como indicou poder fazer o vice-presidente do clube após a queda na Libertadores, seria ceder a pressões com base em uma coisa apenas, a eliminação de ontem.

Renato Gaúcho comanda o Grêmio na Libertadores
Renato Gaúcho comanda o Grêmio na Libertadores LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA

Porque se há motivos para substituir Renato eles certamente não apareceram e tampouco se destacaram nos confrontos contra o ótimo time do Independiente del Valle – nos quais, diga-se, primeiro o Grêmio foi bastante prejudicado pela arbitragem e depois teve uma boa atuação, como há muito tempo não mostrava, pelo menos enquanto as equipes estavam em igualdade de atletas em campo.

Já o caso da Abel Ferreira não envolve dirigentes e, claro, qualquer ameaça ao seu bom trabalho. Mas impressiona como duas atuações tão distintas do Palmeiras, uma digna de elogios na Supercopa e outra passível de críticas na Recopa, são de repente colocadas por parte da imprensa num mesmo balaio, o das “derrotas em finais”, para justificar teses e certezas que surgem e se sustentam baseadas somente em preferências pessoais e estratégias de repercussão. Ou alguém duvida que, com uma só vitória nos pênaltis, o  que em nada teria alterado o nível de futebol nos 210 minutos jogados, o grau de inconformismo, cobrança e críticas mudaria completamente?

A velocidade com a qual se muda do elogio à crítica (e vice-versa) na crítica esportiva brasileira é provavelmente caso único no mundo. Sob o pretexto do “elogiei quando tinha que elogiar e critiquei quando tinha que criticar” surge uma conveniente auto permissão para que se mude repentina e completamente o teor e o tom das críticas e avaliações. Sempre de acordo com os resultados, às vezes em questão de horas.

Há nesse comportamento clara submissão a uma espécie de ditadura da contundência, hoje muito desejada não apenas por torcedores como por empregadores (em certos casos os próprios torcedores) ávidos por uma boa manchete. Passar pelo crivo das redes sociais (“não vai passar o pano, hein?”) e dar audiência são coisas que passaram a requerer contundência, mesmo que ela não faça sentido.

E assim seguimos. Olhando os resultados e agindo apenas em torno deles. Seja para renovar um contrato, demitir um técnico, elogiá-lo ou criticá-lo. Pensando pouco, mas com contundência.    


 
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Euro e Copa América expõem: seleção brasileira é a menos querida em seu país. E isso não tem nada a ver com Tite

Gian Oddi
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Seleção brasileira: por que tanta gente não se interessa por ela?
Seleção brasileira: por que tanta gente não se interessa por ela? Lucas Figueiredo/CBF


Se você for uma exceção, um fã fervoroso da seleção brasileira, você deve até se incomodar com isso, mas precisa admitir: é incrível o quanto ela não consegue mobilizar e sensibilizar os apaixonados por futebol em seu próprio território.

Em tempos de Euro e Copa América simultâneas, o fato fica ainda mais claro porque nos permite comparar as relações de outros países com suas seleções, seja através da cobertura jornalística, seja por aquilo que conseguimos captar de sentimento dos torcedores – mesmo com estádios (quase) vazios.

Exceção feita à Espanha, onde a relação com La Furia é conturbada em certas regiões por razões políticas, nos países futebolisticamente relevantes em que as seleções nacionais são alvos de críticas constantes, essas críticas ocorrem apenas por razões esportivas e não pelo simples desinteresse ou antipatia pela seleção em si.

É o que acontece, por exemplo, na Argentina: há quem discuta a capacidade do técnico Scaloni, quem se irrite com Otamedi na zaga, quem ache que a Albiceleste não vai para frente enquanto não deixar de ser uma panela com os preferidos de Messi. Mas quase não se vê o “não estou interessado” quando o tema é seleção. O desconforto é esportivo, e só.

Neymar dá aula de bobinho, mete toque de letra 'nojento', e Alex Sandro e Richarlison se perdem na qualidade

Na Holanda muitos criticam as escolhas de Frank de Boer. Os alemães, que recuperaram o orgulho por sua equipe desde 2006, vivem um momento de baixa e nem por isso perderam o interesse pela Nationalelf. Na Itália existe empolgação com o trabalho de Mancini pela Azzurra. Os ingleses sempre desconfiam, até ironizam, mas estão bem esperançosos com o English Team. A França desfruta de seu momento de superpotência.

Já a seleção brasileira, exceção feita à Copa do Mundo, parece no melhor dos casos não interessar à maioria daqueles que amam futebol no Brasil. E, no pior, despertar irritação, chegando até mesmo a fazer com que muita gente torça contra uma equipe que já foi vista como principal motivo de orgulho nacional. Por que será?

A resposta certamente não passa pelo trabalho de Tite, que conseguiu formar uma equipe eficiente e sólida, hoje a melhor do continente. Mesmo não sendo brilhante (e afinal, qual seleção do planeta brilha constantemente?), o Brasil entrega o suficiente para não ser criticado. Dessa forma, fica evidente que o desinteresse ou antipatia pela seleção brasileira surge por outras causas, que nenhuma relação tem a ver com o jogo ou com seu treinador.

Reflexo em dia! No treino da seleção brasileira, Weverton opera 'milagre' com a mão esquerda

Parece óbvio: enquanto as seleções continuarem jogando no mesmo período dos times de futebol mais amados do Brasil, enquanto elas seguirem desfalcando as equipes mais fortes do país em jogos importantes, enquanto a ideia for colocar a seleção brasileira para concorrer e rivalizar com aqueles que despertam interesses e paixões maiores que ela, não haverá solução para este problema.

Ganhar uma Copa do Mundo, claro, fará com que tudo seja esquecido por semanas. O amor pela amarelinha será revigorado. Até que o ciclo se reinicie.

O curioso é que o padrão de ação da CBF, mantendo eternamente as rodadas com jogos importantes de competições nacionais nas datas Fifa, não só provoca desinteresse e antipatia pela seleção brasileira e pelo futebol de seleções de forma geral, como deixa o seu próprio campeonato mais pobre, com seus melhores times incompletos, sem suas maiores estrelas.

É estranho, porque no fim das contas a CBF prejudica esportivamente, com uma mesma medida, seus dois principais produtos: a seleção brasileira e o Campeonato Brasileiro. Pode-se supor, portanto, que a prioridade é alguma outra coisa...

 
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Uma interpretação livre, direta (e um pouco mais rude) sobre a carta dos jogadores da seleção brasileira

Gian Oddi
Gian Oddi

A tal carta dos jogadores da seleção brasileira sobre a disputa da Copa América no Brasil você certamente já cansou de ler. Sem delongas, então, publico abaixo minha interpretação sobre o texto – com os trechos originais em itálico.

_________________________________________________

Quando nasce um brasileiro, nasce um torcedor. E para os mais de 200 milhões de torcedores escrevemos essa carta para expor nossa opinião quanto a realização da Copa América.

A gente vai começar essa carta de um jeito poético, mas sabemos que no fim das contas o que precisamos mesmo é falar sobre a tal da Copa América já que faz uma semana que ninguém nos pergunta nada sobre futebol. Se a gente soubesse que ia dar esse rolo todo...


Somos um grupo coeso, porém com ideias distintas. Por diversas razões, sejam elas humanitárias ou de cunho profissional, estamos insatisfeitos com a condução da Copa América pela Conmebol, fosse ela sediada totalmente no Chile ou mesmo no Brasil.

Não adianta vocês viajarem achando que todo mundo aqui pensa igual. Na verdade, até existe entre nós um pessoal preocupado com a pandemia, COVID, a situação do Brasil, esses papos, mas tem outra parte que queria mesmo é tirar férias e não queria jogar nem aqui e nem na China. E só pra deixar claro, a culpa é toda da Conmebol, nada a ver esse papo de CBF e Bolsonaro que vocês ficam falando. Pô, os gringos pediram, vai fazer o que? Dizer não?!


Todos os fatos recentes nos levam a acreditar em um processo inadequado em sua realização.

Agora, numa coisa a gente concorda: que não precisava ter Copa América, isso não precisava.


É importante frisar que em nenhum momento quisemos tornar essa discussão política. Somos conscientes da importância da nossa posição, acompanhamos o que é veiculado pela mídia e estamos presentes nas redes sociais. Nos manifestamos, também, para evitar que mais notícias falsas envolvendo nossos nomes circulem à revelia dos fatos verdadeiros.

É chato pra caramba a gente ser chamado de comunista só porque não concordamos com essa Copa América. Os caras tão chamando o Tite e o Neymar de comunistas. O Tite e o Neymar, pensa! A gente tem Instagram, estamos vendo tudo que vocês estão escrevendo e falando, viu? Não é porque a gente se posicionou sem deixar claro qual era a nossa posição que vocês podiam ficar supondo ou inventando o que a gente pensava.  

Por fim, lembramos que somos trabalhadores, profissionais do futebol. Temos uma missão a cumprir com a histórica camisa verde amarela pentacampeã do mundo. Somos contra a organização da Copa América, mas nunca diremos não à Seleção Brasileira.

Por fim, só pra lembrar, mesmo que a gente ganhe um pouco mais que vocês, nós também somos trabalhadores. E vocês sabem, né? Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

 
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A linda emoção do título do Colón não é acessível para todos nós

Gian Oddi
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Talvez não tenha o sido o mais relevante do futebol nos últimos dias, mas em meio a tanta discussão sobre cartolas, denúncia de assédio e todos os necessários debates extracampo que têm assolado o futebol mundial nos últimos 18 meses, soaram como alento as imagens vindas da Argentina que tomaram conta das redes sociais desde a última sexta-feira à noite.

A conquista da Copa da Liga Argentina pelo Colón, um clube de 116 anos de história que até sexta só tinha em sua galeria de troféus uma taça da segunda divisão vencida em 1965, provocou em seus torcedores, sobretudo os mais velhos, reações que nos lembraram para que serve (ou deveria servir) o futebol e por que ele é, com boa margem, o esporte mais popular do planeta.

Colón vence Racing e é campeão da Copa da Liga Argentina; assista


São muitas as cenas que rodaram o mundo e fizeram boa parte dele chorar por tabela com o título do Colón – um clube sem dúvida modesto, mas não nanico, pertencente à cidade de Santa Fé, uma das 10 mais populosas da Argentina.

O emocionado senhor de 91 anos rodeado por parentes tão emocionadas quanto; um outro senhor que chora copiosamente enquanto desabafa com um palavrão após a espera de uma vida; o comediante famoso que, ao lado do filho pequeno, tenta em vão conter o choro na hora do apito final; o rapaz que resolve “brindar” com o avô já morto, abrindo para isso não apenas a garrafa de vinho que havia comprado há anos, mas também a urna de cinzas do parente querido. (É improvável, mas se você ainda não viu, pode acessar os vídeos por este fio do Twitter)

As imagens, todas elas, não soam falsas como costuma ocorrer (também no futebol) em tempos nos quais o prazer de desfrutar da repercussão em redes sociais parece por vezes maior que a capacidade de apreciar o momento em si. São vídeos verdadeiros, captando sentimentos intensos, que aliás devem soar como puro desequilíbrio para quem não gosta ou não entende o que o futebol pode causar.

Veja festa dos jogadores do Colón após o apito final


Já quem é apaixonado por futebol certamente compreende.

Compreender, contudo, não significa ter a chance de um dia viver emoção equivalente à que viveram alguns dos torcedores do Colón na última sexta-feira. Jejuns de títulos até podem, eventualmente, aproximar torcedores dos grandes clubes de algo parecido, e não faltam exemplos disso no próprio futebol brasileiro. Exemplos de torcedores para os quais um mero título estadual, pelo contexto, pela espera, pelo sofrimento, tem valor bem maior que uma Libertadores.

É justo que seja assim.  

Porque a hierarquia da alegria no futebol não é ou não deveria ser matemática, não se dá por chancelas, graduações, pontos de rankings ou hegemonias. Ela é baseada na emoção. E, nesse quesito, dificilmente alguma coisa será capaz de superar a espera de uma vida toda, ainda que estejamos falando de espera por um mero título da Copa da Liga Argentina. 

Um modesto campeonato que, na última sexta, ficou maior que qualquer final de Champions League.

Torcedores do Colón vibram com conquista da Copa da Liga Argentina
Torcedores do Colón vibram com conquista da Copa da Liga Argentina reprodução

 
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Copa América no Brasil: usar os erros vigentes para justificar um outro é no mínimo burrice

Gian Oddi
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Rogério Cabloco, presidente da CBF, que ao lado de Jair Bolsonaro colocou o Brasil como opção de sede para a Copa América 2021
Rogério Cabloco, presidente da CBF, que ao lado de Jair Bolsonaro colocou o Brasil como opção de sede para a Copa América 2021 Lucas Figueiredo/CBF


A lógica deveria ser simples: se qualquer país do planeta se nega a receber um torneio de futebol por causa da COVID, não será o Brasil, na situação que atravessa – vacinação lenta, rumo ao meio milhão de mortos e novas variantes chegando ao país nas últimas semanas –, que deveria fazê-lo. Para surpresa do mundo inteiro, porém, assim será.

Argumentar que já temos coisas erradas ou campeonatos que não deveriam estar sendo disputados para deixar que a situação torne-se ainda pior do que já está é no mínimo ignorância, burrice. Mas é ela, a ignorância, que tem pautado todas as ações e omissões do Governo Federal desde o início da pandemia. Não seria diferente agora com o futebol, a nossa meca do negacionismo.

Ao agradecer nominalmente ao presidente Jair Bolsonaro e à CBF em seu Twitter, a Conmebol deixa claro que sabe poder contar com aliados firmes em seu propósito, aliados que não se abalam com críticas ou contestações. Diante de interesses ideológicos, políticos e financeiros que se colocam acima dos sanitários, não será a falta de apoio popular a preocupá-los neste caso. Nele, as contestações parecem preocupar tanto quanto as mais de 462 mil mortes. E daí? 

A irrelevância esportiva do torneio, da qual tanto já falamos, é completamente irrelevante diante do absurdo que se configura, no contexto atual, o Brasil SE OFERECER para sediar qualquer nova competição esportiva. Mesmo que se tratasse do torneio mais importante do mundo, fosse a final da Champions League ou a Copa do Mundo, não faria sentido fazer o que se pretende fazer. 

Afinal, não estamos falando de uma competição que, se não ocorrer, interromperá o trabalho ou eliminará o emprego de milhares de profissionais de futebol pelo país, como pode-se até argumentar em relação às diversas divisões do futebol brasileiro. A Copa América é um problema que o Brasil chama para si por motivos hoje menores, ignorando completamente sua situação sanitária, que deveria ser a prioridade.      

Com o STF permitindo aos governos estaduais decidirem suas próprias políticas no combate à pandemia, restaria a esperança de que esses governos, a exemplo do que já ocorreu com os de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, se recusassem a receber os jogos da Copa América. Hipótese improvável se levarmos em conta a primeira manifestação sobre o caso por parte do governo de São Paulo e tudo que temos visto há meses dos governos de Rio de Janeiro e Distrito Federal no que diz respeito ao futebol.

Bem mais provável é que o desfecho de tudo isso seja uma final da Copa América no Maracanã. Com a presença de público, evidentemente.

 
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O que Guardiola ensina aos brasileiros ao beijar medalha de vice da Champions League

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Pode ter acontecido numa mera disputa de crianças ou até mesmo numa irrelevante competição jogada por jornalistas: se você já teve a chance de assistir a campeonatos de futebol amadores, certamente já viu os derrotados numa final arrancarem de seus pescoços as medalhas de prata como se elas fossem compostas por algum material radiativo.

É justo dizer que a sensação do fracasso e o incômodo da derrota recente podem colaborar com a atitude, tão antipática quanto antidesportiva. Mas não é só isso. Porque nada justifica que, diante da derrota, todos reajam da mesma maneira, como se houvesse não só uma uniformidade nos sentimentos, mas nas reações a esses sentimentos. Como se fôssemos todos iguais.  

Chelsea domina, vence o Manchester City e é campeão da Champions League; assista


Já faz um bom tempo, desde a existência da comunicação de massa, que gestos de ídolos como jogadores de futebol tendem a ser copiados. Copiados por atletas mais jovens, candidatos a ídolos. Copiados nos videogames. Copiados por crianças. Por tiktokers. Por jornalistas em campeonatos de brincadeira. Copiados incondicionalmente, sem pensar. São muitas vezes gestos estéticos, poses, nada além.

Por isso chamou a atenção de tanta gente, no último sábado, quando Pep Guardiola, o maior e melhor técnico do planeta, beijou sua medalha de prata logo após perder por 1 a 0 para o Chelsea na final da Champions League. Não foi certamente um gesto ensaiado ou arquitetado, até porque não seria normal o técnico catalão ter ensaiado o que faria em caso de derrota.

Dentro de campo, Guardiola tentou surpreender, com uma escalação inusitada (e estranha), o alemão Tomas Tuchel. Não deu certo. Na premiação, seu surpreendente gesto, conscientemente ou não, passou uma mensagem óbvia e clara, que só poderia partir de quem consegue olhar não apenas para os últimos 90 dos 1.170 minutos de futebol jogados pelo Manchester City na Champions.

É uma mensagem que serve para nos lembrar – e especialmente no Brasil precisamos ser lembrados disso toda hora – que o futebol é um esporte e, como em todo esporte, haverá sempre vencedores e derrotados. Serve para nos lembrar que perder uma final é melhor que não chegar ali. Serve para nos lembrar que uma derrota não nasce sempre de erros e que o mérito do vencedor pode ser maior que o demérito do perdedor. Que um jogo perdido não deve ser sempre motivo de crise.  Serve para nos lembrar, basicamente, o que é o futebol.

Técnico do Manchester City, Pep Guardiola beija a medalha de vice-campeão da Champions League
Técnico do Manchester City, Pep Guardiola beija a medalha de vice-campeão da Champions League Pierre-Philippe Marcou/Getty Images

 
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No maior jogo de sua história, Villarreal busca frear evolução do gigante Manchester United. Tudo sobre a final da Liga Europa

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Quem bate o olho no duelo que decidirá a Europa League nesta quarta-feira, em Gdansk, na Polônia, pode imaginar um confronto desigual. Afinal, se de um lado está o Villarreal, time de uma cidade com menos de 50 mil habitantes, 7º colocado do último Espanhol e ainda em busca do primeiro título de sua história em sua primeira final continental, do outro temos o atual vice-campeão inglês Manchester United, potência mundial que ostenta em sua sala de troféus nada menos que 68 conquistas nacionais e internacionais relevantes, com sete finais continentais na bagagem, das quais cinco vencidas.

As diferenças continuam quando se faz a avaliação dos nomes nos elencos de cada equipe: com um grupo bem mais caro do que aquele que conseguiu sua última conquista – justamente a da Liga Europa, em 2017, ainda com José Mourinho –, o poderoso United tem um elenco que vale hoje, de acordo com o site Transfermarkt, quase o triplo do que valem os jogadores da equipe espanhola.

Trata-se, porém, de futebol. Um esporte no qual cifras, estatísticas e história têm sua relevância, mas estão longe de determinar o que vai acontecer numa final, sobretudo se disputada num jogo único, possivelmente com prorrogação e disputa de pênaltis – porque será este o caminho se as duas equipes repetirem na Polônia aquele foi o placar nas outras quatro vezes que se encontraram em toda história: 0 x 0.

Veja os gols de Cavani



Caminho e técnicos

Para chegar ao tão aguardado jogo único, contudo, os finalistas tiveram que passar por duelos de ida e volta, enfrentando times importantes ou em bom momento no cenário europeu. O United, que entrou no mata-mata da Liga Europa após ser 3º no seu grupo da Champions League, eliminou Real Sociedad, Milan, Granada e Roma com uma campanha de 5 vitórias, 2 empates e só 1 derrota. O Villarreal teve caminho menos complicado, mas fez ainda melhor: chega invicto à decisão e, contando os jogos da fase de grupos, tem 12 vitórias e 2 empates, com os quais eliminou Salzburg, Dynamo Kiev, Dinamo Zagreb e Arsenal no mata-mata.

Arsenal que, vale lembrar, era a equipe anterior do técnico Unai Emery, hoje comandante do Villarreal e considerado uma espécie de Mr. Liga Europa: campeão três vezes com o Sevilla e finalista uma vez com o Arsenal, nenhum técnico no mundo treinou tanto (92 vezes) pela Liga Europa como ele. Sua contratação, aliás, teve a ver com a meta de conquistar a competição, cujo recorde de partidas disputadas (87) e gols marcados (151) é justamente do Villarreal.

Solskjaer e Emery
Solskjaer e Emery Getty Images

No outro banco, engana-se quem imagina um desejo menor de conquistar o título baseando-se na gloriosa história de conquistas do United. A explicação foi dada pelo técnico norueguês Ole Gunnar Solskjaer em sua entrevista pré-final: “Reconstruímos este time ao longo dos últimos anos, e espero que este seja o recomeço de algo ainda maior. Noites assim são noites grandiosas para nós e podem ser o trampolim para um futuro brilhante”.

Para Solskjaer, que assumiu o comando da equipe (à época interinamente) em dezembro de 2018 e desde então teve diversos momentos de contestação do seu trabalho, a conquista do primeiro título como treinador pelo United (enquanto jogador ele chegou a vencer até a Champions) seria algo muito significativo, sobretudo por coroar uma temporada de inegável evolução na disputa da Premier League.

Cavani, de contrato renovado, é uma das muitas estrelas do United na final
Cavani, de contrato renovado, é uma das muitas estrelas do United na final EFE/EPA/Laurence Griffiths
  

Portanto, se para o Villarreal o que está em jogo é o primeiro título da sua história e uma valiosa vaga na próxima Champions League que o faria desprezar a vaga na nova Conference League conquistada através do Campeonato Espanhol, ao United, além da conquista de seu 9º troféu internacional, o jogo vale a consolidação de um trabalho e, por que não dizer, de seu carismático e adorado treinador.   

Veja os preparativos para a final!



Dúvidas e escalações
Com foco total na decisão desta quarta, Solskjaer poupou todos seus titulares e até um ou outro reserva na vitória sobre o Wolverhampton no domingo. Embora alguns ainda discutam quem será o goleiro contra o Villarreal, parece improvável que após a brilhante atuação na segunda semifinal contra a Roma o técnico saque De Gea (que tem jogado a Liga Europa) para promover a entrada de Henderson (o titular na Premier League).

Gerard Moreno, a estrela do Villarreal, em jogo contra o Real Madrid
Gerard Moreno, a estrela do Villarreal, em jogo contra o Real Madrid EFE/Rodrigo Jiménez

A principal e séria dúvida, portanto, é sobre as condições físicas do titularíssimo zagueiro Maguire, que há duas semanas sofreu uma lesão no tornozelo. Ele tem trabalhado para ficar em forma visando a final, mas não participou dos treinos desta terça; se não tiver condições de jogo, Eric Bailly, ex-jogador do Villarreal, será o provável titular ao lado de Lindelof.

Pelo lado do Villarreal, a mesma questão sobre escalação do goleiro titular “da Liga Europa” ou “da liga nacional” é discutida, mas a exemplo do que ocorre com os ingleses deve prevalecer a manutenção de Rulli, o argentino titular nas semifinais contra o Arsenal – e autor de uma defesa essencial, já no final do segundo jogo, para que o clube enfim quebrasse a barreira das semifinais onde costumava parar nas competições continentais.

Se no caso do United a ausência de Maguire é provável, no do Villarreal o meia-atacante Samuel Chukwueze, machucado, é desfalque certo. Jeremy Pino e Moi Gómez são seus possíveis substitutos. Em compensação, o lateral-direito Foyth está de novo à disposição e pode voltar à equipe para auxiliar na difícil missão de parar as estrelas do United como Pogba, Bruno Fernandes, Cavani e Rashford.

Outro nome que volta a ficar disponível, este após cumprir suspensão por ter sido expulso na primeira semifinal contra o Arsenal, é o volante Capoue. Na frente, Bacca e Paco Alcácer brigam para ver quem será o parceiro de Gerard Moreno, o artilheiro, maior estrela do time e um dos melhores espanhóis (não à toa convocado para a Euro) da última Liga Espanhola.

Outro destaque do Villarreal, também este convocado para a Euro, é o jovem zagueiro Pau Torres, que não negou o favoritismo do Manchester United atribuído pelo seu próprio treinador para esta final. Mas que logo na sequência, depois de afirmar ser esta a partida mais importante da sua vida, fez questão de lembrar: “O Arsenal também era o favorito nas semifinais”.     

 

PROVÁVEIS ESCALAÇÕES

Villarreal
Rulli, Foyth (Mario Gaspar), Albiol, Pau Torres e Pedraza; Jeremy Pino (Moi Gómez), Capoue, Dani Parejo e Trigueros; Bacca (Paco Alcácer) e Gerard Moreno. Técnico: Unai Emery

Manchester United
De Gea, Wan-Bissaka, Bailly (Maguire), Lindelof e Luke Shaw; Fred e McTominay (Greenwood); Rashford, Bruno Fernandes e Pogba; Cavani. Técnico: Ole Gunnar Solskjaer

Arbitragem:  Clément Turpin, assistido por Nicolas Danos e Cyril Gringore (todos FRA)
Estádio e público: Energa Gdansk, em Gdansk (Polônia). Cerca de 4 mil torcedores, sendo 2 mil de cada equipe estarão presentes no estádio.   
Horário (de Brasília) e transmissão: Fox Sports, 16h (Abre o Jogo a partir de 15h)



 
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Campeonato Brasileiro de Priorizações

Gian Oddi
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A palavra priorizar passou a fazer parte do vocabulário do futebol brasileiro tanto quanto bola, jogador, trave ou gramado. Afinal, no contexto maluco em que vivem os clubes de futebol no país, priorizar é preciso. Fazer escolhas é uma necessidade, não uma opção. Não existe outra alternativa a não ser menosprezar jogos ou competições.

É normal que cada um faça suas escolhas de acordo com o momento que vive, com as (diferentes) necessidades e pressões que tem, com as possibilidades maiores ou menores que enxerga para ganhar um ou outro campeonato.

Acontece que dentro da cultura de cobranças exageradas que vive qualquer profissional de futebol no Brasil, a partir do momento em que fazer escolhas significa abrir mão ou diminuir consideravelmente as chances de sucesso em alguma frente, a porrada virá junto com os maus resultados nessa mesma frente.

São Paulo e Palmeiras decidiram o Paulistão pela última vez em 1992, com hat-trick de Raí na ida; assista

Até mesmo quando a escolha é óbvia, como era no caso do Palmeiras (campeão sul-americano e da Copa do Brasil) escalando uma mescla de times B e C no Paulista, há sempre uma turma à espreita, pronta para criticar com contundência o primeiro revés.

No caso do São Paulo, que vive um momento bem diferente pelo jejum de títulos que atravessa, as escolhas eram e são mais complexas. Mas é bom lembrar: mesmo quando Crespo fez uma opção óbvia, a de colocar reservas num clássico que pouco valia, houve quem reclamasse com argumentos não muito mais inteligentes do que o “aqui é São Paulo”.

Especificamente na escolha dos jogadores para enfrentar Rentistas, Ferroviária, Mirassol e Racing, a impressão – e esta é apenas uma impressão, minha, anterior aos quatro jogos – era a de que times mistos nas quatro partidas poderiam ter avançado à final do Campeonato Paulista da mesma forma, e ao mesmo tempo somado mais pontos na Libertadores.

Jamais saberemos, porém, se seria mesmo assim. Agindo da forma que a mim parecia mais lógica, o São Paulo poderia também ter caído no Paulista e suas consequências talvez fossem mais pesadas do que estão sendo com a agora muito provável perda do primeiro lugar do seu grupo na Libertadores.

Não dá para tratar dúvidas como certezas e, baseados no que aconteceu, afirmar o que teria acontecido. Mesmo quem discorda da escolha – meu caso –, precisa reconhecer que ela não era tão fácil quanto pode parecer após a derrota para o Racing.

Agora, na final do Paulista, existem só duas opções: título para o São Paulo ou para o Palmeiras. Se der São Paulo, os tropeços na Libertadores serão amenizados e talvez esquecidos. Se der Palmeiras, é provável que as críticas às escolhas da direção e comissão técnica são-paulinas se amplifiquem, mas sem razão.

Afinal, uma eventual derrota na decisão, onde o São Paulo estará com sua força máxima, nada terá a ver com o fato de o time ter poupado na Libertadores – esta sim com resultados prejudicados pelas escolhas feitas.

Se o resultadismo costuma fazer parte do nosso futebol com muita frequência, tentemos deixá-lo de lado pelo menos nas avaliações do Campeonato Brasileiro de Priorizações, essa realidade tão nossa, tão particular. Observar os contextos e as lógicas utilizadas é o mais importante para tentar avaliar as escolhas, que nem sempre são fáceis ou óbvias.

Crespo, técnico do São Paulo, escolheu força máxima nas quartas e semifinais do Paulista
Crespo, técnico do São Paulo, escolheu força máxima nas quartas e semifinais do Paulista Twitter Oficial do São Paulo

 
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Campeonato Brasileiro de Priorizações

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Seleção é momento, mas não só

Gian Oddi
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Não houve grandes surpresas nem novidades na convocação de Tite para os dois primeiros jogos das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022, contra Equador e Paraguai. Lucas Veríssimo chega para ser observado após bom início no Benfica comandado por Jorge Jesus, enquanto Fred e Daniel Alves voltam ao grupo.

Se entre esses a volta de Daniel Alves poderia surpreender por se tratar do chamado de um jogador já com 38 anos atuando no futebol brasileiro, seu histórico monstruoso na seleção brasileira e alto rendimento no São Paulo, aliados ao baixo nível da concorrência, tornam sua convocação normal agora que os jogos são para valer.

Everton Ribeiro e Roberto Firmino, pelos momentos que atravessam, estiveram entre os nomes questionados – sempre haverá, em qualquer seleção – por muita gente.

É fato que o meia do Flamengo não vem jogando bem, a ponto de muitos questionarem sua presença até mesmo entre os titulares de Rogério Ceni. Firmino, gols feitos no clássico contra o Manchester United à parte, também está longe de viver sua melhor temporada. Nessa linha, baseando-se na fase atual, pode-se ainda discutir um ou outro nome da relação de Tite (e ao mesmo tempo uma ou outra ausência).

Tite lembra últimos jogos de Everton Ribeiro pela seleção; veja o que ele disse


“Seleção é momento” é uma frase batida e até certo ponto verdadeira. Seleção, porém, não pode ser apenas momento.

Ao mesmo tempo em que técnicos de seleções são privilegiados por poderem escolher os melhores dentro de uma ampla gama de jogadores, eles também são obrigados a lidar com pressões constantes para que convoquem os jogadores em melhor fase no momento de cada chamado. 

Essa pressão não faz sentido.

Impor a um técnico que convoque sempre os jogadores em melhor fase nos seus clubes significaria fazer mudanças significativas e constantes a cada convocação. Porque jogadores, afinal, são humanos – vivem bons e maus momentos, sobem e descem de produção como quase qualquer um, em qualquer atividade.

Além disso, essa imposição parte de um pressuposto que não pode ser considerado verdadeiro para quem acompanha futebol com um pouco mais de atenção: o pressuposto de que o trabalho do técnico de seleção é apenas chamar os melhores e colocá-los em campo para desempenhar a mesma função que fazem em seus clubes.

Se assim fosse, faria sentido reclamar das convocações dos jogadores em mau momento.

O que levou Lucas Veríssimo à seleção? Veja a resposta da comissão técnica


Foi nessa linha a resposta de Tite quando questionado sobre Everton Ribeiro: “Ele é um jogador criativo. A gente esteve com ele nos últimos três jogos da seleção e ele foi muito bem. A consistência e o desempenho dele dentro da seleção tem nos trazido essa certeza do grande jogador que ele é”.

Um técnico de seleção, ao escolher seus jogadores, precisa levar em conta, sim, a fase de cada atleta. Mas precisa considerar, também, o trabalho já realizado e a viabilidade para criar desenhos táticos, implementar ideias, gerar movimentações automáticas e jogadas ensaiadas com aquelas peças.

Se tudo isso não funcionar, e se os jogadores em má fase nos clubes não renderem também na seleção, restará sempre a alternativa de apelar à mais simplória união daqueles em melhor fase. Para o que, convenhamos, nem é preciso ser um grande treinador.

Everton Ribeiro, do Flamengo, em ação pela seleção brasileira
Everton Ribeiro, do Flamengo, em ação pela seleção brasileira Miguel Schincariol/CBF

 
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Seleção é momento, mas não só

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Uma vitória contra a intolerância: como o Ibra da Roma desafiou a morte para fugir da fome

Gian Oddi
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Ebrima Darboe, em sua estreia como titular da Roma contra o Crotone
Ebrima Darboe, em sua estreia como titular da Roma contra o Crotone Getty

Ebrima Darboe estava pronto para partir. Tinha apenas 14 anos e chorava muito quando abraçou sua mãe, seu irmão mais novo e suas duas irmãs antes de iniciar uma longa e perigosa viagem que o levaria de Bakoteh, um distrito de Serekunda, na Gâmbia, até a Líbia, de onde ele pretendia alcançar a Europa.

Àquela altura seu destino final era incerto, e se alguém lhe dissesse que cerca de cinco anos depois ele estaria vestindo a camisa da Roma contra o Manchester United por uma competição da UEFA, por maiores que fossem seus sonhos, ele mesmo desconfiaria.

Atravessar em veículos lotados e insalubres os mais de 3.600 quilômetros que separam a pequena Gâmbia da Líbia era só a primeira adversidade que aquele garoto, órfão de pai já havia alguns anos, enfrentaria. Darboe, como muitos refugiados pelo planeta, partia com planos vagos, mas um objetivo claro: fugir da fome, ganhar dinheiro e ajudar sua família. Se possível, jogando futebol.

Após duros meses de viagem, quando finalmente conseguiu chegar à Líbia, as coisas não melhoraram. Pelo contrário: exposto à máfia de tráfico de pessoas que ganha dinheiro explorando o sonho de milhares de seres humanos em condições de necessidade, o menino foi submetido a diversos tipos de violência. Fugir ainda era sua prioridade.

Começava então a segunda etapa da viagem: como fazem milhares de refugiados todos os anos – e como morrem muitos deles também todos os anos  –, Darboe conseguiu espaço numa precária embarcação que partia da Líbia em direção à Sicília, na Itália. O risco de cruzar o Mar Mediterrâneo naquelas condições, sem nenhuma garantia de segurança, é enorme e causa centenas de histórias dramáticas e tocantes ano após ano .

Exemplo de embarcação com imigrantes da Tunísia e da Líbia que chegam à costa italiana
Exemplo de embarcação com imigrantes da Tunísia e da Líbia que chegam à costa italiana Getty

“São viagens desumanas e não existe uma só coisa da qual não se tenha medo durante essa travessia, mas certamente a pior sensação é a de poder morrer a qualquer momento”, conta à ESPN Miriam Peruzzi, hoje agente (e como veremos à frente quase parente) do atleta. Ela seria, algum tempo após a chegada do garoto à Sicília, uma das principais responsáveis pelo conto de fadas que Ebrima Darboe tem vivido nas últimas semanas.

Ao desembarcar na Itália, o garoto de boa estatura (ele tem hoje 1,80m) era só pele e osso: pesava apenas 50 quilos, 20 a menos de seu peso atual. Como menor de idade desacompanhado, acabou sendo acolhido pelo SPRAR, um sistema criado pelo governo italiano para dar proteção a refugiados que chegam ao país em busca de asilo.

A instituição, então, encontrou para ele uma provisória casa de família na cidade de Rieti, região do Lácio. Foi ali que Darboe reencontrou-se com a bola, um outro amor que havia deixado em sua terra natal junto à mãe e irmãos. “Havia um campinho bem em frente de casa, atrás de uma mesquita. A minha primeira bola era feita de pano, eu não a largava e chorava se minha mãe a tirasse de mim”, contou o jogador em uma das (ainda) poucas entrevistas concedidas como jogador da Roma.

Em sua nova cidade, Darboe – cujo curioso apelido é “Ibra”, o mesmo do veterano craque sueco do Milan – passou a jogar na escola de futebol Young Rieti, que o ajudou também no processo de se inserir na comunidade local, fazendo com que o garoto passasse a frequentar a escola, onde ele aprendeu a falar bem italiano. 


Persistência e descoberta

Foi aí que Miriam Peruzzi entrou em sua vida. Trabalhando como caça-talentos para clubes importantes da Europa, ela estava em Rieti para assistir a jogos da Scopigno Cup, um importante torneio com jovens de grandes clubes. Através de um amigo, Darboe ficou sabendo de sua presença na cidade e não teve vergonha ao surgir do nada no estádio em que ela estava para pedir que fosse ver seu jogo de amadores, onde poderia mostrar seu talento.

Miriam ouviu o pedido, mas não atendeu. Seu objetivo ali era outro. No dia seguinte, insistente, Darboe reapareceu e mais uma vez fez o apelo para que ela o visse jogar. A agente relembra: “Foi então que eu pensei nas dificuldades que tive para ser aceita num mundo machista como o futebol. E se eu consegui é porque tive quem me ajudasse, então pensei que deveria também tentar ajudar ao Ibra”.

Sorte dele. Bem impressionada com a qualidade do garoto, ainda que num jogo de amadores longe das condições ideais para se fazer tal avaliação, Miriam Peruzzi sugeriu à Roma que fizesse um teste com o garoto. Assim como ela, a Roma não se arrependeu: “Depois de apenas 20 minutos, [Massimo] Tarantino, na época o responsável pela base da Roma, me perguntou se eu gostava do clube. Foi maravilhoso!”, contou Darboe.

Era agosto de 2017, e com 16 anos completados havia dois meses, Ebrima Darboe já poderia se considerar um jogador da Roma. A partir daquele momento, com auxílio da Fifa, o clube começou a tocar as complexas questões burocráticas em relação ao asilo do garoto, além de providenciar também a obrigatória educação para jovens atletas em situações do gênero.

Nas suas redes sociais, Darboe exalta De Rossi e Zaniolo, à sua frente na imagem
Nas suas redes sociais, Darboe exalta De Rossi e Zaniolo, à sua frente na imagem Instagram Ebrima Darboe

Nas categorias de base da Roma, um novato e ainda tímido Darboe foi bem recebido pelo técnico Alberto De Rossi, ex-jogador do clube e pai de um outro volante, pelo menos por enquanto bem mais famoso que o gambiano: o campeão do mundo Daniele De Rossi.

Dois anos se passaram e tão logo completou 18, Darboe pôde, já maior de idade, assinar seu primeiro contrato como jogador de futebol, válido até 2023, pelo qual passou a receber 50 mil euros brutos por ano. Com os descontos, a cifra cai para cerca de 30 mil euros, o que mensalmente significa algo em torno de 16 mil reais, dos quais boa parte Darboe manda para a família em Bakoteh.

Em campo, o volante correspondia. Tanto que já no dia 27 de outubro de 2019, como consequência das muitas lesões no elenco profissional, acabou convocado para ficar no banco no jogo Roma x Milan pelo Campeonato Italiano. Na ocasião, não faltou quem apontasse a ironia de a chance surgir justamente contra o time de Matteo Salvini – um dos políticos mais relevantes da Itália e ao mesmo tempo um dos maiores opositores à entrada de refugiados no país.

Naquela partida, porém, Darboe não jogou. Sua estreia como profissional só viria ocorrer mais de um ano e meio depois, no último 2 de maio, quando Darboe substituiu Gonzalo Villar para jogar os 8 minutos finais de Sampdoria x Roma. Quatro dias mais tarde e veio a estreia europeia, contra o Manchester United pela Liga Europa: quando o zagueiro Smalling se machucou, ao invés de utilizar as opções para a posição que tinha no banco, o técnico Paulo Fonseca preferiu colocar Darboe em campo, recuando Mancini, um zagueiro titular que havia iniciado como volante.

A boa atuação de Darboe nos 60 minutos contra o United foi suficiente para lhe garantir a primeira titularidade com a Roma já na partida seguinte, neste último domingo, na vitória por 5 a 0 sobre o Crotone pelo Campeonato Italiano. À sua atuação, o rigoroso jornal La Gazzetta dello Sport atribuiu uma boa nota 6,5, acompanhada por alguns elogios.


A segunda família

Um dia antes de sua estreia como titular da Roma, o blog tentou contato com o jovem Ibra pelas redes sociais para esclarecer duas dúvidas simples. Simpático, em italiano e com emojis, ele respondeu lamentando não poder dar entrevistas, mas enviou-nos o contato de Miriam Peruzzi.

A quem, aliás, fez questão de agradecer logo na primeira chance que teve para falar com a imprensa após enfrentar o Manchester United. “Conhecer a Miriam mudou minha vida, porque ela me transformou em parte da sua família. Eu era muito novo e precisava de uma família. Me senti em casa com eles, então queria muito agradecer à família Peruzzi porque sei que eles estão nos assistindo”, disse, emocionado, em entrevista à Sky Itália.

Família Peruzzi: a família italiana que Darboe ganhou na Itália (de vermelho, Miriam)
Família Peruzzi: a família italiana que Darboe ganhou na Itália (de vermelho, Miriam) arquivo pessoal

Ao blog, Miriam Peruzzi explicou melhor a relação do novo volante da Roma com seus pais: “Meu pai é técnico de futebol, ele e Ibra sempre passaram horas ao telefone falando sobre tática. Nos dias em que ele estava livre, Ebrima sempre vinha ficar com a gente, com a nossa família, então meus pais decidiram adotá-lo”.

A relação dos Peruzzi com o garoto, é bom ressaltar, começou bem antes de que seu sucesso como jogador tenha se transformado em algo aparentemente inevitável. E assim, na Itália, Darboe encontrou não só a chance de ganhar dinheiro e ajudar sua família fazendo o que mais gosta. Ele encontrou, também, uma nova família, novos amigos e um mundo que hoje, quem diria, parece não lhe impor mais fronteiras ou limites.

Tudo isso não o impediu de, quando questionado sobre a fábula que parece viver, lembrar-se dos refugiados que não tiveram a mesma sorte: “Quando eu penso em quem não conseguiu me dá uma tristeza enorme, é uma experiência que eu não desejo a ninguém”.

Na mesma entrevista à Sky Itália, ele mandou uma mensagem aos que de alguma forma almejam uma trajetória parecida: “Diria para que tenham esperança e deem o máximo, que continuem acreditando nos seus sonhos”. Na era de influenciadores e instagramers, a frase pode soar um tremendo clichê ausente de qualquer valor. Partindo de Ebrima Darboe, é uma inquestionável lição de vida.

***

Veja trechos da entrevista de Darboe após o jogo contra o Manchester United (em italiano):



 
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O que se espera de Mourinho?

Gian Oddi
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José Mourinho é um técnico vencedor. A lista de títulos que ele ostenta no currículo ou que enumera mostrando os dedos para provocar a torcida adversária sempre foi aquilo que levou seus clubes a contratá-lo.

É preciso admitir que esse mesmo adjetivo, “vencedor”, não é o que melhor define a Roma. Seus três suados scudetti não seriam suficientes para manter a fidelidade e paixão daquele tipo de torcedor que precisa arrotar taças, conquistas e placares quando quer encerrar uma discussão sobre futebol.

A conclusão lógica, quase matemática, é, portanto, a de que a euforia causada na capital italiana pela contratação de José Mourinho tem a ver só com isso, tem a ver com o “chegou o cara que vai encher nossa sala de troféus”. Mas não é isso, não é nada disso.

E não é nada disso não só porque a experiência de Mourinho no Tottenham, em vários aspectos um equivalente da Roma no futebol inglês, foi uma passagem pouco frutífera e animadora.

A meta de qualquer clube importante, nenhum dirigente seria louco de dizer o contrário, é conquistar títulos – nem que seja a médio ou longo prazo. Mourinho negar essa ambição ao chegar na Roma renegaria sua história; a nova gestão que o escolheu negar isso seria burrice.

Do ponto de vista técnico e racional, porém, o José Mourinho de 2021 não parece ser melhor escolha que o italiano Maurizio Sarri, até ontem o mais cotado para assumir a Roma. Mesmo assim, o otimismo, a alegria e a euforia deram o tom predominante às margens do Tibre nessa última terça-feira. Por que?

Talvez porque, ao contratar Mourinho, em questão de minutos a Roma tenha conquistado um protagonismo com o qual não está acostumada. Talvez porque a chegada de um técnico renomado como o português denota ambição esportiva como não se via desde os tempos de Fabio Capello. Mas, acima de tudo, porque José Mourinho é como é.

É fácil odiar José Mourinho na mesma medida em que é fácil amá-lo: bom para a Roma
É fácil odiar José Mourinho na mesma medida em que é fácil amá-lo: bom para a Roma Getty

Você pode não gostar de Mourinho, da sua marra, do seu jogo, do seu ônibus. Mas qualquer tentativa de negar seu carisma e a grandeza do personagem será em vão. É fácil odiar José Mourinho na mesma medida em que é fácil amá-lo. E a torcida da Roma só quer amar, só quer amar, só quer amar.

Foi assim não apenas com Francesco Totti, como era óbvio ser. Foi assim com Daniele De Rossi, cujos 18 anos vestindo a camisa do clube não lhe renderam mais que duas Copa da Itália. E foi assim, evidentemente em outra medida, com nomes que foram de Taddei a Naingollan. Em Roma, na Roma, amor com amor se paga, e a chegada de um técnico tão fácil de se gostar tem boa parte na aceitação que se viu nessa terça.

“A inacreditável paixão dos torcedores da Roma me convenceu a aceitar esse desafio” foi a primeira frase de José Mourinho como técnico do time. Pode ser um sentimento verdadeiro, pode ser demagogia. Mas o simples fato de não chegar prometendo títulos em sua primeira fala demonstra alguma compreensão do que dele se espera, do que dele se quer.

Entre jogos posicionais, pressões nos portadores, externos desequilibrantes e campos cheios de terços, Mourinho pode parecer obsoleto, não é sombra do que foi. Se seguir olhando para trás enquanto anda pra frente, seu sucesso talvez dependa mais da alquimia, dos astros ou da lua em Saturno. Mas e daí?

A escolha de um personagem, e não do melhor treinador, talvez soe insensata em quase todo clube do mundo. Mas não na Roma. Essa é, certamente, uma visão otimista e com certa carga emocional. Mas o futebol também é feito disso, o futebol depende disso.    

Em toda sua carreira, para Mourinho, os meios pouco importaram, porque sempre justificaram seus fins: ser campeão. Na Roma ele talvez nem precise disso para ser amado. Mas se a lua estiver em Saturno...

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O que vocês perdem ao continuar odiando Neymar

Gian Oddi
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O texto abaixo é do jornalista Francesco Gerardi, publicado originalmente em italiano no site da ótima revista Undici, e seu interesse independe do placar ou do desempenho de Neymar no jogo de logo mais contra o Manchester City. A própria Undici publicou o artigo pouco antes do apito inicial para PSG x City na semana passada.

Bons textos não são aqueles com os quais você necessariamente concorda, mas aqueles que te fazem pensar, que trazem um ponto de vista diferente. E se o fizerem com classe e estilo, tornando a leitura agradável, melhor ainda. Foi o que me pegou ao ler o artigo de Gerardi na Undici, aos quais agradeço pela autorização para esta tradução.   


'Tudo aquilo que é preciso saber e entender sobre Neymar está em uma jogada inútil feita durante uma partida irrelevante no dia 4 de fevereiro do ano passado'
'Tudo aquilo que é preciso saber e entender sobre Neymar está em uma jogada inútil feita durante uma partida irrelevante no dia 4 de fevereiro do ano passado' AFP via Getty Images


O que vocês perdem ao continuar odiando Neymar
 
Ele se tornou o jogador mais decisivo no mundo, mas também o mais bonito para se ver jogar, sem renunciar aos seus excessos e seu estilo único e atrevido

Por Francesco Gerardi

No 37º minuto do jogo entre Paris Saint-Germain e Bayern de Munique, quartas de final da Champions League 2020-21, Neymar recebe a bola na entrada da área adversária, deixa passar o tempo suficiente para dar a impressão de que vai finalizar, espera que Kingsley Coman se aproxime e com um único movimento muda a direção de sua corrida e da bola: com o calcanhar direito ele a devolve para o lado esquerdo, o movimento continua por todo seu corpo e vira uma pirueta que lhe permite reencontrar a posição para finalizar. Coman segue com sua corrida (perdida) para a direita, e no tempo que leva para girar e reencontrar Neymar, o número 10 do PSG já mirou e decidiu chutar a bola com a parte interna do pé direito, seguindo sua trajetória com o olhar. A esfera traça um doce arco e passa rente ao ângulo esquerdo do gol de Neuer. Tudo menos o gol. Tudo além do gol. Todo Neymar em um só momento, um só movimento.

No final do jogo do Parque dos Príncipes, Maurício Pochettino diz a[o jornalista] Guillem Balague que nesta temporada não houve um Neymar melhor do que o que se viu na partida de volta contra o Bayern. Pochettino obviamente fala por si e também de si: desde que chegou a Paris, uma grande parte de seu trabalho foi dedicada a Neymar, a construir uma relação com a pessoa, a proteger o jogador das lesões, a melhorar suas atuações. Mas Pochettino fala também para todos aqueles que são testemunhas de uma evidência: Neymar nunca jogou tão bem, nem em Paris nem em Barcelona. Nunca foi tão forte e saudável. Aos 29 anos, quatro após a decisão de deixar o Barça e sair da sombra projetada por Messi, Neymar finalmente teve razão: é o melhor atacante do mundo.

Se tem uma coisa que define "o melhor" é a consciência, a sua própria e a dos outros. Hoje Neymar pode dizer que Kylian Mbappé é o próximo de uma linha sucessória que começa com a Pulga e passa por ele: o presente sabe reconhecer o passado e o futuro, sabe distinguir-se daquilo que foi e do que será. Neymar agora diz quem foi o melhor ontem e quem será o melhor amanhã, porque sabe quem é o melhor hoje. Ele sabe e os outros sabem. O cume da montanha é o lugar no qual a supremacia não deve mais ser demonstrada, apenas reconhecida: quem está abaixo olha para cima e sabe, entende, aceita.

Neymar já não precisa mais prestar contas, fazer resumos, juntar estatísticas. Seus números foram absurdos desde o dia em que colocou os pés na Europa, mas nunca eram suficientes para convencer os céticos: ele jogava no Barcelona com Messi e Suarez? Assim não vale... Jogava no PSG e na Ligue 1? Aí é fácil... Na Champions League nunca ia além de uma fase acessível? Isso todos conseguem... Pois agora, depois dos jogos contra o Bayern (o melhor e mais vanguardista time da Europa), esses argumentos não valem mais.

O mais forte consegue sê-lo mesmo, e acima de tudo, na ausência de contexto: a superioridade é uma sensação que vai além da racionalização do aficionado e do especialista. Vendo Neymar contra o Bayern pode-se apenas testemunhar: isso está acontecendo diante dos olhos de quem sabe e quem não sabe, de quem entende e não entende, de quem aprecia e de quem detesta. Todo o resto são provas de uma evidência, a teorização de um fenômeno natural observável empiricamente: 85 toques na bola, 14 duelos individuais vencidos, 11 bolas na área adversária; além das sete faltas recebidas, seis roubadas de bola, seis chutes sendo três deles no gol, três chances criadas, uma bola interceptada, duas na trave. Tudo menos o gol, tudo além do gol.

Como elaboramos uma opinião sobre um jogador capaz de ir além da coisa mais importante que pode acontecer em um campo de futebol? Como observar um jogador que está sobretudo naqueles momentos do futebol em que não se pode somar estatísticas, cuja classe está naquela parte dos pés entre o calcanhar e a sola? Como se reconciliar com um talento capaz de unir a substância com a estética, aquela parte do jogo que por tanto tempo apontamos, discutimos e defendemos como sendo antiética?

Vivemos numa época em que tudo sabemos e não sabemos nada e, portanto, em que o irrelevante terá sempre uma parte maior frente ao relevante. No filme Moneyball, Jonah Hill interpreta Peter Brand, um economista formado em Yale e disposto a virar diretor geral de um time de baseball, autor da frase mais importante do filme: existem jogadores que são ignorados por motivos insensatos e supostos defeitos – por idade, aparência, caráter. Todos os esportes no fim das contas são o mesmo esporte, isso vale para o baseball e para o futebol. Foi sempre difícil negar o valor de Neymar limitando as observações aos jogos, ao campo. Mas foi sempre fácil diminui-lo se nos concentramos em motivos insensatos e seus supostos defeitos.

É possível amar um jogador que define como modesta uma festa de aniversário com todos os companheiros de time, suas famílias e estafes? É possível admirar um jogador cuja ideia de elegância é o branco absoluto? É possível adorar um ídolo que participa de torneios de pôquer e é protagonista de eventos do Fortnite, que desenha roupas e cria perfumes, que faz aparições na Casa de Papel e em Velozes e Furiosos? Podemos aceitar a superioridade de um sujeito tão ligado à estética e à cosmética, dentro e fora do campo? Como fazemos para levar a sério alguém que vai de Paris a Barcelona movimentando o valor do PIB de um país em desenvolvimento e depois se apresenta na coletiva de imprensa dizendo que foi Deus quem sugeriu essa escolha?

Em tempos nos quais o mundo desaba na nossa cabeça enquanto estamos ocupados procurando apontar os erros alheios, essas perguntas são hoje feitas pelas mesmas pessoas que nos últimos 15 anos se dividiram entre as tribos de Cristiano Ronaldo e Messi.

A culpa de Neymar não está no campo, o desprezo e a subvalorização que o acompanham até aqui nada têm a ver com seu jogo. Ao me preparar para escrever este artigo, resolvi rever as partidas consideradas as melhores de sua carreira: logo me dei conta que precisaria de uma semana só para ver aquelas do período blaugrana, e depois ainda faltariam as do Paris e da seleção... Passei então para os highlights e comp(ilações): logo entendi que gastaria ao menos três dias, um tempo que nem mesmo [o diretor de futebol Walter] Sabatini tem quando precisa ver os arquivos dedicados a contratar um próximo lateral-esquerdo qualquer.

Só depois de perder um bom tempo é que me dei conta que o ponto era justamente esse: como se estabelece a grandeza de um jogador cujos feitos vão muito além do tempo e da energia necessários para que os assimilemos? Como se define um jogador cuja grandeza está nas nuances do exagero, na imprudência com a qual realiza coisas que os outros fazem com seriedade, com discrição? E acima de tudo: como se pode negar uma grandeza tão evidente, tão escancarada?

Em geral os highlights de um jogo que encontramos no Youtube são chatos. Mas os de Neymar contra o Bayern são uma experiência diferente: o vídeo dura oito minutos e não tem nada ali que valha a pena editar ou cortar.


Neymar lembra ao futebol, que hoje é arquitetura funcionalista, o quanto são importantes a forma e a estética, o prazer e o indivíduo. Neymar sabe que vencer não é a única coisa que conta: você pode vencer estando aberto pela esquerda, abrindo espaço para um terceiro ou usando o espaço aberto pelo outro; mas pode vencer também protagonizando cada movimento, cada momento do jogo, sendo o pilar sobre o qual todo o peso da estrutura encontra equilíbrio. Neymar sabe que não existem apenas a via da natureza (força do corpo) e a da cultura (superioridade técnica): existe uma terceira via que leva ao triunfo, uma estrada que é a conjugação dessas duas vias.

A culpa de Neymar é ter contrariado abertamente o lugar comum: esportes de equipes requerem esforço coletivo, sim, mas eu quero ser o melhor do mundo; o futebol é fruto de um grupo, sim, mas eu quero construir o meu grupo. A culpa de Neymar está em admitir que a ambição é a premissa da grandeza, que a presunção é parte do sucesso: eu não quero ser Messi, quero ser mais que Messi. A culpa de Neymar está em ter lembrado ao futebol das linhas retas que a beleza está na pirueta: não se trata apenas de ir do ponto A ao B, mas daquilo que está no meio. Na viagem. A culpa de Neymar está em ter tido razão desde o início até o fim: deixar Barcelona e ir para Paris foi a decisão correta.

Tudo aquilo que é preciso saber e entender sobre Neymar está em uma jogada inútil feita durante uma partida irrelevante. Era 4 de fevereiro do ano passado, o PSG jogava contra o Montpellier: lá pela metade do primeiro tempo, o número 10 brasileiro está perto da bandeirinha de escanteio, pressionado por Arnaud Souquet. De todos os modos possíveis e disponíveis para se livrar da pressão do adversário, Neymar escolhe o mais difícil e atrevido: uma bicicleta, aquele movimento semi mecânico descrito tão bem por essa palavra em italiano ou português, mas ao qual o inglês faz justiça com a maravilhosa imagem evocada pelo nome rainbow flick. Souquet fica confuso e humilhado, a bola bate nele e tudo acaba em arremesso lateral. O árbitro Jerome Brisard intervém e intima Neymar a parar com aquele exibicionismo. Neymar faz mais do que protestar, ele se ofende. Protesta até forçar o árbitro a mostrar-lhe o cartão amarelo. Até o fim do primeiro tempo, Neymar continua a repetir ao árbitro, aos adversários e a um público que naquela época ainda se aglomerava em volta dos campos para observar e escutar: “Estou jogando bola. Estou apenas jogando bola”.

 
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Obsessivo, bronco e pragmático: como funciona o homem que iniciou e acabou com a hegemonia da Juventus na Itália

Gian Oddi
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“Eu trouxe à Inter minha visão de futebol: sacrifício, suor e cansaço. Eu levo todos até o limite, é verdade, mas é esse o caminho a seguir se você quer vencer. Há quem prefira a mediocridade, porque assim não se tem dor de cabeça e se dorme melhor.”

A frase do técnico Antonio Conte, proferida antes mesmo do fim de semana em que garantiu à Inter de Milão seu 19º scudetto interrompendo uma série de nove (!) títulos seguidos da Juventus, resume bem não apenas sua forma de trabalho, mas sobretudo sua obsessão: a de vencer a qualquer custo.

A trajetória de Conte, no que diz respeito aos resultados, é um verdadeiro e quase despercebido fenômeno ao qual sua fama e respeito moderados talvez não façam jus. Basta relembrar sua trajetória desde que, aos 42 anos, Antonio Conte assumiu o primeiro clube grande de sua carreira – a mesma Juventus na qual atuou por 14 anos como jogador.

Como Lukaku e Lautaro levaram Inter ao topo da Itália após 11 anos


Treinador emergente, Conte chegou à Juventus em setembro de 2011 para trabalhar com um elenco que vinha de dois sétimos lugares seguidos no Campeonato Italiano, ainda sofrendo para se recuperar do escândalo batizado como Calciopoli que fez o clube disputar na Série B a temporada 2006-2007.

Resultado: em suas três primeiras e até então únicas temporadas como técnico de clube grande, Conte transformou um time de meio de tabela em tricampeão italiano, iniciando assim uma série de títulos que só viria a ser interrompida agora em 2021, uma década depois, graças à sua Inter de Milão.

Sobre aquele período, as declarações mais impressionantes a respeito da chegada de Conte são de Andrea Pirlo, seu jogador à época e hoje, ironicamente, o novato técnico da Juventus que viu sua série de conquistas interrompida pela Inter.

Pirlo, quem diria, explica

Em sua autobiografia “Penso, Quindi Gioco”, Pirlo dedica um capítulo inteiro ao trabalho de Antonio Conte como treinador. E alguns trechos, traduzidos a seguir em sequência, servem para compreender não apenas seu sucesso naquela Juventus, mas os que viriam nos trabalhos a seguir:

“Trabalhei com muitos técnicos e ele foi o que mais me surpreendeu. Foi preciso um único discurso, com palavras simples, para conquistar não só a mim como toda a Juventus. Quando ele fala, os conceitos te atingem até com certa violência. Várias vezes me peguei pensando: ‘cazzo, mais uma vez o que ele disse faz sentido’. Obviamente ganhamos o scudetto na primeira tentativa, um sucesso todo dele, malditamente dele, acima de qualquer previsão... Conte não é mágico, mas tira da cartola preleções alucinantes... Ou você o obedece ou não vai jogar. Ele atenta para cada detalhe e os utiliza a seu favor. Quando se concentrava na parte tática, ele nos deixava por horas na frente dos vídeos, explicando várias vezes os movimentos errados. Ele tem alergia ao erro... No campo de Vinovo [centro de treinos da Juventus], sempre vencíamos, simplesmente porque jogávamos contra ninguém. Não havia adversários. Ele nos obrigava a jogar partidas de 11 contra zero, nos obrigava a repetir por 45 minutos os mesmos movimentos até que ficassem bons, até enjoar.... Eu esperava um técnico bom, mas não tão bom. Imaginava um treinador com muita vontade e carisma, mas descobri que tática e tecnicamente ele tinha muito para ensinar a vários colegas.”

Seleção italiana

Três títulos italianos depois, Conte deixou a Juventus protagonizando uma das tantas polêmicas de sua carreira – naquele caso, por externar sua insatisfação com o mercado do clube ao afirmar que não era “possível comer com 10 euros em um restaurante de 100 euros” – para depois assumir o comando da seleção italiana, pela qual, novamente, seus resultados foram muito acima do esperado.

Em seu primeiro trabalho na Azzurra, na mesma chave de Croácia, Noruega e Bulgária, ele terminou líder invicto das eliminatórias da Euro 2016. E na etapa final da competição, com um elenco consideravelmente inferior aos dos favoritos no torneio (Giaccherini, Pellé e Éder eram titulares da Itália no ataque...), venceu e superou a favoritíssima Bélgica para liderar uma chave que tinha também Suécia e Irlanda.

Nas oitavas de final, a Itália eliminou de maneira incontestável, com um 2 a 0, a então campeã europeia Espanha. A queda só aconteceria nas quartas de final, contra a campeão do mundo Alemanha, e mesmo assim numa disputa de pênaltis após empate por 1 a 1 no tempo normal e prorrogação. Na Itália, ciente das limitações técnicas do time, jornais como La Gazzetta dello Sport estampavam manchetes assim: “Foi lindo, obrigado!”.

Antonio Conte: seus resultados como técnicos são fenomenais
Antonio Conte: seus resultados como técnicos são fenomenais Getty Images

No Chelsea

Veio então o trabalho no Chelsea. E se na Juventus, como disse Pirlo, a conquista do scudetto estava longe do esperado, no Chelsea a hipótese do título inglês era ainda mais improvável. O que não significava impossível: ao transformar o time jogando com os três zagueiros que têm caracterizado todos seus grandes trabalhos, Conte rumou para a conquista da Premier League deixando para trás o Manchester City de Guardiola, o Liverpool de Jurgen Klopp, o Manchester United de José Mourinho e o Tottenham de Pochettino.

E mesmo na temporada seguinte, talvez a mais contestada de sua carreira sobretudo pelas várias desavenças criadas com o elenco do Chelsea, ainda conquistou um título, o da Copa da Inglaterra, derrotando o Manchester United de Mourinho por 1 a 0 na decisão em Wembley.

Dispensa por SMS

Foi com um jogador daquele grupo do Chelsea, o atacante Diego Costa, que Antonio Conte viveu a mais conhecida das confusões de sua carreira após dispensar por SMS o atleta que segundo ele não tinha mais desejo de atuar pelo clube inglês porque queria voltar ao Atlético de Madrid. De acordo com o Diário AS, o teor da mensagem que Conte enviou a Diego no meio da temporada teria sido o seguinte: “Olá, Diego. Espero que você esteja bem. Obrigado pela temporada que passamos juntos. Boa sorte no próximo ano, mas você não está mais nos meus planos”. A o que o jogador teria respondido com um seco e breve “OK”.

Tempos depois, Diego Costa chegou a comentar o caso na ESPN Brasil, de certa forma corroborando o que muitos apontam como o pior aspecto do técnico, sua relação com o elenco em geral degradada por cobranças intensas, rudes e obsessivas: “Tivemos problemas fora de campo, mas ele era um bom treinador. Não guardo rancor, mas para ser um técnico realmente importante ele tem que mudar algo no lado humano. Creio que em um clube como o Real Madrid ele não duraria uma temporada”.

Diego talvez tenha razão. No Real Madrid, pode ser que Antonio Conte durasse pouco, seja por seu jogo mais pragmático do que plástico, seja pela dificuldade para lidar com as maiores estrelas do mundo. Mas se isso um dia impediu que Conte assumisse e dirigisse o Real Madrid até hoje, a torcida da Inter só tem mesmo é que celebrar essas características de seu treinador.

 
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Obsessivo, bronco e pragmático: como funciona o homem que iniciou e acabou com a hegemonia da Juventus na Itália

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Quando a pressão vira piada

Gian Oddi
Gian Oddi

No menu brasileiro de pressão sobre técnico de futebol tem opção para todo gosto: tem para técnico campeão brasileiro, técnico com menos de 10 jogos, técnico que cai depois de suas melhores atuações em um bom período e até pra técnico estrangeiro que chega por distração e pede o boné rapidinho para fugir logo dessa terra de malucos.

De todas as pressões, porém, nenhuma é tão surreal como a que vinha sendo vivida pelo português Abel Ferreira, técnico do Palmeiras campeão sul-americano e da Copa do Brasil na última temporada. Não é que as pressões fossem absurdas pela simples existência dos títulos e a indiscutível parcela de Abel nas conquistas, mas sim pelos motivos usados para contestá-lo.

Os motivos? Resultados. Porque os questionamentos pontuais até justos a se fazer após os jogos da Recopa contra o Defensa y Justicia só tiveram peso quando somados à derrota nos pênaltis (com bela atuação) pela Supercopa contra o Flamengo e aos resultados em um campeonato estadual que deveria e deve ser usado como mero laboratório no ano em que o Palmeiras ostenta o recorde mundial de número de partidas disputadas.

Libertadores: Palmeiras tem atuação impecável e atropela o Del Valle; assista aos melhores momentos


A necessidade de desprezar ou menosprezar o Paulista, possivelmente discutível em outro grau nos anos anteriores, nunca foi tão óbvia como neste segundo ano de pandemia – um 2021 em que os Estaduais, não vivêssemos num futebol onde os interesses políticos se sobrepõem aos esportivos, deveriam ter sido cancelados da agenda dos grandes para que fosse feito o necessário ajuste de calendário.

A provável eliminação no Paulista também não deveria ser motivo de drama ao se constatar que, entre os 11 atletas que mais jogaram pelo clube no torneio, estão nomes como Vinícius Silvestre, Gustavo Garcia, Lucas Esteves e Rafael Elias; some-se a isso o fato que, mesmo com o fraco desempenho e escalações inéditas a cada jogo, o Palmeiras estaria avançando se estivesse em qualquer outro grupo do torneio.

A goleada por 5 a 0 sobre o Independiente del Valle escancara ainda mais o ridículo das pressões sobre Abel, pois permite a constatação de que, nos cinco jogos disputados com titulares na temporada, o Palmeiras teve duas ótimas atuações contra Flamengo e Del Valle, seus melhores adversários. E nas outras três partidas de desempenho mais questionável, mesmo em meio à mudança no esquema de jogo e peças utilizadas, venceu duas.

Quarto gol do Palmeiras foi uma aula de contra-ataque; assista


Em que outro lugar do planeta um técnico seria contestado no contexto acima?

Com competidores fortes nas três competições que contam, Abel Ferreira pode não conquistar nada na temporada e poderá, dependendo dos roteiros, ser responsabilizado pelos insucessos. Mas a insanidade que se fazia até essa terça-feira passou a soar como piada na madrugada de quarta.

Uma piada que sem dúvida voltará a ser contada por muita gente na noite de quinta caso o time não derrote a Inter de Limeira com um bando de garotos.


Abel Ferreira na (discutível) vitória contra o Defensa y Justicia
Abel Ferreira na (discutível) vitória contra o Defensa y Justicia Cesar Greco / Palmeiras

 
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Após intensivão de Brasil, Ariel Holan deu aula no Santos

Gian Oddi
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Provavelmente não se trata da maioria, mas não será difícil encontrar torcedores do Santos a comemorar a decisão do técnico argentino Ariel Holan de deixar o clube após comandar o time em apenas 12 jogos – quatro vitórias, três empates e cinco derrotas.

As cinco derrotas e (sim) o baixo nível de futebol apresentado em boa parte das 12 partidas serão para muitos, incluindo os imbecis responsáveis por estourar rojões ao lado de seu apartamento após uma derrota num jogo irrelevante com reservas em campo, motivo suficiente para celebrar sua saída.

Em dois meses, Holan recebeu um intensivão sobre como funciona o futebol brasileiro: num clube em crise financeira e em meio a disputas políticas, não ganhou reforços, perdeu jogadores importantes, foi submetido a um calendário bizarro que chegou a incluir 4 jogos em 8 dias, viu salários não serem pagos em dia e teve que suportar uma pressão desmedida que despreza completamente todo o contexto acima.

Presidente do Santos anuncia que Ariel Holan pediu demissão: 'Sai pela porta da frente'; assista


Se a principal motivação de sua saída foram rojões, atraso em pagamentos, a falta de confiança no trabalho com o elenco de que dispõe ou qualquer outro fator, só saberemos quando Holan falar, se falar. As justificativas dadas pelo presidente do Santos, Andres Rueda, precisam ser vistas com óbvias e prudentes ressalvas.

É provável que o motivo não seja apenas um, mas a soma de todos os citados (e talvez não só). Seja qual for(em) o(s) motivo(s) de sua decisão, o fato é que depois de passar por dois meses de curso intensivo sobre o funcionamento do futebol brasileiro, o argentino Ariel Holan deu uma aula sobre como reagir a essa insanidade.

Se o exemplo de Holan for seguido por outros, talvez um dia consigamos enxergar o quanto temos sido ridículos.

Ariel Holan ficou apenas dois meses no comando do Santos
Ariel Holan ficou apenas dois meses no comando do Santos Ivan Storti/Santos FC

 
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“Então defenda os Estaduais. Mas e a NBA? Você é fã da FIFA?” Por que não faz sentido contestar assim quem combate a Superliga

Gian Oddi
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Florentino Pérez, o poderoso chefão da fracassada Superliga
Florentino Pérez, o poderoso chefão da fracassada Superliga Getty Images

 

Não foi um fenômeno imediato ao lançamento da prepotente e descabida Superliga – os porquês dos adjetivos já foram bastante debatidos –, mas é curioso como, pelo menos no Brasil, não tardou muito para que surgissem inúmeras contestações aos que se posicionaram de maneira contundente e até óbvia contra o elitismo dos 12 clubes inicialmente envolvidos no torneio.

Quatro perguntas bastam para resumir os argumentos dessas contestações: “Se são a favor dos pequenos, então por que vocês não defendem os campeonatos estaduais em vez de criticá-los? Por que não olhar para o exemplo de sucesso das ligas dos EUA, como NBA e NFL? Ah, então vocês são a favor do monopólio de FIFA e UEFA? É tão difícil perceber que o dinheiro já domina o futebol?”.

As duas últimas perguntas de certa forma se misturam e talvez sejam as de resposta mais simples. Afinal, entre os tantos críticos da Superliga, pouca gente contesta que poder e faturamento da UEFA e FIFA são excessivos e que os clubes deveriam apitar e ganhar mais. Assim como ninguém discute o enorme poder do dinheiro no modelo de futebol que hoje impera no planeta.  

Presidente da polêmica Superliga, Florentino Pérez diz: 'Queremos salvar o futebol'



Reconhecer as questões acima, porém, não deveria servir para validar o que o clubinho de privilegiados queria (ou quer) fazer, levando a relevância do faturamento a patamares nunca antes vistos, muito piores que os atuais, e excluindo completamente os critérios técnicos e esportivos que são a essência do futebol. Neste caso, quem posa de resignado em relação à força da grana no futebol parece na verdade desejar que essa força seja ainda maior.  

O aspecto dos critérios técnicos e esportivos citados acima é também o melhor argumento para desfazer qualquer relação lógica sobre ser contra a Superliga e ter que defender os campeonatos estaduais como eles são hoje. Não é que se peça sua extinção, mas do jeito que funcionam os Estaduais servem bem mais aos dirigentes das federações de Estados do que aos clubes pequenos.

Ver times de Série A obrigados dedicar quase um terço dos meses de seu calendário com jogos para enfrentar times das Séries C ou D também não faz sentido, embora seja o extremo oposto da Superliga. Ou aqueles que são contrários à Superliga por acaso defendem que o Real Madrid jogue anualmente contra o Atletico Pulpileño ou o Deportivo Minera, times da terceira divisão espanhola? Esses times até têm a chance de enfrentar o Real, mas se isso ocorrer terá sido por méritos esportivos.

Por fim, resta o argumento “olha como a NBA é legal com sua liga de clubes". Primeiro, ser contra a Superliga como foi proposta não significa ser contrário a uma liga de clubes menos elitista e com critérios esportivos. Segundo, há evidentes e necessárias ressalvas (leia mais no blog do Ubiratan Leal) que precisam ser feitas sempre que se compara o global futebol com outras modalidades e, mais ainda, a autossuficiência esportiva (para o bem e para o mal) dos norte-americanos na relação com o resto do mundo.

O mais curioso na manifestação daqueles que rebatem as duras e justas críticas feitas à Superliga é que apenas em raríssimos casos eles admitem ser defensores do torneio. Assim, contestam quem combate um campeonato bizarro com o simples argumento de que já existem coisas erradas no futebol como ele é hoje.

Mas não é por que as coisas estão ruins que precisamos aceitar algo pior.


 
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A Superliga, suas causas e o que ela nos trouxe de bom até aqui

Gian Oddi
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Muito já foi dito – e muito ainda precisará ser – sobre a fatídica Superliga da Europa. O objetivo da patota está escancarado, e as causas que levaram a turminha a buscar esta solução específica (em vez de outras mais preocupadas com o futebol) são variadas e tem a ver não só com o contexto, mas com a cabeça dos caras que hoje comandam os clubes mais poderosos do planeta. Onde tudo isso vai dar? Impossível prever. Mas pelo menos uma (ou até duas) coisas de bom a gente tira dessa história toda até aqui. Análise no vídeo abaixo.






 
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O incrível e (quase) inexplicável pessimismo são-paulino

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Só mesmo o trauma por inesperados reveses recentes e o jejum de títulos podem explicar as inúmeras manifestações de desânimo, pessimismo ou até mesmo desespero de parte da torcida e canais são-paulinos após a contundente derrota sofrida pelo São Paulo para o Red Bull Bragantino por 4 a 2, na última quarta-feira (6).

Poucas horas após o revés já surgiram teorias das mais variadas, envolvendo todos os aspectos imagináveis dentro do universo do futebol, para justificar uma derrota (muito feia, é verdade) ocorrida dentro de campo.

É curioso que seja assim. É curioso que comecem a surgir teorias do caos quando a principal (ainda que não a única) justificativa para a péssima atuação naquela partida estava, provavelmente, dentro de campo, no anúncio dos 11 titulares.

Quem sempre afirmou que um eventual surto de COVID-19 que tirasse quatro ou cinco titulares do time seria crucial para as pretensões de título do São Paulo não pode agora, de uma hora pra outra, negar que a perda de quatro titulares, ainda que por outros motivos, foi a principal razão para a queda de rendimento.

Todo o pessimismo não faz sentido.

Brenner durante jogo do São Paulo. O torcedor tricolor está muito pessimista?
Brenner durante jogo do São Paulo. O torcedor tricolor está muito pessimista? Getty Images

Primeiro, porque, como não se trata de COVID-19, nada indica que os desfalques tão determinantes na derrota de quarta-feira ficarão fora do time por muito tempo.

Segundo, porque, em um campeonato tão equilibrado como o atual, os 6 pontos de vantagem para o vice-líder (que podem ser 4 caso Flamengo e/ou Atlético vençam seus jogos atrasados, cada clube tem um) são bem relevantes a 10 rodadas do final.

Terceiro, porque, olhando apenas para o futebol jogado no Brasileiro, o São Paulo até aqui de fato mostrou mais que seus rivais na competição, incluindo aqueles com um elenco mais encorpado que o de Fernando Diniz.

Quarto, e não pouco relevante, porque, dos 4 confrontos diretos que ainda tem a fazer contra candidatos ao título, o São Paulo joga três em casa (Inter, Palmeiras e Flamengo) e apenas um fora (Grêmio).

Se o São Paulo deixar escapar um título que muito provavelmente, nas mesmas condições, seus rivais mais fortes não perderiam, outra explicação poderá ser acrescentada às extensas listas de razões que surgiram após a goleada para o Red Bull Bragantino: hoje, nenhum outro clube brasileiro é capaz de saltar tanto da euforia à depressão em apenas 90 minutos.


 
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O melhor elenco de todos os tempos da última semana

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O Flamengo tem o melhor elenco do futebol brasileiro. A frase é óbvia, batida, e até meados do segundo semestre de 2020 não sofria qualquer tipo de contestação. Já não é mais assim. Como costuma ocorrer no Brasil toda vez que um grupo de alta qualidade não rende o que dele se esperava, essa qualidade passa a ser questionada.

Até outubro, antes da chegada do português Abel Ferreira, o mesmo ocorria com o Palmeiras. Vanderlei Luxemburgo falava em “cobertor curto”, questionava a qualidade do elenco para poder “jogar bonito” e cobrava, com a cumplicidade de boa parte de imprensa e torcida, a necessidade de contratar um meia, mesmo com um elenco cheio deles.

Pouco mais de dois meses depois, o tal elenco carente, mesmo passando por um surto de COVID e outros problemas que chegaram a lhe tirar 21 jogadores simultaneamente, está na final da Copa do Brasil, bem perto da decisão da Libertadores e, por pontos perdidos, a apenas dois pontos dos vice-líderes do Brasileirão.

Em 2017, Rodriguinho, Jadson, Marquinhos Gabriel, Clayson, Camacho, Maycon, e Pedro Henrique, entre outros, não faziam nem de longe parte do melhor elenco do Brasil. Mas fizeram parte do elenco campeão brasileiro pelo Corinthians. A obviedade da diferença entre essas duas coisas poucas vezes foi tão explícita, mas aquilo não serviu como alerta para que muitos passassem a dissociar resultados de qualidade do elenco.

Como se viu em 2018: antes do início da temporada, comparações entre os elencos de Flamengo e Palmeiras eram comuns nas análises de TV, blogs, sites, rádios e jornais. A disputa era parelha, não havia consenso algum, diferentemente do que ocorrera no fim do ano, quando o título palmeirense com oito pontos de folga sobre o vice-campeão Flamengo transformou o elenco alviverde quase que unanimemente no “melhor do Brasil”. 

Não faz sentido.

Jogadores do Flamengo comemoram gol sobre o Fluminense, pelo Brasileirão
Jogadores do Flamengo comemoram gol sobre o Fluminense, pelo Brasileirão Alexandre Vidal/Flamengo

O julgamento e avaliação da qualidade de um elenco baseado em resultados ou numa tabela de classificação tornaria absolutamente desnecessária qualquer análise. Resultados e classificações dizem respeito a desempenho; avaliações de elencos tratam, ou deveriam tratar, de potencial. E num país que não costuma se destacar pela qualidade de seus técnicos, o potencial máximo de um elenco raramente é alcançado.

Assim, o preço a ser pago por avaliações equivocadas de bons elencos acaba saindo caro, porque jogadores pressionados, mal avaliados e incluídos em listinhas de torcidas organizadas tendem a ser negociados e, se negociados num momento de subvalorização, tendem a sair por menos do que valem, muitas vezes antes mesmo de dar o retorno esportivo que mostrarão já com a camisa de seu próximo time.

Um elenco subvalorizado é acima de tudo sinal de elenco subaproveitado. E seu prejuízo esportivo costuma ser tão grande quanto o financeiro.

 
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Prêmio da Fifa: quando a diplomacia é um problema

Gian Oddi
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Klopp: vencedor do prêmio de melhor técnico da temporada segundo a Fifa
Klopp: vencedor do prêmio de melhor técnico da temporada segundo a Fifa ESPN


Toda vez que a premiação da Fifa não reflete bem aquilo que ocorreu dentro de campo numa temporada, a gente tende a atribuir o discutível resultado da eleição aos votos vindos de países cuja tradição futebolística é equivalente à importância que o Brasil tem, por exemplo, em Lacrosse.

Geralmente existem votos que corroboram a teoria. Neste ano, o capitão das Ilhas Virgens, Kavon Caesar, talvez vestindo sua camisa do Liverpool, votou em Van Dijk, Mané e Salah como os três melhor do mundo, enquanto o mais aleatório Akram Alhadi, capitão do Sudão, elegeu Mané, Thiago Alcântara e Cristiano Ronaldo.

Dando uma olhada com mais calma na lista de votos, porém, não é difícil constatar que esse não é o problema. Ou, pelo menos, não é o único se esperamos um resultado técnico da eleição.

Basta notar, por exemplo, que os treinadores de Itália, Argentina, Espanha e França, quatro das seleções mais relevantes do futebol mundial, não colocaram o polonês Lewandovski, vencedor do prêmio numa temporada irrepreensível, nem mesmo entre os três melhores do ano. Tivessem partido de Papua-Nova Guiné ou do Butão, seus votos seriam ironizados pela origem geográfica.  

Se do ponto de vista técnico é complicado explicar os votos dos treinadores dessas importantes seleções – pelo menos levando em conta os critérios do prêmio –, também não é possível afirmar que suas escolhas foram as que foram porque eles não conhecem ou não acompanham suficientemente futebol.

O principal problema do prêmio da Fifa talvez seja o fato de que três quartos de seu colégio eleitoral, por motivos que me parecem até justos, não têm necessariamente como maior preocupação votar para atingir aquele que é, em teoria, o objetivo do prêmio: escolher os melhores do ano.

Sejamos sinceros. Se você fosse técnico da seleção portuguesa você deixaria de colocar Cristiano Ronaldo em primeiro na sua lista? Se comandasse o Brasil, Neymar não seria o número um? Como técnico do Senegal, aposto que Mané seria seu preferido. E se treinasse a Bélgica escolheria De Bruyne, certo? Como técnico da França, seu voto não seria Mbappè?

A resposta a essas perguntas parece tão óbvia que todos os técnicos das seleções acima votaram nos seus principais jogadores para melhor do mundo. Uma escolha lógica a partir do momento em que o trabalho de um técnico de seleção é, antes de tudo, pensar na sua seleção. E se um voto diferente dos citados acima poderia melindrar uma figura importante de seus times e prejudicar o trabalho em campo, por que votar diferente?

Técnicos de seleções não têm compromisso com uma escolha técnica na hora de votar numa premiação sabendo que suas escolhas serão divulgadas para seus comandados. Eles têm preocupações mais importantes do ponto de vista profissional.

O mesmo vale, ainda que por outros motivos, com os capitães das seleções. Ou será por acaso que Messi, assim como Thiago Silva, votou no amigo Neymar em primeiro? Chiellini votou em Cristiano Ronaldo, o craque do seu time; Hazard e Modric colocaram Sergio Ramos, capitão de ambos no Real Madrid, entre os três. A lista de exemplos é enorme.

Os votos de técnicos e jogadores de futebol, venham eles de onde for, são compreensivelmente baseados em relações profissionais ou pessoais. Ninguém pode culpá-los por isso, mas seus votos são, em boa parte, pura diplomacia. E mesmo quando o critério não é diplomático, se a escolha recair sobre simpatia, antipatia ou qualquer outra razão menos técnica, ninguém o condenará. É o padrão.    

Considerando que os votos de técnicos e jogadores formam metade do peso no colégio eleitoral no prêmio da Fifa e ainda se somam a um quarto do peso vindo de votos de torcedores, pela internet, temos três quartos das escolhas partindo de gente que não necessariamente usa o critério técnico (embora possa até fazê-lo) para elaborar suas listas. É muita coisa.

A escolha estritamente técnica, no fim das contas, acaba predominando apenas entre os jornalistas. Os únicos que têm a obrigação profissional com o voto: afinal, para esses, a divulgação de uma escolha esdrúxula significaria perda de credibilidade e respeito, essenciais na profissão.   

Não à toa, na eleição deste ano, a vantagem de Lewandovski – o prêmio mais indiscutível para quem seguiu de perto a temporada – foi bem maior entre membros de mídia do que entre jogadores, técnicos ou torcedores. Entre os técnicos, o ainda desconhecido Hans-Dieter Flick, após uma temporada que não poderia ser melhor para o Bayern (mas só após sua chegada), venceu a eleição entre jornalistas, mas perdeu entre jogadores e técnicos

Tudo isso não significa que o prêmio da Fifa precise mudar seus critérios, alterando o colégio eleitoral ou mesmo o peso dos votos de cada um. Até porque, é importante ressaltar, com a volta da separação entre o prêmio The Best, da Fifa, e o Bola de Ouro, da France Football, voltamos a ter a divisão entre um prêmio mais midiático e um outro mais técnico, teoria já comprovada por diferentes vencedores em edições passadas das duas premiações.

Só é importante, para a história, que a gente saiba fazer essa distinção e entenda exatamente o valor e o significado de cada prêmio.


 
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A briga que ameaça um time sensação e expõe o quanto é árduo o trabalho de técnicos

Gian Oddi
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Ainda não se sabe com detalhes o que aconteceu. Apenas que houve, no intervalo de um jogo contra o Midtjylland pela Champions League, no mínimo uma ríspida discussão de ordem tática entre o técnico italiano Gian Piero Gasperini e o meia argentino Papu Gómez, justamente os dois maiores protagonistas da modesta mas respeitada Atalanta, time sensação do futebol italiano e europeu nos últimos anos.

"Papu foi nosso jogador mais importante e mais utilizado durante esses cinco anos. Eu busco o melhor para o time e certas situações precisam de adaptação. Neste ano, em alguns jogos era difícil escalá-lo como todocampista, pela condição dele e pela condição do time. Ele continua sendo um grande jogador. Mas é preciso haver confiança e disponibilidade, caso contrário fica difícil”, disse o treinador no domingo (13), após a vitória por 3 a 0 contra a Fiorentina – com Papu no banco.

Antes disso, mesmo com a discussão já pública, o argentino foi titular no decisivo jogo contra o Ajax pela Champions, em Amsterdã. A Atalanta venceu os holandeses por 1 a 0 e avançou de novo às oitavas de final. Para os torcedores, parecia um sopro de esperança de que as coisas poderiam se resolver. O que hoje parece improvável.  

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Palo Autuori pelo Athletico-PR
Palo Autuori pelo Athletico-PR Gazeta Press


Pelo que tem indicado não só a imprensa italiana, mas as próprias manifestações dos envolvidos em entrevistas (no caso do técnico) e redes sociais (no caso do jogador), o rompimento definitivo parece iminente. Após postar um egocêntrico “No Papu, no Party” que desagradou alguns torcedores, o argentino voltou a se manifestar nessa segunda-feira (14) com a seguinte mensagem em seu Instagram:

“Queridos torcedores da Atalanta, escrevo aqui porque não tenho nenhuma forma para me defender e falar com vocês. Quero apenas dizer que quando eu for embora toda verdade virá à tona. Vocês me conhecem e sabem a pessoa que eu sou. Com carinho, do vosso capitão.”

Suas manifestações têm recebido o apoio nem tão velado do amigo e companheiro de time, outra peça muito importante da Atalanta, o meia-atacante Josep Ilicic. Num cenário hoje provável, Papu pode se despedir já em janeiro, antes dos confrontos contra o Real Madrid pela Champions. O que ficaria ainda pior se, mais improvável, Ilicic seguisse o mesmo caminho. “Fico triste pelo Ilicic, ele foi colocado no meio, mas não tem nada a ver com isso”, disse Gasperini.

É tudo surpreendente. Porque a Atalanta vive, desde a chegada de Gasperini em 2016, um período iluminado. Se nos dois anos anteriores à chegada do técnico o time havia ficado na parte de baixo da tabela e flertado bem de perto com o rebaixamento, nas últimas quatro temporadas sua pior colocação foi um 7º lugar no Italiano – em 2018 e 2020 acabou em 3º. O time ainda fez uma final e uma semifinal de Copa da Itália; no ano passado, só caiu contra o PSG nas quartas da Champions e, neste ano, já está nas oitavas.

Papu Gomez pode deixar a Atalanta em janeiro
Papu Gomez pode deixar a Atalanta em janeiro arquivo ESPN

Tudo isso, importante ressaltar, com um elenco que é apenas o 12º mais caro do futebol italiano. Um elenco cujo valor de 36 milhões de euros em salários desembolsados por temporada é apenas cinco milhões mais caro do que custa Cristiano Ronaldo, sozinho, para a Juventus. Um elenco que nos últimos anos perdeu nomes importantes como Castagne (Leicester), Kessie (Milan), Cristante (Roma) e Gagliardini (Inter), mas que seguiu jogando um futebol encantador, ofensivo, competitivo e  bonito de se ver.

Num cenário assim, pelo menos enquanto as coisas ainda estão dando certo – e estão –, seria de se imaginar que caprichos, assim como objetivos e preferências individuais, fossem deixados de lado ou ao menos relativizados até o momento em que as coisas ruins e as mágoas guardadas vêm à tona, o que no futebol costuma ser o momento das derrotas, das eliminações.

Não se trata de escolher um lado na briga, até porque, por mais que o trabalho de Gasperini seja excepcional, pode ter lhe faltado tato ou estratégia para lidar com a situação. Não sabemos e provavelmente nunca saberemos quem é (e se há) o principal responsável. É possível que durante a execução de um trabalho onde o componente emocional é tão forte, um ato impensado, uma reação impulsiva, dependendo do interlocutor, acabe por deteriorar uma relação importante de forma irreversível.   

Independentemente das responsabilidades, porém, o episódio demonstra como é delicado e multidisciplinar o trabalho de um técnico de futebol. Neste caso específico falamos de um profissional cujas escolhas táticas, a variação de jogo, a potencialização do elenco, a escolha de peças e o encontro de soluções para as vendas e demais problemas que se apresentaram foram irretocáveis. A lista de elogios que se pode fazer a Gasperini é enorme.

Mas pode bastar um pequeno deslize, uma dificuldade na hoje essencial gestão de grupo, para tirar um time do trilho do sucesso. Pode. Ainda não sabemos se é o caso. Porque no futebol, apaixonante também por sua imprevisibilidade, assim como os acertos não garantem vitórias, os problemas graves não significam derrotas.

 
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